  O NOME DA ROSA
  por Humberto Eco
  NATURALMENTE, UM MANUSCRITO
   No dia 16 de Agosto de 1968 foi-me parar s mos um livro que se deve  pena de um
certo abade Vallet, Le Manuscript de Dom Adson de Melk, traduit en franais d'aprs
l'dition de Dom J. Mabillon (Aux Presses de l'Ablaye de la Source, Paris, 1842). O livro,
acompanhado de indicaes histricas na verdade bastante pobres, afirmava reproduzir
fielmente um manuscrito do sculo XIV, por sua vez encontrado no mosteiro de Melk pelo
grande erudito seiscentista, a quem tanto se deve pela histria da ordem beneditina. A
douta trouvaille (para mim, portanto a terceira no tempo) alegrava-me enquanto me
achava em Praga  espera de uma pessoa querida. Seis dias depois, as tropas soviticas
invadiam a desventurada cidade. Consegui afortunadamente alcanar a fronteira
austraca em Linz, dali dirigi-me para Viena, onde me reuni  pessoa esperada, e juntos
seguimos o curso do Danbio.
   Num clima mental de grande excitao, eu lia, fascinado, a terrvel histria de Adso
de Melk, e tanto me deixei absorver que quase de um jato redigi a sua traduo, nuns
grandes cadernos da Papelarie Joseph Gibert, em que  to agradvel escrever se a
caneta for macia. E assim fazendo chegamos s proximidades de Melk, onde se ergue
ainda, a pique sobre um meandro do rio, o belssimo Stijt, muitas vezes restaurado
atravs dos sculos. Como o leitor ter imaginado, na biblioteca do mosteiro no
encontrei vestgios do manuscrito de Adso.
   Antes de chegar a Salzburg, numa trgica noite numa pequena estalagem das margens
do Mondsee, a minha viagem a dois foi bruscamente interrompida, e a pessoa com quem
viajava desapareceu, levando consigo o livro do abade Vallet, no por mal, mas por
causa do modo desordenado abrupto como tinha findado a nossa relao. Fiquei assim
com uma srie de cadernos manuscritos pelo meu punho e um grande vazio no corao.
   Alguns meses depois, em Paris, decidi ir ao fundo da minha investigao. Das poucas
informaes que tinha tirado do livro francs restava-me a referncia  fonte,
excepcionalmente minuciosa e precisa.
   Vetera analecta, sive collectio veterum aliquot operum & opusculorum omnis generis,
carminum, epistolarum, diplomaton, epitaphiorum, &, cun, itinere germnico,
adnotationibus aliquot disquisitionibus R. P. D. Joannis Mabillon, Presbiteri ac Monachi
Ord. Sancti Benedicti e Congregatione S. Mauri. Nova Editio cui accessere Mabilonii vita
& aliquot opuscula, scilicet Dissertatio de Pane Eucharistico, Azymo el Fermntalo, ad
Eminentiss. Cardinalem Bona. Subjungitur opusculum Eldefonsi Hispaniensis Episcopi de
eodem argumento Et Eusebii Romani ad Theophilum Gallum epstola. De cultu sanctorum
ignotorum, Parisiis, apud Levesque, ad Pontem S. Michaelis, MDCCXXI, cum privilegio
Regis.
   Encontrei logo os Vetera Analecta na biblioteca Seguinte Genevive, mas, com grande
surpresa minha, a edio encontrada discordava em dois pormenores. Antes de mais, o
editor, que era Montalant, ad Ripam P.P. Augustinianorum (prope Pontem S. Michaelis),
e depois a data, de dois anos mais tarde.  intil dizer que estes analecta no continham
nenhum manuscrito de Adso ou Adso Melk, trata-se, pelo contrrio, como qualquer um
pode verificar, de uma recolha de textos de curta e mdia extenso, enquanto a histria
transcrita por Vallet se estendia por algumas centenas de pginas. Consultei nessa altura
medievalistas ilustres, como o querido e inesquecvel Etienne Gilson, mas foi claro que os
nicos Vetera Analecta eram os que tinha visto em Sainte Genevive. Uma saltada 
Abbaye de la Source, que surge nos arredores de Passy, e uma conversa que o amigo Dom
Arne Lahnestedt convenceram-me igualmente de que nenhum abade Vallet tinha
publicado livros nos prelos (alis inexistentes) da abadia.  conhecida a negligencia dos
eruditos franceses em dar indicaes bibliogrficas duma certa credibilidade, mas o caso
superava qualquer razovel pessimismo. Comecei a pensar que me tinha cado nas mos
um apcrifo; o prprio livro de Vallet era ento irrecupervel (ou pelo menos no ousava
ir pedi-lo a quem mo tinha subtrado), e no me restava seno as minhas notas, das quais
j comeava a duvidar.
   H momentos mgicos, de grande cansao fsico e intensa excitao motora, em que
se tem vises de pessoas conhecidas no passado (en me retraant ces dtails, j'en suis 
me desmander s'ils sont rels, ou lien si je les ai revs). Como aprendi mais tarde, no
belo livrinho de Abb de Bucqouy h-se igualmente vises de livros ainda no escritos.
   Se no tivesse sucedido alguma coisa de novo, estaria ainda aqui a perguntar-me
donde viria a histria de Adso de Melk, mas em 1970, em Buenos Aires, vasculhando nas
bancas de um pequeno alfarrabista em Corrientes, no muito longe do mais insigne Patio
del Tango daquela grande avenida, caiu-me nas mos a verso castelhana de um livrinho
de Milo Temesrar, Do Uso dos Espelhos no Jogo do Xadrez, que j tinha tido ocasio de
citar (em segunda mo) no meu Apocalipticos e Integrados, fazendo a recenso do seu
mais recense Os Vendedores de Apocalipse. Tratava-se da traduo do original, hoje
perdido, em lngua georgiana (Tibilisi, 1934), com grande surpresa minha, li copiosas
citaes do manuscrito de Adro, salvo que a fonte no era nem Vallet nem Mahillon, mas
sim o padre Athanariur Kircher (mas qual a obra?). Um erudito - que no considero
oportuno nomear - assegurou-me depois que (e citava ndices decor) o grande jesuta
nunca falou de Adso de Melk. Mas as pginas de Temesvar estavam debaixo dos meus
olhos, e os episdios a que se referia eram absolutamente anlogos aos do manuscrito
traduzido por Vallet (em particular, a descrio do labirinto no deixava lugar para
dvidas). Apesar do que escreveu depois Beniamino Placido1, o abade Vallet tinha
existido e tambm, certamente, Adso de Melk.
  Conclui que as memrias de Adro pareciam juntamente participar da natureza dos
eventos que narra. Envoltas em muitos e vagos mistrios, a comear pelo autor e a
acabar na localizao da abadia sobre a qual Adso se cala com tenaz obstinao, de
modo que as conjeturas permitem desenhar uma zona imprecisa entre Pomposa e
Conquer, com razoveis probabilidades de que o lugar se situasse ao longo da cadeia dos
Apeninos, entre o Piemonte, a Alguria e a Frana (como quem diz entre Lerici e Turbia).
Quanto  poca em que se desenrola os eventos descritos, estamos no fim de Novembro
de 1327, , porm, incerto quando escreve o autor. Calculando que se diz novio, em
1327 e j est prximo da morte quando redige as suas memrias, podemos conjeturar
que o manuscrito foi lavrado nos ltimos dez ou vinte anos do sculo XIV.
   Pensando bem, eram bastante escassas as razes que podiam inclinar-se a abafar 
estampa a minha verso italiana duma obscura verso neogtica francesa de uma edio
latina seiscentista de uma obra escrita em latim, por um monge alemo nos fins do
sculo XIV.
   Antes de mais, que estilo adotar. Era rejeitada como de todo injustificada a tentao
de imitar modelos italianos da poca, no s Adso escreve em latim, mas  claro por
todo o desenvolvimento do texto que a sua cultura (ou a cultura da abadia que to
claramente o influencia)  muito mais datada, trata-se claramente de uma soma
plurissecular de conhecimentos e de versos estilsticos que se ligam  tradio baixo-
medieval latina. Adso pensa e escreve como um monge que permaneceu impermevel 
revoluo da lngua vulgar, apegado s pginas acolhidas na biblioteca de que fala,
formado a partir de textos patritico-escolsticos, e a sua histria (para alm das
referencias e dos acontecimentos do sculo XVI, que o prprio Adso registra no meio de
mil perplexidades, e sempre por ouvir dizer) poderia ter sido escrita, quando  lngua e
s citaes eruditas, no sculo XII ou XIII.
   Por outro lado,  indubitvel que ao traduzir no seu francs neogtico o latim de
Adso, Vallet introduziu de seu vrias licenas, e nem sempre apenas estilsticas. Por
exemplo, os personagens falam por vezes dar virtudes das ervas, reportando-se
claramente ao livro dos segredos atribudo a Alberto Magno, que sofreu infinitas
reelaboraes atravs dos sculos.  certo que Adso o conhecia, mas resta o fato que
cita trechos que evocam demasiado literalmente quer receitas de Paracelso quer claras
interpolaes de uma edio de Alberto Magno sem dvida da poca Tudor2. Por outro
lado, apurei em seguida que nos tempos em que Vallet transcrevia o manuscrito de Adso
circulava em Paris uma edio setecentista do Grand e do Petit Albert3; j
irremediavelmente corrompida. Todavia, como ter a certeza que o texto a que se
reportavam Adso ou os monges cujos discursos ele anotava no continha, entre glosas,
esclios e apndices vrios, tambm anotaes que depois iriam alimentar a cu1tura
posterior.
   Enfim, devia conservar em latim as passagens que o prprio abade Vallet no
considerou oportuno traduzir, talvez para conservar o esprito da poca. No havia
justificaes precisas para o fazer, a no ser um sentimento, talvez mal-entendido, de
fidelidade  minha fonte... Eliminei o excesso, mas alguma coisa deixei. E receio ter
feito como os maus romancistas que, ao porem em cena um personagem francs, o
fazem dizer parbleu! e la femme, ah, la femme!.
  Em concluso, estou cheio de dvidas. Ao certo no sei porque decidi encher-me de
coragem e apresentar como se fosse autentico o manuscrito de Adso de Melk. Digamos,
um gesto de enamorado. Ou, se se quiser, um modo de me libertar de numerosas e
antigas obsesses.
   Transcrevo sem preocupaes de atualidade. Nos anos em que descobri o texto do
abade Vallet corria a convico de que se devia escrever apenas comprometendo-se com
o presente e para mudar o mundo. A mais de dez anos de distancia,  agora consolao
do homem de letras (restitudo  sua altssima dignidade) poder escrever por puro amor
da escrita. E assim, agora, sinto-me livre de contar, por simples gosto efabulatrio, a
histria de Adso de Melk, e sinto conforto e consolao em encontr-la to
incomensuravelmente distante no tempo (agora que a viglia da razo afugentou todos os
monstros que o seu sono tinha gerado), to gloriosamente privada de relao com os
nossos tempos, intemporalmente estranha s nossas esperanas e s nossas certezas.
   Porque esta  uma histria de livros, no de misrias quotidianas, e a sua leitura pode
inclinar-nos a recitar, com o grande imitador de Kempis. In mnibus rquiem quaesivi,
et nusquam inveni nisi in ngulo cum libro.
  5 de Janeiro de 1980
  1
     La Repubblica, 22 de septiembre de 1977.
  2
     Lber aggregations seu liber secretorum Alberti Magni, Londinium, juxta pontem qui
vulgariter dicitur Flete brigge. MCCCCLXXXV.
   3
     Les admirables secrets d'Albert le Grand, A Lyon, Chez les Hritiers Beringos, Fratres,
 l'Enseigne d'Agrippa. MDCCLXXV; Secrets merveilleux de la Magie Naturelle et
Cabalistique du Petit Albert, A Lyon. ibidem. MDCCXXIX.
  NOTA
  O manuscrito de Adso est dividido em sete dias e cada dia em perodos
correspondentes s horas litrgicas. Os subttulos, na terceira pessoa, foram
provavelmente acrescentados por Vallet. Mas como so teis para orientar o leitor, e
este uso no se aparta do de muita literature em lngua vulgar daquele tempo, no
considerei oportuno elimin-los.
   As referncias de Adso s horas cannicas causaram-me uma certa perplexidade, no
s porque a sua determinao varia segundo as localidades e as estaes, mas, com toda
a probabilidade, no sculo XIV no se seguiam com absoluta preciso as indicaes
fixadas por So Bento na regra.
  Todavia, para orientao do leitor, deduzindo em parte do texto e em parte
confrontando a regra originria com a descrio da vida monstica fornecida por Edouard
Schneider em Les heures bndictines (Paris, Grasset, 1925), credo que se pode adotar a
avaliao seguinte:
   Matinas - (que por vezes Adso designa tambm com a antiga expresso Vigiliae) Entre
as 2h30 as 3h da noite.
  Laudas -(que na tradio mais antiga se chamavam Matutini) Entre as 5h e as 6h da
manh, de modo a terminarem ao romper da alva.
  Prima - Cerca das 7h30, pouco antes da aurora.
  Tera - Cerca das 9h.
   Sexta - Meio-dia (num mosteiro em que os monges no trabalhavam no campo, no
Inverno, era tambm a hora da refeio).
  Nona - Entre as 2h e as 3h da tarde.
  Vsperas - Cerca das 4h30, ao pr do Sol (a regra prescreve a ceia quando ainda no
desceu a treva).
  Completas - Cerca das 6h (antes das 7h os monges vo-se deitar).
  O clculo baseia-se no fato de que na Itlia Setentrional, no fim de Novembro, o Sol
nasce por volta das 7h30 e pe-se por volta das 4h40 da tarde.
  PRLOGO
  No princpio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava
no princpio com Deus, e a tarefa do monge fiel seria repetir cada dia com salmo diante
humildade o nico imodificvel evento cuja incontroversa verdade se pode asseverar.
Mas vivemus num per speculum et in aenigmate e a verdade, antes de face a face,
manifesta-se por traos (ai, quo ilegveis) no errar do mundo, de modo que devemos
decifrar-lhe os sinais fiis, mesmo onde nos parecem obscuros e quase tecidos de uma
vontade de todo tendente ao mal.
  Chegado ao fim da minha vida de pecador, enquanto velho encanecido como o mundo,
 espera de me perder no abismo sem fundo da divindade silenciosa e deserta,
participando da luz incomunicvel das inteligncias anglicas, retido agora pelo meu
corpo pesado e doente nesta cela do querido mosteiro de Melk, disponho-me a deixar
neste velo testemunho dos admirveis e terrveis eventos a que na juventude me foi
dado assistir, repetindo verbatim quanto vi e ouvi, sem ousar tirar da nenhum desgnio,
como para deixar queles que ho-de vir (se o Anticristo no os preceder) sinais de sinais
para que sobre eles se exercise a prece da decifrao.
   O Senhor me concede a graa de ser testemunha transparente dos acontecimentos que
tiveram lugar na abadia de que  bom e piedoso calar agora o prprio nome ao findar o
ano do Senhor de 1327, em que o imperador Lus desceu  Itlia para reconstituir a
dignidade do sacro Imprio Romano, segundo os desgnios do Altssimo e para confuso
do infame usurpador simonaco e heresiarca que em Avinho cobriu de vergonha o santo
nome do apstolo (digo, a alma pecadora de Jacques de Cahors, que os mpios
veneraram como Joo XXII).
   Para melhor compreender os acontecimentos em que me achei envolvido, talvez seja
bom recordar quanto estava acontecendo no incio daquele sculo, tal como o
compreendi ento, vivendo-o, e tal como o rememoro agora, enriquecido com outros
relatos que depois ouvi-se acaso a minha memria est em condies de reatar os fios de
tantos e to confusos eventos.
   Desde os primeiros anos daquele sculo que o papa Clemente V tinha transferido a
sede apostlica para Avinho, deixando Roma  merc das ambies dos senhores locais:
e gradualmente a cidade santssima da cristandade se tinha transformado num circo, ou
num lupanar, dilacerada pelas lutas entre os seus maiores; dizia-se repblica e no o
era, batida por bandos armados, sujeita a violncias e saques. Eclesisticos que se
esquivavam  jurisdio secular comandavam grupos de facnoras e rapinavam de espada
em punho, prevaricavam e organizavam torpes trficos. Como impedir que o Caput Mundi
voltasse a ser, e justamente, a meta de quem quisesse cingir a coroa do sacro Imprio
Romano e restaurar a dignidade do domnio temporal que j tinha sido dos csares?
   Eis, pois, que em 1314 cinco prncipes alemes tinham eleito em Francoforte Lus da
Baviera como supremo regente do imprio. Mas no mesmo dia, na margem oposta do
Meno, o conde palatino do Reno e o arcebispo de Colnia tinham eleito com a mesma
dignidade Frederico de ustria. Dois imperadores para uma nica sede e um s papa para
duas: situao que se tornou, na verdade, fonte de grande desordem.
   Dois anos depois era eleito em Avinho o novo papa, Jacques de Cahors, de setenta e
dois anos, precisamente com o nome de Joo XXII, e queiram os cus que nunca mais
nenhum pontfice adote um nome j to malvisto pelos homens de bem. Francs e
devoto do rei de Frana (os homens daquela terra corrupta esto sempre inclinados a
favorecer os interesses dos seus e so incapazes de olhar o mundo inteiro como a sua
ptria espiritual) tinha defendido Filipe, o Belo, contra os cavaleiros templrios, que o
rei tinha acusado (creio que injustamente) de delitos ignominiosos para se apoderarem
dos seus bens, com a cumplicidade daquele eclesistico renegado. Entretanto, tinha-se
inserido em toda aquela trama Roberto de Npoles, que, para manter o controle da
pennsula italiana, tinha convencido o papa a no reconhecer nenhum dos dois
imperadores alemes, ficando assim chefe geral do Estado da Igreja.
   Em 1322, Lus, o Bvaro, batia o seu rival Frederico. Ainda mais temeroso de um s
imperador do que tinha sido de dois,Joo excomungou o vencedor, e este em resposta
denunciou o papa como hertico.  necessrio dizer que, precisamente naquele ano,
tinha tido lugar em Perugia o captulo dos frades franciscanos, e o seu geral, Miguel de
Cesena, acolhendo as instancias dos espirituais (de que terei ainda ocasio de falar),
tinha proclamado como verdade de f a pobreza de Cristo, que, se tinha possudo alguma
coisa com os seus apstolos, o tinha tido s como usus facti. Digna resoluo, destinada a
salvaguardar a virtude e a pureza da ordem, mas ela desagradou assaz ao papa, que nela
entrevia talvez um princpio que poria em perigo as prprias pretenses que ele, como
chefe da Igreja, tinha de contestar ao imprio o direito de eleger bispos, reservando pelo
contrrio ao sacro slio o de investir o imperador. Fossem estas ou outras as razes que o
moviam, Joo condenou em 1323 as propostas dos franciscanos com a decretal Cum nter
nonnullos.
   Foi naquela altura, imagino, que Lus viu nos franciscanos, ento inimigos do papa,
poderosos aliados. Ao afirmar a pobreza de Cristo, de certo modo eles revigoravam as
idias dos telogos imperiais, isto , de Marslio de Pdua e Joo de Gianduno. E
finalmente, no muitos meses antes dos eventos que estou narrando, Lus, que tinha
chegado a um acordo com o derrotado Frederico, descia  Itlia, era coroado em Milo,
entrava em conflito com os Visconti, que no entanto o tinham acolhido favoravelmente,
punha cerco a Pisa, nomeava vigrio imperial Castruccio, duque de Luca e Pistia (e
creio que fez mal porque nunca conheci homem mais cruel, exceto talvez Uguccione
della Faggiola), e preparava-se ento a descer para Roma, chamado por Sciarra Colonna,
senhor do lugar.
   Eis como era a situao quando eu - j novio beneditino no mosteiro de Melk - fui
retirado da tranqilidade do claustro por meu pai, que se batia no sqito de Lus, no
como o ltimo dos seus bares, e que considerou avisado levar-me consigo para que
conhecesse as maravilhas de Itlia e estivesse presente quando o imperador fosse
coroado em Roma. Mas o assdio de Pisa absorveu-o nos cuidados militares. Eu disso tirei
vantagem, vagueando, um pouco por cio e um pouco por desejo de aprender, pelas
cidades da Toscana, mas esta vida livre e sem regra no se adequava, pensaram os meus
pais, a um adolescente votado  vida contemplativa. E a conselho de Marslio, que
comeara a gostar de mim, decidiram pr-me junto de um douto franciscano, frade
Guilherme de Baskerville, que ia iniciar uma misso que o levaria a visitar cidades
famosas e abadias antiqssimas. Assim me tornei seu escrivo e discpulo ao mesmo
tempo, e no vim a arrepender-me, porque fui com ele testemunha de acontecimentos
dignos de serem confiados, como agora estou fazendo,  memria daqueles que ho-de
vir.
   Eu no sabia ento o que procurava frade Guilherme, e, para dizer a verdade, ainda
hoje no o sei, e presumo que nem sequer ele o soubesse, movido como era pelo nico
desejo da verdade e pela suspeita - que sempre lhe vi nutrir - de que a verdade no era
aquela que lhe aparecia no momento presente. E talvez naqueles anos ele estivesse
desviado dos seus estudos prediletos por incumbncias do sculo. A misso de que
Guilherme estava encarregado ficou para mim incgnita ao longo de toda a viagem, ou
melhor, ele no me falou dela. Foi sobretudo ouvindo pedaos de conversas que ele teve
com os abades dos mosteiros em que nos amos detendo que pude fazer uma idia da
natureza da sua tarefa. Mas no o compreendi plenamente enquanto no chegamos 
nossa meta, como direi depois. Dirigamo-nos para norte, mas a nossa viagem no
prosseguiu em linha reta, e detivemo-nos em vrias abadias. Assim, aconteceu que
viramos para ocidente, enquanto a nossa meta ltima ficava a oriente, quase seguindo a
linha de montanhas que vai de Pisa na direo da estrada de Santiago, parando numa
terra que os terrveis acontecimentos que depois a sucederam me desaconselham de
identificar melhor, mas cujos senhores eram fiis ao imprio e onde os abades da nossa
ordem se opunham de comum acordo ao papa hertico e corrupto. A viagem durou duas
semanas entre vicissitudes vrias, e durante esse tempo tive ocasio de conhecer (nunca
o bastante, como estou convencido) o meu novo mestre.
   Nas pginas que se seguem no quero abandonar-me a descries de pessoas - a no
ser quando a expresso de um rosto ou um gesto apaream como sinais de muda mas
eloqente linguagem -, porque, como diz Bocio, nada  mais fugaz do que a forma
exterior, que fenece e muda como as flores do campo ao surgir o Outono, e que sentido
teria hoje dizer do abade Abbone que tinha o olhar severo e as faces plidas, quando
agora ele e os que o rodeavam so p e do p o seu corpo tem j o cinzento mortfero
(s o esprito, queira Deus, resplandecendo de uma luz que jamais se extinguir)? Mas de
Guilherme quero falar, e uma vez por todas, porque tambm me impressionaram as suas
singulares feies, e  prprio dos jovens ligar-se a um homem mais velho e mais sbio
no s pelo fascnio da palavra e pela agudeza da mente mas tambm pela forma
superficial do corpo, que se torna queridssima, como acontece com a figura de um pai,
a quem se estudam os gestos e as cleras e se espia o sorriso - sem a menor sombra de
luxria a inquinar esta forma (talvez a nica verdadeiramente pura) de amor corpreo.
   Os homens de outrora eram altos e belos (agora so crianas e anes), mas este fato 
apenas um dos muitos que testemunham a desgraa de um mundo que envelhece. A
juventude no quer aprender mais nada, a cincia est em decadncia, o mundo inteiro
caminha de cabea para baixo, cegos conduzem outros cegos e fazem-nos precipitar nos
abismos, os pssaros lanam-se antes de comearem a voar, o burro toca lira, os bois
danam, Maria j no ama a vida contemplativa e Marta j no ama a vida ativa, Lia 
estril, Raquel tem olhos sensuais, Cato freqenta os lupanares, Lucrcio torna-se
mulher. Tudo est desviado do seu prprio caminho. Sejam dadas graas a Deus que eu,
naquele tempo, adquiri do meu mestre o desejo de aprender e o sentido da reta via, que
se conserva mesmo quando o caminho  tortuoso.
   Assim, a aparncia fsica de frade Guilherme era tal que chamava a ateno do
observador mais distrado. A sua estatura superava a de um homem normal e era to
magro que parecia mais alto. Tinha olhos agudos e penetrantes; o nariz afilado e um
pouco adunco conteria ao seu rosto a expresso de algum que vigia, salvo nos
momentos de torpor de que falarei. Tambm o queixo denunciava nele uma vontade
firme, embora o rosto alongado e coberto de sardas - como vi muitas vezes nas pessoas
nascidas entre Hibernia e Northumbria - pudesse por vezes exprimir incerteza e
perplexidade. Com o tempo apercebi-me de que aquilo que parecia insegurana era ao
invs e somente curiosidade, mas no incio pouco sabia desta virtude, que julgava
sobretudo uma paixo do esprito concupiscente, pensando que o esprito racional no
devia nutrir-se dela, alimentando-se s do verdadeiro, que (pensava) j se sabe desde o
incio.
   Jovem como eu era, aquilo que nele logo me tinha impressionado eram uns tufos de
plos amarelados que lhe saam das orelhas e das sobrancelhas espessas e louras. Podia
ele ter cinqenta primaveras, e portanto era j muito velho, mas movia o corpo
incansvel com uma agilidade que a mim muitas vezes faltava. A sua energia parecia
inexaurvel quando o tomava um excesso de atividade. Mas, de vez em quando, como se
o seu esprito vital participasse do caranguejo, caa em momentos de inrcia, e vi-o estar
durante horas no catre da sua cela pronunciando a custo um ou outro monosslabo sem
contrair um nico msculo do rosto. Nessas ocasies aparecia nos seus olhos uma
expresso vaga e ausente, e eu teria suspeitado que estivesse sob o efeito de alguma
substncia vegetal capaz de provocar vises se a evidente temperana que regulava a
sua vida no me tivesse induzido a afastar este pensamento. No escondo todavia que,
no decurso da viagem, tinha parado por vezes  beira de um prado, na orla de uma
floresta, para colher uma erva (creio que era sempre a mesma): e punha-se a mastig-la
com ar absorto. Uma parte guardava-a consigo e comia-a nos momentos de maior tenso
(e muitas vezes os tivemos na abadia!). Quando uma vez lhe perguntei de que se tratava,
disse-me, sorrindo, que um bom cristo pode aprender s vezes at com os infiis; e,
quando lhe pedi para provar, respondeu-me que, tal como para os discursos, tambm
para os simples h os paidikoi, os ephebikoi e os gynaikoioi e assim sucessivamente, de
modo que as ervas que so boas para um velho franciscano no so boas para um jovem
beneditino.
   No tempo que estivemos juntos no tivemos ocasio de fazer uma vida muito regular:
mesmo na abadia velvamos de noite e caamos de cansao durante o dia, e nem sequer
participvamos regularmente nos ofcios sacros. Raramente, no entanto, em viagem, ele
velava depois de completas, e tinha hbitos sbrios. Por vezes, como sucedeu na abadia,
passava todo o dia movendo-se pelo horto, examinando as plantas como se fossem
crisoprssios ou esmeraldas, e vi-o vaguear pela cripta do tesouro olhando para um
escrnio ornado de esmeraldas e crisoprssios como se fosse um ramo de estramnio.
Outras vezes ficava um dia inteiro na sala grande da biblioteca folheando manuscritos
como se no procurasse outra coisa seno o seu prprio prazer (quando  nossa volta se
multiplicavam os cadveres de monges horrorosamente assassinados). Um dia encontrei-o
a passear no jardim sem qualquer fim aparente, como se no devesse dar contas a Deus
das suas obras. Na ordem tinham-me ensinado um outro modo de dividir o meu tempo, e
eu disse-lho. E ele respondeu que a beleza do cosmo  dada no s pela unidade na
variedade mas tambm pela variedade, na unidade. Pareceu-me uma resposta ditada por
um empirismo grosseiro, mas aprendi em seguida que os homens da sua terra definem
muitas vezes as coisas de modo tal que a fora iluminante da razo no parece ter
grande papel.
   Durante o perodo que passamos na abadia vi-lhe sempre as mos cobertas pelo p dos
livros, pelo ouro das iluminuras ainda frescas, por substncias amareladas em que tinha
tocado no hospital de Severino. Parecia que no podia pensar seno com as mos, coisa
que ento me parecia mais digna de um mecnico (e tinham-me ensinado que o
mecnico  moechus, e comete adultrio em relao  vida intelectual a que deveria
estar unido em castssimos esponsais): mas, mesmo quando as suas mos tocavam em
coisas extremamente frgeis, como certos cdices de iluminuras ainda frescas, ou
pginas corrodas pelo tempo e friveis como po zimo, ele possua, pareceu-me, uma
extraordinria delicadeza de tato, a mesma que usava ao tocar nas suas mquinas. Direi
com efeito que este homem curioso trazia consigo, na sua saca de viagem, instrumentos
que eu nunca tinha visto at ento, e que ele definia como as suas maravilhosas
mquinas. As mquinas, dizia ele, so produto da arte, que imita a natureza, e dela
reproduzem no as formas mas a prpria operao. Explicou-me assim os prodgios do
relgio, do astrolbio e do magneto. Mas a princpio temi que se tratasse de bruxaria, e
fingi dormir em certas noites serenas em que ele se punha (com um estranho tringulo na
mo) a observar as estrelas. Os franciscanos que tinha conhecido em Itlia e na minha
terra eram homens simples, muitas vezes iletrados, e com ele admirei-me da sua
sapincia. Mas ele disse-me sorrindo que os franciscanos das suas ilhas eram de molde
diverso: Roger Bacon, que eu venero como mestre, ensinou-nos que o plano divino
passar um dia para a cincia das mquinas, que  magia natural e santa. E um dia pela
fora da natureza poder-se-o fazer instrumentos de navegao com os quais os navios
iro com um nico homem regente, e bem mais rpidos do que impelidos por velas ou
remos; e haver carros sem "animale moveantur cum impetu inaestimabili, et
instrumenta volandi et homo sedens in medio instrumentis revolvens aliquod ingenium
per quod alae artificialiter composita aerem verberent, ad modum avis volantis". E
pequenssimos instrumentos que levantem pesos enormes e veculos que permitam viajar
pelo fundo do mar.
   Quando lhe perguntei onde estavam essas mquinas, disse-me que j tinham sido
feitas na Antiguidade, e algumas at nos nossos tempos: Exceto o instrumento para
voar, que no vi, nem conheci quem o tivesse visto, mas conheo um sbio que o
imaginou. E podem fazer-se pontes que transpem os rios sem colunas ou outro meio de
sustentao e outras mquinas inauditas. Mas no deves preocupar-te se ainda no
existem, porque isso no quer dizer que no venham a existir. E eu digo-te que Deus
quer que existam, e decerto esto j na sua mente, embora o meu amigo de Occam
negue que as idias existam desse modo, e no porque possamos decidir da natureza
divina, mas precisamente porque no podemos pr-lhe limite algum. No foi esta a
nica proposio contraditria que lhe ouvi enunciar: mas mesmo agora, que sou velho e
mais sbio do que ento, no consegui compreender como podia ele ter tanta confiana
no seu amigo de Occam e jurar ao mesmo tempo pelas palavras de Bacon, como era
costume fazer.  porm verdade que aqueles eram tempos obscuros em que um homem
sbio tinha de pensar coisas contraditrias entre si.
  Eis que disse sobre frade Guilherme coisas talvez insensatas, como para recolher
desde o incio as impresses desconexas que ento tive. Quem ele foi e o que fazia, meu
bom leitor, poders talvez deduzi-lo melhor das aes que operou nos dias que passamos
na abadia. No te prometi um desenho completo, mas sim um elenco de fatos (isso sim
admirveis e terrveis).
   Assim, conhecendo dia a dia o meu mestre, e passando as longas horas de marcha em
infindveis conversas de que, se for o caso, falarei pouco a pouco, chegamos s faldas do
monte sobre o qual se erguia a abadia. E  tempo, como ns ento fizemos, que dela se
aproxime o meu relato, e Oxal que a minha mo no trema ao preparar-me para dizer
quanto depois aconteceu.
  PRIMEIRO DIA
  PRIMA
  Onde se chega aos ps da abadessa e Guilherme d prova de grande agudeza
   Era uma bela manh de fim de Novembro. De noite tinha nevado um pouco, mas a
fresca camada que cobria o terreno no era superior a trs dedos. s escuras, logo depois
de laudas, tnhamos ouvido missa numa aldeia do vale. Depois tnhamo-nos posto a
caminho para as montanhas, ao despontar o Sol.
   Como trepvamos pelo carreiro ngreme que serpenteava em torno do monte, vi a
abadia. No me espantaram as muralhas que a cingiam por todos os lados, semelhantes a
outras que vi em todo o mundo cristo, mas a mole daquilo que depois soube que era o
Edifcio. Esta era uma construo octogonal que  distncia parecia um tetrgono (figura
perfeitssima que exprime a solidez e a inexpugnabilidade da Cidade de Deus), cujos
lados meridionais se erguiam no planalto da abadia, enquanto os setentrionais pareciam
crescer das prprias faldas do monte, nas quads se encaixavam a pique. Digo que em
certos pontos, de baixo, parecia que a rocha se prolongava para o cu, sem soluo de
tons nem de matria, e se tornava a certa altura um macio torreo (obra de gigantes
que tivessem grande familiaridade com a terra e com o cu). Trs ordens de janelas
diziam o ritmo ternrio da sua elevao, de modo que aquilo que era fisicamente
quadrado sobre a terra era espiritualmente triangular no cu. Ao aproximarmo-nos mais,
percebia-se que a forma quadrangular gerava, em cada um dos seus ngulos, um torreo
heptagonal, cujos cinco lados se adiantavam para o exterior - quatro portanto dos oito
lados do octgono maior, gerando quatro heptgonos menores, que do exterior se
manifestavam como pentgonos. E no h quem no veja a admirvel concrdia de
tantos nmeros santos, revelando cada um, um sutilssimo sentido espiritual. Oito o
nmero da perfeio de todo o tetrgono, quatro o nmero dos evangelhos, cinco o
nmero das zonas do mundo, sete o nmero dos dons do Esprito Santo. Pela mole e pela
forma, o Edifcio apareceu-me como mais tarde havia de ver no Sul da pennsula italiana
Castel Urbino ou Castel dal Monte, mas pela sua posio inacessvel era mais terrvel do
que aqueles e capaz de produzir temor no viajante que dele se aproximasse pouco a
pouco. E por sorte que, sendo uma lmpida manh de inverno, a construo no me
apareceu tal como se v nos dias de tempestade.
   Ento direi no entanto que ela sugeria sentimentos de jovialidade. Eu senti medo e
uma vaga inquietao. Deus sabe que no eram fantasmas do meu esprito imaturo e que
retamente interpretava indubitveis pressgios inscritos na pedra, desde o dia em que os
gigantes a puseram a mo e antes que a ingnua vontade dos monges ousasse consagr-
la  custdia da palavra divina.
   Enquanto os nossos machos trepavam pela ltima curva da montanha, l onde o
caminho principal se ramificava em trvio, gerando dois carreiros laterais, o meu mestre
parou por algum tempo, olhando em torno os lados da estrada, a estrada, e acima da
estrada, onde uma srie de pinheiros sempre-verdes formava por um breve espao um
teto natural, alvo de neve.
  - Rica abadia - disse. - O Abade gosta de parecer bem nas ocasies pblicas.
   Habituado como estava a ouvi-lo fazer as mais singulares afirmaes, no o
interroguei. At porque, depois de outro troo de estrada, ouvimos rudos, e numa curva
apareceu um grupo agitado de monges e de servos. Um deles, quando nos viu, veio ao
nosso encontro com grande urbanidade:
  - Bem-vindo, senhor - disse -, e no vos admireis se imagino quem sois, porque fomos
advertidos da vossa visita. Eu sou Remgio de Varagine, o despenseiro do mosteiro. E se
vs sois, como creio, frade Guilherme de Bascavilla, o Abade deve ser avisado. Tu -
ordenou voltando-se para uma da comitiva-, sobe a avisar que o nosso visitante est
prestes a entrar na cerca.
  - Agradeo-vos, senhor despenseiro - respondeu cordialmente o meu mestre -, e tanto
mais aprecio a vossa cortesia quanto para me saudar haveis interrompido a perseguio.
Mas no temais, o cavalo passou por aqui e dirigiu-se para o carreiro da direita. No
poder ir muito longe, porque chegando ao depsito do estrume tem de parar. 
demasiado inteligente para se lanar pelo terreno ngreme...
  - Quando o haveis visto? - perguntou o despenseiro.
   - No o vimos de modo nenhum, no  verdade, Adso?  disse Guilherme, voltando-se
para mim com ar divertido. - Mas se procurais Brunello, o animal no pode estar seno
alm onde eu disse.
  O despenseiro hesitou. Fitou Guilherme, depois o caminho e por fim perguntou:
  - Brunello? Como sabeis?
   - Vamos - disse Guilherme -,  evidente que andais  procura de Brunello, o cavalo
preferido do Abade, o melhor galopador da vossa estrebaria, de plo negro, cinco ps de
altura, cauda majestosa, casco pequeno e redondo mas de galope bastante regular;
cabea mida, orelhas finas mas olhos grandes. Foi para a direita, digo-vos, e apressai-
vos, em todo o caso.
   O despenseiro teve um momento de hesitao, depois fez um sinal aos seus e lanou-
se pelo caminho da direita, enquanto os nossos machos voltavam a subir. Quando estava
para interrogar Guilherme, porque me roia a curiosidade, ele fez-me sinal para esperar:
e, de fato, poucos minutos depois ouvimos gritos de jbilo, e na curva do caminho
reapareceram monges e servos trazendo o cavalo pelo freio. Passaram ao nosso lado,
continuando a olhar-nos algo, atnitos, e precederam-nos em direo  abadia. Creio
mesmo que Guilherme afrouxava o passo  sua cavalgadura para lhes permitir contar
quanto tinha acontecido. De fato tinha tido ocasio de me aperceber que o meu mestre,
em tudo e por tudo homem de altssima virtude, cedia ao vcio da vaidade quando se
tratava de dar prova da sua agudeza, e, tendo j apreciado os seus dotes de fino
diplomata, compreendi que queria chegar  mera precedido por uma slida fama de
homem sapiente.
  - E agora dizei-me - por fim no soube conter-me -, como fizeste para saber?
   - Meu bom Adso - disse o mestre. - Em toda a viagem te tenho ensinado a reconhecer
os traos com que o mundo nos fala como um grande livro. Alano das Ilhas dizia que
omnis mundi creatura quasi liber et pictura nobis est in speculum e pensava na inexausta
reserva de smbolos com que Deus, atravs das suas criaturas, nos fala da vida eterna.
Mas o universo  ainda mais loquaz do que pensava Alano e no s fala das coisas ltimas
(caso em que o faz sempre de modo obscuro) mas tambm das prximas, e nisto  muito
claro. Quase me envergonho de repetir-te aquilo que deverias saber. No trvio, sobre a
neve ainda fresca, desenhavam-se com muita clareza as pegadas dos cascos de um cavalo
que apontavam para o carreiro  nossa esquerda. A bela e igual distancia um do outro,
aqueles sinais diziam que o casco era pequeno e redondo e o galope de grande
regularidade... de modo que da deduzi a natureza do cavalo e o fato de ele no correr
desordenadamente como faz um animal irritado. Ali, onde os pinheiros formavam como
que um teto natural, alguns ramos tinham sido quebrados de fresco justamente  altura
de cinco ps. Um dos silvados de amoras, por onde o animal deve ter andado para meter
pelo caminho  sua direita, enquanto altivamente sacudia a sua bela cauda, conservava
ainda entre os espinhos longas crinas muito negras... No me digas enfim que no sabes
que aquele caminho conduz ao depsito do estrume, porque subindo pela curva inferior
vimos a baba dos detritos descer a pique aos ps do torreo meridional, sujando a neve;
e, tal como o trvio estava disposto, o caminho no podia seno conduzir naquela
direo.
  - Sim  disse -, mas a cabea pequena, as orelhas aguadas, os olhos grandes...
   - No sei se os tem, mas decerto os monges o crem firmemente. Dizia Isidoro de
Sevilha que a beleza de um cavalo exige ut sit exiguum caput, et siccum prope pelle
ossibus adhaerente, aures breves et argutae, oculi magni, nares patulae, erecta cervix,
coma densa et cauda, ungularum soliditate fixa rotunditas. Se o cavalo cuja passagem
inferi no fosse na verdade o melhor da estrebaria, no se explicava porque a persegui-lo
no foram s os moos, mas se incomodou o prprio despenseiro. E um monge que
considera um cavalo excelente, para alm das formas naturais, no pode deixar de o ver
como as autoridades lho descreveram, especialmente se - e aqui sorriu com malcia
dirigindo-se a mim -  um douto beneditino...
  - Est bem  disse -, mas porqu Brunello?
   -Que o Esprito Santo te ponha mais miolos na cabea do que aqueles que tens, meu
filho! - exclamou o mestre. - Que outro nome lhe terias dado se o grande Buridano, que
vai ser reitor em Paris, tendo que falar de um belo cavalo, no encontrou nome mais
natural?
   Assim era o meu mestre. No s sabia ler no grande livro da natureza mas tambm do
modo como os monges liam os livros da Escritura e pensavam atravs deles. Dote que,
como veremos, havia de ser-lhe bastante til nos dias que se seguiram. A sua explicao
pareceu-me, alm disso, naquele ponto to bvia que a humilhao de a no ter
encontrado sozinho foi dominada pelo orgulho de dela comparticipar a partir de ento, e
quase me congratulei comigo mesmo pela minha agudeza. Tal  a fora da verdade que,
como o bem, se difunde por si. E se j louvado o santo nome de Nosso Senhor Jesus
Cristo por esta bela revelao que tive.
  Mas retoma o fio,  meu conto, que este monge senescente demora-se demasiado nos
marginalia. Diz, antes, que chegamos ao grande portal da abadia, e no limiar estava o
Abade, a quem dois novios seguravam uma pequena bacia de ouro cheia de gua. E,
como descemos dos nossos animais, ele lavou as mos a Guilherme, depois abraou-o,
beijando-o na boca e dando-lhe as suas santas boas-vindas, enquanto o despenseiro se
ocupava de mim.
  - Obrigado, Abbone - disse Guilherme -,  para mim uma grande alegria pr o p no
mosteiro de Vossa Magnificncia, cuja fama transps estas montanhas. Eu venho como
peregrino em nome de Nosso Senhor, e como tal vs me prestastes homenagem. Mas
venho tambm em nome do nosso senhor sobre esta terra, como vos dir a carta que vos
entrego, e tambm em seu nome vos agradeo pelo vosso acolhimento.
   O Abade pegou na carta com os selos imperiais e disse que, em todo o caso, a vinda de
Guilherme tinha sido precedida por outras missivas de confrades seus (pois que, disse
para comigo com um certo orgulho,  difcil colher um abade beneditino de surpresa),
depois pediu ao despenseiro que nos conduzisse aos nossos alojamentos, enquanto os
moos levavam os nossos cavalos. O Abade prometeu visitar-nos mais tarde, quando
estivssemos recompostos, e entramos no grande ptio, onde os edifcios da abadia se
estendiam ao longo do suave planalto que arredondava numa ligeira concha  ou alpe - o
cume do monte.
   Da disposio da abadia terei ocasio de falar mais vezes e mais minuciosamente.
Depois do portal (que era a nica abertura nas muralhas da cerca) abria-se uma alameda
arborizada que conduzia  igreja abacial.  esquerda da alameda estendia-se uma vasta
zona de hortas e, como soube depois, o jardim botnico, em torno dos dois edifcios dos
balnerios e do hospital e loja do ervanrio, que ladeavam a curva das muralhas. Ao
fundo,  esquerda da igreja, erguia-se o Edifcio, separado da igreja por uma esplanada
coberta de tmulos. O portal norte da igreja dava para o torreo sul do Edifcio, que
oferecia frontalmente aos olhos do visitante o torreo ocidental, depois  esquerda
ligava-se s muralhas e afundava-se com as suas torres no abismo, sobre o qual se
debruava o torreo setentrional, que se via de lado.  direita da igreja estendiam-se
algumas construes que estavam encostadas a ela e  volta do claustro: decerto o
dormitrio, a casa do Abade e a casa dos peregrinos, a que nos dirigamos e onde
chegamos atravessando um belo jardim. Do lado direito, para alm de uma vasta
esplanada, ao longo das muralhas meridionais e continuando a oriente por trs da igreja,
uma srie de quarteires de colonos, estbulos, moinhos, lagares, celeiros e adegas e a
que me pareceu ser a casa dos novios. A regularidade do terreno, apenas ondulado,
tinha permitido aos antigos construtores daquele lugar sagrado respeitar os ditames da
orientao melhor de quanto poderiam pretender Honrio Augusto duniense ou
Guilherme Durando. Pela posio do Sol quela hora do dia. Apercebi-me que o portal se
abria perfeitamente a ocidente, de modo que o coro e o altar estivessem voltados a
oriente; e o Sol de manh cedo podia surgir, acordando diretamente os monges no
dormitrio e os animais nos estbulos. No vi abadia mais bela e admiravelmente
orientada, mesmo se em seguida conheci San Gallo, e Cluny, e Fontenay, e outras ainda,
talvez maiores mas menos tm proporcionadas. Diversamente das outras, esta distinguia-
se, porm, pela mole incomensurvel do Edifcio. No tinha a experincia dum mestre-
pedreiro, mas apercebi-me logo que ele era muito mais antigo do que as construes que
o rodeavam, nascido talvez pare outros fins, e que o conjunto abacial se dispusera  sue
volta em tempos posteriores, mas de modo que a orientao da grande construo se
adequasse  da igreja, ou esta quela. Porque a arquitetura  entre todas as artes
aquela que mais ousadamente procure reproduzir no seu ritmo a ordem do universo, que
os amigos chamavam kosmos, isto , ornado, na medida em que  como um grande
animal sobre o qual refulge a perfeio e a proporo de todos os seus membros. E
louvado seja o Nosso Criador que, como diz Agostinho, estabeleceu todas as coisas em
nmero, peso e medida.
  PRIMEIRO DIA
  TERA
  Onde Guilherme tem uma instrutiva conversa com o Abade.
   O despenseiro era um homem gordo e de aspecto vulgar mas jovial, encanecido mas
ainda robusto, pequeno mas veloz. Conduziu-nos s nossas celas na casa dos peregrinos.
Ou melhor, conduziu-nos  cela destinada ao meu mestre, prometendo que no dia
seguinte desocuparia uma tambm para mim, na medida em que, embora novio, eu era
seu hspede, e portanto devia ser tratado com toda a honra. Por aquela noite podia
dormir num grande e comprido nicho que se abria na parede da cela, onde tinha
mandado pr boa palha fresca. Coisa que, acrescentou, se fazia s vezes para os servos
de algum senhor que desejava ser velado durante o sono.
   Depois, os monges trouxeram-nos vinho, queijo, azeitonas, po e boa uva passa, e
deixaram-nos para nos recompormos. Comemos e bebemos com muito gosto. O meu
mestre no tinha os hbitos austeros dos beneditinos e no gostava de comer em
silncio. Por outro lado, falava sempre de coisas to boas e sbias que era como se um
monge nos lesse as vidas dos santos.
  Naquele dia no me contive sem o interrogar de novo sobre o caso do cavalo.
  - Porm  disse -, quando vs lestes as marcar sobre a neve e nos ramos, no
conheceis ainda Brunello. De certo modo, aquelas marcas falavam-nos de todos os
cavalos, ou pelo menos de todos os cavalos daquela espcie. No devemos ento dizer
que o livro da natureza nos fala s por essncias, como ensinam muitos telogos insignes?
   - No inteiramente, caro Adso - respondeu-me o mestre. -  certo que aquele tipo de
pegadas me exprimia, se quiseres, o cavalo como verbum mentis, e ter-mo-ia expresso
onde quer que o tivesse encontrado. Mas a pegada naquele lugar e quela hora do dia
dizia-me que pelo menos um entre todos os cavalos possveis tinha passado por ali. De
modo que eu me achava a meio caminho entre a apreenso do conceito de cavalo e o
conhecimento de um cavalo individual. E em todo o caso aquilo que eu conhecia do
cavalo universal era-me dado pela marca, que era singular. Posso dizer que naquele
momento eu estava prisioneiro entre a singularidade da marca e a minha ignorncia, que
assumia a forma bastante difana de uma idia universal. Se vs qualquer coisa de longe
e no percebes o que , contentar-te-s em defini-lo como um corpo extenso. Quando se
aproximar de ti, defini-lo-s ento como um animal, mesmo que no saibas ainda se 
um cavalo ou um burro. E finalmente, quando ele estiver mais perto, poders dizer que 
um cavalo, mesmo que no saibas ainda se  Brunello ou Favello. E s quando estiveres 
distancia justa vers que  Brunello (ou seja, aquele cavalo e no outro, seja como for
que decidas chamar-lhe). E este ser o conhecimento pleno, a intuio do singular.
Assim, h uma hora, eu estava pronto para esperar todos os cavalos, no pela vastido
do meu intelecto, mas sim pela estreiteza da minha intuio. E a fome do meu intelecto
foi saciada apenas quando vi o cavalo singular que os monges levavam pelo freio. S
ento soube verdadeiramente que o meu primeiro raciocnio me tinha conduzido perto
da verdade. Assim, as idias, que eu usava antes para imaginar um cavalo que ainda no
tinha visto, eram puros sinais, como eram sinais da idia de cavalo as pegadas sobre a
neve: e usam-se sinais e sinais de sinais apenas quando nos faltam as coisas.
   Outras vezes tinha-o ouvido falar com muito cepticismo das idias universais e com
grande respeito pelas coisas individuais: e tambm em seguida me pareceu que esta
tendncia lhe provinha tanto do fato de ser britnico como de ser franciscano. Mas
naquele dia no tinha foras suficientes para afrontar disputas teolgicas: e assim me
aninhei no espao que me tinha sido concedido, envolvi-me num cobertor e ca num sono
profundo.
   Quem entrasse poderia ter-me confundido com um embrulho. E assim fez certamente
o Abade quando veio visitar Guilherme pela hora tera. Foi assim que eu pude escutar
sem ser observado o seu primeiro colquio. E sem malcia, porque apresentar-me de
repente ao visitante teria sido mais descorts do que ocultar-me, como fiz, com
humildade.
   Chegou portanto Abbone. Desculpou-se pela intruso, renovou as suas boas-vindas e
disse que devia falar a Guilherme, em particular, de coisa bastante grave.
   Comeou por felicit-lo pela habilidade com que se tinha conduzido na histria do
cavalo, e perguntou como  que tinha sabido dar informaes to seguras de um animal
que nunca tinha visto. Guilherme explicou sucintamente e com ar distante a via que
tinha seguido, e o Abade alegrou-se muito pela sua agudeza. Disse que no teria
esperado menos de um homem que tinha sido precedido por uma fama de grande
sagacidade. Disse-lhe que tinha recebido uma carta do Abade de Farfa que no s lhe
falava da misso confiada a Guilherme pelo imperador (sobre a qual discutiriam depois
nos dias seguintes), mas tambm lhe dizia que na Inglaterra e na Itlia o meu mestre fora
inquisidor em alguns processos, onde se tinha distinguido pela sua perspiccia, no isenta
de grande humanidade.
   - Muito me agradou saber - acrescentou o Abade - que em numerosos casos vs haveis
decidido pela inocncia do acusado. Creio, e mais do que nunca nestes dias tristssimos,
na presena constante do maligno nas coisas humanas - e olhou em torno,
imperceptivelmente, como se o inimigo vagueasse entre aquelas paredes -, mas creio
tambm que muitas vezes o maligno opera por causas segundas. E sei que pode impelir
as suas vtimas a fazer o mal de tal modo que a culpa recaia sobre um justo, gozando
com o fato que o justo seja queimado em lugar do seu scubo. Freqentemente, os
inquisidores, para darem prova de diligncia, arrancam a todo o custo uma confisso ao
acusado, pensando que s  bom inquisidor aquele que conclui o processo encontrando
um bode-expiatrio...
  - At um inquisidor pode ser movido pelo diabo - disse Guilherme.
  -  possvel - admitiu o Abade com muita cautela -, porque os desgnios do Altssimo
so imperscrutveis, mas no serei eu a lanar a sombra da suspeita sobre homens to
benemritos.  mesmo de vs, como um deles, que eu hoje tenho necessidade.
Aconteceu nesta abadia alguma coisa que requer a ateno e o conselho de um homem
sutil e prudente como vs. Sutil para descobrir e prudente (se for o caso) para encobrir.
Freqentemente, de fato,  indispensvel provar a culpa de homens que deveriam
exceder pela sua santidade, mas de modo a poder eliminar a causa do mal sem que o
culpado seja exposto ao desprezo pblico. Se um pastor falha deve ser isolado dos outros
pastores, mas ai de ns se as ovelhas comeassem a duvidar dos pastores.
  - Compreendo - disse Guilherme.
  J tinha tido ocasio de notar que, quando se exprimia daquele modo to solcito e
educado, geralmente escondia, de modo honesto, o seu desacordo ou a sua
perplexidade.
   - Por isso - continuou o Abade -, considero que todo o caso que diga respeito  falta de
um pastor no pode ser confiado seno a homens como vs, que no s sabem distinguir
o bem do mal, mas tambm aquilo que  oportuno daquilo que o no . Apraz-me pensar
que vs tenhais condenado apenas quando...
  - ... os acusados eram culpados de atos delituosos, de envenenamentos, de corrupo
de crianas inocentes e de outros atos nefandos que a minha boca no ousa pronunciar...
   - ... que tenhais condenado apenas quando - continuou o Abade sem ter em conta a
interrupo - a presena do demnio era to evidente aos olhos de todos que no se
podia proceder diversamente sem que a indulgncia fosse mais escandalosa do que o
prprio delito.
  - Quando reconheci algum culpado - precisou Guilherme -, este tinha realmente
cometido crimes de tal sorte que podia entreg-lo com boa conscincia ao brao secular.
  O Abade teve um momento de hesitao:
  - Porque  perguntou - insistis em falar de aes delituosas sem vos pronunciardes
sobre a sua causa diablica!
  - Porque refletir sobre as causas e sobre os efeitos  coisa assaz difcil, de que, creio,
o nico juiz s pode ser Deus. A ns j nos custa muito supor uma relao entre um
efeito to evidente como uma rvore queimada e o raio que a incendiou que remontar a
cadeias por vezes longussimas de causas e efeitos parece-me to louco como tentar
construir uma torre que chegue ao cu.
   - O doutor de Aquino - sugeriu o Abade - no temeu demonstrar unicamente com a
fora da razo a existncia do Altssimo, remontando de causa em causa  causa primeira
no causada.
  - Quem sou eu - disse com humildade Guilherme - para me opor ao doutor de Aquino?
At porque a sua prova da existncia de Deus  sufragada por tantos outros testemunhos
que as suas vias resultam fortificadas. Deus fala-nos no interior da nossa alma, como j o
sabia Agostinho, e vs, Abbone, tereis cantado os louvores do Senhor e a evidncia da
sua presena ainda que Toms no tivesse... - Deteve-se e acrescentou - Imagino.
  - Oh, decerto - apressou-se a assegurar o Abade.
   E o meu mestre truncou deste modo belssimo uma discusso de escola que
evidentemente lhe agradava pouco. Depois recomeou a falar.
  - Voltemos aos processos. Vede: um homem, suponhamos, foi morto por
envenenamento. Este  um dado da experincia.  possvel que imagine, diante de
certos sinais irrefutveis, que o autor do envenenamento foi outro homem. Em cadeias
de causas to simples, a minha mente pode intervir com uma certa confiana no seu
poder. Mas como posso complicar a cadeia imaginando que, a causar a ao malvada,
haja uma outra interveno, desta vez no humana mas diablica? No digo que no seja
possvel, tambm o diabo denuncia a sua passagem com claros sinais, como o vosso
cavalo Brunello. Mas porque devo procurar essas provas? No  j suficiente que eu saiba
que o culpado  aquele homem e o entregue ao brao secular? Em qualquer caso, a sua
pena ser a morte, que Deus lhe perdoe.
   - Mas consta-me que um processo que se desenrolou em Kilkenny, h trs anos, em
que algumas pessoas foram acusadas de ter cometido torpes delitos, vs no negastes a
interveno diablica, uma vez descobertos os culpados.
   - Mas tambm nunca o afirmei abertamente. Tambm no o neguei,  verdade. Quem
sou eu para exprimir juzos sobre as tramas do maligno, especialmente - acrescentou, e
pareceu querer insistir nesta razo -, em casos em que aqueles que tinham dado incio 
inquisio, o bispo, os cidados magistrados e o povo todo, talvez os prprios acusados,
desejavam verdadeiramente descobrir a presena do demnio? Ai est, talvez a nica
verdadeira prova da presena do diabo seja a intensidade com que todos naquele
momento aspiram sab-lo na obra...
   - Ento vs - disse o Abade em tom preocupado - dizeis-me que em muitos processos o
diabo no age s no culpado mas talvez e sobretudo nos juzes?
   - Poderia acaso fazer uma afirmao desse gnero?  perguntou Guilherme, e percebi
que a pergunta era formulada de modo que o Abade no pudesse afirmar que ele podia;
assim, Guilherme aproveitou o seu silncio para desviar o curso do dilogo. - Mas no
fundo trata-se de coisas distantes. Abandonei aquela nobre atividade, e se o fiz foi
porque o Senhor assim o quis...
  - Sem dvida - admitiu o Abade.
  - ... e agora - continuou Guilherme - ocupo-me de outras delicadas questes. E queria
ocupar-me daquela que vos atormenta, se vs dela me falardes.
   Pareceu-me que o Abade ficou satisfeito por poder terminar aquela conversa,
tornando ao seu problema. Ps-se ento a contar, com muita prudncia na escolha das
palavras e longas perfrases, um fato singular que tinha acontecido poucos dias antes e
que tinha deixado muita perturbao entre os monges. E disse que falava disso a
Guilherme porque, sabendo-o grande conhecedor no s do esprito humano mas tambm
das tramas do maligno, esperava que pudesse dedicar parte do seu tempo precioso a
lanar luz sobre um doloridssimo enigma. Tinha-se dado ento o caso que Adelmo
Otranto, um monge ainda jovem e todavia j famoso como grande mestre iluminista e
que estava adornando os manuscritos da biblioteca com imagens belssimas, tinha sido
encontrado uma manh por um cabreiro no fundo da escarpa dominada pelo torreo este
do Edifcio. Pois que tinha sido visto pelos outros monges no coro durante completas mas
no tinha reaparecido a matinas, tinha-se provavelmente precipitado durante as horas
mais escuras da noite. Noite de grande tempestade de neve, em que caam flocos
cortantes como lminas, que quase pareciam granizo, impelidos por um austro que
soprava impetuoso. Amolecido pela neve que primeiro se tinha derretido e depois
endurecido em laminas de gelo, o seu corpo tinha sido encontrado aos ps do
despenhadeiro, dilacerado pelas rochas contra as quais tinha feito ricochete. Pobre e
frgil coisa morta, que Deus tivesse misericrdia dele. Por causa dos numerosos
ricochetes que o corpo tinha sofrido ao precipitar-se, no era fcil dizer de que ponto
exato tinha cado: certamente duma das janelas que se abriam em trs ordens de
andares nos quatro lados do torreo expostos ao abismo.
  - Onde haveis sepultado o pobre corpo? - perguntou Guilherme.
   - No cemitrio, naturalmente - respondeu o Abade. - Talvez o tenhais notado,
estende-se entre o lado setentrional da igreja, o Edifcio e o horto.
   - Vejo - disse Guilherme -, e vejo que o vosso problema  o seguinte. Se aquele infeliz
se tivesse, Deus no queira, suicidado (pois que no se podia pensar que tivesse cado
acidentalmente), no dia seguinte tereis encontrado aberta uma daquelas janelas,
enquanto as haveis encontrado todas fechadas e sem que aos ps de nenhuma
aparecessem marcas de gua.
  O Abade era homem, j o disse, de grande e diplomtica compostura, mas desta vez
teve um movimento de surpresa que lhe tirou qualquer trao daquele decoro que condiz
com a pessoa grave e magnnima como diz Aristteles:
  - Quem vo-lo disse?
   - Haveis-mo dito vs - disse Guilherme. - Se a janela tivesse sido aberta, tereis logo
pensado que ele se tinha atirado. Pelo que pude julgar do exterior, trata-se de grandes
janelas de vidraas opacas, e janelas daquele tipo no se abrem geralmente, em
edifcios destas dimenses,  altura de uma pessoa. Portanto, se tivesse sido aberta,
dado que  impossvel que o desgraado se tivesse debruado e tivesse perdido o
equilbrio, no restaria seno pensar num suicdio. Nesse caso, no o tereis deixado
sepultar em terra consagrada. Mas visto que o haveis sepultado cristmente, as janelas
deviam estar fechadas. Porque, se estavam fechadas, como eu no encontrei nem sequer
os processos de bruxaria um morto impenitente a quem Deus ou o Diabo tenham
concedido voltar a subir do abismo para apagar as marcas do seu delito,  evidente que o
presumvel suicida foi mesmo empurrado, quer por mo humana quer por fora
diablica. E vs perguntai-vos quem poder t-lo no digo empurrado para o abismo mas
iado voluntariamente at ao peitoril, e estais perturbado porque uma fora malfica,
natural ou sobrenatural, vagueia agora pela abadia.
  - Assim ... - disse o Abade, e no era claro se confirmava as palavras de Guilherme ou
dava razo a si prprio com as razes que Guilherme tinha to admiravelmente
produzido. - Mas como conseguis saber que no havia gua aos ps de nenhuma vidraa?
   - Pois que me haveis dito que soprava o austro, e a gua no podia ser impelida contra
janelas que se abrem a oriente.
   - No me tinham dito o bastante das vossas virtudes - disse o Abade. - E tendes razo,
no havia gua, e agora sei porqu. As coisas passaram-se como dizeis. E agora
compreendeis a minha angstia. J teria sido grave se um dos meus monges se tivesse
manchado com o abominvel pecado do suicdio. Mas tenho razes para pensar que outro
se manchou com um pecado igualmente terrvel. E se fosse s esse...
   - E antes de mais, porqu um dos monges? Na abadia h muitas outras pessoas,
estribeiros, cabreiros, servos...
   - Claro,  uma abadia pequena mas rica - admitiu com orgulho o Abade. - Cento e
cinqenta servos para sessenta monges. Mas tudo aconteceu no Edifcio. Ali, como
decerto j sabeis, embora no primeiro andar sejam as cozinhas e o refeitrio, nos dois
andares superiores ficam o scriptorium e a biblioteca. Depois da ceia, o Edifcio 
fechado, e h uma regra rigidssima que probe seja quem for de ali aceder - adivinhou a
pergunta de Guilherme e acrescentou logo, mas claramente contrariado -, incluindo os
monges naturalmente, mas...
  - Mas?
  - Mas excluo absolutamente, absolutamente, entendeis, que um servo tenha tido a
coragem de ali penetrar de noite. - Nos seus olhos passou como que um sorriso de
desafio, mas foi rpido como o relmpago ou uma estrela cadente. - Digamos que teriam
medo, sabeis... por vezes as ordens dadas aos simples so reforadas por alguma
ameaa, como o pressgio que pode acontecer alguma coisa de terrvel, e por fora
sobrenatural, a quem desobedecer. Um monge, ao invs...
  - Compreendo.
   - No s, mas um monge podia ter outras razes para se aventurar num lugar
interdito, quero dizer, razes... como dizer? Razoveis, ainda que contrrias  regra...
  Guilherme apercebeu-se do mal-estar do Abade e fez uma pergunta que talvez tivesse
em mira desviar o discurso mas que produziu um mal-estar no menos grande.
   - Falando de um possvel homicdio, haveis dito e se fosse s esse. Que quereis
dizer?
   - Disse isso? Pois bem, no se mata sem uma razo, por mais perversa que seja. E
tremo  idia da perversidade das razes que podem ter levado um monge a matar um
confrade. Aqui est.  assim.
  - No h mais nada?
  - No h mais nada que eu vos possa dizer.
  - Quereis dizer que no h mais nada que vs tenhais poder para dizer?
  - Por favor, frade Guilherme, irmo Guilherme.
  E o Abade acentuou tanto frade como irmo. Guilherme corou vivamente e comentou:
  - Eris sacerdos in aeternum.
  - Obrigado - disse o Abade.
    Senhor Deus, que mistrio terrvel afloraram naquele momento os meus imprudentes
superiores, impelido um pela angstia e outro pela curiosidade. Porque, novio que se
iniciava nos mistrios do santo sacerdcio de Deus, tambm eu, humilde criana,
compreendi que o Abade sabia alguma coisa, mas tinha-o ouvido sob o segredo da
confisso. Ele devia ter sabido dos lbios de algum qualquer pormenor pecaminoso que
podia ter relao com o trgico fim de Adelmo. Por isso, pedia talvez a frade Guilherme
que descobrisse um segredo de que ele suspeitava sem poder revel-lo a ningum, e
esperava que o meu mestre fizesse luz com as foras do intelecto sobre tudo quanto ele
devia envolver em sombra por fora do sublime imprio da caridade.
  - Bem - disse ento Guilherme -, posso fazer perguntas aos monges?
  - Podeis.
  - Posso andar livremente pela abadia?
  - Confiro-vos essa faculdade.
  - Investir-me-eis desta misso coram monachis?
  - Esta noite mesmo.
   - Comearei hoje porm, antes que os monges saibam do que me haveis encarregado.
E alm disso desejava muito, e no  a menor razo da minha passagem por aqui, visitar
a vossa biblioteca, de que se fala com admirao em todas as abadias da cristandade.
  O Abade levantou-se quase de um salto, com o rosto muito tenso.
  - Podeis andar por toda a abadia, disse-vos. No certamente pelo ltimo andar do
Edifcio, na biblioteca.
  - Porqu?
  - Devia ter-vo-lo explicado primeiro, e pensava que o soubsseis. Vs sabeis que a
nossa biblioteca no  como as outras...
   - Sei que tem mais livros do que qualquer outra biblioteca crist. Sei que ao lado dos
vossos armaria os de Bobbio ou de Pomposa, de Cluny ou de Fleury parecem o quarto de
uma criana que mal se tenha iniciado no baco. Sei que os seis mil cdices de que se
orgulhava Novalesa h mais de cem anos so pouco ao lado dos vossos, e talvez muitos
deles estejam agora aqui. Sei que a vossa abadia  a nica luz que a cristandade pode
opor s trinta e seis bibliotecas de Bagdad, aos dez mil cdices do vizir Ibn al-Alkami,
que o nmero das vossas bblias iguala os dois mil e quatrocentos cores de que se
orgulha o Cairo, e que a realidade dos vossos armaria  luminosa evidncia contra a
soberba lenda dos infiis que h anos afirmavam (ntimos como so do prncipe da
mentira) que a biblioteca de Trpoli era rica de seis milhes de volumes e habitada por
oitenta mil comentadores e duzentos escribas.
  - Assim , sejam dados louvores ao cu.
   - Sei que dos monges que vivem entre vs muitos vm de outras abadias dispersas por
todo mundo: uns por pouco tempo, para copiarem manuscritos impossveis de encontrar
noutros lugares e para os levarem depois para as prprias sedes, no sem vos terem
trazido em troca algum outro manuscrito que vs copiareis e inserireis no vosso tesouro;
e outros por longo tempo, para aqui ficarem por vezes at  morte, porque s aqui
podem encontrar as obras que iluminam a sua pesquisa. E portanto tendes entre vs
germanos, dcios, hispanos, franceses e gregos. Sei que o imperador Frederico, h
muitos e muitos anos, vos pediu que lhe compilsseis um livro sobre as profecias de
Merlim e depois o traduzsseis em rabe, para o enviar como presente ao sulto do Egito.
Sei enfim que uma abadia gloriosa como Murbach, nestes tempos to tristes, j no tem
um nico escriba, que em San Gallo ficaram poucos monges que sabem escrever, que
agora  nas cidades que surgem corporaes e gildas compostas por seculares que
trabalham para as universidades, e que s a vossa abadia renova dia a dia. Que digo?
Eleva a fastigios sempre mais altos as glrias da vossa ordem...
   - Monasterium sine libris - citou absorto o Abade - est sicut civitas sine opibus,
castrum sine numeris, coquina sine supellectili, mensa sine cibis, hortus sine herbis,
pratum sine floribus, arbor sine foliis... E a nossa ordem, crescendo em torno ao duplo
mandamento do trabalho e da orao, foi luz para todo o mundo conhecido, reserva de
saber, salvao de uma doutrina antiga que ameaava desaparecer em incndios, saques
e terremotos, forja de nova escrita e incremento da antiga... Oh, vs bem sabeis,
vivemos agora em tempos muitos obscuros, e coro ao dizer-vos que no h muitos anos o
conclio de Viena teve de recordar que todo o monge tem o dever de tomar ordens...
Quantas das nossas abadias, que h duzentos anos eram centros resplandecentes de
grandeza e santidade, so agora refgio de mandries. A ordem  ainda poderosa, mas o
fedor das cidades cinge de perto os nossos lugares santos, o povo de Deus inclina-se
agora para o comrcio e para as guerras de faces, l em baixo, nos grandes centros
habitados, onde no pode ter abrigo o esprito da santidade, no s se fala (que aos
leigos no se poderia pedir outra coisa) mas j se escreve em lngua vulgar, e Oxal que
nenhum destes volumes jamais possa entrar nas nossas muralhas... fonte de heresia
como se torna fatalmente pelos pecados dos homens o mundo est suspenso  beira do
abismo, penetrado pelo mesmo abismo que o abismo invoca. E amanh, como afirmava
Honrio, os corpos dos homens sero mais pequenos que os nossos, tal como os nossos
so mais pequenos que os dos antigos. Mundus senescit. Ora se Deus confiou  nossa
ordem uma misso, ela  a de se opor a esta corrida para o abismo, conservando,
repetindo e defendendo o tesouro de sabedoria que os nossos pais nos confiaram. A
divina Providncia ordenou que o governo universal, que no princpio do mundo era no
oriente,  medida que o tempo se avizinha se deslocasse para ocidente, para nos avisar
que o fim do mundo se aproxima, porque o curso dos acontecimentos j atingiu o limite
do universo. Mas enquanto no acabar definitivamente o milnio, enquanto no triunfar,
embora por pouco, a besta imunda que  o Anticristo, cabe-nos a ns defender o tesouro
do mundo cristo, e a prpria palavra de Deus, tal como ele a ditou aos profetas e aos
apstolos, tal como os padres a repetiram sem lhe mudar o verbo, tal como as escolas
procuraram glosar, embora hoje nas prprias escolas se aninhe a serpente da soberba, da
inveja, da insensatez. Neste ocaso ns somos ainda fachos e luz alta no horizonte. E
enquanto estas muralhas resistirem, ns seremos a custdia da Palavra divina.
  - Assim seja - disse Guilherme em tom devoto. - Mas que tem a ver isso com o fato de
no se poder visitar a biblioteca?
   - Vede, frade Guilherme - disse o Abade -, para poder realizar a obra imensa e santa
que enriquece aquelas muralhas - e apontou para a mole do Edifcio, que se entrevia das
janelas da cela, pontificando acima da prpria igreja abacial -, homens devotos
trabalharam durante sculos, seguindo regras de ferro. A biblioteca nasceu segundo um
desgnio que permaneceu obscuro para todos atravs dos sculos e que nenhum dos
monges  chamado a conhecer. S o bibliotecrio recebeu o seu segredo do bibliotecrio
que o precedeu, e comunica-o, ainda em vida, ao bibliotecrio ajudante, de modo que a
morte no o surpreenda privando a comunidade daquele saber. E os lbios de ambos
esto selados pelo segredo. S o bibliotecrio, alm de saber, tem o direito de se mover
no labirinto dos livros, s ele sabe onde encontr-los e onde rep-los, s ele 
responsvel pela sua conservao. Os outros monges trabalham no scriptorium e podem
conhecer o elenco dos volumes que a biblioteca encerra. Mas um elenco de ttulos
freqentemente diz muito pouco, s o bibliotecrio sabe, pela colocao do volume,
pelo grau da sua inacessibilidade, que tipo de segredos, de verdades ou de mentiras o
volume encerra. S ele decide como, quando e se o fornece ao monge que faz a sua
requisio, por vezes depois de me ter consultado. Porque nem todas as verdades so
para todos os ouvidos, nem todas as mentiras podem ser reconhecidas como tais por um
esprito piedoso, e os monges, enfim, esto no scriptorium para levar a cabo uma obra
precisa, para a qual devem ler certos volumes e no outros, e no para seguir qualquer
insensata curiosidade que os colha, quer por debilidade da mente, quer por soberba,
quer por sugesto diablica.
  - Portanto, tambm h na biblioteca livros que contm mentiras...
   - Os monstros existem porque fazem parte dos desgnios divinos, e at nas horrveis
faanhas dos monstros se revela a potncia do Criador. Assim, por desgnio divino,
existem tambm os livros dos magos, as cabalas dos judeus, as fbulas dos poetas
pagos, as mentiras dos infiis. Foi firme e santa convico daqueles que quiseram e
sustentaram esta abadia atravs dos sculos que at nos livros mentirosos pode
transparecer, aos olhos do leitor sagaz, uma plida luz da sapincia divina. E por isso
tambm desses a biblioteca  escrnio. Mas precisamente por isso, compreendeis, no
pode penetrar nela qualquer um. E alm disso - acrescentou o Abade, quase a desculpar-
se da insuficincia deste ltimo argumento -, o livro  criatura frgil, sofre a usura do
tempo, teme os roedores, as intempries, as mos inbeis. Se durante centenas de anos
qualquer um tivesse podido livremente tocar nos nossos cdices, a maior parte deles j
no existiria. O bibliotecrio defende-os portanto no s dos homens mas tambm da
natureza, e dedica a sua vida a esta guerra contra as foras do esquecimento, inimigo da
verdade.
  - Assim, ningum, salvo duas pessoas, entra no ltimo andar do Edifcio...
  O Abade sorriu:
  - Ningum deve. Ningum pode. Ningum, querendo, o conseguiria. A biblioteca
defende-se por si, insondvel como a verdade que acolhe, enganosa como a mentira que
encerra. Labirinto espiritual,  tambm labirinto terreno. Podereis entrar e podereis
no sair. E, dito isto, queria que vos adequsseis s regras da abadia.
   - Mas vs no exclustes que Adelmo pode ter-se precipitado por uma das janelas da
biblioteca. E como posso raciocinar sobre a sua morte se no vir o lugar em que podia ter
incio a histria da sua morte?
   - Frade Guilherme - disse o Abade em tom conciliador -, um homem que descreveu o
meu cavalo Brunello sem o ver e a morte de Adelmo sem dela saber quase nada no ter
dificuldade em raciocinar sobre lugares a que no tem acesso.
  Guilherme inclinou-se numa reverncia:
  - Sois sbio mesmo quando sois severo. Como quiserdes.
  - Se acaso fosse sbio, s-lo-ia porque sei ser severo - respondeu o Abade.
  - Uma ltima coisa - pediu Guilherme. - Ubertino?
  - Est aqui. Espera-vos. Encontr-lo-eis na igreja.
  - Quando?
  - Sempre - sorriu o Abade. - Sabeis que, embora muito douto, no  homem para
apreciar a biblioteca. Considera-a uma tentao do sculo... Est quase sempre na igreja
a meditar, a rezar...
  - Est velho? - perguntou Guilherme, hesitando.
  - H quanto tempo no o vedes?
  - H muitos anos.
  - Est cansado. Muito desligado das coisas deste mundo. Tem sessenta e oito anos. Mas
creio que tem ainda o esprito da sua juventude.
  - Vou j procur-lo, agradeo-vos.
  O Abade perguntou-lhe se no queria unir-se  comunidade para almoar, depois de
sexta. Guilherme disse que tinha acabado de comer, e muito confortavelmente, e que
preferia ver imediatamente Ubertino. O Abade despediu-se.
  Ia a sair da cela quando se elevou do ptio um uivo lancinante, como de pessoa ferida
de morte, a que se seguiram outros lamentos igualmente atrozes.
  - O que ?! - perguntou Guilherme, desconcertado.
   - Nada - respondeu o Abade, sorrindo. - Nesta poca esto a matar os porcos. Um
trabalho para os porqueiros. No  deste sangue que deveis ocupar-vos.
   Saiu, e no deu razo  sua fama de homem avisado. Porque na manh seguinte... Mas
refreia a tua impacincia, minha lngua petulante. Porque no dia de que falo, e antes da
noite, aconteceram ainda muitas coisas que ser bom referir.
  PRIMEIRO DIA
  SEXTA
  Onde Adso admira o portal da igreja e Guilherme reencontra Ubertino de Casale.
   A igreja no era majestosa como outras que vi em seguida em Estrasburgo, em
Chartres, em Bamberg e em Paris. Assemelhava-se mais quelas que j tinha visto na
Itlia, pouco propensas a elevar-se vertiginosamente para o cu e solidamente pousadas
em terra, freqentemente mais largas que altas; a no ser que, a um primeiro nvel, ela
era coroada, como uma fortaleza, por uma srie de ameias quadradas, e acima deste
andar elevava-se uma segunda construo, mais do que uma torre, uma slida segunda
igreja, encimada por um telhado em forma de ponta e perfurada de severas janelas.
Robusta igreja abacial como as que construam os nossos antigos na Provena e
Languedoc, longe das ousadias e do excesso de ornatos prprios do estilo moderno, que
s em tempos mais recentes, creio, se tinha enriquecido sobre o coro, com uma agulha
ousadamente apontada para a abbada celeste.
   Duas colunas direitas e polidas enquadravam a entrada, que aparecia  primeira vista
como um nico grande arco: mas das colunas partiam dois contrafortes que, coroados
por outros e mltiplos arcos, conduziam o olhar, como no corao de um abismo, para o
verdadeiro e autntico portal, que se entrevia na sombra, encimado por um grande
tmpano, sustentado aos lados por dois ps-direitos e ao centro por um pilar esculpido,
que subdividia a entrada em duas aberturas, defendidas por portas de carvalho
reforadas de metal. quela hora do dia, o sol plido batia quase a pique sobre o telhado
e a luz caa obliquamente sobre a fachada sem iluminar o tmpano: de modo que,
passadas as duas colunas, nos achamos logo debaixo da abbada quase silvestre das
arcadas que partiam da seqncia de colunas menores que proporcionalmente
reforavam os contrafortes. Habituados finalmente os olhos  penumbra, logo o mudo
discurso da pedra historiada, acessvel como era imediatamente  vista e  fantasia de
qualquer um (porque picture est laicorum literature), fulminou o meu olhar e mergulhou-
me numa viso de que ainda hoje a custo a minha lngua consegue falar.
   Vi um bono colocado no cu e algum sentado no bono. O rosto do Sentado era severo
e impassvel, os olhos arregalados e dardejantes sobre uma humanidade terrestre que
chegara ao fim da sua aventura, os cabelos e a barba majestosos que lhe caam sobre o
rosto e o peito como as guas de um rio, em ribeiros todos iguais e simetricamente
bipartidos. A coroa que usava na cabea era rica de esmaltes e de gemas, a tnica
imperial cor de prpura dispunha-se-lhe em amplas volutas sobre os joelhos, tecida de
bordados e rendas em fios de ouro e de prata. A mo esquerda, pousada sobre os
joelhos, segurava um livro selado, a direita elevava-se em atitude no sei se de bno
ou de ameaa. O rosto era iluminado pela tremenda beleza de um nimbo cruciforme e
florido, e vi brilhar em torno do bono e sobre a cabea do Sentado um arco-ris de
esmeralda. Diante do bono, sob os ps do Sentado, corria um mar de cristal, e em torno
do Sentado, em torno do bono e sobre o bono quatro animais terrveis  vi -, terrveis
pare mim que os olhava extasiado, mas dceis e dulcssimos pare o Sentado, a quem
cantavam louvores sem descanso.
   Ou melhor, nem todos se podiam dizer terrveis, porque me pareceu belo e gentil o
homem que  minha esquerda (e  direita do Sentado) estendia um livro. Mas, do lado
oposto, pareceu-me horrenda uma guia, de bico dilatado, plumas hirtas dispostas em
loriga, garras possantes, grandes asas abertas. E aos ps do Sentado, por baixo das duas
primeiras figures, outras duas, um touro e um leo, cada um dos dois monstros
apertando entre as garras e os cascos um livro, com o corpo voltado pare o exterior mas
a cabea pare o bono, como torcendo o dorso e o pescoo num mpeto feroz, flancos
palpitantes, as patas de animal que agonize, as faces escancaradas, as caudas enroladas
e retorcidas como serpentes e terminando na ponta em lnguas de fogo. Ambos alados,
ambos coroados por um nimbo, apesar da sua aparncia formidvel no eram criaturas
do inferno, mas do cu, e se pareciam tremendas era porque rugiam em adorao do
Vindouro que julgaria os vivos e os mortos.
   Em torno do bono, ao lado dos quatro animais e sob os ps do Sentado, como vistos 
transparncia sob as guas do mar de cristal, enchendo quase todo o espao da viso,
compostos segundo a estrutura triangular do tmpano, elevando-se de uma base de sete
mais sete, depois a trs mais trs e depois a dois mais dois, ao lado do bono, estavam
vinte e quatro velhos, em vinte e quatro pequenos tronos, revestidos de vestes brancas e
coroados de ouro. Um tinha na mo uma viola, outro uma taa de perfumes, e s um
tocava, todos os outros arrebatados em xtase, com o rosto voltado para o Sentado, a
quem cantavam louvores, os membros tambm eles contorcidos como os dos animais, de
modo que pudessem todos ver o Sentado, no de modo bestial mas sim com movimentos
de dana exttica - como deve ter danado David em torno da arca -, de modo que, onde
quer que estivessem as suas pupilas, contra a lei que governava a estatura dos corpos,
convergissem para o mesmo ponto fulgurante. Oh, que concerto de abandonos e de
impulsos, de posies antinaturais e no entanto graciosas naquela mstica linguagem de
membros miraculosamente libertados do peso da matria corprea, signata quantidade
infundida de nova forma substancial, como se o sagrado tropel fosse batido por um vento
impetuoso, sopro de vida, frenesi de deleite, jbilo de aleluia transformado
prodigiosamente, de som que era, em imagem.
   Corpos e membros habitados pelo Esprito, iluminados pela revelao, perturbados os
rostos pelo espanto, exaltados os olhares pelo entusiasmo, inflamadas as faces pelo
amor, dilatadas as pupilas pela beatitude, fulminado um por uma deleitosa
consternao, transido outro por um consternado deleite, um transfigurado pela
admirao, outro rejuvenescido pelo gudio, ei-los todos a cantar com a expresso dos
rostos, com o panejamento das tnicas, com o aspecto e a tenso dos membros, um
cntico novo, os lbios entreabertos num sorriso de louvor perene. E sob os ps dos
velhos, arqueados sobre eles e sobre o trono e sobre o grupo tetramorfo, dispostos em
grupos simtricos, a custo distinguveis um do outro, tanto a sapincia da arte os tinha
tornado todos mutuamente proporcionais, iguais na variedade e variados na unidade,
nicos na diversidade e diversos na sua prpria coadunao, em admirvel congruncia
das partes com deleitvel suavidade de tintas, milagre de consonncia e concrdia de
vozes dissemelhantes entre si, conjunto disposto como as cordas da ctara, consenciente
e conspirante continuada cognao por profunda e interna fora prpria para operar o
unvoco no prprio jogo alternado dos equvocos, ornato e cotejo de criaturas
irredutveis umas s outras e umas s outras reduzidas, obra de amorosa conexo regida
por uma regra celeste e mundana a um tempo (vnculo e estvel nexo de paz, amor,
virtude, regime, potestade, ordem, origem, vida, luz, esplendor, espcie e figura),
equidade numerosa resplandecente pelo reluzir da forma sobre as partes proporcionadas
da matria - eis que se entrelaavam todas as flores e as folhas e as gavinhas e os ramos
e os corimbos de todas as ervas com que se adornam os jardins da terra e do cu, a
violeta, o ctiso, o serpil, o lrio, o ligustro, o narciso, a colocsia, o acanto, o
malobatro, a mirra e os hopoblsamos.
   Mas enquanto a minha alma, arrebatada por aquele concerto de belezas terrenas e de
majestosos sinais sobrenaturais, estava prestes a explodir num cntico de alegria, o
olhar, acompanhando o ritmo proporcionado das rosceas floridas aos ps dos velhos,
caiu sobre as figuras que, entrelaadas, formavam uma s com o pilar central que
sustinha o tmpano. O que eram e que simblica mensagem comunicavam aqueles trs
pares de lees entrelaados em cruz transversalmente disposta, rompantes como arcos,
fincando as patas posteriores no terreno e apoiando as anteriores no dorso do prprio
companheiro, com a juba eriada em volutas anguitormes, a boca aberta num rosnar
ameaador, ligados ao prprio corpo do pilar por um molho, ou um ninho, de gavinhas?
Para acalmar o meu esprito, como estavam postos talvez para amestrar a natureza
diablica dos lees e transform-la em simblica aluso s coisas superiores, dos lados
dos pilares estavam duas figuras humanas, to desnaturadamente longas como a prpria
coluna e gmeas de outras duas que simetricamente, de ambos os lados, lhes ficavam de
frente nos ps-direitos historiados dos lados externos, onde cada uma das portas de
carvalho tinha os seus estpites: eram pois quatro figuras de velhos, por cujos parafernais
reconheci Pedro e Paulo, Jeremias e Isaas, contorcidos tambm eles como num passo de
dana, as longas mos ossudas levantadas de dedos tensos como asas, e como asas as
barbas e os cabelos movidos por um vento proftico, as pregas das vestes longussimas
agitadas pelas longussimas pernas dando vida a ondas e voltas, opostos aos lees mas da
mesma matria dos lees. E, enquanto desviava o olhar fascinado por aquela enigmtica
polifonia de membros santos e de msculos internais, vi ao lado do portal, e debaixo das
profundas arcadas, por vezes historiados nos contra-fortes do espao entre as delicadas
colunas que as sustinham e adornavam, e ainda sobre a densa vegetao dos capitis de
cada coluna, e dali ramificando-se para a abbada silvestre das mltiplas arcadas, outras
vises horrveis de ver, e justificadas naquele lugar s pela sua fora parablica e
alegrica ou pelo ensinamento moral que transmitiam: vi uma mulher luxuriosa nua e
descarnada, roda por sapos imundos, sugada por serpentes, acasalada com um stiro de
ventre inchado e pernas de grifo cobertas de plos hirsutos, a goela obscena, que gritava
a sua prpria danao, e vi um avaro, rgido da rigidez da morte, sobre o seu leito de
suntuosas colunas, agora presa dbil de uma corte de demnios, um dos quais lhe
arrancava da boca agonizante a alma em forma de infante (ai, jamais nascituro para a
vida eterna), e vi um orgulhoso a cujos ombros trepava um demnio fincando-lhe as
garras nos olhos, enquanto outros dois gulosos se despedaavam num corpo a corpo
repugnante, e outras criaturas ainda, com cabea de bode, plo de leo, faces de
pantera, prisioneiros numa selva de chamas cujo hlito ardente quase se podia sentir. E
em torno deles, misturados com eles, sobre eles e debaixo dos seus ps, outros rostos e
outros membros, um homem e uma mulher que se agarravam pelos cabelos, duas spides
que sugavam os olhos de um danado, um homem de riso maligno que dilatava com as
mos aduncas as faces de uma hidra, e todos os animais do bestirio de Satans,
reunidos em consistrio e postos em guarda e coroa do bono que lhes ficava defronte,
pare lhe cantarem a glria com a sue derrota, faunos, seres de duplo sexo, brutos de
mos com seis dedos, sereias, hipocentauros, grgonas, harpias, ncubos,
dragontopides, minotauros, linces, leopardos, quimeras, cenperos de focinho de co
que lanavam fogo pelas narinas, dentotiranos, policaudados, serpentes peludas,
salamandras, cerastas, quelidros, cobras, bicpites de dorso armado de dentes, hienas,
lontras, gralhas, crocodilos, hidropos de cornos em forma de serra, rs, grifos, smios,
cinocfalos, leucrotos, mantcoras, abutres, parandros, doninhas, drages, poupas,
corujas, basiliscos, hipnlios, prestrios, spectafigos, escorpies, surios, cetceos,
ctalos, anfisbenas, jculos, dipsdios, sardes, rmoras, polvos, moreias e tartarugas.
Toda a populao dos infernos parecia ter marcado encontro pare fazer de vestbulo,
selva obscura, charneca desesperada da excluso,  apario do Sentado do tmpano, ao
seu rosto promitente e ameaador, eles, os vencidos do Armagedo, defronte a quem
vir separar definitivamente os vivos dos mortos. E desfalecido (quase) por aquela viso,
j sem saber se me encontrava num lugar amigo ou no vale do juzo final, aterrorizei-me,
e a custo contive o pranto, e pareceu-me ouvir (ou ouvi deveras?) a voz e vi as vises que
tinham acompanhado a minha infncia de novio, as minhas primeiras leituras dos livros
sagrados e as noites de meditao no coro de Melk, e no delquio dos meus sentidos
debilssimos e debilitados ouvi uma voz potente como de tromba que dizia aquilo que
vs escreve-o num livro (o que agora estou fazendo), e vi sete lmpadas de ouro e no
meio das lmpadas uma semelhante ao filho de homem, cingido no peito com uma faixa
de ouro, alvos a cabea e os cabelos com alva l, os olhos como chama de fogo, os ps
como bronze ardente na fornalha, a voz como o fragor de muitas guas, e segurava na
direita sete estrelas e da boca saa-lhe uma espada de dois gumes. E vi uma porta aberta
no cu, e Aquele que estava sentado pareceu-me como de jaspe e sardnio, e uma ris
envolvia o bono e do bono saam relmpagos e troves. E o Sentado tomou nas mos uma
foice afiada e gritou: Vibra a tua foice e ceifa, chegou a hora de ceifar porque est
madura a messa da terra; e Aquele que estava sentado vibrou a sua foice e a terra foi
ceifada.
   Foi ento que compreendi que de outra coisa no falava a viso seno de quanto
estava a acontecer na abadia e tnhamos colhido dos lbios reticentes do Abade - e
quantas vezes nos dias seguintes no voltei a contemplar o portal, seguro de viver a
prpria histria que ele contava. E compreendi que tnhamos subido at ali para ser
testemunhas de uma grande e celeste carnificina.
   Tremi, como se estivesse molhado pela chuva glida do inverno. E ouvi ainda uma
outra voz, mas desta vez ela vinha das minhas costas e era uma voz diferente, porque
partia da terra e no do centro fulgurante da minha viso; ou melhor, despedaava a
viso, porque tambm Guilherme (naquele momento apercebi-me da sua presena), at
ento perdido tambm ele na contemplao, se voltava como eu.
   O ser que estava atrs de ns parecia um monge, embora a tnica suja e rasgada o
fizesse assemelhar antes a um vagabundo, e o seu rosto no era diferente do dos
monstros que tinha acabado de ver nos capitis. Nunca me aconteceu na vida, como ao
invs aconteceu a muitos dos meus confrades, ser visitado pelo diabo, mas creio que se
ele me aparecesse um dia, incapaz por decreto divino de ocultar plenamente a sua
natureza, mesmo quando quisesse fazer-se semelhante ao homem, ele no teria feies
diferentes das que me apresentava naquele instante o nosso interlocutor. A cabea
raspada, no por penitncia mas sim pela ao remota de algum viscoso eczema, a testa
to baixa que se ele tivesse cabelos na cabea estes se teriam confundido com as
sobrancelhas (que tinha espessas e revoltas), os olhos eram redondos, de pupilas
pequenas e movedias, e o olhar no sei se inocente ou maligno, e talvez ambas as
coisas, a espaos e em momentos diversos. No se podia falar de nariz a no ser porque
um osso partia do meio dos olhos, mas, como se destacava do rosto, logo reentrava, no
se tornando mais do que duas escuras cavernas, narinas dilatadas e cheias de plos. A
boca, unida s narinas por uma cicatriz, era larga e desajeitada, mais esticada  direita
do que  esquerda, e entre o lbio superior, inexistente, e o inferior, proeminente e
carnudo, emergiam com ritmo irregular dentes negros e aguados como os de um co.
  O homem sorriu (ou pelo menos assim julguei) e, levantando o dedo como para
admoestar, disse:
   - Penitenciagite! Vide quando draco venturus est para ro-la a tua alma! A mortz est
super nos! Reza que vem o papa santo para livrar nos a malo de todas as peccata! Ah, ah,
gostais d'ista necromancia de Domini Nostri Iesu Christi! Et mesmo jois m'es dols e plazer
m'es dolors... Cave el diablo! Semper m'espreita em qualquer canto para me ferrar os
calcanhares. Mas Salvador non est insipiens! Bonum monasterium, e aqui se manja e se
roga dominum nostrum. Et el resto valet um figo seco. Et amen. No?
   Devo, no prosseguimento desta histria, falar ainda, e muito, desta criatura e referir
os seus discursos. Confesso que me  muito difcil faz-lo, porque no saberei dizer
agora, como nunca compreendi ento, que gnero de lngua ele falava. No era latim,
lngua em que nos exprimamos entre homens de letras na abadia, no era a lngua vulgar
daquelas terras, nem outra vulgar que jamais tivesse ouvido. Creio ter dado uma plida
idia do seu modo de falar referindo acima (tal como as recordo) as primeiras palavras
que lhe ouvi. Quando mais tarde soube da sua vida aventurosa e dos vrios lugares onde
tinha vivido, sem encontrar razes em nenhum, dei-me conta que Salvador falava todas
as lnguas e nenhuma. Ou melhor, tinha inventado uma lngua prpria usando os pedaos
das lnguas com que tinha entrado em contato - e uma vez pensei que a sua era no a
lngua admica que a humanidade feliz tinha falado, todos unidos por um s falar, desde
as origens do mundo at  Torre de Babel, e nem sequer uma das lnguas surgidas depois
do funesto evento da sua diviso, mas precisamente a lngua bablica do primeiro dia
depois do castigo divino, a lngua da confuso primeva. Nem por outro lado poderia
chamar lngua ao falar de Salvador, porque em todas as lnguas humanas h regras e cada
termo significa ad placitum uma coisa, segundo uma lei que no muda, porque o homem
no pode chamar ao co uma vez co e outra gato nem pronunciar sons aos quais o
consenso das pessoas no tenha atribudo um sentido definido, como aconteceria a quem
dissesse a palavra blitiri. E todavia, bem ou mal, eu compreendia o que Salvador
queria dizer, e os outros tambm. Sinal de que ele falava no uma mas todas as lnguas,
nenhuma de modo justo, tirando as suas palavras ora duma ora doutra. Apercebi-me
porm em seguida que ele podia nomear uma coisa ora em latim ora em provenal, e dei
conta que, mais do que inventar as suas prprias frases, ele usava disiecta membra de
outras frases, ouvidas um dia, segundo as situaes e as coisas que queria dizer, como se
s conseguisse falar de um alimento, creio, com as palavras das gentes junto das quais
tinha comido esse alimento, e exprimir a sua alegria s com sentenas que tinha ouvido
emitir a gente alegre, no dia em que ele tinha sentido igual alegria. Era como se o seu
falar fosse a imagem da sua cara, feita com pedaos de caras alheias, ou como vi por
vezes preciosos relicrios (silicet magnis componere parva, ou s coisas divinas as
diablicas) que nasciam dos detritos de outros objetos sacros. No momento em que o
encontrei pela primeira vez, Salvador apareceu-me, no s pelo seu rosto mas tambm
pelo seu modo de falar, um ser no dissemelhante dos cruzamentos pelosos e ungulados
que tinha acabado de ver sob o prtico. Mais tarde compreendi que era talvez um
homem de bom corao e humor faceto. Mais tarde ainda... Mas vamos por ordem. At
porque, mal ele tinha acabado de falar, o meu mestre interrogou-o com muita
curiosidade.
  - Porque disseste penitenciagite? - perguntou.
  - Domine frate magnificentisimo - respondeu Salvador com uma espcie de vnia -
Jesus venturus est et os homini debent facere penitentia. No?
  Guilherme olhou-o fixamente:
  - Vieste para aqui de algum convento de menoritas?
  - No entendo.
  - Pergunto se viveste com os frades de So Francisco, pergunto se conheceste os
chamados apstolos...
  Salvador empalideceu, ou melhor, o seu rosto bronzeado e beluno tornou-se cinzento.
Fez uma profunda vnia, pronunciou a meia voz um vade retro, persignou-se
devotamente e fugiu voltando-se para trs de quando em quando.
  - Que lhe haveis perguntado? - perguntei a Guilherme.
  Ele ficou um pouco pensativo.
  - No importa, digo-to depois. Agora entremos. Quero ver Ubertino.
   Pouco passava da hora sexta. O sol, plido, penetrava de ocidente, e assim por poucas
e estreitas janelas, no interior da igreja. Uma tnue faixa de luz tocava ainda o altar-
mor, cujo frontal me pareceu reluzir com um fulgor ureo. As naves laterais estavam
imersas na penumbra.
   Junto da ltima capela antes do altar, na nave da esquerda, erguia-se uma delicada
coluna, sobre a qual estava uma Virgem de pedra, esculpida no estilo dos modernos, de
sorriso inefvel, ventre proeminente, o menino nos braos, vestida de um traje gracioso,
com um fino colete. Aos ps da Virgem, em orao, quase prostrado, estava um homem,
vestido com o hbito da ordem clunicense.
   Aproximamo-nos. O homem, ouvindo o rudo dos nossos passos, levantou o rosto. Era
um velho, de rosto glabro, crnio sem cabelos, grandes olhos azuis, uma boca fina e
vermelha, a pele alva, o crnio ossudo a que a pele aderia como se fosse uma mmia
conservada em leite. As mos eram brancas, de dedos longos e finos. Parecia uma
menina emurchecida por uma morte precoce. Pousou sobre ns um olhar primeiro
perdido, como se o tivssemos perturbado numa viso exttica, depois o rosto iluminou-
se-lhe de alegria.
   - Guilherme! - exclamou. - Meu carssimo irmo! - Levantou-se com dificuldade e foi
ao encontro do meu mestre, abraando-o e beijando-o na boca.  Guilherme! - repetiu, e
os olhos umedeceram-se-lhe de pranto. - Quanto tempo! Mas ainda te reconheo! Quanto
tempo quantas vicissitudes! Quantas provas que o Senhor nos imps!
   Chorou. Guilherme retribuiu-lhe o abrao, visivelmente comovido. Encontrvamo-nos
diante de Ubertino de Casale.
   J tinha ouvido falar dele e longamente, ainda antes de vir para a Itlia, e mais ainda
quando freqentava os franciscanos da corte imperial. Algum me tinha at dito que o
maior poeta daqueles tempos, Dante Alighieri de Florena, morto h poucos anos, tinha
composto um poema (que eu no pude ler porque estava escrito em lngua vulgar
toscana) em que tinham posto a mo, o cu e a terra, e muitos dos seus versos no eram
mais do que uma parfrase de textos escritos por Ubertino no seu Arbor vitae crucifixae.
E no era este o nico ttulo de mrito daquele homem famoso. Mas para permitir ao
meu leitor compreender melhor a importncia daquele encontro terei de procurar
reconstituir as vicissitudes daqueles anos, tal como as tinha compreendido durante a
minha breve estada na Itlia Central por palavras dispersas do meu mestre e ouvindo os
muitos colquios que Guilherme tivera com abades e monges no decurso da nossa
viagem.
   Procurarei dizer o que tinha compreendido, ainda que no tenha a certeza de dizer
bem estas coisas. Os meus mestres de Melk tinham-me dito freqentemente que  muito
difcil para um nrdico ter idias claras sobre as vicissitudes religiosas e polticas da
Itlia.
  A pennsula, onde o poder do clero era mais evidente do que em qualquer outro pas e
onde, mais do que em qualquer outro pas, o clero ostentava poder e riqueza, tinha
gerado h pelo menos dois sculos movimentos de homens tendentes a uma vida mais
pobre, em polmica com os padres corruptos, de quem recusavam at os sacramentos
reunindo-se em comunidades autnomas malvistas, ao mesmo tempo pelos senhores,
pelo imprio e pelas magistraturas citadinas.
   Por fim tinha vindo So Francisco e tinha difundido um amor pela pobreza que no
contradizia os preceitos da Igreja, e por obra sua a Igreja tinha acolhido o apelo 
severidade de costumes daqueles antigos movimentos e tinha-os purificado dos
elementos de desordem que neles se aninhavam. Deveria ter-se seguido uma poca de
brandura e de santidade, mas, como a ordem franciscana crescia e atraia a si os homens
melhores, tornava-se demasiado poderosa e ligada a assuntos terrenos, e muitos
franciscanos quiseram reconduzi-la  pureza do passado. Coisa bastante difcil para uma
ordem que, nos tempos em que eu estava na abadia, j contava mais de trinta mil
membros espalhados por todo o mundo. Mas assim , e muitos destes frades de So
Francisco opunham-se  regra que a ordem se tinha dado, dizendo que a ordem j tinha
assumido as formas das instituies eclesisticas para cuja reforma tinha nascido, e que
isto j tinha acontecido no tempo em que Francisco era vivo, e que as suas palavras e os
seus propsitos tinham sido trados. Muitos deles descobriram ento o livro dum monge
cisterciense que tinha escrito no incio do sculo XII da nossa era, chamado Joaquim e a
quem se atribua esprito de profecia. De fato, ele tinha previsto o advento de uma nova
era, em que o esprito de Cristo, h algum tempo corrompido por obra dos seus falsos
apstolos, se realizaria de novo sobre a terra. E tinha anunciado tais prazos que a todos
parecera claro que ele falava sem o saber da ordem franciscana. E muitos franciscanos
tinham-se alegrado bastante com isto, parece que at de mais, tanto que a meio do
sculo em Paris os doutores da Sorbonne condenaram as proposies daquele abade
Joaquim, mas parece que o fizeram porque os franciscanos (e os dominicanos) estavam a
tornar-se demasiado poderosos e sapientes, na universidade de Frana, e queriam
elimin-los como hereges. O que depois no se fez, e foi um grande bem para a Igreja,
porque isto permitiu que fossem divulgadas as obras de Toms de Aquino e de
Boaventura de Bagnoregio, que certamente no eram hereges. Por isto se v que
tambm em Paris as idias estavam confusas, ou algum queria confundi-las com fins
pessoais. E este  o mal que a heresia faz ao povo cristo, que torna obscuras as idias e
leva todos a tornarem-se inquisidores pelo prprio bem pessoal. E tudo quanto vi mais
tarde na abadia e de que falarei depois) fez-me pensar que muitas vezes so os
inquisidores que criam os hereges. E no s no sentido de que os imaginam quando no
existem, mas porque reprimem com tanta veemncia a corrupo hertica que muitos
so levados a nela participar por dio contra eles. Na verdade, um crculo imaginado
pelo demnio, que Deus nos salve.
  Mas falava da heresia (se acaso o foi) joaquimita. E viu-se na Toscana um franciscano,
Gerardo de Borgo San Donnino, tornar-se o porta-voz das predies de Joaquim e
impressionar muito o ambiente dos frades menores. Surgiu assim entre eles uma ala de
defensores da regra antiga, contra a reorganizao tentada pelo grande Boaventura, que
depois se tinha tornado geral da ordem. Nos ltimos trinta anos do sculo passado,
quando o conclio de Lio, salvando a ordem franciscana contra quem a queria abolir, lhe
concedeu a propriedade de todos os bens que tinha em uso, como j era de lei para as
ordens mais antigas, alguns frades nas Marche rebelaram-se, porque consideravam que o
esprito da regra tinha sido definitivamente trado, na medida em que um franciscano
no deve possuir nada, nem pessoalmente, nem como convento, nem como ordem.
Meteram-nos na priso para toda a vida. No me parece que pregassem coisas contrrias
ao evangelho, mas quando entra em jogo a posse das coisas terrenas  difcil que os
homens raciocinem segundo a justia. Disseram-me que, anos depois, o novo geral da
ordem, Raimundo Gaufredi, encontrou estes prisioneiros em Ancona e, libertando-os,
disse: Quisesse Deus que todos ns e toda a ordem estivssemos manchados com essa
culpa. Sinal de que no  verdade aquilo que dizem os hereges e de que na Igreja
habitam ainda homens de grande virtude.
   Estava entre estes prisioneiros libertados Angelo Clareno que se encontrou depois com
um frade da Provena, Pedro de Joo Olivi, que pregava as profecias de Joaquim, e
depois com Ubertino de Casale, e da nasceu o movimento dos espirituais. Ascendia
naqueles anos ao trono pontifcio um eremita santssimo, Pedro de Morrone, que reinou
como Celestino V, e este foi acolhido com alvio pelos espirituais: Aparecer um santo,
tinha-se dito, e observar os ensinamentos de Cristo, ter uma vida anglica, tremei
prelados corruptos. Talvez Celestino tivesse uma vida demasiado anglica, ou os
prelados  sua volta fossem demasiado corruptos, ou ele no conseguisse suportar a
tenso de uma guerra j demasiado longa com o imperador e com os outros reis da
Europa; o fato  que Celestino renunciou  sua dignidade e retirou-se num eremitrio.
Mas no breve perodo do seu reinado, menos de um ano, as esperanas dos espirituais
foram todas satisfeitas: foram junto de Celestino, que fundou com eles a comunidade
dita dos fratres et pauperes heremitae domini Celestini. Por outro lado, enquanto o papa
tinha de fazer de mediador entre os mais poderosos cardeais de Roma, houve alguns
como um Colonna ou um Orsini, que secretamente apoiavam as novas tendncias de
pobreza: escolha na verdade bastante curiosa para homens to poderosos que viviam no
meio de comodidades e riquezas desmedidas, e nunca compreendi se simplesmente se
serviam dos espirituais para os seus fins de governo ou de algum modo se consideravam
justificados na sua vida carnal por apoiarem as tendncias espirituais, e talvez fossem
verdade ambas as coisas, pelo pouco que eu compreendo das coisas italianas. Mas,
precisamente para dar um exemplo, Ubertino tinha sido acolhido como capelo pelo
cardeal Orsini quando, tendo-se tornado o mais escutado dos espirituais, corria o risco de
ser acusado como herege. E o prprio cardeal lhe tinha servido de escudo em Avinho.
   Como acontece porm em tais casos, por um lado Angelo e Ubertino pregavam
segundo a doutrina, por outro grandes massas de simples aceitavam esta sua pregao e
espalhavam-se pelo pas, fora de qualquer controle. Assim a Itlia foi invadida por estes
fraticelli, ou frades de vida pobre, que muitos consideravam perigosos. Ento era difcil
distinguir os mestres espirituais, que mantinham contato com as autoridades
eclesisticas, e os seus seguidores mais simples, que simplesmente viviam j fora da
ordem, pedindo esmola e vivendo dia a dia do trabalho das suas mos, sem deter
propriedade alguma. Era a estes que a opinio pblica ento chamava fraticelli, pouco
diferentes dos beguinos franceses, que se inspiravam em Pedro de Joo Olivi.
   Celestino V foi substitudo por Bonifcio VIII, e este papa apressou-se em demonstrar
muito pouca indulgncia para com os espirituais e fraticelli em geral: precisamente nos
ltimos anos do sculo que findava assinou uma bula, Firma cautela, com a qual
condenava de um s golpe beatos, vagabundos mendicantes que erravam no limite
extremo da ordem franciscana e os prprios espirituais, ou melhor, aqueles que se
subtraam  vida da ordem para se entregarem ao ermo.
  Os espirituais tentaram depois obter o consenso de outros pontfices, como Clemente
V, para se poderem separar da ordem de modo no violento. Creio que o teriam
conseguido, mas o advento de Joo XXII tirou-lhes toda a esperana. Logo que foi eleito,
em 1316, ele escreveu ao rei da Siclia para que expulsasse estes frades das suas terras,
porque muitos ali se tinham refugiado, e mandou pr a ferros Angelo Clareno e os
espirituais da Provena.
  No deve ter sido uma empresa fcil, e muitos na cria lhe resistiram. O fato  que
Ubertino e Clareno conseguiram ser autorizados a abandonar a ordem e foram acolhidos
um pelos beneditinos e o outro pelos celestinos. Mas, para aqueles que continuaram a
seguir uma vida livre, Joo foi impiedoso e mandou-os perseguir pela inquisio, e
muitos foram queimados.
   Ele tinha compreendido porm que para destruir a planta m dos fraticelli, que
minavam a base da autoridade da Igreja, era preciso condenar as proposies sobre as
quais eles baseavam a sua f. Eles defendiam que Cristo e os apstolos no tinham tido
propriedade alguma, nem individual nem comum, e o papa condenou como hertica esta
idia. Coisa surpreendente, porque no se v por que razo um papa deve considerar
perversa a idia de que Cristo era pobre: mas  que precisamente um ano antes se tinha
reunido o captulo geral dos franciscanos, em Perugia, que tinha defendido esta opinio,
e, condenando uns, o papa condenava tambm o outro. Como j disse, o captulo
causava grande prejuzo  sua luta contra o imperador, este  o fato. Assim, desde
ento, muitos fraticelli, que nada sabiam nem do imperador nem de Perugia, morreram
queimados.
   Pensava eu nestas coisas ao olhar para um personagem lendrio como Ubertino. O meu
mestre tinha-me apresentado, e o velho tinha-me acariciado a face, com uma mo
quente, quase ardente. Ao toque daquela mo, eu tinha compreendido muitas das coisas
que tinha ouvido sobre aquele santo homem e outras que tinha lido nas pginas de Arbor
Vitae; compreendia o fogo mstico que o tinha devorado desde a juventude, quando,
ainda estudante em Paris, se tinha retirado das especulaes teolgicas e tinha
imaginado que se transformara na Madalena penitente; e as relaes to intensas que
tinha mantido com Santa Angela de Foligno, que o tinha iniciado nos tesouros da vida
mstica e na adorao da cruz; e porque os seus superiores um dia, preocupados com o
ardor da sua pregao, o tinham mandado retirar para Verna.
   Perscrutava aquele rosto de traos suavssimos como os da santa com quem tinha
estado em fraterno comrcio de espiritualssimos sentidos. Intua que devia ter sabido
adotar traos bem mais duros quando, em 1311, o conclio de Viena, com a decretal Exivi
di paradiso, tinha eliminado os superiores franciscanos hostis aos espirituais, mas tinha
imposto a estes ltimos que vivessem em paz no seio da ordem, e este campeo da
renncia no tinha aceitado aquele prudente compromisso e tinha-se batido para que
fosse constituda uma ordem independente, inspirada no mximo rigor. Este grande
combatente tinha ento perdido a sua batalha, porque naqueles anos Joo XXII
propugnava uma cruzada contra os seguidores de Pedro de Joo Olivi (entre os quais ele
prprio se contava) e condenava os frades de Narbona e Bziers. Mas Ubertino no tinha
hesitado em defender diante do papa a memria do amigo, e o papa, subjugado pela sua
santidade, no tinha ousado conden-lo (embora depois tenha condenado os outros).
Mais, naquela ocasio tinha-lhe oferecido uma via de salvao, primeiro aconselhando-o
e depois ordenando-lhe que entrasse na ordem clunicense. Ubertino, que devia ser
igualmente hbil (ele aparentemente to desarmado e frgil) a conquistar protees e
alianas na corte pontifcia, tinha sim aceitado entrar no mosteiro de Gemblach, na
Flandres, mas creio que nunca tinha l ido, e tinha ficado em Avinho, sob a proteo do
cardeal Orsini, para defender a causa dos franciscanos.
  S nos ltimos tempos (e os rumores que tinha ouvido eram confusos) a sua fortuna na
corte tinha declinado, e ele tivera de se afastar de Avinho enquanto o papa mandava
perseguir este homem indomvel como herege que per mundus discurrit vagabundus.
Dele dizia-se que se tinha perdido o rasto. Durante a tarde soubera, pelo dilogo entre
Guilherme e o Abade, que ele estava agora escondido nesta abadia. E agora via-o diante
de mim.
   - Guilherme - ia ele dizendo -, estavam a ponto de me matar, sabes, tive de fugir pela
calada da noite.
  - Quem te queria ver morto? Joo?
   - No. Joo nunca me amou, mas respeitou-me sempre. No fundo, foi ele que me
ofereceu um modo de fugir ao processo, h dez anos, obrigando-me a entrar nos
beneditinos, e com isto fazia calar os meus inimigos. Murmuraram por muito tempo,
ironizavam sobre o fato de um defensor da pobreza entrar numa ordem to rica e viver
na corte do cardeal Orsini... Guilherme, tu sabes quanto me importam as coisas desta
terra! Mas era o nico modo de ficar em Avinho e defender os meus irmos. O papa tem
medo de Orsini, jamais me tocaria num cabelo. Ainda h trs anos me mandou como
mensageiro junto do rei de Arago.
  - Ento quem te queria mal?
  - Todos. A cria. Tentaram assassinar-me duas vezes. Tentaram fazer-me calar. Tu
sabes o que aconteceu h cinco anos. Tinham sido condenados h dois anos os beguinos
de Narbona, e Berengrio Talloni, que at era um dos juizes, apelou para o papa. Eram
momentos difceis, Joo tinha j emitido duas bulas contra os espirituais, e o prprio
Miguel de Cesena tinha cedido... a propsito, quando chega ele?
  - Estar aqui dentro de dois dias.
  - Miguel... H tanto tempo que no o vejo. Agora arrependeu-se, compreende o que
queramos, o captulo de Perugia deu-nos razo. Mas ento, ainda em 1318, cedeu ao
papa e ps-lhe nas mos cinco espirituais da Provena que resistiam  submisso.
Queimados, Guilherme... Oh,  horrvel!
  Escondeu a cabea entre as mos.
  - Mas que aconteceu exatamente depois do apelo de Talloni? - perguntou Guilherme.
  - Joo devia reabrir o debate, compreendes? Devia, porque mesmo na cria havia
homens que duvidavam, at os franciscanos da cria... fariseus, sepulcros caiados,
prontos a vender-se por uma prebenda, mas duvidavam. Foi ento que Joo me pediu
para apresentar uma memria sobre a pobreza. Foi uma coisa bela, Guilherme, Deus me
perdoe o orgulho...
  - Li-a, Miguel mostrou-ma.
  - Havia titubeantes, mesmo entre os nossos, o provincial de Aquitania, o cardeal de
San Vitale, o bispo de Caffa...
  - Um imbecil - disse Guilherme.
  - Descanse em paz, voou para junto de Deus h dois anos.
   - Deus no foi to misericordioso. Foi uma falsa noticia chegada de Constantinopla.
Est ainda entre ns, dizem-me que far parte da legao. Deus nos proteja!
  - Mas  favorvel ao captulo de Perugia - disse Ubertino.
  - Exatamente. Pertence quela raa de homens que so sempre os melhores
defensores do seu adversrio.
  - Para falar verdade - disse libertino -, tambm ento no ajudou muito a causa. E
depois tudo acabou em nada, de fato, mas pelo menos no se estabeleceu que a idia
era hertica, e isto foi importante. Por isso os outros nunca me perdoaram. Procuraram
prejudicar-me de todas as maneiras, disseram que estive em Sachsenhausen quando Lus
h trs anos proclamou Joo hertico. E no entanto todos sabiam que em Julho eu estava
em Avinho com Orsini... Acharam que partes da declarao do imperador refletiam as
minhas idias, que loucura.
  - No tanto como isso - disse Guilherme. - As idias tinha-lhas dado eu, tirando-as da
tua declarao de Avinho e de algumas pginas de Olivi.
  - Tu? - exclamou, entre estupefato e alegre, Ubertino.  Mas ento ds-me razo!
  Guilherme pareceu embaraado:
  - Eram boas idias para o imperador, naquele momento  disse evasivamente.
  Ubertino olhou-o com desconfiana.
  - Ah, mas tu no crs verdadeiramente nelas, no  verdade?
  - Conta outra vez - disse Guilherme -, conta como te salvaste daqueles ces.
  - Oh sim, ces, Guilherme. Ces raivosos. Achei-me a combater com o prprio
Bonagrazia, sabes?
  - Mas Bonagrazia de Brgamo est conosco!
   - Agora, depois de eu ter falado longamente com ele. S naquela altura se convenceu
e protestou contra a Ad conditorem canonum. E o papa aprisionou-o por um ano.
  - Ouvi dizer que agora est prximo de um amigo meu que est na cria, Guilherme de
Occam.
  - Conheci-o pouco. No me agrada. Um homem sem fervor, s cabea, sem corao.
  - Mas  uma bela cabea.
  - Pode ser, e lev-lo- ao inferno.
  - Ento voltarei a v-lo l embaixo, e discutiremos com lgica.
   - Cala-te, Guilherme - disse Ubertino, sorrindo com intenso afeto -, tu s melhor que
os teus filsofos. Se apenas tivesses querido...
  - O qu?
  - Quando nos vimos a ltima vez na Umbria? Lembras-te? Acabava de ser curado dos
meus males pela intercesso daquela mulher maravilhosa... Clara de Montefalco... -
murmurou com o rosto radioso. - Clara... Quando a natureza feminina, naturalmente to
perversa, se sublima na santidade, ento sabe tornar-se o mais alto veculo da graa.
Sabes como a minha vida se inspirou na castidade mais pura, Guilherme - tinha-o
agarrado por um brao, convulsivamente -, sabes com que... feroz (sim,  a palavra
exata), com que feroz sede de penitncia tentei mortificar em mim as palpitaes da
carne, para me tornar totalmente transparente ao amor de Jesus Crucificado... E no
entanto trs mulheres na minha vida foram para mim trs mensageiros celestes. Angela
de Foligno, Margarida de Citt di Castello (que me antecipou o fim do meu livro quando
eu s tinha escrito um tero) e finalmente Clara de Montefalco. Foi um prmio do cu
que eu, precisamente eu, tivesse de indagar sobre os seus milagres e proclamar a sua
santidade s multides, antes que a santa madre Igreja se movesse. E tu estavas l,
Guilherme, e podias ajudar-me naquela santa empresa, e no quiseste...
  - Mas a santa empresa para que me convidava era mandar para a fogueira Bentivenga,
Jacomo e Giovannuccio - disse lentamente Guilherme.
  - Estavam a ofuscar a memria dela com as suas perverses. E tu eras inquisidor!
  - E foi precisamente ento que pedi para me libertarem daquele encargo. A histria
no me agradava. Serei franco: tambm no me agradou o modo como induziste
Bentivenga a confessar os seus erros. Fingiste querer entrar na sua seita, se  que era
uma seita, extorquiste-lhe os segredos e mandaste-o prender.
  - Mas  assim que se procede contra os inimigos de Cristo! Eram hereges, eram
pseudo-apstolos, tresandavam ao enxofre de frei Dolcino!
  - Eram os amigos de Clara.
  - No, Guilherme, no toques nem sequer com uma sombra na memria de Clara!
  - Mas circulavam no seu grupo...
  - Eram menoritas, diziam-se espirituais, e afinal eram frades da comunidade! Mas tu
sabes que foi claro, no inqurito, que Bentivenga de Gubbio se proclamava apstolo, e
depois com Giovannuccio de Bevagna seduzia as monjas dizendo-lhes que o inferno no
existia, que se podem satisfazer desejos carnais sem ofender a Deus, que se pode
receber o corpo de Cristo (perdoa-me, Senhor!) depois de ter estado deitado com uma
monja, que o Senhor preferiu Madalena  Virgem Ins, que aquilo que o vulgo chama
demnio  o prprio Deus, porque o demnio  a sabedoria e Deus  precisamente
sabedoria! E foi a beata Clara que, depois de lhes ter ouvido dizer estas coisas teve
aquela viso em que o prprio Deus lhe disse que aqueles homens eram malvados
sequazes do Spiritus Libertatis!
  - Eram menoritas com a mente inflamada pelas mesmas vises de Clara, e muitas
vezes vai apenas um passo entre viso exttica e frenesim de pecado - disse Guilherme.
  Ubertino apertou-lhe as mos e os olhos velaram-se-lhe outra vez de lgrimas:
   - No digas isso, Guilherme. Como podes confundir o momento do amor exttico, que
te queima as vsceras com o perfume do incenso, e o desregramento dos sentidos que
sabe a enxofre? Bentivenga instigava a tocar os membros de um corpo nu, afirmava que
s assim se obtm a libertao do imprio dos sentidos, homo nudus cum nuda iacebat...
  - Et non commiscebantur ad invicem...
  - Mentiras! Procuravam o prazer, se o estmulo carnal se fazia sentir, eles no
reputavam pecado que para o aquietar homem e mulher fizessem juntos, e um tocasse e
beijasse o outro em todas as partes, e aquele juntasse o seu ventre nu ao ventre nu
desta!
   Confesso que o modo como Ubertino estigmatizava o vcio alheio no me induzia a
pensamentos virtuosos. O meu mestre deve ter-se apercebido que eu estava perturbado
e interrompeu o santo homem.
  - s um esprito ardente, Ubertino, no amor de Deus como no dio contra o mal.
Aquilo que queria dizer  que h pouca diferena entre o ardor dos Serafins e o ardor de
Lucfer, porque nascem ambos de uma inflamao extrema da vontade.
   - Oh, a diferena existe, e eu conheo-a! - disse inspirado Ubertino. - Tu queres dizer
que entre querer o bem e querer o mal vai um pequeno passo, porque se trata sempre de
dirigir a mesma vontade. Isso  verdade. Mas a diferena est no objeto, e o objeto 
limpidamente reconhecvel. Dum lado Deus, do outro o diabo.
   - E eu temo j no saber distinguir, Ubertino. No foi a tua Angela de Foligno que
contou que um dia, arrebatada em esprito, esteve no sepulcro de Cristo? No disse que
primeiro lhe beijou o peito e o viu jazer com os olhos fechados, depois lhe beijou a boca
e sentiu subir daqueles lbios um inenarrvel odor de douras, e depois de uma breve
pausa pousou a sua face sobre a face de Cristo e Cristo aproximou a sua mo da face dela
e estreitou-a contra si e (assim disse ela) o seu regozijo foi altssimo?...
  - Que tem a ver isso com o mpeto dos sentidos?  perguntou Ubertino. - Foi uma
experincia mstica, e o corpo era o de Nosso Senhor.
  - Talvez me tenha habituado a Oxford - disse Guilherme -, onde at a experincia
mstica era de outro gnero...
  - Toda na cabea - sorriu Ubertino.
   - Ou nos olhos. Deus sentido como luz, nos raios do Sol, nas imagens dos espelhos, na
difuso das cores sobre as partes da matria ordenada, nos reflexos do dia sobre as
folhas molhadas... No est este amor mais prximo do de Francisco quando louva Deus
nas suas criaturas, flores, ervas, gua, ar? No creio que deste tipo de amor possa vir
insdia alguma. Porm, no me agrada um amor que transfere para o colquio com o
Altssimo os arrepios que se sentem nos contatos da carne...
  - Tu blasfemas, Guilherme! No  a mesma coisa. H um salto, imenso, para baixo,
entre o xtase do corao amante de Jesus Crucificado e o xtase corrupto dos pseudo-
apstolos de Montefalco...
  - No eram pseudo-apstolos, eram irmos do Livre Esprito, tu prprio o disseste.
   - E que diferena faz? Tu no soubeste tudo daquele processo, eu prprio no me
atrevi a pr nas atas certas confisses, para no aflorar sequer por um instante com a
sombra do demnio a atmosfera de santidade que Clara tinha criado naquele lugar. Mas
soube de certas coisas, de certas coisas, Guilherme! Reuniam-se pela calada da noite
numa cave, pegavam num menino recm-nascido, atiravam-no uns aos outros, at que
ele morria, de pancadas... ou de outra coisa... E quem o recebia vivo pela ltima vez,
para morrer nas suas mos, tornava-se o chefe da seita... E o corpo do menino era
dilacerado e misturado com farinha, para fazer hstias blasfemas.
  - Ubertino - disse firmemente Guilherme -, essas coisas foram ditas, h muitos sculos,
pelos bispos armnios, da seita dos paulicianos, e dos bogomilos.
  - E que importa? O demnio  obtuso, segue um ritmo nas suas insdias e nas suas
sedues, repete os prprios ritos  distancia de milnios, ele  sempre o mesmo,
precisamente por isso se reconhece como o inimigo! Juro-te, acendiam velas, na noite de
Pscoa, e levavam meninas para a cave. Depois apagavam as velas e atiravam-se a elas,
mesmo que estivessem ligadas a eles por laos de sangue... E se deste amplexo nascia
um menino, recomeava o rito infernal, todos em torno de um vaso cheio de vinho, a
que chamavam barrilete, a embriagarem-se, e cortavam em pedaos o menino, e
deitavam-lhe o sangue numa taa, e atiravam meninos ainda vivos para o fogo, e
misturavam as cinzas do menino, o seu sangue, e bebiam-no!
   - Mas isso escrevia-o Miguel Psello no livro sobre as operaes dos demnios, h
trezentos anos! Quem te contou essas coisas!
  - Eles, Bentivenga e os outros, e sob tortura!
   - H s uma coisa que excita os animais mais do que o prazer,  a dor. Sob tortura
vives como sob o efeito de ervas que provocam vises. Tudo o que ouviste contar, tudo o
que leste, volta  tua mente como se fosses arrebatado no para o cu mas para o
inferno. Sob tortura dizes no s aquilo que o inquisidor quer mas tambm aquilo que
imaginas que lhe pode dar prazer, porque se estabelece uma ligao (esta sim,
verdadeiramente diablica) entre ti e ele... So coisas que conheo, Ubertino, tambm
eu fiz parte daqueles grupos de homens que crem produzir a verdade com o ferro
incandescente. Pois bem, fica sabendo que a incandescncia da verdade  de outra
chama. Sob tortura, Bentivenga pode ter dito as mentiras mais absurdas, porque j no
era ele que falava mas a sua luxria, os demnios da sua alma.
  - Luxria!
   - Sim, h uma luxria da dor, como h uma luxria da adorao e at uma luxria da
humildade. Se bastou to pouco aos anjos rebeldes para mudarem o seu ardor de
adorao e humildade em ardor de soberba e de revolta, que dizer de um ser humano?
Pronto, agora j sabes, foi este pensamento que me atingiu no decurso das minhas
inquisies. E foi por isto que renunciei quela atividade. Faltou-me a coragem de
inquirir sobre as fraquezas dos malvados, porque descobri que so as mesmas fraquezas
dos santos.
  Ubertino tinha escutado as ltimas palavras de Guilherme como se no compreendesse
aquilo que ele dizia. Pela expresso do seu rosto, cada vez mais inspirado de afetuosa
comiserao, compreendi que ele considerava Guilherme presa de sentimentos muito
culpveis, que ele perdoava porque muito o amava. Interrompeu-o e disse em tom
bastante amargo:
  - No importa. Se sentias isso, fizeste bem em parar.  preciso combater as tentaes.
Porm, faltou-me o teu apoio, e podamos ter desbaratado aquele bando de malvados. E,
pelo contrrio, sabes o que aconteceu, eu prprio fui acusado de ser demasiado fraco
com eles, e fui suspeito de heresia. Tambm tu foste demasiado fraco no combate ao
mal. O mal, Guilherme: no cessar nunca esta condenao, esta sombra, esta lama que
nos impede de tocar a fonte? - Aproximou-se ainda mais de Guilherme, como se tivesse
receio que algum o ouvisse - Tambm aqui, tambm entre estas paredes consagradas 
orao, sabes?
  - Sei, o Abade falou-me, pediu-me at que o ajudasse a fazer luz sobre isso.
  - Ento espia, escava, olha com olho de lince em duas direes, a luxria e a
soberba...
  - A luxria?
   - Sim, a luxria. Havia qualquer coisa de... de feminino, e portanto de diablico,
naquele jovem que morreu. Tinha olhos de rapariga que busca o comrcio com um
incubo. Mas disse-te tambm a soberba, a soberba da mente, neste mosteiro consagrado
ao orgulho da palavra,  iluso da sabedoria...
  - Se sabes alguma coisa, ajuda-me.
   - No sei nada. No h nada que eu saiba. Mas certas coisas sentem-se com o corao.
Deixa falar o teu corao, interroga os rostos, no escutes as lnguas... Mas, vamos l,
porque havemos de falar destas tristezas e atemorizar este nosso jovem amigo? - Olhou-
me com os seus olhos azuis, aflorando a minha face com os seus dedos longos e brancos,
e quase tive o instinto de me retrair; contive-me, e fiz bem, porque o teria ofendido, e a
sua inteno era pura. - Fala-me antes de ti - disse, dirigindo-se de novo a Guilherme. -
Que fizeste desde ento? Passaram-se...
  - Dezoito anos. Voltei para as minhas terras. Estudei ainda em Oxford. Estudei a
natureza.
  - A natureza  boa, porque  filha de Deus - disse Ubertino.
   - E Deus deve ser bom, se gerou a natureza - sorriu Guilherme. - Estudei, encontrei
amigos muito sbios. Depois conheci Marslio, atraram-me as suas idias sobre o imprio,
sobre o povo, sobre uma nova lei para os reinos da terra, e assim acabei naquele grupo
dos nossos confrades que esto aconselhando o imperador. Mas estas coisas sabe-las,
tinha-te escrito. Exultei quando em Bobbio me disseram que estavas aqui. Julgvamos-te
perdido. Mas agora que ests conosco poders ser-nos de grande auxlio dentro de alguns
dias, quando chegar Miguel. Ser um duro embate.
  - No terei a dizer muito mais do que j disse h cinco anos em Avinho. Quem vem
com Miguel?
  - Alguns que foram ao captulo de Perugia, Arnaldo de Aquitania, Hugo de Newcastle...
  - Quem? - perguntou Ubertino.
   - Hugo de Novocastro, desculpa-me, uso a minha lngua mesmo quando falo em bom
latim. E depois Guilherme Alowick. E por parte dos franciscanos avinhonenses podemos
contar com Jeronimo, o tolo de Caffa, e talvez venham Berengrio Talloni e Bonagrazia
de Brgamo.
  - Esperemos em Deus - disse Ubertino -, estes ltimos no querero inimizar-se
demasiado com o papa. E quem estar para defender as posies da cria, quero dizer,
entre os duros de corao?
  - Pelas cartas que recebi, imagino que viro Loureno Decoalcone...
  - Um homem maligno...
  - Joo d'Anneaux...
  - Esse  sutil em teologia, livra-te dele.
  - Dele nos livraremos. E finalmente Joo de Baune.
  - Haver-se- com Berengrio Talloni.
  - Sim, creio mesmo que nos divertiremos - disse o meu mestre de timo humor.
  Ubertino olhou-o com um sorriso duvidoso.
   - Nunca percebo quando vs, ingleses, falais seriamente. No h nada de divertido
numa questo to grave. Est em jogo a sobrevivncia da ordem, que  a tua e que no
fundo do corao  ainda a minha. Mas eu hei-de esconjurar Miguel para que no v a
Avinho. Joo quere-o, procura-o, convida-o com demasiada insistncia. Desconfiai
daquele velho francs. Oh, Senhor, em que mos caiu a tua Igreja! - Voltou a cabea
para o altar. - Transformada em meretriz, amolecida pelo luxo, revolve-se na luxria
como uma serpente no cio! Da pureza nua do estbulo de Belm, lenho como foi lenho o
lignum vitae da cruz, s bacanais de ouro e de pedra, olha, nem aqui, viste o portal, nos
subtramos ao orgulho das imagens! Ento enfim prximos os dias do Anticristo, e eu
tenho medo, Guilherme! - Olhou em torno, fixando o olhar desvairado entre as naves
obscuras, como se o Anticristo fosse aparecer de um momento para o outro, e eu na
verdade esperava avist-lo.  Os seus lugares-tenentes j aqui esto, mandados como
Cristo mandou os apstolos pelo mundo! Esto calcando aos ps a Cidade de Deus,
seduzem com o engano, a hipocrisia e a violncia. Ser ento que Deus dever mandar os
seus servos, Elias e Enoch, que ele conservou ainda em vida no paraso terrestre para que
um dia confundam o Anticristo, e viro profetizar vestidos de burel, e pregaro a
penitncia com o exemplo e com a palavra...
  - J vieram, Ubertino - disse Guilherme, mostrando o seu saio de franciscano.
  - Mas ainda no venceram;  o momento em que o Anticristo, cheio de furor, mandar
matar Enoch e Elias e os seus corpos para que todos os possam ver e tenham medo de
querer imit-los. Tal como queriam matar-me a mim...
   Naquele momento, aterrado, eu pensava que Ubertino era vtima de uma espcie de
divina mania, e temi pela sua razo. Agora,  distancia no tempo, sabendo aquilo que
sei, isto , que alguns anos depois foi misteriosamente morto numa cidade alem, e
nunca se soube por quem, fico mais aterrado ainda, porque evidentemente naquela noite
Ubertino profetizava.
   - Sabes, o abade Joaquim tinha dito a verdade. Chegamos  sexta era da histria
humana, em que aparecero dois Anticristos, o Anticristo mstico e o Anticristo
propriamente dito; isto  o que acontece agora na sexta poca, desde que apareceu
Francisco a configurar na sua prpria carne as cinco chagas de Jesus Crucificado.
Bonifcio foi o Anticristo mstico, e a abdicao de Celestino no foi vlida, Bonifcio foi
a besta que veio do mar cujas sete cabeas representam as ofensas aos pecados capitais
e os dez cornos as ofensas aos mandamentos, e os cardeais que o rodeavam eram os
gafanhotos cujo corpo  Appolyon! Mas o nmero da besta, se lhe leres o nome em letras
gregas,  Benedicti! - Fixou-me para ver se eu tinha compreendido e levantou um dedo
admoestando-me. - Bento XI foi o Anticristo propriamente dito, a besta que ascende da
terra! Deus permitiu que tal monstro de vcio e de iniqidade governasse a sua Igreja
para que as virtudes do seu sucessor resplandecessem de glria!
  - Mas, padre santo - objetei com um fio de voz, enchendo-me de coragem -, o seu
sucessor  Joo!
   Ubertino ps a mo na fronte como para afastar um sonho molesto. Respirava com
dificuldade, estava cansado.
   - Pois. Os clculos estavam errados, estamos ainda esperando o papa anglico... Mas
entretanto apareceram Francisco e Domingos. - Levantou os olhos ao cu e disse como
rezando (mas tive a certeza que estava recitando uma pgina do seu grande livro sobre a
rvore da vida): - Quorum primus seraphico calculo purgatus et ardore celico
inflammatus totum incendere videbatur. Secundus vero verbo predicationis fecundus
super mundi tenebras clarius radiavit... Sim, se estas foram as promessas, o papa
anglico ter de vir.
  - E assim seja, Ubertino - disse Guilherme. - Entretanto, eu estou aqui para impedir
que seja expulso o imperador humano. Do teu papa anglico falava tambm frei
Dolcino...
  - No voltes a pronunciar o nome dessa serpente!  gritou Ubertino, e pela primeira
vez o vi transformar-se, de amargurado que estava, em irritado. - Ele sujou a palavra de
Joaquim de Calbria e fez dela fonte de morte e imundcie! Mensageiro do Anticristo, se
por acaso os houve. Mas tu, Guilherme, falas assim porque na verdade no crs no
advento do Anticristo e os teus mestres de Oxford ensinaram-te a idolatrar a razo
endurecendo as capacidades profticas do teu corao!
  - Enganas-te, Ubertino - respondeu com muita seriedade Guilherme. - Tu sabes que
venero, mais do que qualquer outro entre os meus mestres, Roger Bacon...
  - Que devaneava sobre mquinas voadoras - motejou amargamente Ubertino.
   - Que falou clara e limpidamente sobre o Anticristo, descobriu-lhe os sinais na
corrupo do mundo e no enfraquecimento da sabedoria. Mas ensinou que h s um
modo de nos prepararmos para a sua vinda: estudar os segredos da natureza, usar o
saber para melhorar o gnero humano. Podes preparar-te para combater o Anticristo
estudando as virtudes curativas das ervas, a natureza das pedras, e at projetando as
mquinas voadoras de que sorris.
  - O Anticristo do teu Bacon era um pretexto para cultivar o orgulho da razo.
  - Santo pretexto.
  - Nada que sirva de pretexto  santo. Guilherme, sabes que te amo. Sabes que confio
muito em ti. Castiga a tua inteligncia, aprende a chorar sobre as chagas do Senhor,
deita fora os teus livros.
  - Ficarei s com o teu - sorriu Guilherme.
  Ubertino sorriu tambm e ameaou-o com o dedo:
  - Ingls tonto. E no te rias demasiado dos teus semelhantes. Ou melhor, aqueles que
no podes amar, teme-os. E tem cuidado com a abadia. Este lugar no me agrada.
  - Quero justamente conhec-lo melhor - disse Guilherme, despedindo-se. - Vamos,
Adso.
  - Eu digo-te que no  bom, e tu dizes que queres conhec-lo. Ah! - disse Ubertino,
abanando a cabea.
  - A propsito - disse ainda Guilherme j a meio da nave -, quem  aquele monge que
parece um animal e fala a lngua de Babel?
   - Salvador? - voltou-se Ubertino, que j se tinha ajoelhado. - Creio que fui eu a do-lo
a esta abadia... Juntamente com o despenseiro. Quando deixei o saio franciscano voltei
por algum tempo ao meu velho convento de Casale, e ali encontrei outros frades em
angstias, porque a comunidade os acusava de serem espirituais da minha seita.. . assim
se exprimiam. Empenhei-me em seu favor, obtendo que pudessem seguir o meu
exemplo. E dois, Salvador e Remgio, encontrei-os precisamente aqui, quando c cheguei
o ano passado. Salvador... Na verdade, parece um bicho. Mas  servial.
  Guilherme hesitou um instante.
  - Ouvi-o dizer penitenciagite.
  Ubertino calou-se. Moveu uma mo como para afastar um pensamento molesto.
   - No, no creio. Sabes como so estes irmos laicos. Gente do campo, que ouviu
talvez algum pregador ambulante, e no sabe o que diz. A Salvador terei outra coisa a
censurar:  um bicho guloso e luxurioso. Mas nada, nada contra a ortodoxia. No, o mal
da abadia  outro, procura-o em quem sabe de mais, no em quem no sabe nada. No
construas um castelo de suspeitas sobre uma palavra.
  - Jamais o farei - respondeu Guilherme. - Deixei de ser inquisidor precisamente para
no fazer isso. Porm, agrada-me escutar tambm as palavras, e depois penso nelas.
   - Tu pensas de mais. Rapaz - disse, dirigindo-se a mim -, no tires demasiados maus
exemplos do teu mestre. A nica coisa em que se deve pensar, e dou-me conta disso no
fim da minha vida,  na morte. Mors est quies viatoris, finis est omnis laboris. Deixai-me
rezar.
  PRIMEIRO DIA
  CERCA DE NONA
  Onde Guilherme tem um dilogo doutssimo com Severino, o ervanrio.
   Voltamos a percorrer a nave central e samos pelo portal que nos dera entrada. Tinha
ainda as palavras de Ubertino, todas, a zumbir na minha cabea.
  -  um homem... estranho - ousei dizer a Guilherme.
   - , ou foi, em muitos aspectos, um grande homem. Mas precisamente por isso 
estranho. S os homens pequenos  que parecem normais. Ubertino podia ter-se tornado
um dos hereges que contribuiu para mandar queimar ou um cardeal da santa igreja
romana. Andou muito perto de ambas as perverses. Quando falo com Ubertino tenho a
impresso que o inferno  o paraso visto do outro lado.
  No compreendi o que queria dizer:
  - De que lado? - perguntei.
  - Pois  - admitiu Guilherme -, trata-se de saber se existem partes e se existe um
todo. Mas no me ds ouvidos. E no olhes mais para aquele portal - disse, batendo-me
levemente na nuca enquanto eu me voltava atrado pelas esculturas que tinha visto 
entrada. - Por hoje j te assustaram bastante. Todos.
   Enquanto me voltava para a sada, vi diante de mim outro monge. Podia ter a mesma
idade de Guilherme. Sorriu-nos e saudou-nos com urbanidade. Disse que era Severino de
Sant Emmerano, e que era o padre ervanrio, que cuidava dos balnea, do hospital e dos
hortos, e que estava  nossa disposio se quisssemos orientar-nos melhor no recinto da
abadia.
   Guilherme agradeceu-lhe e disse que j tinha notado, ao entrar, o belssimo horto que
lhe parecia conter no s ervas comestveis mas tambm plantas medicinais, pelo que se
podia ver atravs da neve.
   -No vero ou na primavera, com a variedade das suas ervas, e cada uma adornada das
suas flores, este horto canta melhor os louvores do Criador - disse Severino  maneira de
desculpa.  Mas tambm nessa estao o olho do ervanrio v atravs dos ramos secos as
plantas que viro e pode dizer-te que este horto  mais rico do que qualquer herbrio, e
mais variegado, por mais belas que sejam as miniaturas deste. E depois tambm no
Inverno crescem as ervas boas, e outras tenho-as recolhidas e prontas nos vasos que
tenho no laboratrio. Assim, com as razes da azedinha curam-se os catarros, e com o
decocto de razes de altia fazem-se compressas para as doenas da pele, com a bardana
cicatrizam-se os eczemas, triturando e moendo o rizoma da bistorta curam-se as
diarrias e alguns males das mulheres, a pimenta  um bom digestivo, a tussilagem faz
bem  tosse, e temos uma boa genciana para digerir, e o regoliz, e o zimbro para fazer
uma boa infuso, o sabugo cuja casca serve para fazer um decocto para o fgado, a
saponria para macerar as razes em gua fria, para o catarro, e a valeriana cujas
virtudes certamente conheceis.
  - Tendes ervas diversas e que se do em climas diversos. Como assim?
   - Por um lado, devo-o  misericrdia do Senhor, que colocou o nosso planalto a cavalo
de uma cadeia que v o mar ao sul, e dele recebe os ventos quentes, e a setentrio a
montanha, mais alta, donde recebe os blsamos silvestres. E, por outro lado, devo-o ao
hbito da arte, que indignamente adquiri por vontade dos meus mestres. Certas plantas
crescem mesmo em clima adverso se lhe cuidares o terreno circunstante, a nutrio e o
crescimento.
  - Mas tambm tendes plantas boas s para comer? - perguntei.
  - Meu jovem potro esfomeado, no h plantas boas para comer que no sejam boas
tambm para curar, desde que tomadas na justa medida. S o excesso as torna causa de
doena. Por exemplo, a abbora.  de natureza fria e mida, e mitiga a sede, mas com-
la estragada provoca diarria, e deves apertar as vsceras com uma mistura de salmoura
e mostarda. E as cebolas? Quentes e midas, poucas, aumentam a potncia do coito,
naturalmente para aqueles que no pronunciaram os nossos votos, demasiadas provocam
peso na cabea e so combatidas com leite e vinagre. Boa razo - acrescentou com
malcia - para que um jovem monge as coma sempre com parcimnia. Come antes alho.
Quente e seco,  bom contra os venenos. Mas no exageres, faz expelir demasiados
humores do crebro. Os feijes, pelo contrrio, produzem urina e engordam, duas coisas
muito boas. Mas provocam sonhos maus. Muito menos porm do que certas outras ervas,
porque tambm as h que provocam vises ms.
  - Quais? - perguntei.
   - Eh, eh, o nosso novio quer saber de mais. So coisas que s o ervanrio deve saber,
seno qualquer inconsciente poderia andar por a a ministrar vises, isto , a mentir com
as ervas.
   - Mas basta um pouco de urtiga - disse ento Guilherme -, ou de roybra, ou de
olieribus, e est-se protegido contra as vises. Espero que vos tenhais destas boas ervas.
  Severino olhou o mestre de soslaio:
  - Interessas-te por ervanrio?
  - Muito pouco - disse modestamente Guilherme. - uma vez tive nas mos o Theatrum
Sanitats de Ububchasym de Baldach...
  - Abdul Asan al Muchtar ibn Botlan.
  - Ou Ellucasim Elimittar, como queiras. Pergunto-me se se poder encontrar um
exemplar aqui.
  - Um dos mais belos, com muitas imagens de preciosa leitura.
  -O cu seja louvado. E o De De virtutibus herbarum de Pla-tearius?
  - Tambm esse, e o De plantis de Aristteles, traduzido por Alfredo de Sareshel.
  - Mas devo dizer que no  verdadeiramente de Aristteles  observou Guilherme.
como se descobriu que no era de Aristteles o De causis.
  - E de qualquer modo,  um grande livro - observou Severino, e o meu mestre
concordou com muito fervor sem perguntar se o ervanrio falava do De plantis ou o De
causis, duas obras que eu no conhecia mas que, por aquela conversa, conclu que eram
ambas de primeira grandeza. - Ficarei contente - concluiu Severino - se tiver contigo
alguma honesta conversa sobre as ervas.
  - Eu ainda mais do que tu - disse Guilherme -, mas no violaremos a regra do silncio,
que me parece vigorar na vossa ordem!
   - A regra - disse Severino - adaptou-se atravs dos sculos s exigncias das diversas
comunidades. A regra previa a lectio divina mas no o estudo: e no entanto sabes at
que ponto a nossa ordem desenvolveu a pesquisa das coisas divinas e das coisas humanas.
A regra prev ainda o dormitrio comum, mas por vezes  justo, como entre ns, que os
monges tenham a possibilidade de reflexo mesmo durante a noite, e assim cada um
deles tem a sua prpria cela. A regra  muito severa quanto ao silncio, e, mesmo entre
nos, no deve conversar com os seus Irmos no s o monge que faz trabalhos manuais
mas tambm aquele que escreve ou que l. Mas a abadia  antes de mais uma
comunidade de estudiosos, e muitas vezes  til que os monges comuniquem entre si os
tesouros de doutrina que acumulam. Qualquer conversa que diga respeito aos nossos
estudos  considerada legtima e proveitosa, contanto que no se desenrole no refeitrio
ou durante as horas dos ofcios sagrados.
  - Tiveste ocasio de falar muito com Adelmo de Otranto? - perguntou bruscamente
Guilherme.
  Severino no pareceu surpreendido:
   - Vejo que o Abade j te falou - disse. - No. Com ele no conversava muito. Passava o
tempo a fazer iluminuras. Ouvi-o algumas vezes discutir com outros monges, Venancio de
Salvemec, ou Jorge de Burgos, sobre a natureza do seu trabalho. E depois eu no passo o
dia no scriptorium, mas no meu laboratrio - e apontou para o edifcio do hospital.
  - Compreendo - disse Guilherme. - Portanto, no sabes se Adelmo
  tinha tido vises.
  - Vises?!
  - Como as que provocam as tuas ervas, por exemplo.
  Severino ps-se rgido:
  - Disse-te que guardo com muito cuidado as ervas perigosas.
  - No digo isso - apressou-se a precisar Guilherme. - Eu falava de vises em geral.
  - No compreendo - insistiu Severino.
   - Pensava que um monge que anda de noite pelo Edifcio, onde, segundo admitiu o
Abade, podem acontecer coisas... tremendas a quem ali entre a horas proibidas, bem,
dizia eu, pensava que pudesse ter tido vises diablicas que o tivessem empurrado para o
precipcio.
  - Eu disse que no freqento o scriptorium, salvo quando preciso de algum livro, mas
habitualmente tenho os meus herbrios, que conservo no hospital. J te disse: Adelmo
era muito ntimo de Jorge, de Venancio e... naturalmente, de Berengrio.
  Tambm eu notei uma leve hesitao na voz de Severino. E no escapou ao meu
mestre:
  - Berengrio? E porqu naturalmente?
  - Berengrio de Anundel, o ajudante-bibliotecrio. Eram coetneos, foram novios
juntos, era normal que tivessem coisas de que falar. Era isto o que eu queria dizer.
   - Ento era isso o que querias dizer - comentou Guilherme.  E admirei-me que no
insistisse naquele ponto. De fato, mudou logo de conversa. - Mas talvez sejam horas de
entrarmos no Edifcio. Fazes-nos de guia?
   - Com prazer - disse Severino com um alvio mais que evidente. Fez-nos contornar o
horto e levou-nos diante da fachada ocidental do Edifcio. - Do lado do horto esta o
portal que d acesso  cozinha - disse -, mas a cozinha ocupa s a metade ocidental do
primeiro andar, na segunda metade fica o refeitrio. E do lado da porta meridional, a
que se chega passando por detrs do coro da igreja, h dois outros portais que conduzem
 cozinha e ao refeitrio. Mas entremos mesmo por aqui, porque da cozinha podemos
depois passar, pelo interior, ao refeitrio.
  Quando entrei na vasta cozinha apercebi-me que o Edifcio gerava no seu interior, e a
toda a sua altura, um ptio octogonal; como compreendi depois, tratava-se de uma
espcie de grande poo, privado de acessos, sobre o qual se abriam em cada andar
amplas janelas, como as que davam para o exterior.
   A cozinha era um imenso trio cheio de fumo, onde j muitos servos se apressavam a
dispor os alimentos para a ceia. Sobre uma grande mesa, dois deles preparavam uma
empada de verdura, cevada, aveia e centeio, cortando em pedacinhos nabos, agries,
rabanetes e cenouras. Ao lado, um outro cozinheiro tinha acabado de cozer alguns peixes
numa mistura de vinho e gua, e estava-os cobrindo com um molho composto de slvia,
salsa, tomilho, alho, pimenta e sal.
  Na parede que correspondia ao torreo ocidental abria-se um enorme forno para o
po, onde j relampejavam chamas avermelhadas. No torreo meridional, uma imensa
chamin, sobre a qual ferviam paneles e giravam espetos. Pela porta que dava para a
eira atrs da igreja entravam naquele momento os porqueiros trazendo as carnes dos
porcos degolados. Samos antes por aquela porta e encontramo-nos na eira, na
extremidade oriental do planalto, ao abrigo das muralhas, onde se erguiam muitas
construes. Severino explicou-me que a primeira era o conjunto das estrumeiras, depois
ficavam as estrebarias dos cavalos, depois os estbulos dos bois, e as capoeiras, e o
recinto coberto das ovelhas. Diante das estrumeiras, os porqueiros remexiam numa
grande jarra o sangue dos porcos acabados de degolar, a fim de que no coagulasse. Se
fosse remexido bem e depressa, resistiria depois durante os dias seguintes, graas ao
clima rigoroso, e finalmente fariam com ele chourios de sangue.
   Voltamos a entrar no Edifcio e deitamos apenas uma olhadela ao refeitrio, que
atravessamos para nos dirigirmos para o torreo oriental. Dos dois torrees, entre os
quais se estendia o refeitrio, o setentrional albergava uma chamin, o outro uma
escada em forma de caracol que levava ao scriptorium, isto , ao segundo andar. Dali os
monges dirigiam-se todos os dias ao trabalho, ou ento por duas escadas, menos
acessveis mas bem aquecidas, que subiam em espiral por trs da chamin e do forno da
cozinha.
   Guilherme perguntou se encontraramos algum no scriptorium mesmo sendo domingo.
Severino sorriu e disse que o trabalho, para o monge beneditino,  orao. Ao domingo,
os ofcios duravam mais tempo, mas os monges afetos aos livros passavam igualmente
algumas horas l em cima, habitualmente empregadas em frutuosas trocas de
observaes douras, conselhos, reflexes sobre as sagradas escrituras.
  PRIMEIRO DIA
  DEPOIS DE NONA
   Onde se visita o scriptorium e se conhecem muitos estudiosos, copistas e rubricadores,
assim como um velho cego que espera o Anticristo.
   Enquanto subamos, vi que o meu mestre observava as janelas que davam luz 
escada. Estava provavelmente a tornar-me to hbil como ele, porque me apercebi logo
que a sua disposio dificilmente teria consentido a algum chegar at elas. Por outro
lado, as janelas que se abriam no refeitrio (as nicas que do primeiro andar davam para
o precipcio) tambm no pareciam de fcil acesso, dado que por baixo delas no havia
qualquer espcie de mveis.
   Chegados ao cimo da escada, entramos, pelo torreo setentrional, no scriptorium, e
ali no pude conter um grito de admirao. O segundo andar no estava dividido em dois
como o inferior e oferecia-se portanto ao meu olhar em toda a sua espaosa imensido.
As abbadas, curvas e no demasiado altas (menos do que numa igreja, mais todavia do
que em qualquer outra sala capitular que tinha visto), sustentadas por robustas pilastras,
encerravam um espao inundado de belssima luz, porque trs enormes janelas se abriam
de cada um dos lados maiores, enquanto cinco janelas mais pequenas perfuravam cada
um dos cinco lados externos de cada torreo; oito janelas altas e estreitas, enfim,
deixavam que a luz entrasse tambm pelo poo octogonal interior.
   A abundncia de janelas fazia com que a grande sala fosse alegrada por uma luz
contnua e difusa, embora fosse uma tarde de Inverno. As vidraas no eram coloridas
como as das igrejas, e os caixilhos de chumbo fixavam quadrados de vidro incolor, para
que a luz entrasse do modo mais puro possvel, no modulada pela arte humana, e
servisse o seu objetivo, que era iluminar o trabalho da leitura e da escrita. Vi outras
vezes e em outros lugares muitos scriptoria, mas nenhum em que to luminosamente
refulgisse, nas colunas de luz fsica que faziam resplandecer o ambiente, o prprio
princpio espiritual que a luz encarna, a clarista: fonte de toda a beleza e sapincia,
atributo inseparvel da proporo que a sala manifestava. Porque trs coisas concorrem
para criar a beleza: antes de mais, a integridade ou perfeio, e por isto reputamos feias
as coisas incompletas; depois, a devida proporo, isto , a consonncia; e, finalmente,
a claridade e a luz, e de fato chamamos belas s coisas de cor ntida. E como a viso do
belo comporta a paz, e para o nosso apetite  a mesma coisa aquietar-se na paz, no bem
ou no belo, senti-me invadido de grande consolao e pensei como devia ser agradvel
trabalhar naquele lugar.
   Tal como apareceu a meus olhos, quela hora da tarde, pareceu-me uma alegre
oficina de sapincia. Vi em seguida em San Gallo um scriptorium de propores
semelhantes, separado da biblioteca (noutros lugares os monges trabalhavam no prprio
lugar onde eram guardados os livros), mas no to bem disposto como este. Antiqurios,
livreiros, rubricadores e estudiosos estavam sentados, cada um  sua prpria mesa, uma
mesa sob cada uma das janelas. E como as janelas eram quarenta (nmero
verdadeiramente perfeito devido  decuplicao do quadriltero, como se os dez
mandamentos tivessem sido magnificados pelas quatro virtudes cardeais), quarenta
monges poderiam trabalhar em unssono, embora naquele momento fossem apenas uns
trinta. Severino explicou-nos que os monges que trabalhavam no scriptorium estavam
dispensados dos ofcios de tera, sexta e nona para no terem de interromper o seu
trabalho nas horas de luz, e terminavam as suas atividades s ao pr do Sol, para
vsperas.
   Os lugares mais luminosos eram reservados aos antiqurios, aos iluminadores mais
expertos, aos rubricadores e aos copistas. Cada mesa tinha tudo quanto servia para
iluminar e copiar: chifres de tinta, penas finas que alguns monges estavam afiando com
uma lamina delgada, pedra-pomes para tornar liso o pergaminho, rguas para traar as
linhas sobre as quais se iria estender a escrita. Ao lado de cada escriba, ou no topo do
plano inclinado de cada mesa, estava uma estante, sobre a qual estava pousado o cdice
a copiar, a pgina coberta de marginadores que enquadravam a linha que naquele
momento era transcrita. E alguns tinham tintas de ouro e de outras cores. Outros, por
sua vez, estavam apenas lendo livros e transcreviam notas nos seus cadernos ou
tabuinhas pessoais.
   No tive, alis, tempo de observar o seu trabalho, porque veio ao nosso encontro o
bibliotecrio, que j sabamos que era Malaquias de Hildesheim. O seu rosto procurava
adquirir uma expresso de boas-vindas, mas no pude deixar de estremecer diante duma
fisionomia to singular. A sua figura era alta e, embora extremamente magra, os seus
membros eram grandes e desajeitados. Como caminhava com grandes passadas, envolto
nas negras vestes da ordem, havia qualquer coisa de inquietante no seu aspecto. O
capuz, que, vindo de fora, tinha ainda levantado, lanava uma sombra sobre a palidez do
seu rosto e conteria um no se qu de doloroso aos seus grandes olhos melanclicos.
Havia na sua fisionomia como que os traos de muitas paixes que a vontade tinha
disciplinado mas que pareciam ter fixado os lineamentos que agora tinham deixado de
animar. Melancolia e severidade predominavam nas linhas do seu rosto, e os seus olhos
eram to intensos que com um s olhar podiam penetrar o corao de quem lhe falava e
ler-lhe os pensamentos secretos, de modo que dificilmente se podia tolerar a sua
indignao, e era-se tentado a no os encontrar uma segunda vez.
   O bibliotecrio apresentou-nos a muitos dos monges que estavam naquele momento a
trabalhar. De cada um deles, Malaquias disse-nos ainda o trabalho que estava
executando, e admirei a profunda devoo de todos ao saber e ao estudo da palavra
divina. Conheci assim Venancio de Salvemec, tradutor de grego e de rabe, devoto de
Aristteles, que foi certamente o mais sbio de todos os homens; Bncio de Upsala, um
jovem monge escandinavo que se ocupava de retrica; Berengrio de Arundel, o
ajudante do bibliotecrio; Aymaro de Alexandria, que estava a copiar obras que s por
alguns meses estariam emprestadas  biblioteca; e depois um grupo de miniaturistas de
vrios pases, Patricio de Clonmacnois, Rbano de Toledo, Magnus de lona, Waldo de
Hereford.
   A enumerao poderia decerto continuar, e nada  mais maravilhoso do que a
enumerao, instrumento de admirveis hipotiposes. Mas devo voltar ao assunto das
nossas discusses, do qual emergiram muitas indicaes teis para compreender a sutil
inquietao que pairava entre os monges e um no sei qu de inexpresso que pesava
sobre todos os seus discursos.
   O meu mestre principiou a conversar com Malaquias louvando a beleza e a
operosidade do scriptorium e pedindo-lhe informaes sobre o andamento do trabalho
que ali se executava, porque, disse com muita sagacidade, tinha ouvido por toda a parte
falar daquela biblioteca e gostaria de examinar muitos dos livros. Malaquias explicou-lhe
aquilo que o Abade j tinha dito, que o monge pedia ao bibliotecrio a obra a consultar,
e este iria busc-la  biblioteca superior, se o pedido fosse justo e pio. Guilherme
perguntou como podia conhecer os nomes dos livros conservados nos armrios de cima, e
Malaquias mostrou-lhe, fixado por uma cadeia de ouro  sua mesa, um volumoso cdice
coberto de listas cerradssimas.
   Guilherme enfiou as mos no saio, onde este se abria no peito formando uma bolsa, e
tirou de l um objeto que j lhe tinha visto nas mos, e no rosto, no decurso da viagem.
Era uma forquilha, construda de modo a poder estar sobre o nariz de um homem (e
melhor ainda sobre o seu, to proeminente e aquilino) como um cavaleiro est  garupa
do seu cavalo ou como um pssaro num cavalete. E dos dois lados da forquilha, de modo
a corresponder aos olhos, arredondavam-se dois crculos ovais de metal, que encerravam
duas amndoas de vidro espessas como fundos de copo. Guilherme lia de preferncia
com aquilo sobre os olhos e dizia que via melhor do que a natureza o tinha dotado ou do
que a sua idade avanada, especialmente quando declinava a luz do dia, lhe permitiria.
No lhe serviam para ver ao longe, que pelo contrrio tinha a vista agudssima, mas para
ver ao perto. Com aquilo ele podia ler manuscritos em letras finssimas que eu prprio
quase no conseguia decifrar. Tinha-me explicado que, passando o homem a metade da
vida, mesmo que a sua vista tenha sido sempre tima, o olho endurecia e se recusava a
adaptar a pupila, de modo que muitos sbios ficavam como mortos para a leitura e para
a escrita depois da sua qinquagsima primavera. Grave infortnio para homens que
teriam podido dar o melhor da sua inteligncia por muitos anos ainda. Por isso se devia
louvar o Senhor por algum ter descoberto e fabricado aquele instrumento. E dizia-mo
para defender as idias do seu Roger Bacon, quando dizia que o escopo do saber era
tambm prolongar a vida humana.
   Os outros monges olharam para Guilherme com muita curiosidade mas no ousaram
fazer-lhe perguntas. E eu apercebi-me que, mesmo num lugar to zelosa e
orgulhosamente dedicado  leitura e  escrita, aquele admirvel instrumento no tinha
ainda penetrado. E senti-me orgulhoso por estar junto de um homem que tinha alguma
coisa com que espantar outros homens famosos no mundo pela sua sabedoria.
  Com aqueles objetos diante dos olhos, Guilherme inclinou-se sobre as listas lavradas
no cdice. Olhei eu tambm, e descobrimos ttulos de livros jamais ouvidos, e outros
celebrrimos, que a biblioteca possua.
   -De pentgono Salomonis, Ars loquendi et intelHgendi in lngua hebraica, De rebus
metallicis, de Rogrio de Heretord, Algebra, de Al Kuwarizmi, traduzida em latim por
Roberto Anglico, as Pnicas, de Slio Itlico, as Gesta francorum, De laudibus sanctae
cru-cis, de Rbano Mauro, e Flavii Claudii Giordani de aetate mundi et hominis reservatis
singulis litteris per singulos libros ab A usque ad Z - leu o meu mestre. - Esplndidas
obras. Mas em que ordem esto registradas? - Citou dum texto que eu no conhecia mas
que era decerto familiar a Malaquias: -  Habeat Librarius et registrum omnium librorum
ordinatum secundum facltales et auctores, reponeatque eos separatim et ordinate cum
signaturis per scripturam applicatis. Como fazeis para conhecer o lugar de cada livro?
   Malaquias mostrou-lhe umas anotaes que acompanhavam cada ttulo. Li: iii, IV
gradus, V in prima graecorum; ii, V gradus, Vll in tertia anglorum, e assim
sucessivamente. Compreendi que o primeiro nmero indicava a posio do livro na
estante ou gradus, indicado pelo segundo nmero, sendo o armrio indicado pelo
terceiro nmero, e compreendi tambm que as outras expresses designavam uma sala
ou corredor da biblioteca, e ousei pedir mais informaes sobre estas ltimas
distinctiones. Malaquias olhou-me severamente:
   - Talvez no saibais, ou tenhais esquecido, que o acesso  biblioteca  consentido s
ao bibliotecrio. E portanto  justo e suficiente que s o bibliotecrio saiba decifrar
estas coisas.
  - Mas em que ordem so referidos os livros nesta lista? - perguntou Guilherme. - No
por assuntos, parece-me.
   No indicou uma ordem por autores que seguisse a mesma seqncia das letras do
alfabeto, porque  sutileza que vi posta em prtica s nos ltimos anos, e ento usava-se
pouco.
  - A biblioteca afunda a sua origem no fundo dos tempos  disse Malaquias -, e os livros
so registrados segundo a ordem das aquisies, das doaes, do seu ingresso nestas
paredes.
  - Difceis de encontrar - observou Guilherme.
  - Basta que o bibliotecrio os conhea de cor e saiba para cada livro a poca em que
chegou. Quanto aos outros monges, podem confiar na sua memria.
   E parecia que falava de outro, que no fosse ele prprio; e compreendi que ele falava
da funo que naquele momento indignamente desempenhava, mas que tinha sido
desempenhada por outros cem, j desaparecidos, que tinham transmitido uns aos outros
o seu saber.
   - Compreendi - disse Guilherme. - Se eu ento procurasse alguma coisa, sem saber o
qu, sobre o pentgono de Salomo, vs sabereis indicar-me que existe o livro cujo
ttulo acabo de ler, e podereis determinar a sua posio no andar superior.
   - Se vs devsseis verdadeiramente aprender alguma coisa sobre o pentgono de
Salomo - disse Malaquias. - Mas para vos dar um livro desses, preferia pedir antes o
conselho do Abade.
  - Soube que um dos vossos miniaturistas mais hbeis - disse ento Guilherme -
desapareceu recentemente. O Abade falou-me muito da sua arte. Posso ver os cdices
que iluminava?
   - Adelmo de Otranto - disse Malaquias, olhando para Guilherme com desconfiana - s
trabalhava, por causa da sua jovem idade, sobre os marginalia. Tinha uma imaginao
muito viva, e de coisas conhecidas sabia compor coisas desconhecidas e surpreendentes,
como quem une um corpo humano a uma cerviz eqina. Mas esto ali os seus livros.
Ningum tocou ainda na sua mesa.
   Aproximamo-nos daquilo que tinha sido o local de trabalho de Adelmo, onde jaziam
ainda as folhas de um saltrio ricamente iluminadas. Eram folha de velum finssimo - o
rei dos pergaminhos -, e o ltimo estava ainda fixado  mesa. Apenas esfregado com
pedra-pomes e amaciado com gesso, tinha sido alisado com a plaina, e, dos minsculos
furos produzidos aos lados com um fino estilete, tinham sido traadas todas as linhas que
deviam guiar a mo do artista. A primeira metade j tinha sido coberta de escrita, e o
monge tinha comeado a a esboar as figuras nas margens. Pelo contrrio, as outras
folhas j estavam acabadas, e, olhando-as, nem eu nem Guilherme conseguimos conter
um grito de admirao. Tratava-se de um saltrio em cujas margens se delineava um
mundo invertido em relao quele a que nos habituaram os nossos sentidos. Como se no
limiar de um discurso que por definio  o discurso da verdade se desenrolasse,
profundamente ligado quele, por admirveis aluses in aenigmate, um discurso
mentiroso sobre um universo posto de cabea para baixo, onde os ces fogem diante da
lebre e os veados caam o leo. Pequenas cabeas com pata de ave, animais com mos
humanas nas costas, cabeas cabeludas de onde saam ps, drages zebrados,
quadrpedes com pescoo de serpente que se enlaava em mil ns inextricveis,
macacos de cornos de veado, sereias com forma de volteis com asas membranosas no
dorso, homens sem braos com outros corpos humanos que lhes nasciam na coluna a
modo de costa e figuras com a boca dentada no ventre, humanos com cabea eqina e
eqinos com pernas humanas, peixes com asas de pssaro e pssaros com cauda de
peixe, monstros de corpo nico e dupla cabea ou cabea nica e corpo duplo, vacas
com cauda de galo de asas de borboleta, mulheres de cabea escamada como o dorso de
um peixe, quimeras bicfalas entrelaadas com liblulas de focinho de lagarto,
centauros, drages, elefantes, mantcoras, scipodos estendidos em ramos de rvores,
grifos em cuja cauda se gerava um arqueiro em posio de guerra, criaturas diablicas de
pescoo sem fim, seqncias de animais antropomorfos e de anes zoomorfos
associavam-se, por vezes na mesma pgina, a cenas de vida campestre onde se via
representada, com uma vivacidade to impressionante que se teria pensado que as
figuras estavam vivas, toda a vida dos campos, lavradores, coletores de frutos, ceifeiros,
fiandeiras, semeadores ao lado de raposas e fuinhas armadas de bestas que escalavam as
torres duma cidade defendida por macacos. Aqui uma letra inicial dobrava-se em L, e na
parte interior gerava um drago, ali um grande V que dava incio  palavra verba
produzia como natural gavinha do seu tronco uma serpente de mil volutas, por sua vez
gerando outras serpentes como pmpanos e corimbos.
   Ao lado do saltrio estava, evidentemente terminado h pouco, um delicado livro de
horas, de dimenses to incrivelmente pequenas que se poderia t-lo na palma da mo.
Exgua a escrita, as miniaturas marginais mal se viam  primeira vista e pediam que os
olhos as examinassem de perto para aparecerem em toda a sua beleza (e perguntava-se
com que instrumento sobre-humano o miniaturista as teria traado para obter eleitos de
tanta vivacidade num espao to reduzido). As margens inteiras do livro eram invadidas
por minsculas figuras que se geravam, quase por natural expanso, das volutas
terminais das letras esplendidamente traadas: sereias marinhas, veados em fuga,
quimeras, torsos humanos sem braos que saam como lombrigas do prprio corpo dos
versculos. Num ponto, quase na continuao dos trs Sanctus, Sanctus, Sanctus
repetidos em trs linhas diversas, viam-se trs figuras belunas de cabeas humanas,
duas das quais se dobravam, uma para baixo e outra para cima, para se unirem num
beijo que no se teria hesitado em definir impudico se no se estivesse persuadido que,
embora no perspcuo, um profundo significado espiritual devia certamente justificar
aquela representao naquele ponto.
   Eu seguia aquelas paginas dividido entre a admirao muda e o riso porque as figuras
predispunham necessariamente  hilaridade, embora comentassem pginas santas. E
frade Guilherme examinava-as sorrindo, e comentou:
  - Babewyn, assim lhes chamam nas minhas ilhas.
   - Babouins, como lhes chamam nas Galias - disse Malaquias. - E de fato Adelmo
aprendeu a sua arte no vosso pas, embora depois tenha estudado tambm em Frana.
Babunos, ou seja, macacos de frica. Figuras de um mundo invertido, onde as casas
surgem na ponta de uma agulha e a terra esta acima do cu.
  Eu recordei-me de alguns versos que tinha ouvido no versculo da minha terra e no
pude conter-me sem os pronunciar:
  Aller Wunder si geswigen, das herde himel hast berstigen, daz sult ir vr ein Wunder
wigen
  E Malaquias continuou, citando do mesmo texto:
  Erd ob un himel unter das sult ir han besunder Vur aller Wunder ein Wunder.
   - Bravo, Adso - continuou o bibliotecrio -, efetivamente estas imagens falam-nos
daquela regio onde se chega cavalgando um ganso azul, onde se encontram gavies que
pescam peixes num riacho, ursos que perseguem falces no cu, lagostins que voam com
as pombas e trs gigantes apanhados na armadilha e mordidos por um galo.
  E um plido sorriso iluminou os seus lbios. Ento os outros monges, que tinham
seguido a conversa com uma certa timidez, puseram-se a rir com vontade, como se
tivessem esperado o consenso do bibliotecrio. O qual se toldou, enquanto os outros
continuavam a rir, louvando a habilidade do pobre Adelmo e mostrando uns aos outros as
figuras mais inverossmeis. E foi enquanto todos ainda riam que ouvimos atrs de ns
uma voz, solene e severa.
  - Verba vana aur risui apta non loqui.
   Voltamo-nos. Quem tinha falado era um monge curvado pelo peso dos anos, branco
como a neve, no digo s o cabelo, mas tambm o rosto, as pupilas. Reparei que era
cego. A voz era ainda majestosa e os membros potentes, embora o corpo tivesse
encolhido ao peso da idade. Fixava-nos como se nos visse, e sempre tambm em seguida
o vi mover-se e falar como se possusse ainda o dom da vista. Mas o tom da voz era, pelo
contrrio, de quem possui s o dom da profecia.
   - O homem venerando em idade e sapincia que vedes  disse Malaquias a Guilherme,
indicando-lhe o recm-chegado -  Jorge de Burgos. Mais velho do que quem quer que
viva no mosteiro, salvo Alinardo de Grottaferrata, ele  aquele a quem muitssimos dos
monges confiam a carga dos seus pecados no segredo da confisso. - Depois, dirigindo-se
ao velho  Aquele que est diante de vs  frade Guilherme de Baskerville, nosso
hspede.
   - Espero que no vos tenhais zangado pelas minhas palavras - disse o velho em tom
brusco. - Ouvi pessoas que riam de coisas risveis e recordei-lhes um dos princpios da
nossa regra. E como diz o salmista, se o monge se deve abster dos discursos bons pelo
voto do silncio, com muito maior razo deve subtrair-se aos discursos maus. E tal como
existem discursos maus existem imagens ms. E so aquelas que mentem acerca da
forma da criao e mostram o mundo ao contrrio daquilo que deve ser. sempre foi e
sempre ser nos sculos dos sculos at  consumao dos tempos. Mas vs vindes de
outra ordem, onde me dizem que  vista com indulgncia at a jovialidade mais
inoportuna.
   Aludia quilo que entre os beneditinos se dizia das extravagncias atribudas a So
Francisco de Assis e talvez tambm das extravagncias atribudas a fraticelli e espirituais
de toda a espcie, que, da ordem franciscana, eram os mais recentes e embaraosos
rebentos. Mas frade Guilherme deu mostras de no perceber a insinuao.
   - As imagens marginais induzem muitas vezes a sorrir, mas com fins de edificao -
respondeu. - Como nos sermes para tocar a imaginao das piedosas multides  preciso
inserir exempla, no raro facetos assim tambm o discurso das imagens deve permitir
estas nugae. Para cada virtude e para cada pecado h um exemplo tirado dos bestirios,
e os animais fazem-se figura do mundo humano.
   - Oh, sim - motejou o velho, mas sem sorrir -, toda a imagem  boa
   para estimular a virtude, para que a obra-prima da criao, posta de cabea para
baixo, se torne matria de riso. E assim a palavra de Deus manifesta-se atravs do burro
que toca lira, do tolo que lavra com o escudo, dos bois que se atrelam sozinhos ao arado,
dos rios que correm ao contrrio, do mar que se incendeia, do lobo que se faz eremita!
Caai a lebre com o boi, mandai-vos ensinar gramtica pelas corujas, que os ces
mordam as pulgas, os cegos olhem para os mudos e os mudos peam po a formiga d 
luz um vitelo, voem os frangos assados, as fogaas cresam nos telhados, os papagaios
dem lies de retrica, as galinhas fecundem os galos, metei o carro adiante dos bois,
ponde o co a dormir na cama e que todos caminhem de pernas para o ar! Que querem
todas estas nugae? Um mundo invertido e oposto ao estabelecido por Deus, sob o
pretexto de ensinar os preceitos divinos!
   - Mas o Areopagita ensina - disse humildemente Guilherme  que Deus s pode ser
nomeado atravs das coisas mais disformes. E Hugo de So Vtor recorda-nos que, quanto
mais a similitude se faz dissmil, tanto mais a verdade nos  revelada sob o vu de figuras
horrveis e indecorosas, tanto menos a imaginao se aplaca no gozo carnal e  obrigada
a colher os mistrios que se ocultam sob a curpitude das imagens...
   - Conheo o argumento! E admito com vergonha que foi o argumento principal da
nossa ordem, quando os abades clunicenses se batiam contra os cistercienses. Mas So
Bernardo tinha razo: pouco a pouco o homem que representa monstros e portentos da
natureza para revelar as coisas de Deus per speculum et in aenigmate toma gosto na
prpria natureza das monstruosidades que cria e deleita-se com elas, e por elas, e j no
v seno atravs delas. Basta que olheis, vs que ainda tendes vista, para os capitis do
vosso claustro - e apontou com a mo para fora das janelas, na direo da igreja -, sob os
olhos dos frades absorvidos na meditao, que significam aquelas ridculas
monstruosidades, aquelas disformes formosuras e formosas deformidades. queles
srdidos macacos? Aqueles lees, aqueles centauros, aqueles seres semi-humanos, com a
boca no ventre, com um s p, com orelhas de abano? Aqueles tigres malhados, aqueles
guerreiros em luta, aqueles caadores que sopram o corno, e aqueles mltiplos corpos
numa s cabea e muitas cabeas num s corpo? Quadrpedes com cauda de serpente, e
peixes com cabea de quadrpede, e aqui um animal que pela frente parece um cavalo e
por trs um bode, e alm um eqino com cornos e assim sucessivamente, agora  mais
agradvel para um monge ler os mrmores do que os manuscritos, e admirar as obras do
homem em vez de meditar sobre a lei de Deus. Tende vergonha pelo desejo dos vossos
olhos e pelos vossos sorrisos!
   O grande velho parou arquejando. E eu admirei a viva memria com que, talvez cego
h tantos anos, ainda recordava as imagens de cuja turpitude nos falava. Tanto que
suspeitei que elas o tinham seduzido muito quando as tinha visto, se sabia descrev-las
ainda com tanta paixo. Mas muitas vezes me aconteceu encontrar as representaes
mais sedutoras do pecado precisamente nas pginas dos homens de incorruptvel virtude
que condenavam o seu fascnio e os seus efeitos. Sinal de que estes homens so movidos
por tal ardor no testemunho da verdade, que no hesitam, por amor de Deus, em
conferir ao mal todas as sedues de que se reveste, para melhor instruir os homens
sobre os modos com que o maligno os encanta. E de fato as palavras de Jorge
despertaram-me uma grande vontade de ver os tigres e os macacos do claustro, que
ainda no tinha admirado. Mas Jorge interrompeu o curso dos meus pensamentos porque
recomeou, em tom menos excitado, a falar.
   - Nosso Senhor no teve necessidade de tantas estultcias para nos indicar o reto
caminho. Nada nas suas parbolas move ao riso ou ao temor. Adelmo, pelo contrrio, que
morto agora chorais, gozava de tal maneira com as monstruosidades que iluminava que
tinha perdido de vista as coisas ltimas de que deviam ser a figura material. E percorreu
todas, digo todas  e a sua voz fez-se solene e ameaadora - as veredas da
monstruosidade. Por onde Deus sabe punir.
  Desceu um pesado silncio sobre os presentes. Ousou romp-lo Venancio de Salvamec.
   - Venervel Jorge disse -, a vossa virtude torna-vos injusto. Dois dias antes de Adelmo
morrer, vs estveis presente num douto debate que teve lugar precisamente aqui no
scriptorium. Adelmo preocupava-se com que a sua arte, cedendo a representaes
bizarras e fantsticas, tendesse todavia  glria de Deus, instrumento de conhecimento
das coisas celestes. Frade Guilherme citava h pouco o Areopagira, sobre o
conhecimento pela deformidade. E Adelmo citou naquele dia uma outra autoridade
altssima, a do doutor de Aquino, quando disse que convm que as coisas divinas sejam
expostas mais na figura de corpos vis do que na figura de corpos nobres. Primeiro porque
o esprito humano  mais facilmente libertado do erro;  claro, de fato, que certas
propriedades no podem ser atribudas s coisas divinas, o que seria duvidoso se estas
fossem indicadas com figuras de nobres coisas corpreas. Em segundo lugar porque este
modo de representao convm mais ao conhecimento de Deus que remos sobre esta
terra: ele manifesta-se-nos, de fato, mais naquilo que no  do que naquilo que , e por
isso as semelhanas das coisas que mais se afastam de Deus levam-nos a uma mais exata
opinio dele, porque assim sabemos que ele est acima daquilo que dizemos e pensamos.
E em terceiro lugar porque assim so melhor ocultadas as coisas de Deus s pessoas
indignas. Em suma, tratava-se naquele dia de compreender de que modo se pode
descobrir a verdade atravs de expresses surpreendentes, e argutas, e enigmticas. E
eu recordei-lhe que na obra do grande Aristteles tinha encontrado palavras bastante
claras a este respeito...
  - No me recordo - interrompeu secamente Jorge -, sou muito velho. No me recordo.
Posso ter exagerado em severidade. Agora tarde, tenho de ir.
   -  estranho que no vos recordeis - insistiu Venancio -, foi uma douta e belssima
discusso, em que tambm intervieram Bncio e Berengrio. Tratava-se de saber de fato
se as metforas, e os jogos de palavras, e os enigmas, que embora paream imaginados
pelos poetas por puro deleite, no induzem a especular sobre as coisas de modo novo e
surpreendente, e eu dizia que tambm esta  uma virtude que se exige ao sbio... E
tambm estava Malaquias...
  - Se o venervel Jorge no se recorda, tem respeito pela sua idade e pelo cansao da
sua mente... alis sempre to viva - interveio um dos monges que seguiam a discusso.
   A frase tinha sido pronunciada de modo agitado, pelo menos no incio, porque quem
tinha falado, apercebendo-se que para convidar ao respeito do velho de fato lhe punha
em relevo uma fraqueza, tinha depois abandonado o mpeto da sua prpria interveno,
acabando quase num sussurro de desculpa. O que tinha estado a falar era Berengrio de
Arundel, o ajudante-bibliotecrio. Era um jovem de rosto plido, e observando-o
recordei-me da definio que Ubertino tinha dado de Adelmo: os seus olhos pareciam os
de uma mulher lasciva. Intimidado pelos olhares de todos que agora se pousavam sobre
ele, tinha os dedos das mos enlaados como quem quer reprimir uma tenso interior.
  Singular foi a reao de Venancio. Olhou para Berengrio de modo tal que aquele
baixou os olhos:
   - Est bem, irmo  disse -, se a memria  um dom de Deus tambm a capacidade de
esquecer pode ser muito boa, e  respeitada. Mas respeito-a no irmo ancio a quem
falava. De ti esperava uma recordao mais viva sobre o que aconteceu quando
estvamos aqui, justamente com um teu carssimo amigo...
   No poderia dizer se Venancio tinha acentuado o tom sobre a palavra carssimo. O
fato  que percebi uma atmosfera de embarao entre os assistentes. Cada um voltava o
olhar para outro lado e ningum o dirigia para Berengrio, que tinha corado
violentamente. Interveio de sbito Malaquias, com autoridade:
  - Vinde, frade Guilherme  disse -, mostrar-vos-ei outros livros interessantes.
   O grupo desfez-se. Notei Berengrio a lanar a Venancio um olhar carregado de
rancor, e Venancio responder-lhe da mesma maneira, num mudo desafio. Eu, vendo que
o velho Jorge se estava afastando, movido por um sentido de respeitosa reverncia,
inclinei-me para lhe beijar a mo. O velho recebeu o beijo, pousou a mo sobre a minha
cabea e perguntou quem era. Quando lhe disse o meu nome, o seu rosto iluminou-se.
   - Tens um nome grande e belssimo - disse. - Sabes quem foi Adso de Monter-en-Der? -
perguntou. Eu, confesso, no sabia. Ento Jorge acrescentou: - Foi o autor de um livro
grande e terrvel, o Lvoellus de Antichristo, em que ele viu coisas que haviam de
acontecer, e no foi escutado o bastante.
  - O livro foi escrito antes do milnio - disse Guilherme -, e essas coisas no se
verificaram...
   - Para quem no tem olhos para ver - disse o cego. - As vias do Anticristo so lentas e
tortuosas. Ele chega quando no o prevemos, e no porque o clculo sugerido pelo
apstolo estivesse errado, mas porque ns no lhe aprendemos a arte. ###- Depois gritou,
em voz altssima, o rosto voltado para a sala, fazendo ribombar as abbadas do
scriptorium: - Ele est a chegar! No percais os ltimos dias rindo de monstrozinhos de
pele malhada e cauda retorcida. No dissipeis os ltimos sete dias!
  PRIMEIRO DIA
  VSPERAS
  Onde se visita o resto da abadia, Guilherme tira algumas Concluses sobre a morte de
Adelmo, e fala com o irmo vidreiro sobre os vidros para ler e de fantasmas para quem
quer ler demasiado.
   Naquele momento tocaram para vsperas, e os monges dispuseram-se a deixar as suas
mesas. Malaquias deu-nos a entender que tambm ns nos devamos ir embora. Ele
ficaria com o seu ajudante, Berengrio a pr de novo as coisas em ordem e (assim se
exprimiu) a preparar a biblioteca para a noite. Guilherme perguntou-lhe se depois
fechava as portas.
   - No h portas que impeam o acesso ao scriptorium pela cozinha e pelo refeitrio,
nem  biblioteca pelo scriptorium. Mais forte do que qualquer porta deve ser o interdito
do Abade. E os monges tm de servir-se no s da cozinha como do refeitrio at
completas. Nessa altura, para impedir que estranhos ou animais, para os quais o
interdito no vale, possam entrar no Edifcio, eu prprio fecho os portais de baixo, que
conduzem s cozinhas e ao refeitrio, e depois daquela hora o Edifcio fica isolado.
   Descemos. Enquanto os monges se dirigiam para o coro, o meu mestre decidiu que o
Senhor nos perdoaria se no assistssemos ao ofcio divino (o Senhor teve muito que nos
perdoar nos dias seguintes) e props-me que caminhasse um pouco com ele pelo
planalto, a fim de nos familiarizarmos com o lugar.
   Samos pelas cozinhas, atravessamos o cemitrio: havia pedras tumulares mais
recentes, e outras que apresentavam os sinais do tempo, contando vidas de monges, que
tinham vivido nos sculos passados. As tumbas no tinham nome, encimadas por cruzes
de pedra.
   O tempo estava a pr-se feio. Tinha-se levantado um vento frio, e o cu tornava-se
caliginoso. Adivinhava-se um sol que se punha por trs dos hortos, e j se fazia escuro
para oriente, para onde nos dirigimos, ladeando o coro da igreja e atingindo a parte
posterior do planalto. Ali, quase encostados ao muro da cerca, onde ele se soldava ao
torreo oriental do Edifcio, ficavam as estrumeiras, e os porqueiros estavam a tapar a
jarra com o sangue dos porcos. Notamos que, por trs das estrumeiras o muro da cerca
era mais baixo, de modo que se podia debruar-se. Para alm do precipcio dos muros, o
terreno, que descia vertiginosamente por baixo, estava coberto por um barro que a neve
no conseguia esconder completamente. Dei conta que se tratava do depsito de
estrume, que era atirado daquele lugar, e descia at  curva onde se bifurcava o
caminho ao longo do qual se tinha aventurado o fugitivo Brunello. Digo estrume porque
se tratava de um grande despejo de matria fedorenta, cujo odor chegava at ao
parapeito em que me debruava; evidentemente os camponeses iam busc-lo, de baixo,
para o usarem nos campos. Mas s de jeces dos animais e dos homens misturavam-se
outros detritos slidos, todo o refluir de matrias mortas que a abadia expelia do seu
prprio corpo, para se manter lmpida e pura na sua relao com o cimo do monte e com
o cu.
   Nas cavalarias ao lado, os guardadores de cavalos reconduziam os animais 
manjedoura. Percorremos o caminho ao longo do qual se sucediam, do lado do muro, os
vrios estbulos, e  esquerda, encostado ao coro, o dormitrio dos monges, e depois as
latrinas. Onde o muro oriental dobrava para sul, no angulo do muro da cerca, era o
edifcio das forjas. Os ltimos terreiros estavam depondo os seus instrumentos e
apagando os foles, para se encaminharem para o ofcio divino. Guilherme dirigiu-se com
curiosidade para uma parte das forjas, quase separada do resto do laboratrio, onde um
monge estava arrumando as suas coisas. Na sua mesa estava uma belssima
   coleo de vidros multicolores, de pequenas dimenses, mas vidros mais largos
estavam encostados  parede. Diante dele estava um relicrio ainda incompleto, de que
s existia a carcaa de prata, mas sobre a qual ele estava evidentemente a encastoar
vidros e outras pedras, que com os seus instrumentos tinha reduzido s dimenses de
uma gema.
   Conhecemos assim Nicolau de Morimondo, mestre vidreiro da abadia. Explicou-nos que
na parte posterior da forja tambm se soprava vidro, enquanto na anterior, onde
estavam os ferreiros, se lixavam os vidros aos caixilhos de chumbo para fazer vitrais.
Mas, acrescentou, a grande obra vidreira, que embelezava a igreja e o Edifcio, j tinha
sido concluda pelo menos dois sculos antes. Agora limitavam-se a trabalhos menores,
ou  reparao dos estragos do tempo.
   - E com grande dificuldade  acrescentou -, porque j no se conseguem encontrar as
cores de outros tempos, especialmente o azul que ainda podeis admirar no coro, de uma
qualidade to lmpida que, com o sol alto, derrama na nave uma luz paradisaca. Os
vidros da parte ocidental da nave, refeitos ainda no h muito tempo, no so da mesma
qualidade, e v-se nos dias de Vero.  intil  acrescentou -, j no temos a sabedoria
dos antigos, acabou-se a poca dos gigantes!
   - Somos anes - admitiu Guilherme -, mas anes que esto s costas daqueles
gigantes, e na nossa pequenez conseguimos por vezes ver mais longe do que eles no
horizonte.
   - Diz-me que coisas fazemos melhor do que eles tenham sabido fazer! - exclamou
Nicolau. - Se desceres  cripta da igreja onde est guardado o tesouro da abadia,
encontrars relicrios de to delicada feitura que o monstrozinho que eu estou agora
miseramente construindo - e apontou para a sua obra sobre a mesa - parecer-te-
imitao daqueles!
  - No est escrito que os mestres vidreiros tenham de continuar a construir janelas e
os ourives relicrios, se os mestres do passado souberam produzi-los to belos e
destinados a durar atravs dos sculos. Seno, a terra encher-se-ia de relicrios, numa
poca em que os santos de que tirar relquias so to raros - motejou Guilherme. - E
tambm no se devero soldar janelas at ao infinito. Mas vi em vrios pases obras
novas feitas de vidro que nos fazem pensar num mundo de amanh em que o vidro esteja
no s ao servio dos ofcios divinos mas tambm ajude a fraqueza do homem. Quero
mostrar-te uma obra dos nossos dias, de que me honro de possuir um utilssimo
exemplar.
   Meteu as mos no saio e tirou de l as suas lentes, que deixaram estupefato o nosso
interlocutor.
  Nicolau pegou na forquilha que Guilherme lhe estendia com grande interesse:
   - Oculi de vitro cum capsula! - exclamou. - J tinha ouvido falar disso a um certo frei
Giordano que conheci em Pisa! Dizia que no havia ainda vinte anos que tinham sido
inventados. Mas falei com ele h mais de vinte anos.
   - Creio que foram inventados muito antes - disse Guilherme -, mas so difceis de
fabricar e requerem-se mestres vidreiros muito experientes. Custam tempo e trabalho.
Ha dez anos um par desses vitrei ab oculis ad legendum foram vendidos em Bolonha por
seis soldos. Eu recebi um par como presente de um grande mestre, Salvino degli Armati,
h mais de dez anos, e tenho-os conservado ciosamente por todo este tempo, como se
fossem (como j so) parte do meu prprio corpo.
  - Espero que mos deixes examinar um destes dias, no me desagradaria produzir uns
semelhantes - disse emocionado Nicolau.
  - Certamente - concordou Guilherme -, mas repara que a espessura do vidro deve
mudar segundo o olho a que se deve adaptar, e  preciso tentar muitas destas lentes,
para as experimentar no paciente, enquanto no se encontra a espessura boa.
  - Que maravilha! - continuava Nicolau. - E no entanto muitos falariam de bruxaria e de
manipulao diablica...
   -  certo que por estas coisas podes falar de magia  concordou Guilherme. - Mas h
duas formas de magia. H uma magia que  obra do diabo e que visa a runa do homem
atravs de artifcios de que no  bom falar. Mas h uma magia que  obra divina, onde a
cincia de Deus se manifesta atravs da cincia do homem, que serve para transformar a
natureza, sendo um dos seus fins prolongar a prpria vida do homem. E esta  magia
santa, a que os sbios devero dedicar-se cada vez mais, no s para descobrir coisas
novas mas para redescobrir tantos segredos da natureza que a sapincia divina tinha
revelado aos hebreus, aos gregos, a outros povos antigos e at hoje aos infiis (e no te
digo quantas coisas maravilhosas de ptica e cincia da viso existem nos livros dos
infiis!). E uma cincia crist deve reapossar-se de todos estes conhecimentos e retom-
la aos pagos e aos infiis tanquam ab iniustus possessoribus.
  - Mas porque  que aqueles que possuem esta cincia no a comunicam a todo o povo
de Deus?
   - Porque nem todo o povo de Deus est pronto a aceitar tantos segredos, e muitas
vezes aconteceu que os depositrios desta cincia foram confundidos com magos ligados
por pacto com o demnio, pagando com a sua vida o desejo que tinham tido de tornar os
outros participantes do seu tesouro de conhecimento. Eu prprio, durante processos em
que se suspeitava que algum tinha comrcio com o demnio, tive de me abster de usar
estas lentes, recorrendo a secretrios cheios de boa vontade que me lessem as escrituras
de que precisava, porque seno, num momento em que a presena do diabo era to
invadente e todos respiravam, por assim dizer, o seu poder de enxofre, eu prprio teria
sido visto como amigo dos inquiridos. E enfim, advertia o grande Roger Bacon, nem
sempre os segredos da cincia devem andar nas mos de todos, que alguns poderiam us-
los para maus propsitos. Freqentemente o sbio deve fazer aparecer como mgicos
livros que mgicos no so, mas precisamente de boa cincia, para os proteger de olhos
indiscretos.
   - Tu temes portanto que os simples possam fazer mau uso destes segredos? - perguntou
Nicolau.
   - Pelo que respeita aos simples, temo apenas que possam ser aterrorizados,
confundindo-os com as obras do diabo, de que demasiadas vezes lhes falam os
pregadores. V, aconteceu-me conhecer mdicos habilssimos que tinham instilado
medicamentos capazes de curar imediatamente uma doena. Mas estes davam o seu
ungento ou infuso aos simples acompanhando-o com palavras sacras e salmodiando
frases que pareciam oraes. No porque estas oraes tivessem o poder de curar, mas
para que, acreditando que a cura vinha das oraes, os simples engolissem a infuso ou
se untassem com o ungento, e assim se curassem, sem prestar demasiada ateno  sua
fora efetiva. E depois tambm para que o esprito, bem excitado pela f na frmula
devora, se dispusesse melhor  ao corporal do medicamento. Mas freqentemente os
tesouros da cincia so defendidos no contra os simples mas sim contra outros sbios.
Fazem-se hoje mquinas prodigiosas, de que um dia te falarei, com que verdadeiramente
se pode dirigir o curso da natureza. Mas ai de ns se elas cassem nas mos de homens
que as usassem para estender o seu poder terreno e saciar a sua ambio de posse.
Dizem-me que em Catay um sbio misturou um p que pode produzir, em contato com o
fogo, um grande estrondo e uma grande chama, destruindo todas as coisas braas e
braas em redor. Admirvel artifcio, se fosse usado para desviar o curso dos rios ou
fragmentar as rochas onde haja que assorear o terreno. Mas se algum o usasse para
causar prejuzo aos seus prprios inimigos?
  - Talvez fosse bem, se fossem inimigos do povo de Deus  disse devotamente Nicolau.
  - Talvez - admitiu Guilherme. - Mas quem  hoje o inimigo do povo de Deus? Lus,
imperador, ou Joo, o papa?
  - Oh, meu Senhor - disse Nicolau todo assustado -, no queria de fato decidir sozinho
uma coisa to dolorosa!
   - Vs? - disse Guilherme. - Por vezes  bem que certos segredos ainda permaneam
cobertos por discursos ocultos. Os segredos da natureza no se transportam em peles de
cabra ou de ovelha. Aristteles diz no livro dos segredos que ao comunicar-se demasiados
arcanos da natureza e da arte se quebra um sigilo celeste e que muitos males poderiam
seguir-se. O que no quer dizer que os segredos no devam ser revelados, mas que
compete aos sbios decidir quando e como.
   - Por isso  bom que em lugares como este - disse Nicolau  nem todos os livros
estejam ao alcance de todos.
   - Essa  outra histria - disse Guilherme. - Pode-se pecar por excesso de loquacidade e
por excesso de reticncia. Eu no queria dizer que  preciso esconder as fontes da
cincia. Isto parece-me antes um grande mal. Queria dizer que, tratando-se de arcanos
de que pode nascer tanto o bem como o mal, o sbio tem o direito e o dever de usar uma
linguagem obscura, compreensvel s para seus iguais. A via da cincia  difcil, e 
difcil distinguir a o bem do mal. E freqentemente os sbios dos tempos novos so s
anes aos ombros de anes.
  A amvel conversa com o meu mestre devia ter posto Nicolau em veia de confidncias.
Por isso piscou o olho a Guilherme (como a dizer: eu e tu entendemo-nos porque falamos
das mesmas coisas) e aludiu:
  - Porm l em baixo - e apontou para o Edifcio - os segredos da cincia esto bem
defendidos por obras de magia...
  - Sim? - disse Guilherme, ostentando indiferena.  Portas trancadas, proibies
severas, ameaas, imagino.
  - Oh, no, mais...
  - O qu, por exemplo?
   - Olha, eu no sei com exatido, eu ocupo-me de vidros e no de livros, mas na abadia
circulam histrias... estranhas...
  - De que gnero?
   - Estranhas. Digamos, a de um monge que pela calada da noite quis aventurar-se na
biblioteca, para procurar qualquer coisa que Malaquias no tinha querido dar-lhe, e viu
serpentes, homens sem cabea e homens com duas cabeas. Por pouco no saa louco do
labirinto...
  - Porque falas de magia e no de aparies diablicas?
  - Porque embora seja um pobre mestre vidreiro no sou assim to ingnuo. O diabo
(Deus nos salve!) no tenta um monge com serpentes e homens bicfalos. Quando muito
com vises lascivas, como com os padres do deserto. E depois, se  mal pr a mo em
certos livros, porque  que o diabo havia de dissuadir um monge de cometer o mal?
  - Parece-me um bom entimema - admitiu o meu mestre.
   - E enfim, quando colocava as vidraas no hospital, diverti-me a folhear alguns livros
de Severino. Havia um livro de segredos escrito, creio, por Alberto Magno; fui atrado por
algumas iluminuras curiosas, e li umas pginas sobre o modo como se pode untar o pavio
de uma lmpada de azeite e com os sufumgios que dela provm provocam vises. Deves
ter notado, ou melhor, no deves ter ainda notado porque ainda no passaste uma noite
na abadia, que durante as horas noturnas o andar superior do Edifcio est iluminado.
Pelas vidraas, nalguns stios, transparece uma luz dbil. Muitos se tm perguntado o que
ser, e falou-se de fogos-ftuos, ou das almas dos bibliotecrios monges defuntos que
voltam para visitar o seu reino. Muitos aqui acreditam nisso. Eu penso que so lmpadas
preparadas para as vises. Sabes, se pegares na gordura da orelha de um co e com ela
untares um pavio, quem respirar o fumo daquela lmpada acreditar que tem uma
cabea de co, e se estiver algum a seu lado v-lo- com cabea de co. E h um outro
ungento que faz com que aqueles que giram  volta da lmpada se sintam grandes como
elefantes. E com os olhos de um morcego e de dois peixes cujo nome no recordo e o fel
de um lobo fazes um pavio que ao arder te far ver os animais donde tiraste a gordura. E
com a cauda de lagarto fazes ver todas as coisas em torno como de prata, e com a
gordura de uma serpente negra e um fragmento de lenol fnebre a sala aparecer cheia
de serpentes. Eu sei disso. Na biblioteca h algum muito astuto...
  - Mas no poderiam ser as almas dos bibliotecrios defuntos que fazem estas magias?
  Nicolau deteve-se perplexo e inquieto:
  - No tinha pensado nisso. Pode ser. Deus nos proteja...  tarde, as vsperas j
comearam. Adeus.
  E dirigiu-se para a igreja.
  Prosseguimos ao longo do lado sul:  direita o albergue dos peregrinos e a sala
capitular com o jardim,  esquerda os lagares, o moinho, os celeiros, as caves, a casa dos
novios. E todos se apressavam para a igreja.
  - Que pensais daquilo que disse Nicolau? - perguntei.
   - No sei. Na biblioteca acontece quaisquer coisa, e no creio que sejam as almas dos
bibliotecrios defuntos...
  - Porqu?
   - Porque imagino que tero sido to virtuosos que hoje estaro no reino dos cus a
contemplar o rosto da divindade, se esta resposta te pode satisfazer. Quanto, as
lmpadas, se as houver v-las-emos. E quanto aos ungentos de que nos falava o nosso
vidreira h modos mais fceis de provocar vises, e Severino conhece-os muito bem, tu
apercebeste-te disso hoje.  certo que na abadia no querem que se penetre de noite na
biblioteca e que muitos, pelo contrrio, tentaram ou tentam faz-lo.
  - E o nosso delito tem alguma coisa a ver com esta histria?
  - Delito? Quanto mais penso nisso mais me conveno que Adelmo se matou.
  - E porqu?
   - Recordas-te desta manh quando notei o depsito do estrume? Enquanto subamos a
curva dominada pelo torreo oriental tinha notado naquele ponto os sinais deixados por
um desmoronamento; ou melhor, uma poro de terreno, mais ou menos onde se
amontoa o estrume, tinha desabado rolando at debaixo do torreo. E eis porque esta
tarde, quando olhamos do alto, o estrume nos apareceu pouco coberto de neve, ou
melhor, coberto apenas pela ltima de ontem, no pela dos dias passados. Quanto ao
cadver de Adelmo, o Abade disse-nos que estava dilacerado pelas rochas, e sob o
torreo oriental, exatamente onde a construo acaba a pique, crescem pinheiros. As
rochas esto, pelo contrrio, precisamente no ponto em que a muralha acaba, formando
como que uma espcie de degrau, e depois comea a queda do estrume.
  - E ento?
   - E ento pensa se no ser mais... como dizer?... menos dispendioso para a nossa
mente pensar que Adelmo, por razes ainda a apurar, se atirou sponte sua do parapeito
da muralha, saltou sobre as rochas e, morto ou ferido que estivesse, precipitou-se no
estrume. Depois, o desmoronamento, devido ao furaco daquela noite, fez deslizar o
estrume e parte do terreno e tambm o corpo do infeliz para debaixo do torreo
oriental.
  - Porque dizeis que  uma soluo menos dispendiosa para a nossa mente?
   - Querido Adso, no  preciso multiplicar as explicaes e as causas sem ter estrita
necessidade disso. Se Adelmo caiu do torreo oriental  preciso que tenha penetrado na
biblioteca, que algum o tenha atingido primeiro para que no opusesse resistncia, que
tenha encontrado modo de subir com um corpo exnime s costas at  janela, que a
tenha aberto e tenha precipitado o desgraado no abismo. Com a minha hiptese
bastam-nos ao invs Adelmo, a sua vontade e um desmoronamento. Tudo se explica
utilizando um menor nmero de causas.
  - Mas porque  que se teria matado?
   - Mas porque  que o teriam matado? Em todo o caso,  preciso encontrar as razes. E
que as h parece-me indubitvel. No Edifcio respira-se ar de reticncia, todos nos calam
qualquer coisa. Entretanto j recolhemos algumas insinuaes, bastante vagas na
verdade, sobre uma certa relao que existia entre Adelmo e Berengrio. Quer dizer que
teremos debaixo de olho o ajudante-bibliotecrio.
   Enquanto assim se falava, o ofcio de vsperas tinha terminado. Os servos voltavam s
suas funes antes de se retirarem para a ceia, os monges encaminhavam-se para o
refeitrio. Agora, o cu estava escuro e principiava a nevar. Uma neve ligeira, em
pequenos flocos macios, que continuaria, creio, por grande parte da noite, porque na
manh seguinte todo o planalto estava coberto por um alvo manto, como direi.
  Eu tinha fome e acolhi com alvio a idia de ir para a mesa.
  PRIMEIRO DIA
  COMPLETAS
  Onde Guilherme e Adro gozam da alegre hospitalidade do Abade e da irritada
conversao de Jorge.
  O refeitrio era iluminado por grandes tochas. Os monges sentavam-se ao longo de
uma fila de mesas, dominada pela mesa do Abade, posta perpendicularmente a eles
sobre um vasto estrado. Do lado oposto um plpito, sobre o qual j tinha tomado lugar o
monge que faria a leitura durante a ceia. O Abade esperava-nos junto de uma pequena
fonte com um pano branco para nos enxugar as mos depois do lavabo, segundo os
conselhos antiqssimos de So Pacmio.
   O Abade convidou Guilherme para a sua mesa e disse que por aquela noite, dado que
tambm eu era hspede fresco, gozaria do mesmo privilgio, embora fosse um novio
beneditino. Nos dias seguintes, disse-me paternalmente, poderia sentar-me  mesa com
os monges, ou, se o meu mestre me tivesse confiado alguma tarefa, passar antes ou
depois das refeies pela cozinha, onde os cozinheiros se ocupariam de mim.
  Os monges estavam agora de p diante das mesas, imveis, com o capucho cado sobre
o rosto e as mos debaixo do escapulrio. O Abade aproximou-se da sua mesa e
pronunciou o Benedicite. Do plpito, o cantor entoou Eden pauperes. O Abade deu a sua
bno, e todos se sentaram.
   A regra do nosso fundador prev um almoo bastante parco, mas deixa decidir o
Abade a quantidade de alimento de que efetivamente tm necessidade os monges. Por
outro lado, agora nas nossas abadias cede-se mais aos prazeres da mesa. No falo
daquelas que, infelizmente, se tornaram em covis de glutes; mas mesmo as que se
inspiram em critrios penitenciais e de virtude fornecem aos monges, absorvidos quase
sempre em gravosos trabalhos do intelecto, uma nutrio no mole mas robusta. Por
outro lado, a mesa do Abade  sempre privilegiada, at porque no raro a ela se sentam
hspedes de respeito, e as abadias so orgulhosas dos produtos dos seus cozinheiros.
   A refeio dos monges decorreu em silncio, como de costume, comunicando uns com
os outros com o nosso habitual alfabeto dos dedos. Os novios e os monges mais jovens
eram servidos primeiro, logo depois dos pratos destinados a todos terem passado pela
mesa do Abade.
    mesa do Abade sentavam-se conosco Malaquias, o despenseiro e os dois monges mais
idosos. Jorge de Burgos, o velho cego que j tinha conhecido no scriptorium, e o
velhssimo Alinardo de Grottaferrata: quase centenrio, claudicante e de aspecto frgil,
e -pareceu-me - de esprito ausente. O Abade disse-nos dele que, tendo entrado como
novio naquela abadia, sempre ali tinha vivido e recordava pelo menos oitenta anos das
suas vicissitudes. O Abade disse-nos estas coisas no princpio, em voz baixa, porque em
seguida ateve-se ao uso da nossa ordem e seguiu-se em silncio a leitura. Mas, como
disse,  mesa do Abade tomavam-se algumas liberdades, e sucedeu-nos elogiar os pratos
que nos foram oferecidos, enquanto o Abade celebrava as qualidades do seu azeite ou do
seu vinho. At uma vez, servindo-nos de beber, recordou-nos aqueles passos da regra em
que o santo fundador tinha observado que certamente o vinho no convm aos monges,
mas, pois que no se podem persuadir os monges do nosso tempo a no beber, que ao
menos no bebam at  saciedade, porque o vinho leva  apostasia at os sbios, como
recorda o Eclesiastes. Bento dizia no nosso tempo e referia-se ao seu, j muito
distante: imaginemos no tempo em que cevamos na abadia, depois de tanta decadncia
de costumes (e no falo do meu tempo, em que agora escrevo, com a diferena que aqui
em Melk cede-se mais  cerveja!): em suma, bebeu-se sem exagerar mas no sem gosto.
   Comemos carne no espeto, dos porcos acabados de matar, e reparei que para outros
alimentos no se usava gordura de animais nem leo de colza, mas um bom azeite de
oliveira, que vinha de terrenos que a abadia possua aos ps do monte para o lado do
mar. O Abade fez-nos provar (reservado para a sua mesa) aquele frango que tinha visto
preparar na cozinha. Notei que, coisa bastante rara, ele dispunha tambm de um garfo
de metal, que, pela forma, me recordava as lentes do meu mestre: homem de nobre
extrao, o nosso hospedeiro no queria sujar as mos com a comida, e at nos ofereceu
o seu instrumento ao menos para tirar as carnes do prato grande e p-las nas nossas
escudelas. Eu recusei, mas vi que Guilherme aceitou de bom grado e se serviu com
desenvoltura daquele utenslio de senhores, talvez para provar ao Abade que os
franciscanos no eram pessoas de escassa educao e de extrao humilssima.
   Entusiasta como era por todas aquelas boas comidas (depois de alguns dias de viagem
em que nos tnhamos alimentado como podamos), tinha-me distrado do curso da leitura
que entretanto prosseguia devotamente. Fui chamado a ela por um vigoroso grunhido de
assentimento de Jorge, e reparei que se tinha chegado ao ponto em que se lia sempre
um captulo da regra. Dei conta da razo por que Jorge estava to satisfeito, depois de o
ter escutado naquela tarde. De fato, dizia o leitor: Imitemos o exemplo do profeta que
diz: decidi, vigiarei sobre o meu caminho para no pecar com a minha lngua, pus uma
mordaa  minha boca, emudeci humilhando-me, abstive-me de tudo, at de coisas
honestas. E se neste passo o profeta nos ensina que, por vezes, por amor do silncio, nos
deveramos abster at dos discursos lcitos, quanto mais devemos abster-nos dos
discursos ilcitos para evitar a pena deste pecado! E depois prosseguia: Mas as
vulgaridades, as palermices e as fanfarronices ns condenamo-las a recluso perptua,
em qualquer lugar, e no permitimos que o discpulo abra a boca para fazer discursos de
tal sorte.
  - E que isto valha para os marginalia de que se falava hoje - no se conteve de
comentar Jorge em voz baixa Joo Boccadoro disse que Cristo nunca riu.
  - Nada na sua natureza humana o impedia - observou Guilherme -, porque o riso, como
ensinam os telogos,  prprio do homem.
  - Forte potuit sed non legitur eo usus fuisse  disse incisivamente Jorge, citando Pedro
Cantore.
  - Manduca, jam coctum est - sussurrou Guilherme.
  - O qu? - perguntou Jorge, que pensava que ele aludia a algum alimento que lhe era
apresentado.
   - So as palavras que, segundo Ambrsio, foram pronunciadas por So Loureno na
grelha, quando convidou os carrascos a volt-lo do outro lado, como tambm recorda
Prudncio no Perirtephanon - disse Guilherme com o ar de um santo.  So Loureno
sabia portanto rir e dizer coisas ridculas embora fosse para humilhar os prprios
inimigos.
   - O que demonstra que o riso  coisa bastante prxima da morte e da corrupo do
corpo - rebateu Jorge, com um grunhido, e devo admitir que se comportou como bom
lgico.
   Naquele momento, o Abade convidou-nos amavelmente ao silncio. A ceia, alis,
estava a terminar. O Abade levantou-se e apresentou Guilherme aos monges. Louvou-lhe
a sabedoria, proclamou-lhe a fama, e advertiu que lhe tinha sido pedido para investigar
sobre a morte de Adelmo, convidando os monges a responder s suas perguntas e a
advertir os seus subordinados, por toda a abadia, a fazerem outro tanto. E a facilitar-lhe
as investigaes, contanto que, acrescentou, os seus pedidos no transgredissem as
regras do mosteiro. Nesse caso, dever-se-ia recorrer  sua autorizao.
  Acabada a ceia, os monges dispuseram-se a dirigir-se para o coro, para o ofcio de
completas. Baixaram de novo o capucho sobre o rosto e alinharam-se diante da porta,
parados. Depois moveram-se numa longa fila, atravessando o cemitrio e entrando no
coro pelo portal setentrional.
  Encaminhamo-nos com o Abade.
  - A esta hora fecham-se as portas do Edifcio?  perguntou Guilherme.
   - Logo que os servos tenham limpo o refeitrio e as cozinhas, o prprio bibliotecrio
fechara todas as portas, trancando-as por dentro.
  - Por dentro? E ele por onde sai?
  O Abade fixou Guilherme por um instante de rosto srio:
  - Decerto no dorme na cozinha - disse bruscamente.
  E apressou o passo.
   - Muito bem - sussurrou Guilherme -, portanto existe uma outra entrada, mas ns no
a devemos conhecer. - Eu sorri todo orgulhoso da sua deduo, e ele ralhou-me: - E no
te rias. Bem viste que dentro destas muralhas o riso no goza de boa reputao.
   Entramos no coro. Ardia uma nica lmpada, sobre um robusto trip de bronze, da
altura de dois homens. Os monges colocaram-se nas estalas em silncio, enquanto o
leitor lia uma passagem de uma homilia de So Gregrio.
   Depois o Abade fez um sinal e o cantor entoou Tu autem Domine miserere nobis. O
Abade respondeu Adjutorium nostrum in nomine Domini, e todos fizeram coro com Qui
fecit coelum et terram. Ento iniciou-se o canto dos salmos: Quando te invoco responde-
me,  Deus da minha justia! Dar-te-ei graas, Senhor, com todo o meu corao,
bendizei o Senhor, servos todos do Senhor. Ns no nos tnhamos colocado nas estalas,
mas tnhamo-nos retirado para a nave principal. Foi dali que distinguimos de repente
Malaquias, que emergia do escuro de uma capela lateral.
  - No percas de vista aquele ponto - disse-me Guilherme.  Pode haver uma passagem
que leve ao Edifcio.
  - Por baixo do cemitrio?
   - E porque no? Melhor, pensando bem nisso, deve haver em qualquer parte um ossrio
;  impossvel que h sculos sepultem todos os monges naquela nesga de terra.
  - Mas quereis verdadeiramente entrar de noite na biblioteca? - perguntei, aterrado.
  - Onde esto os monges defuntos e as serpentes e as luzes misteriosas, meu bom Adso?
No, rapaz. Pensava nisso hoje, e no por curiosidade mas porque me punha o problema
de como teria morrido Adelmo. Agora, como te disse, inclino-me para uma explicao
mais lgica, e no fim de contas quero respeitar os usos deste lugar.
  - Ento porque quereis saber?
   - Porque a cincia no consiste apenas em saber aquilo que se deve ou se pode fazer,
mas tambm em saber aquilo que se poderia fazer e que talvez no se deva fazer. Eis
porque dizia hoje ao mestre vidreiro que o sbio deve de certo modo ocultar os segredos
que descobre, para que outros no faam mau uso deles, mas  preciso descobri-los, e
esta biblioteca parece-me sobretudo um lugar onde os segredos permanecem
encobertos.
   Com estas palavras encaminhou-se para fora da igreja, porque o ofcio tinha
terminado. Estvamos ambos muito cansados, e fomos para a nossa cela. Eu aninhei-me
naquilo a que Guilherme chamou gracejando o meu nicho e adormeci imediatamente.
  SEGUNDO DIA
  MATINAS
  Onde poucas horas de mstica felicidade so interrompidas por um ato sumamente
sangrento.
   Smbolo ora do demnio ora de Cristo ressuscitado, nenhum animal  mais falso que o
galo. A nossa ordem conheceu-os preguiosos, que no cantavam ao nascer do Sol. E por
outro lado, especialmente nos dias de Inverno, o ofcio de matinas tem lugar quando 
ainda noite plena e a natureza est toda adormecida, pelo que o monge deve levantar-se
na obscuridade e longamente na obscuridade rezar, esperando o dia e iluminando as
trevas com a chama da devoo. Por isso, sabiamente, o costume predisps vigilantes
que no se deitam com os seus irmos, mas passam a noite recitando ritmicamente um
nmero exato de salmos que lhes d a medida do tempo decorrido, de modo que, ao fim
das horas votadas ao sono dos outros, aos outros do o sinal da viglia.
  Portanto, naquela noite fomos acordados por aqueles que percorriam o dormitrio e a
casa dos peregrinos tocando uma campainha, enquanto um ia de cela em cela gritando o
Benedicamus Domino, a que cada um respondia Deo gratias.
  Guilherme e eu ativemo-nos ao uso beneditino: em menos de meia hora preparamo-
nos para afrontar o novo dia. a seguir descemos ao coro, onde os monges esperavam
prostrados por terra, recitando os primeiros quinze salmos, at que entraram os novios
conduzidos pelo seu mestre. Em seguida cada um se sentou na sua prpria estala e o coro
entoou Domine labia mea aperies et os meum annuntiabit laudem tuam. O grito subiu
at s abbadas da igreja como a splica de uma criana. Dois monges subiram ao
plpito e deram voz ao salmo noventa e quatro, Venite exultemus, a que se seguiram os
outros prescritos. E eu senti o ardor de uma f renovada.
   Os monges estavam nas estalas, sessenta figuras igualadas pelo saio e pelo capucho,
sessenta sombras mal iluminadas pelo fogo do grande trip, sessenta vozes unidas em
louvor do Altssimo. E ouvindo este comovente concerto, vestbulo das delcias do
paraso, perguntei-me se na verdade a abadia era lugar de mistrios ocultos, de ilcitas
tentativas de os revelar e de obscuras ameaas. Porque agora, pelo contrrio, ela
aparecia-me como refgio de santos, cenculo de virtudes, relicrio de sapincia, arca
de prudncia, torre de sabedoria, recinto de mansido, bastio de fortaleza, turbulo de
santidade.
  Depois de seis salmos comeou a leitura da sagrada escritura. Alguns monges
cabeceavam de sono, e um dos vigilantes da noite girava por entre as estalas com uma
pequena lmpada para despertar quem tivesse adormecido. Se algum era surpreendido
em plena modorra, como penitncia pegava na lmpada e continuava a ronda de
controle. Em seguida recomeou o canto de mais seis salmos. Depois, o Abade deu a sua
beno, o hebdomadrio disse as oraes, todos se inclinaram para o altar num minuto
de recolhimento, de que ningum que no tenha vivido estas horas de mstico ardor e de
intensssima paz interior pode compreender a doura. Finalmente, de capucho de novo
sobre o rosto, todos se sentaram e entoaram solenemente o de Deum. Tambm eu louvei
o Senhor, porque me tinha libertado das minhas dvidas livrando-me da sensao de mal-
estar em que o primeiro dia na abadia me tinha lanado. Somos seres frgeis, disse para
comigo, tambm entre estes monges doutos e devotos o maligno faz circular pequenas
invejas, sutis inimizades, mas trata-se de fumo que se dissipa ao vento impetuoso da f,
logo que todos se renem em nome do Pai, Cristo desce ainda entre eles.
   Entre matinas e laudas, o monge no volta  cela, mesmo que a noite seja ainda
profunda. Os novios seguiram o seu mestre para a sala capitular para estudarem os
salmos, alguns dos monges ficaram na igreja a arrumar os utenslios sagrados, a maioria
passeava meditando em silncio no claustro, e assim fizemos Guilherme e eu. Os servos
dormiam ainda e continuavam a dormir quando, com o cu ainda escuro, voltamos ao
coro para laudas.
   Recomeou o canto dos salmos, e um em particular, entre os previstos para segunda-
feira, mergulhou-me de novo nos meus primitivos temores: A culpa apoderou-se do
mpio, do intimo do seu corao  no h temor de Deus nos seus olhos  age em fraude
na sua presena - de modo que a sua lngua se torne odiosa. Esclareceu-me de mau
pressgio que a regra tivesse prescrito precisamente para aquele dia uma advertncia
to terrvel. Tambm no acalmou as minhas palpitaes de inquietao, depois dos
salmos de louvor a habitual leitura do apocalipse, e voltaram-me  mente as figuras do
portal que tanto me tinham subjugado o corao e o olhar no dia anterior. Mas depois do
responsrio, o hino e o versculo, quando estava a comear o cntico do evangelho,
surgiu por detrs das janelas do coro, precisamente sobre o altar, um claro plido que
j fazia resplandecer os vitrais nas suas diversas cores, at ento mortificadas pela
treva. No era ainda a aurora, que triunfaria durante prima, precisamente enquanto
cantvamos Deur qui est sanctorum splendor mirabilis e lam lucis orto sidere. Era apenas
o primeiro dbil anncio da alba invernal, mas foi o bastante, e foi bastante para me
sossegar o corao a leve penumbra que na nave ia agora substituindo a obscuridade
noturna.
   Cantvamos as palavras do livro divino e, enquanto testemunhvamos o Verbo que
tinha vindo iluminar as gentes, pareceu-me que o astro diurno em todo o seu fulgor
estava invadindo o templo. A luz, ainda ausente, pareceu-me resplandecer nas palavras
do cntico, lrio mstico que se entreabria odoroso entre os cruzeiros das abbadas.
Graas,  Senhor, por este momento de gudio inenarrvel, rezei silenciosamente, e
disse ao meu corao e tu, estpido, que temes?
   De repente, levantaram-se alguns clamores do lado do portal setentrional. Perguntei-
me como  que os servos, preparando-se para o trabalho, perturbavam assim as sagradas
funes. Naquele instante entraram trs porqueiros, com o terror no rosto, e
aproximaram-se do Abade, sussurrando-lhe qualquer coisa. O Abade primeiro acalmou-os
com um gesto, como se no quisesse interromper o ofcio: mas outros servos entraram,
os gritos tornaram-se mais fortes: E um homem, um homem morto!, dizia algum; e
outros: Um monge, no viste o calado?
  Os que oravam calaram-se, o Abade saiu precipitadamente, fazendo sinal ao
despenseiro que o seguisse. Guilherme foi atrs deles, mas ento tambm os outros
monges abandonavam as suas estalas e se precipitavam para fora.
  O cu estava agora claro, e a neve no cho tornava ainda mais luminoso o planalto.
Por detrs do coro, diante dos estbulos, onde desde o dia anterior dominava o grande
recipiente com o sangue dos porcos, um estranho objeto de forma quase cruciforme saa
do bordo da talha, como se fossem dois paus espetados no solo para cobrir de trapos para
espantar os pssaros.
  Eram ao invs duas pernas humanas, as pernas de um homem enfiado de cabea para
baixo no vaso de sangue.
   O Abade ordenou que se retirasse o cadver do lquido infame (porque infelizmente
nenhuma pessoa viva poderia ficar naquela posio obscena). Os porqueiros, hesitantes,
aproximaramse do bordo e, sujando-se de sangue, retiraram de l a pobre coisa
sanguinolenta. Como me tinha sido dito, remexido devidamente logo depois de ter sido
vertido e deixado ao frio, o sangue no tinha coagulado, mas a camada que recobria o
cadver tendia agora a solidificar-se, ensopava-lhe as vestes, tornava-lhe o rosto
irreconhecvel. Aproximou-se um servo com um balde de gua e atirou-a sobre o rosto
daquele msero despojo. Um outro inclinou-se com um pano para lhe limpar as feies. E
apareceu aos nossos olhos o rosto branco de Venancio de Salvamec, o sabedor de coisas
gregas com quem tnhamos discorrido de tarde diante dos cdices de Adelmo.
   - Talvez Adelmo se tenha suicidado - disse Guilherme, fixando aquele rosto -, mas este
no, decerto, nem se pode pensar que se tenha iado por acidente at ao bordo da talha
e tenha cado por engano.
  O Abade aproximou-se dele:
  - Frade Guilherme, como vedes alguma coisa acontece na abadia, alguma coisa que
requer toda a vossa sabedoria. Mas, esconjuro-vos, agi depressa!
  - Estava presente no coro durante o oficio?  perguntou Guilherme, indicando o
cadver.
  - No - disse o Abade. - Notei que a sua estala estava vazia.
  - Nenhum outro estava ausente?
  - No me parece. No notei nada.
  Guilherme hesitou antes de formular a nova pergunta, e f-la num sussurro, atento a
que os outros no ouvissem:
  - Berengrio estava no seu lugar?
   O Abade olhou-o com inquieta admirao, como a significar que tinha ficado
impressionado ao ver o meu mestre nutrir uma suspeita que ele prprio tinha por um
instante nutrido, mas por mais compreensveis razes. Depois disse, rpido:
  - Estava, est na primeira fila, quase  minha direita.
   - Naturalmente - disse Guilherme -, tudo isto no significa nada. No creio que
ningum para entrar no coro tenha passado por trs da abside, e por isso o cadver podia
j estar aqui h vrias horas, pelo menos desde que todos tinham ido dormir.
  - Decerto, os primeiros servos levantam-se com a alba, e por isso o descobriram s
agora.
  Guilherme inclinou-se sobre o cadver, como se estivesse habituado a tratar corpos
mortos. Molhou o pano que estava ao lado na gua do balde e limpou melhor o rosto de
Venancio. Entretanto, os outros monges apinhavam-se assustados, formando um circulo
vozeante a que o Abade estava impondo silncio. Entre eles abriu caminho Severino, a
quem estava confiado cuidar dos corpos da abadia, e inclinou-se perto do meu mestre.
Eu, para ouvir o seu dilogo e para ajudar Guilherme, que tinha necessidade de ter um
novo pano limpo molhado na gua, uni-me a eles, superando o meu terror e a minha
repugnncia.
  - Nunca viste um afogado? - perguntou Guilherme.
  - Muitas vezes - disse Severino. - E, se adivinho o que queres dizer, no tem este
aspecto, e as suas feies ficam inchadas.
  - Ento o homem j estava morto quando algum o atirou para a jarra.
  - Porque  que havia de fazer isso?
  - Porque  que havia de o matar? Estamos diante da obra de uma mente perversa. Mas
agora  preciso ver se h feridas ou contuses pelo corpo. Proponho lev-lo para os
balnea, despi-lo, lav-lo e examin-lo. Vou j ter contigo.
   E enquanto Severino, recebida licena do Abade, mandava transportar o corpo pelos
porqueiros, o meu mestre pediu que mandassem entrar os monges de novo no coro
seguindo o caminho por onde tinham vindo, e que os servos se retirassem da mesma
maneira, de modo que o espao ficasse deserto. O Abade no lhe perguntou o porqu
deste seu desejo e satisfez-lho. Ficamos assim sozinhos, ao lado da talha donde o sangue
tinha transbordado durante a macabra operao de retirar o corpo, a neve em torno
toda vermelha, derretida em vrios pontos pela gua que tinha sido espalhada, e uma
grande mancha escura onde o cadver tinha sido estendido.
   - Um belo sarilho  disse Guilherme, referindo-se ao jogo complexo de marcas deixado
em volta pelos monges e pelos servos. - A neve, querido Adso,  um admirvel
pergaminho sobre o qual os corpos dos homens deixam escritas faclimas de ler. Mas este
 um palimpsesto mal raspado, e talvez no leiamos nele nada de interessante. Daqui 
igreja, foi uma grande corrida de monges apressados, daqui  estrumeira e aos estbulos
vieram os servos em tropel. O nico espao intacto  aquele que vai das estrumeiras ao
Edifcio. Vejamos se encontramos alguma coisa de interessante.
  - Mas que coisa quereis encontrar? - perguntei.
  - Se no se lanou sozinho no recipiente, algum o levou para l, j morto, imagino. E
quem transporta o corpo de outro deixa pegadas profundas na neve. E agora procura
encontrar aqui em redor pegadas que te paream diferentes das que deixaram estes
monges vociferadores que nos estragaram o nosso pergaminho.
   Assim fizemos. E digo j que fui eu, Deus me salve da vaidade, que descobri qualquer
coisa entre o recipiente e o Edifcio. Eram marcas de ps humanos, bastante fundas,
numa zona em que ningum tinha ainda passado e, como logo notou o meu mestre, mais
ligeiras do que as deixadas pelos monges e pelos servos, sinal de que mais neve ali tinha
cado, e portanto tinham sido deixadas h mais tempo. Mas aquilo que nos pareceu mais
digno de interesse era que entre aquelas marcas se mesclava uma pegada mais contnua,
como de qualquer coisa arrastada por quem tinha deixado as marcas. Em resumo, um
sulco que ia da jarra  porta do refeitrio, do lado do Edifcio que ficava entre a torre
meridional e a oriental.
  - Refeitrio, scriptorium, biblioteca - disse Guilherme.  Mais uma vez a biblioteca.
Venancio morreu no Edifcio, e mais provavelmente na biblioteca.
  - E porqu precisamente na biblioteca?
   - Procuro meter-me na pele do assassino. Se Venancio morreu, foi morto, no
refeitrio, na cozinha ou no scriptorium, porque no deix-lo l? Mas se morreu na
biblioteca era preciso transport-lo para outro lugar, seja porque na biblioteca jamais
seria descoberto (e talvez ao assassino interessasse precisamente que fosse descoberto)
seja porque o assassino provavelmente no quer que a ateno se concentre sobre a
biblioteca.
  - E porque  que ao assassino podia interessar que fosse descoberto?
  - No sei, ponho hipteses. Quem te diz que o assassino matou Venancio porque
odiava Venncio? Podia t-lo morto, no lugar de qualquer outro, para deixar um sinal,
para significar alguma outra coisa.
   - Omnis mundi creatura, quasi liber et scriptura... - murmurei. - Mas de que sinal se
trataria?
  -  isso que eu no sei. Mas no esqueamos que existem sinais que o parecem e, pelo
contrrio, so desprovidos de sentido, como blitiri ou bu-ba-baff...
  - Seria atroz  disse - matar um homem por dizer bu-ba-baff!
  - Seria atroz - comentou Guilherme - matar um homem at por dizer Credo in unum
Deum...
  Naquele momento chegou junto de ns Severino. O cadver tinha sido lavado e
examinado com cuidado. Nenhuma ferida, nenhuma contuso na cabea. Morto como por
encanto.
  - Como por castigo divino? - perguntou Guilherme.
  - Talvez - disse Severino.
  - Ou por veneno?
  Severino hesitou.
  - Talvez, tambm.
  - Tens venenos no laboratrio? - perguntou Guilherme enquanto nos encaminhvamos
para o hospital.
   - Tambm. Mais depende do que entendes por veneno. H substancias que em
pequenas doses so salutares e em doses excessivas provocam morte. Como todo o bom
ervanrio, conservo-as, e uso-as com discrio. No meu horto cultivo, por exemplo, a
valeriana. Poucas gotas numa infuso de outras ervas acalmam o corao que bate
desordenadamente. Uma dose exagerada provoca torpor e morte.
  - E no notaste no cadver sinais de um veneno particular?
  - Nenhum. Mas muitos venenos no deixam marcas.
   Tnhamos chegado ao hospital. O corpo de Venancio, lavado nos balnea, tinha sido
para ali transportado e jazia na grande mesa do laboratrio de Severino: alambiques e
outros instrumentos de vidro e barro fizeram-me pensar mas sabia disso s por relatos
indiretos) na botica de um alquimista. Sobre uma grande estante ao longo da parede
externa, espalhava-se uma vasta srie de ampolas, jarros, vasos, cheios de substancias
de diversas cores.
   - Uma bela coleo de simples - disse Guilherme. - Todos os produtos vem do vosso
jardim?
   - No - disse Severino -, muitas substancias, raras e que no crescem nestas zonas,
foram-me trazidas ao longo dos anos por monges provenientes de todas as partes do
mundo. Tenho ainda coisas preciosas e rarssimas, misturadas com substancias que  fcil
obter da vegetao destes lugares. Olha... aghalingho pisado, provm de Catay, e deu-
mo um sbio rabe. Alos suco-trino, vem das ndias, timo cicatrizante. Mercrio,
ressuscita os mortos, ou, para melhor dizer, acorda aqueles que perderam os sentidos.
Arsnico, perigosssimo, veneno mortal para quem o ingerir. Boracie, planta boa para os
pulmes doentes. Betnica, boa para as faturas do crnio. Mastigue, refreia os fluxos
pulmonares e os catarros molestos. Mirra...
  - A dos magos? - perguntei.
  - A dos magos, mas aqui boa para prevenir os abortos, colhida duma rvore que se
chama Balsamodendron myrra. E esta  mmia, rarssima, produzida pela decomposio
dos cadveres mumificados, serve para preparar muitos medicamentos quase milagrosos.
Mandrgora officinalis, boa para o sono...
  - E para suscitar o desejo da carne - comentou o meu mestre.
   - Dizem, mas aqui no se usa nesse sentido, como podeis imaginar - sorriu Severino. -
E olhai esta - disse, pegando numa ampola - tutia, milagrosa para os olhos.
  - E o que  esta? - perguntou vivamente Guilherme, tocando numa pedra que estava
sobre uma estante.
  - Esta? Foi-me doada h tempos. Creio que  lopris amatiti ou lapis ematitis. Parece
que tem vrias virtudes teraputicas, mas ainda no descobri quais. Conhece-la?
  - Sim - disse Guilherme -, mas no como medicamento.
   Tirou do saio um canivete e aproximou-o lentamente da pedra. Quando o canivete,
movido pela sua mo com extrema delicadeza, chegou a pouca distncia da pedra, vi que
a lamina executava um movimento brusco, como se Guilherme tivesse movido o pulso,
que pelo contrrio tinha completamente imvel. E a lamina aderiu  pedra com um leve
rudo de metal.
  - Olha - disse-me Guilherme -,  um magnete.
  - E para que serve? - perguntei.
  - Para vrias coisas, que te direi. Mas por agora queria saber, Severino, se no h aqui
nada que possa matar um homem.
  Severino refletiu um instante, demasiado diria, dada a limpidez da sua resposta:
  - Muitas coisas. J te disse, o limite entre o veneno e o medicamento  bastante
tnue, os Gregos chamavam a ambos pharmacon.
  - E no h nada que vos tenha sido tirado recentemente?
  Severino refletiu ainda; depois, quase pesando as palavras:
  - Nada, recentemente.
  - E no passado?
  - Quem sabe. No me recordo. Estou nesta abadia h trinta anos, e estou no hospital
h vinte e cinco.
  - Demasiado para uma memria humana - admitiu Guilherme. Depois, de repente: -
Falvamos ontem de plantas que podem provocar vises. Quais so?
   Severino manifestou com os gestos e com a expresso do rosto o seu vivo desejo de
evitar aquele assunto:
  - Tenho de pensar nisso, sabes, tenho tantas substancias milagrosas aqui. Mas falemos
antes de Venancio. Que dizes?
  - Tenho de pensar nisso - respondeu Guilherme.
  SEGUNDO DIA
  PRIMA
  Onde Bncio de Upsala confia algumas coisas, outras confia-as a Berengrio de
Arundel, e Adro aprende o que  a verdadeira penitencia.
  O desgraado acidente tinha transtornado a vida da comunidade. O tumulto devido a
descoberta do cadver tinha interrompido o ofcio sacro. O Abade tinha imediatamente
impelido de novo os monges para o coro, para que rezassem pela alma do seu irmo.
   As vozes dos monges eram entrecortadas. Pusemo-nos numa situao adequada para
estudar a sua fisionomia quando, segundo a liturgia, o capucho no estava posto. Vimos
logo o rosto de Berengrio. Plido, contrado, luzidio de suor. No dia anterior tnhamos
ouvido por duas vezes murmurar a seu respeito como duma pessoa que tivesse que ver de
modo particular com Adelmo; e no era o fato que os dois, coetneos, fossem amigos,
mas o tom evasivo daqueles que tinham aludido a essa amizade.
   Notamos, a seu lado, Malaquias. Sombrio, crispado, impenetrvel. Ao lado de
Malaquias, igualmente impenetrvel, o rosto do cego Jorge. Observamos, pelo contrrio,
os movimentos nervosos de Bncio de Upsala, o estudioso de retrica conhecido no dia
anterior no scriptorium, e surpreendemos um rpido olhar que este lanava na direo
de Malaquias.
   - Bncio est nervoso, Berengrio est assustado  observou Guilherme. -  preciso
interrog-los imediatamente.
  - Porqu? - perguntei ingenuamente.
  - O nosso  um duro ofcio - disse Guilherme. - Duro ofcio o do inquisidor,  preciso
bater nos mais fracos e no momento da sua maior fraqueza.
   De fato, mal acabou o ofcio, alcanamos Bncio, que se dirigia para a biblioteca. O
jovem pareceu contrariado por se sentir chamado por Guilherme, e alegou qualquer
dbil pretexto de trabalho. Parecia ter pressa de se dirigir ao scriptorium. Mas o meu
mestre recordou-lhe que estava fazendo um inqurito por mandado do Abade e
conduziu-o para o claustro. Sentamo-nos no parapeito interno, entre duas colunas.
Bncio esperava que Guilherme falasse, olhando a espaos para o Edifcio.
  - Ento - perguntou Guilherme -, que se disse naquele dia em que estiveste a discutir
sobre os marginalia de Adelmo, tu, Berengrio, Venancio, Malaquias e Jorge?
   - Ouviste-lho ontem. Jorge observava que no  lcito ornar de imagens ridculas os
livros que contm a verdade. E Venancio observou que o prprio Aristteles tinha falado
de argcias e jogos de palavras, como instrumentos para melhor descobrir a verdade, e
que, portanto, o riso no devia ser coisa m, se podia fazer-se um veculo de verdade.
Jorge observou que, pelo que recordava, Aristteles tinha falado destas coisas no livro da
Potica e a propsito das metforas. Que j se tratava de duas circunstancias
inquietantes, primeiro porque o livro da Potica, tendo permanecido ignorado do mundo
cristo por tanto tempo e talvez por decreto divino, nos chegou atravs dos mouros
infiis...
  - Mas foi traduzido em latim por um amigo do anglico doutor de Aquino - observou
Guilherme.
   - Foi o que eu lhe disse - disse Bncio de sbito reanimado. - Eu...amo grego e pude
anotar aquele grande livro precisamente atravs da traduo de Guilherme de Moerbeke.
A est, foi o que eu lhe disse. Mas Jorge acrescentou que o segundo motivo de
inquietao  que o Estagirita falava a da poesia, que  nfima doutrina e que vive de
figmenta. E Venancio disse que tambm os salmos so obra de poesia e usam metforas,
e Jorge irou-se porque disse que os salmos so obra de inspirao divina e usam
metforas para transmitir a verdade enquanto as obras dos poetas pagos usam
metforas para transmitir a mentira e com fins de mero deleite, coisa que muito me
ofendeu...
  - Porqu?
   - Porque eu ocupo-me de retrica, e leio muitos poetas pagos, e sei... ou melhor,
creio que atravs da sua palavra tambm foram transmitidas verdades naturaliter
crists... Em suma, naquele ponto, se me recordo bem, Venancio falou de outros livros,
e Jorge zangou-se muito.
  - Que livros?
  Bncio hesitou:
  - No me recordo. Que importa de que livros se falou?
  - Importa muito, porque aqui estamos procurando compreender o que ter acontecido
entre homens que vivem entre os livros, com os livros, dos livros, e portanto tambm as
suas palavras sobre os livros so importantes.
   -  verdade - disse Bncio, sorrindo pela primeira vez e quase com o rosto iluminado. -
Ns vivemos para os livros. Doce misso neste mundo dominado pela desordem e pela
decadncia. Ento talvez compreendais o que aconteceu naquele dia. Venancio, que
sabe... que sabia muito bem o grego, disse que Aristteles tinha dedicado especialmente
ao riso o segundo livro da Potica e que, se um filsofo daquela grandeza tinha
consagrado um livro inteiro ao riso, o riso devia ser uma coisa importante. Jorge disse
que muitos padres tinham dedicado livros inteiros ao pecado, que  uma coisa
importante mas m, e Venancio disse que, pelo que ele sabia, Aristteles tinha falado do
riso como coisa boa e instrumento de verdade, e ento Jorge perguntou-lhe com escrnio
se por acaso ele tinha lido esse livro de Aristteles, e Venancio disse ainda que ningum
podia t-lo lido, porque jamais se tinha encontrado e talvez se tivesse perdido. E de fato
nunca ningum pde ler o segundo livro da Potica, Guilherme de Moerbeke nunca o teve
nas mos. Ento Jorge disse que se no se tinha encontrado era porque nunca tinha sido
escrito, porque a Providncia no queria que fossem glorificadas as coisas fteis. Eu
queria acalmar os nimos, porque Jorge facilmente se irrita e Venancio falava de modo a
provoc-lo, e disse que na parte da Potica que conhecemos, e na Retrica, se
encontram muitas observaes sbias sobre os enigmas argutos, e Venancio esteve de
acordo comigo. Ora estava conosco Pacfico de Tivoli, que conhece bastante bem os
poetas pagos, e disse que quanto a enigmas argutos ningum supera os poetas
africanos. Citou mesmo o enigma do peixe, o de Sinfsio:
  Est domus in terris, clara quae voce resultat. Ipsa domus resonat, tacitus sed non
sonat hospes. Ambo lamen currunt, hospes simul et domus una.
   Nessa altura, Jorge disse que Jesus tinha recomendado que o nosso falar fosse sim ou
no e que o mais vinha do maligno; e que bastava dizer peixe para nomear o peixe, sem
lhe ocultar o conceito sob sons mentirosos. E acrescentou que no lhe parecia sbio
tomar como modelo os africanos... E ento...
  - Ento?
   - Ento aconteceu uma coisa que no compreendi. Berengrio ps-se a rir, Jorge
repreendeu-o, e ele disse que ria porque lhe tinha vindo  mente que procurando bem
entre os africanos se encontrariam enigmas bem diversos e no to fceis como o do
peixe. Malaquias, que estava presente, ficou furibundo, quase agarrou Berengrio pelo
capucho, mandando-o ocupar-se dos seus assuntos... Berengrio, como sabeis,  o seu
ajudante...
  - E depois?
  - Depois Jorge ps fim  discusso afastando-se. Todos nos fomos embora tratar das
nossas coisas, mas enquanto trabalhava vi que primeiro Venancio e depois Adelmo se
aproximaram de Berengrio para lhe pedir qualquer coisa. Vi de longe que se esquivava,
mas eles durante o dia voltaram ambos junto dele. E depois, naquela tarde, vi
Berengrio e Adelmo a confabular no claustro, antes de irem para o refeitrio. Pronto, 
tudo o que sei.
  - Isto , sabes que as duas pessoas que recentemente morreram em circunstancias
misteriosas tinham pedido qualquer coisa a Berengrio - disse Guilherme.
  Bncio respondeu embaraado:
  - No disse isso! Disse aquilo que aconteceu naquele dia e como vs me haveis
perguntado... - Refletiu um pouco, depois acrescentou  pressa: - Mas se quereis saber a
minha opinio, Berengrio falou-lhes de qualquer coisa que est na biblioteca, e  l que
deveis procurar.
  - Porque pensas na biblioteca? Que queria dizer Berengrio com as palavras procurar
entre os africanos? No queria dizer que era preciso ler melhor os poetas africanos?
   - Talvez, assim parecia, mas ento porque  que Malaquias havia de se enfurecer? No
fundo, depende dele decidir se deve dar para leitura um livro de poetas africanos ou
no. Mas eu sei uma coisa: quem folhear o catlogo dos livros encontrar, entre as
indicaes que s o bibliotecrio conhece, uma que diz freqentemente frica, e at
encontrei uma que dizia finis Africae. Uma vez pedi um livro que trazia aquele sinal,
no me recordo qual, o titulo tinha-me despertado a curiosidade; e Malaquias disse-me
que os livros com aquele sinal se tinham perdido. Eis aquilo que sei. Por isso vos digo: 
certo, vigiai Berengrio, e vigiai-o quando sobe  biblioteca. Nunca se sabe.
  - Nunca se sabe - concluiu Guilherme, despedindo-o.
   Depois ps-se a passear comigo no claustro e observou que: em primeiro lugar, uma
vez mais, Berengrio era alvo das murmuraes pelos seus irmos; em segundo lugar,
Bncio parecia ansioso por nos impelir para a biblioteca. Observei que talvez quisesse
que ns descobrssemos ali coisas que ele tambm queria saber, e Guilherme disse que
provavelmente era assim, mas que podia tambm dar-se que, impelindo-nos para a
biblioteca, quisesse afastar-nos de algum outro lugar. Qual?, perguntei. E Guilherme
disse que no sabia, talvez o scriptorium, talvez a cozinha, ou o coro, ou o dormitrio,
ou o hospital. Observei que no dia anterior era ele, Guilherme, a ser fascinado pela
biblioteca, e ele respondeu que queria ser fascinado pelas coisas que lhe agradavam e
no por aquelas que os outros lhe aconselhavam. Que, porm, a biblioteca estava
debaixo de olho, e que, nesse caso, tambm no seria mal procurar penetrar l de
qualquer modo. As circunstancias j o autorizavam a ser curioso nos limites da cortesia e
do respeito pelos usos e pelas leis da abadia.
  Estvamos a afastar-nos do claustro. Servos e novios saam da igreja depois da missa.
E, ao dobrarmos o lado ocidental do templo, avistamos Berengrio, que saa do portal do
transepto e atravessava o cemitrio em direo ao Edifcio. Guilherme chamou-o, ele
parou e alcanamo-lo. Estava ainda mais perturbado do que quando o tnhamos visto no
coro, e Guilherme decidiu evidentemente aproveitar, como tinha feito com Bncio, do
seu estado de animo.
  - Ento parece que foste tu o ltimo a ver Adelmo vivo - disse-lhe.
  Berengrio vacilou, como se estivesse para cair desmaiado:
  - Eu? - perguntou num fio de voz.
   Guilherme tinha lanado a sua pergunta quase ao acaso, provavelmente porque Bncio
lhe tinha dito que tinha visto os dois a confabular no claustro depois de vsperas. Mas
devia ter acertado em cheio, e Berengrio estava, claramente, pensando num outro e
verdadeiramente ltimo encontro, porque comeou a falar com voz entrecortada.
  - Como podeis dizer isso, eu vi-o antes de ir repousar, como todos os outros.
  Ento Guilherme decidiu que valia a pena no o deixar respirar:
  - No, tu voltaste a v-lo, e sabes mais coisas do que queres crer. Mas aqui esto
agora em jogo dois mortos e j no podes calar-te. Sabes muito bem que h muitos
modos para fazer falar uma pessoa!
   Guilherme tinha-me dito vrias vezes que, mesmo como inquisidor, sempre lhe tinha
repugnado a tortura, mas Berengrio interpretou-o mal (ou Guilherme queria ser mal
interpretado); de qualquer maneira, o seu jogo resultou eficaz.
  - Sim, sim - disse Berengrio, rompendo num pranto copioso -, eu vi Adelmo naquela
noite, mas vi-o j morto!
  - Como? - interrogou Guilherme -, aos ps da escarpa?
   - No, no, vi-o aqui no cemitrio, avanava entre os tmulos, espectro entre os
espectros. Encontrei-o, e sbito me apercebi que no tinha diante de mim um vivo, o seu
rosto era o de um cadver, os seus olhos olhavam j para as penas eternas.
Naturalmente, s na manh seguinte, sabendo da sua morte, eu compreendi que tinha
encontrado o seu fantasma, mas j naquele momento me dei conta que estava a ter uma
viso e que diante de mim estava uma alma danada, um lmure... Oh, Senhor, com que
voz de tmulo me falou!
  - E que disse?
   Estou condenado!, assim me disse. Tal como me vs, tens diante de ti um
retornado do inferno, que ao inferno deve tornar, assim me disse. E eu gritei-lhe:
Adelmo, vens na verdade do inferno? Como so as penas do inferno? E tremia, porque
h pouco tinha sado do ofcio de completas, onde tinha ouvido ler pginas tremendas
sobre a ira do Senhor. E ele disse-me: As penas do inferno so infinitamente maiores do
que a nossa lngua pode dizer. Vs tu, disse, esta capa de sofismas com a qual tenho
estado vestido at hoje. Ela me pesa e esmaga, como se tivesse a maior torre de Paris ou
a maior montanha do mundo sobre os ombros, e jamais a poderei tirar. E esta pena foi-
me dada pela divina justia pela minha vanglria, por ter considerado o meu corpo um
lugar de delicias, e por ter suposto que sabia mais do que os outros, e por me ter
deleitado com coisas monstruosas, que, acalentadas na minha imaginao, produziram
coisas bem mais monstruosas no interior da minha alma - e agora com elas terei de viver
eternamente. Vs tu? O forro desta capa  como se fosse todo de brasas e fogo ardente,
e  o jogo em que arde o meu corpo, e esta pena -me dada pelo pecado desonesto da
carne, na qual me viciei, e este fogo agora sem cessar me inflama e me queima!
Estende-me a tua mo, meu belo mestre, disse-me ainda, ainda que o meu encontro te
sirva de til ensinamento, dando-te em troca muitos dos ensinamentos que me deste,
estende-me a tua mo, meu belo mestre! E sacudiu o dedo da sua mo, que ardia, e
caiu-me sobre a mo uma pequena gota do seu suor, e pareceu-me que me furava a mo,
que por muitos dias fiquei com a marca s que a escondi de todos. Depois desapareceu
entre os tmulos, e na manh seguinte soube que aquele corpo, que tanto me tinha
aterrado, estava j morto aos ps da rocha.
  Berengrio arquejava e chorava. Guilherme perguntou-lhe:
  - E porque  que te chamava seu belo mestre? Tnheis a mesma idade. Tinhas-lhe
acaso ensinado alguma coisa?
  Berengrio escondeu a cabea, puxando o capucho sobre o rosto, e caiu de joelhos,
abraando as pernas de Guilherme:
   - No sei, no sei porque me chamava assim, eu no lhe ensinei nada! - e rebentou em
soluos. - Tenho medo, padre, quero confessar -me a vs! Misericrdia, um diabo come-
me as entranhas!
  Guilherme afastou-o de si e estendeu-lhe a mo para o levantar.
   - No, Berengrio - disse-lhe -, no me peas que te confesse! No feches os meus
lbios abrindo os teus. Aquilo que quero saber de ti dir-mo-s de outro modo. E, se no
mo disseres, descobri-lo-ei por minha conta. Pede-me misericrdia, se queres, no me
peas o silncio. So demasiados os que se calam nesta abadia. Diz-me, antes, como
viste o seu rosto plido se era noite cerrada, e como pudeste queimar a mo se era uma
noite de chuva e de granizo e de neve ligeira? Que fazias no cemitrio? Vamos - sacudiu-o
com brutalidade pelos ombros -, diz-me ao menos isto!
  Berengrio tremia por todos os lados:
   - No sei o que fazia no cemitrio, no me recordo. No sei porque vi o seu rosto...
talvez eu tivesse uma luz, no, ele tinha uma luz, trazia uma candeia... talvez tenha
visto o seu rosto  luz da chama...
  - Como podia trazer uma luz se chovia e nevava?
  - Era depois de completas, logo depois de completas no nevava ainda, comeou
depois... Recordo que comeavam a descer as primeiras rajadas enquanto fugia para o
dormitrio. Fugi para o dormitrio, na direo oposta quela em que ia o fantasma... E
depois no sei mais nada, peo-vos, no me interrogueis mais se no quereis confessar-
me.
   - Est bem - disse Guilherme -, agora vai, vai para o coro, vai falar com o Senhor, visto
que no queres falar com os homens, ou vai procurar um monge que queira escutar a tua
confisso, porque se desde ento no confessas os teus pecados aproximaste-te como
sacrlego dos sacramentos. Vai. Voltaremos a ver-nos.
   Berengrio desapareceu a correr. E Guilherme esfregou as mos, como o tinha visto
fazer em muitos outros casos em que estava satisfeito com alguma coisa.
  - Bem  disse -, agora muitas coisas se tornam claras.
  - Claras, mestre? - perguntei-lhe. - Claras agora que temos tambm o fantasma de
Adelmo?
   - Caro Adso - disse Guilherme -, aquele fantasma parece-me muito pouco fantasma, e
de qualquer modo recitava uma pgina que j li em algum livro para uso dos pregadores.
Estes monges lem talvez demasiado, e quando esto excitados revivem as vises que
tiveram nos livros. No sei se Adelmo ter dito na verdade aquelas coisas ou se
Berengrio as ter ouvido porque tinha necessidade de as ouvir.  um fato que esta
histria confirma uma srie de suposies minhas. Por exemplo: Adelmo morreu suicida,
e a histria de Berengrio diz-nos que, antes de morrer, ele vagueava presa de uma
grande excitao e um grande remorso por alguma coisa que tinha cometido. Estava
excitado e amedrontado pelo seu pecado porque algum o tinha amedrontado, e talvez
lhe tenha contado precisamente o episdio da apario infernal que ele recitou a
Berengrio com tanta e to alucinada mestria. E passava pelo cemitrio porque vinha do
coro, onde se tinha confiado (ou confessado) a algum que lhe tinha incutido terror e
remorso. E do cemitrio encaminhava-se, como nos fez compreender Berengrio, na
direo oposta ao dormitrio, para o Edifcio, portanto, mas tambm ( possvel ) para o
muro da cerca por trs das estrumeiras, de onde eu deduzi que se deve ter atirado no
precipcio. E atirou-se antes que sobreviesse a tempestade, morreu aos ps do muro, e
s depois o desmoronamento arrastou o seu cadver entre a torre setentrional e a
oriental.
  - Mas e a gota de suor inflamado?
   - J estava na histria que ele ouviu e repetiu ou que Berengrio imaginou na sua
excitao e no seu remorso. Porque h, em antstrofe ao remorso de Adelmo, um
remorso de Berengrio, tu ouviste-o. E se Adelmo vinha do coro trazia talvez um crio, e
a gota sobre a mo do amigo era apenas uma gota de cera. Mas Berengrio sentiu-se
arder muito mais porque Adelmo certamente lhe chamou seu mestre. Sinal, portanto, de
que Adelmo o reprovava por ele lhe ter ensinado qualquer coisa pela qual ele sentia
ento um desespero de morte. E Berengrio sabe-o, ele sofre porque sabe que impeliu
Adelmo para a morte levando-o a fazer algo que no devia. E no  difcil imaginar o
qu, meu pobre Adso, depois daquilo que ouvimos sobre o nosso ajudante-bibliotecrio.
   - Creio ter compreendido o que sucedeu entre os dois - disse, envergonhando-me da
minha sagacidade -, mas no acreditamos todos num Deus de misericrdia? Adelmo,
dizeis, provavelmente tinha-se confessado: porque procurou punir o seu primeiro pecado
com um pecado decerto maior ainda, ou pelo menos de igual gravidade?
   - Porque algum lhe disse palavras de desespero. Eu disse que certa pgina de
pregador dos nossos dias deve ter sugerido a algum as palavras que amedrontaram
Adelmo e com que Adelmo amedrontou Berengrio. Nunca como nestes ltimos anos os
pregadores ofereceram ao povo, para lhe estimular a piedade e o terror (e o fervor, e o
respeito pela lei humana e divina), palavras to truculentas, perturbadoras e macabras.
Nunca como nos nossos dias, no meio de procisses de flagelantes, se ouviram laudes
sacras inspiradoras nas dores de Cristo e da Virgem, nunca como hoje se insistiu tanto em
estimular a f dos simples atravs da evocao dos tormentos infernais.
  - Talvez seja necessidade de penitncia - disse.
  - Adso, nunca ouvi tantos apelos  penitncia como hoje, num perodo em que j nem
pregadores nem bispos e nem sequer os meus irmos espirituais esto em condies de
promover uma verdadeira penitncia...
  - Mas a terceira idade, o papa anglico, o capitulo de Perugia... - disse, confundido.
  - Nostalgias. A grande poca da penitncia acabou, e por isso at o captulo geral da
ordem pode falar de penitncia. Houve, h cem, duzentos anos, uma grande vaga de
renovao. Era ainda quando quem falava dela era queimado, fosse santo ou herege.
Agora todos falam dela. Num certo sentido, discute sobre ela at o papa. No te fies nas
renovaes do gnero humano quando delas falam as crias e as cortes.
  - Mas frei Dolcino - ousei, curioso por saber mais sobre aquele nome que tinha ouvido
pronunciar vrias vezes no dia anterior.
  - Morreu, e mal, tal como viveu, porque tambm ele veio demasiado tarde. E depois
que sabes tu dele?
  - Nada, por isso vos pergunto...
   - Prefiro nunca falar dele. Deram-me que fazer alguns dos chamados apstolos, e
observei-os de perto. Uma histria triste. Perturbar-te-ia. De qualquer modo, perturbou-
me a mim, e ainda mais te perturbaria a minha prpria incapacidade de julgar.  a
histria de um homem que fez coisas insensatas porque tinha posto em prtica aquilo
que lhe tinham pregado muitos santos. A certa altura eu j no compreendia de quem
era a culpa, fiquei como... como obnubilado por um ar de famlia que soprava nos dois
campos adversos, santos que pregavam a penitncia e pecadores que a punham em
prtica, freqentemente  custa dos outros... Mas estava a falar de outra coisa. Ou
talvez no, falava ainda disto finda a poca da penitncia para os penitentes, a
necessidade de penitncia tornou-se necessidade de morte. E aqueles que mataram os
penitentes enlouquecidos, restituindo morte  morte, para derrotar a verdadeira
penitncia, que provocava morte, substituram  penitncia da alma uma penitncia da
imaginao, um apelo a vises sobrenaturais de sofrimento e de sangue, chamando-lhes
espelho da verdadeira penitncia. Um espelho que faz viver em vida,  imaginao dos
simples, e por vezes tambm dos doutos, os tormentos do interno. A fim de que, diz-se,
ningum peque. Esperando apartar as almas do pecado por meio do medo e confiando
em substituir  rebelio o medo.
  - Mas na verdade depois no pecaro? - perguntei ansiosamente.
   - Depende do que entendas por pecar, Adso - disse-me o mestre. - Eu no quero ser
injusto para com a gente deste pas, em que vivo h alguns anos, mas parece-me que 
tpico da pouca virtude das populaes italianas no pecar por medo de algum dolo, por
mais que lhe chamem santo. Tm mais medo de So Sebastio ou Santo Antnio do que
de Cristo. Se uma pessoa aqui quer conservar limpo um stio, para que no mijem a,
como fazem os italianos  maneira dos ces, pinta-se-lhe em cima uma imagem de Santo
Antnio com a ponta de madeira, e esta enxotar aqueles que esto para mijar. Assim,
os italianos, e por obra dos seus pregadores, arriscam-se a voltar s antigas supersties
e j no crem na ressurreio da carne; tm s um grande medo das feridas corporais e
das desgraas, e por isso tm mais medo de Santo Antnio do que de Cristo.
  - Mas Berengrio no  italiano - observei.
  - No importa, estou falando do clima que a Igreja e as ordens pregadoras difundiram
nesta pennsula e que daqui se difunde por toda a parte. E atinge at uma venervel
abadia de monges doutos, como estes.
  - Mas ao menos que no pecassem - insisti, porque estava disposto a contentar-me s
com isto.
  - Se esta abadia fosse um speculum mundi, terias j a resposta.
  - Mas -o? - perguntei.
  - Para que haja espelho do mundo  preciso que o mundo tenha uma forma - concluiu
Guilherme, que era demasiado filsofo para a minha mente adolescente.
  SEGUNDO DIA
  TERA
   Onde se assiste a uma rixa entre pessoas vulgares, Amaro de Alexandria faz algumas
aluses e Adso medita sobre a santidade e sobre o esterco do demnio. Depois,
Guilherme e Adso voltam ao scriptorium, Guilherme v qualquer coisa de interessante,
tem a terceira conversa sobre a legitimidade do riso, mas em definitivo, no pode olhar
para onde queria.
   Antes de subir ao scriptorium passamos pela cozinha para nos restaurarmos, porque
no tnhamos ainda tomado nada desde que nos tnhamos levantado. Revigorei-me logo
bebendo uma tigela de leite quente. A grande chamin meridional j ardia como uma
forja, enquanto no forno se estava preparando o po do dia. Dois cabreiros estavam
depositando os restos de uma ovelha que acabavam de matar. Entre os cozinheiros vi
Salvador, que me sorriu com a sua boca de lobo. E vi que tirava de uma mesa um resto
do frango da noite anterior e o passava s escondidas aos cabreiros, que o ocultavam nas
suas jaquetas de pele com um risinho de satisfao. Mas o cozinheiro-chefe apercebeu-se
disso e repreendeu Salvador:
   - Despenseiro, despenseiro  disse -, tu deves administrar os bens da abadia, no
dissip-los!
  - Filii Dei son - disse Salvador. - Jesus disse que facite por ele aquilo que facite a um
destes pueri!
  - Fraticello das minhas bragas, piedoso menorita! - gritou-lhe ento o cozinheiro. - J
no estas entre os teus frades pedintes! Em dar aos filhos de Deus pensar a misericrdia
do Abade!
  O rosto de Salvador escureceu, e ele voltou-se irritadssimo:
  -No sou um fraticello menorita! Sou um monge Sancti Benedicti! Merdre  toy,
bogomilo de merda!
  - Bogomila  a rameira que tu fodes  noite, com a tua verga hertica, porqu gritou o
cozinheiro.
  Salvador mandou sair  pressa os cabreiros e ao passar perto de ns olhou-nos com
preocupao:
   - Frade - disse a Guilherme -, defende tu a tua ordem, que no  a minha, diz-lhe que
os filios Francisci no herticos esse! - Depois sussurrou-me ao ouvido: - Ule menteur,
pufff - e cuspiu para o cho.
  O cozinheiro veio empurr-lo para fora com mau modo e fechou-lhe a porta nas
costas.
  - Frade - disse a Guilherme com respeito -, eu no falava mal da vossa ordem e dos
homens santssimos que nela esto. Falava com aquele falso menorita e falso beneditino
que no  carne nem peixe.
   - Sei donde vem - disse Guilherme conciliador. - Mas agora monges como tu, e deves-
lhe respeito fraterno.
   - Mas ele mete o nariz onde no deve met-lo, porque  protegido pelo despenseiro, e
julga-se ele o despenseiro. Usa da abadia como se fosse coisa sua, de dia e de noite!
  - Porqu de noite? - perguntou Guilherme.
   O cozinheiro fez um gesto como para dizer que no queria falar de coisas pouco
virtuosas. Guilherme no lhe perguntou mais nada e acabou de beber o seu leite.
   A minha curiosidade estava cada vez mais excitada. O encontro com Ubertino, as
murmuraes sobre o passado de Salvador e do despenseiro, as aluses cada vez mais
freqentes aos fraticelli e aos menoritas herticos que ouvia fazer naqueles dias, a
reticncia do mestre em falar-me de frei Dolcino... Uma srie de imagens comeava a
recompor-se na minha mente. Por exemplo, enquanto cumpramos a nossa viagem
tnhamos encontrado pelo menos duas vezes uma procisso de flagelantes. Duma vez a
populao do lugar olhava-os como santos, doutra vez comeava a murmurar que eram
hereges. E no entanto tratava-se sempre da mesma gente. Iam em procisso dois a dois,
pelas estradas da cidade, cobrindo s as pudenta, tendo superado qualquer sentimento
de vergonha. Cada um tinha na mo um aoite de couro, e feriam-se nas costas at
fazerem sangue, derramavam abundantes lgrimas como se vissem com os seus olhos a
paixo do Salvador, imploravam com um canto lamentoso a misericrdia do Senhor e a
ajuda da Me de Deus. No s de dia, mas tambm de noite, com os crios acesos, no
rigor do Inverno, iam em grande multido pelas igrejas em redor, prostravam-se
humildemente diante dos altares, precedidos por sacerdotes com crios e estandartes, e
no s homens e mulheres do povo mas tambm nobres matronas e mercadores... E
ento assistia-se a grandes atos de penitncia, aqueles que tinham roubado restituam o
produto do roubo, outros confessavam os seus crimes...
   Mas Guilherme tinha-os olhado com frieza e tinha-me dito que aquela no era
verdadeira penitncia... Melhor, tinha falado como ainda h pouco o fizera, naquela
mesma manh: o perodo da grande lavagem penitencial tinha findado, e aqueles eram
os modos como os prprios pregadores organizavam as devoes das multides,
precisamente para que no cassem na pena de um outro desejo de penitncia que  esse
- era hertico e fazia medo a todos. Mas no conseguia compreender a diferena, se
acaso a havia. Parecia-me que a diferena no vinha dos gestos de um ou de outro, mas
do olhar com que a Igreja julgava um e outro gesto.
   Recordava-me da discusso com Ubertino. Guilherme tinha sido indubitavelmente
insinuante, tinha procurado dizer-lhe que havia pouca diferena entre a sua f mstica (e
ortodoxa) e a f distorcida dos hereges. Ubertino tinha-se melindrado, como quem visse
bem a diferena. A impresso com que tinha ficado foi que ele era diverso precisamente
porque era aquele que sabia ver a diversidade. Guilherme subtraiu-se aos deveres da
Inquisio porque j no sabia v-la. Por isso no conseguia falar-me daquele misterioso
frei Dolcino. Mas ento, evidentemente (dizia para comigo), Guilherme perdeu a
assistncia do Senhor, que no s ensina a ver a diferena mas, por assim dizer, investe
os seus diletos desta capacidade de discernimento. Ubertino e Clara de Montefalco (que
no entanto escava rodeada de pecadores) tinham permanecido santos precisamente
porque sabiam discriminar. A santidade  isto, e nada mais.
   Mas porque  que Guilherme no sabia discriminar? No entanto, era um homem muito
arguto, e pelo que respeitava aos fatos da natureza sabia distinguir a menor
desigualdade e o menor parentesco entre as coisas...
   Estava imerso nestes pensamentos, e Guilherme acabava de beber o seu leite, quando
ouvimos algum que nos cumprimentava. Era Aymaro de Alexandria, que j tnhamos
conhecido no scriptorium e de quem me tinha impressionado a expresso do rosto,
inspirada num perptuo riso de escrnio, como se jamais conseguisse capacitar-se da
fatuidade de todos os seres humanos e todavia no atribusse grande importncia a esta
tragdia csmica.
  - Ento, frade Guilherme, j vos habituastes a esta espelunca de dementes?
  - Parece-me um lugar de homens admirveis de santidade e doutrina - disse
cautamente Guilherme.
   - Era. Quando os abades faziam de abades e os bibliotecrios de bibliotecrios. Agora,
como vistes, l em cima - e apontava para o andar superior -, aquele alemo meio morto
com olhos de cego est a ouvir devotamente os devaneios daquele espanhol cego com
olhos de morto; parece que est para chegar o Anticristo todas as manhs, raspam-se os
pergaminhos, mas livros novos entram pouqussimos... Ns estamos aqui, e l em baixo,
nas cidades, age-se... Outrora, das nossas abadias governava-se o mundo. Hoje, bem
vedes, o imperador usa-nos para enviar aqui os seus amigos ao encontro dos seus inimigos
(sei alguma coisa da vossa misso, os monges falam, falam, nada mais tm a fazer), mas
se queres controlar as coisas deste pas fica nas cidades. Ns estamos a colher trigo e a
criar galinhas, e l em baixo trocam braas de seda por peas de linho, e peas de linho
por sacos de especiarias, e tudo isso por bom dinheiro. Ns conservamos o nosso tesouro,
mas l em baixo acumulam-se tesouros. E livros tambm. E mais belos que os nossos.
  - No mundo acontecem decerto muitas coisas novas. Mas porque pensais que a culpa 
do Abade?
   - Porque passou a biblioteca para as mos dos estrangeiros e conduz a abadia como
uma cidadela erguida em defesa da biblioteca. Uma abadia beneditina nesta plaga
italiana deveria ser um lugar onde italianos decidissem por coisas italianas. Que fazem os
italianos, hoje que j nem sequer tm um papa? Comerciam, fabricam, so mais ricos
que o rei de Frana. E ento, faamos tambm ns o mesmo; se sabemos fazer belos
livros, fabriquemo-los para as universidades; e ocupemo-nos de quanto acontece l em
baixo, nos vales, no digo do imperador, com todo o respeito pela vossa misso, frade
Guilherme, mas do que fazem os bolonheses ou os florentinos. Podemos controlar daqui a
passagem dos peregrinos e dos mercadores que vo da Itlia  Provena e vice-versa.
Abramos a biblioteca aos textos em lngua vulgar, e subiro c acima tambm aqueles
que j no escrevem em latim. Mas, ao invs, somos controlados por um grupo de
estrangeiros que continuam a conduzir a biblioteca como se em Cluny fosse ainda abade
o bom Odillone...
  - Mas o Abade  italiano - disse Guilherme.
  - O Abade aqui no conta nada - disse Aymaro, sempre escarnecendo. - No lugar da
cabea tem um armrio da biblioteca. Est carunchoso. Para fazer arreliar o papa, deixa
que a abadia seja invadida por fraticelli... quero dizer, os herticos, frade, os transtugas
da vossa ordem santssima... e para fazer o que agrada ao imperador chama aqui monges
de todos os mosteiros do Norte, como se entre ns no houvesse excelentes copistas e
homens que sabem grego e rabe, e no houvesse em Florena ou em Pisa filhos de
mercadores, ricos e generosos, que entrariam voluntariamente na ordem se a ordem
oferecesse a possibilidade de incrementar a potncia e o prestgio do pai. Mas aqui, a
indulgncia pelas coisas do sculo reconhece-se apenas quando se trata de permitir aos
alemes... Oh, bom Senhor, fulminai a minha lngua, que estou para dizer coisas pouco
convenientes!
  - Na abadia acontecem coisas pouco convenientes?  perguntou distraidamente
Guilherme, servindo-se de um pouco mais de leite.
  - Tambm o monge  um homem - sentenciou Aymaro. Depois acrescentou: - Mas aqui
so menos homens que noutros lugares. E aquilo que disse fique claro que no o disse.
  - Muito interessante - disse Guilherme. - E essas so opinies vossas ou de muitos que
pensam como vs?
  - De muitos, de muitos. De muitos que agora se lamentam pela desventura do pobre
Adelmo, mas se no precipcio tivesse cado qualquer outro, que anda pela biblioteca mais
do que devia, no ficariam descontentes.
  -Que quereis dizer?
   - Falei de mais. Aqui falamos de mais, j o tereis notado. Aqui o silncio j ningum o
respeita, por um lado. Por outro lado, respeita-se demasiado. Aqui, em vez de se falar
ou de se ficar calado, dever-se-ia agir. Na poca de ouro da nossa ordem, se um abade
no tivesse uma tmpera de abade, uma bela taa de vinho envenenado e estava aberta
a sucesso. Disse-vos estas coisas, entenda-se, frade Guilherme, no para murmurar
acerca do Abade ou de outros irmos. Deus me livre disso, felizmente no tenho o feio
vcio da murmurao. Mas no queria que o Abade vos tivesse pedido para investigardes
sobre mim ou sobre qualquer outro como Pacfico de Tivoli ou Pedro de Sant'Albano. Ns
no temos nada a ver com as histrias da biblioteca. Mas queramos ter a ver um pouco
mais. Ento agora destapai este ninho de serpentes, vs que haveis queimado tantos
hereges.
  - Eu nunca queimei ningum - respondeu secamente Guilherme.
  - Dizia isso por dizer - admitiu Aymaro com um grande sorriso. - Boa caa, frade
Guilherme, mas prestai ateno de noite.
  - Porque no de dia?
   - Porque de dia aqui trata-se o corpo com as ervas boas e de noite adoece-se a mente
com as ervas ms. No acrediteis que Adelmo tenha sido precipitado no abismo pelas
mos de algum ou que as mos de algum tenham metido Veneno no sangue. Aqui
algum no quer que os monges decidam sozinhos onde ir, que fazer e que coisa ler. E
usam-se foras do inferno, ou dos necromantes amigos do inferno, para transtornar as
mentes dos curiosos...
  - Falais do padre ervanrio?
  - Severino de Sant'Emmerano  boa pessoa. Naturalmente, alemo ele, alemo
Malaquias...
  E depois de ter demonstrado uma vez mais que no estava disposto  murmurao,
Aymaro saiu para trabalhar.
  - Que ter querido dizer-nos? - perguntei.
   - Tudo e nada. Uma abadia  sempre um lugar onde os monges esto em luta entre si
para conseguirem o governo da comunidade. Tambm em Melk, mas talvez como novio
no tenhas tidos ocasio de dar conta disso. Mas, no teu pas, conquistar o governo de
uma abadia significa conquistar um lugar de onde se trata diretamente com o imperador.
Neste pas, pelo contrrio, a situao  diversa, o imperador est longe, mesmo quando
desce at Roma. No h uma corte, nem sequer a papal, hoje em dia. H as cidades, t-
lo-s percebido.
   - Decerto, e fiquei impressionado. A cidade em Itlia  diversa da dos meus lados...
No  s um lugar para habitar:  um lugar para decidir, esto sempre todos na praa,
contam mais os magistrados citadinos que o imperador ou o papa. So... como tantos
reinos...
   - E os reis so os mercadores. E a sua arma  o dinheiro. O dinheiro tem, na Itlia,
uma funo diversa da do teu pas, ou do meu. Por toda a parte circula dinheiro, mas
grande parte da vida  ainda dominada e regulada pela troca de bens, frangos ou gabelas
de trigo, ou uma podoa, ou um carro, e o dinheiro serve para arranjar estes bens. Ters
notado que na cidade italiana, pelo contrrio, os bens servem para arranjar dinheiro. E
mesmo os padres e os bispos, e at as ordens religiosas, devem fazer as contas com
dinheiro.  por isso, naturalmente, que a rebelio contra o poder se manifesta como
apelo  pobreza, e se rebelam contra o poder aqueles que so excludos da relao com
o dinheiro, e qualquer apelo  pobreza suscita tanta tenso e tantos debates, e a cidade
inteira, do bispo ao magistrado, sente como seu inimigo quem prega demasiado a
pobreza. Os inquisidores sentem fedor do demnio onde algum reagiu ao fedor do
esterco do demnio. E ento compreenders tambm em que est pensando Aymaro.
Uma abadia beneditina, nos tempos ureos da ordem, era o lugar de onde os pastores
controlavam o rebanho dos fiis. Aymaro quer que se volte  tradio. S que a vida do
rebanho mudou, e a abadia s pode voltar  tradio ( sua glria, ao seu poder de
outros tempos) se aceitar os novos costumes do rebanho, tornando-se diversa. E como
hoje aqui se domina o rebanho no com as armas ou com o esplendor dos ritos mas com o
controle do dinheiro, Aymaro quer que toda a fbrica da abadia, e a prpria biblioteca,
se tornem oficina e fbrica de dinheiro.
  - E que tem isso a ver com os delitos, ou com o delito?
  - Ainda no sei. Mas agora queria subir. Vem.
   Os monges j estavam a trabalhar. No scriptorium reinava o silncio, mas no era o
silncio que se segue  paz operosa dos coraes. Berengrio, que nos tinha precedido
havia pouco, acolheu-nos com embarao. Os outros monges levantaram a cabea do seu
trabalho. Sabiam que estvamos ali para descobrir alguma coisa acerca de Venancio, e a
prpria direo dos seus olhares fixou a nossa ateno sobre um lugar vazio, sob uma
janela que se abria para o interior do octgono central.
   Embora fosse um dia muito frio, a temperatura no scriptorium era bastante suave. No
fora por acaso que tinha sido disposto sobre as cozinhas, de onde provinha bastante
calor, ainda porque os canos das chamins dos dois tornos situados por baixo passavam
por dentro das pilastras que sustentavam as duas escadas de caracol postas nos torrees
ocidental e meridional. Quanto ao torreo setentrional, do lado oposto da grande sala,
no tinha escada, mas uma grande lareira que ardia difundindo um agradvel calor. Alm
disso, o pavimento tinha sido coberto de palha, o que tornava os nossos passos
silenciosos. Em suma, o angulo menos aquecido era o do torreo oriental, e de fato
notei, pois permaneciam lugares vagos em relao ao nmero de monges no trabalho,
que todos tendiam a evitar as mesas colocadas naquela direo. Quando mais tarde me
dei conta de que a escada de caracol do torreo oriental era a nica que conduzia no s
para baixo, ao refeitrio, mas tambm para cima,  biblioteca, perguntei-me se um
clculo sapiente no teria regulado o aquecimento da sala de modo que os monges
fossem dissuadidos de espreitar para aquele lado e fosse mais fcil ao bibliotecrio
controlar o acesso  biblioteca. Mas talvez exagerasse nas minhas suspeitas, tornando-me
uma pobre imitao do meu mestre, porque logo pensei que este clculo no teria dado
grandes frutos de Vero - a no ser (disse para comigo) que de Vero aquele no fosse
precisamente o lado mais assoalhado, e por isso, outra vez, o mais evitado.
   A mesa do pobre Venancio ficava de costas para a grande chamin, e era
provavelmente uma das mais cobiadas. Eu tinha passado ento uma pequena parte da
minha vida num scriptorium, mas muitas a passei em seguida, e sei quanto sofrimento
custa ao escriba, ao rubricador e ao estudioso passar  sua mesa as longas horas
invernais, com os dedos que se entorpecem sobre o estilete (quando at com uma
temperatura normal, depois de seis horas de escrita, prende os dedos a terrvel cibra do
monge e o polegar di como se tivesse sido pisado). E isto explica porque
freqentemente encontramos  margem dos manuscritos frases deixadas pelo escriba
como testemunho de sofrimento (e de insoirimento), tais como Graas a Deus cedo
escurece, ou Oh, se tivesse um bom copo de vinho!, ou ainda Hoje est frio, a luz 
tnue, este velo tem plos, algo no est certo. Como diz um antigo provrbio, trs
dedos seguram a pena, mas o corpo inteiro labora. E adolora.
   Mas falava da mesa de Venancio. Mais pequena do que outras, como de resto as que
estavam colocadas  volta do ptio octogonal, destinadas a estudiosos, enquanto eram
mais amplas as que ficavam sob as janelas das paredes externas, destinadas a
miniaturistas e copistas. Por outro lado, tambm Venancio trabalhava com uma estante,
porque provavelmente consultava manuscritos emprestados  abadia, dos quais fazia a
cpia. Por baixo da mesa estava disposta uma prateleira baixa, onde estavam
amontoadas folhas no encadernadas, e como eram todas em latim deduzi que eram as
suas tradues mais recentes. Estavam escritas de modo apressado, no constituam
pginas de livro e deveriam ser confiadas depois a um copista e a um miniaturista. Por
isso, dificilmente se podiam ler. Entre as folhas, alguns livros, em grego. Um outro livro
grego estava aberro sobre a estante, a obra sobre a qual Venancio estava executando nos
ltimos dias o seu trabalho de tradutor. Eu ento no conhecia ainda o grego, mas o meu
mestre disse que era de um tal Luciano e narrava a histria de um homem transformado
em burro. Recordei ento uma fbula anloga de Apuleio, que de costume era
severamente desaconselhada aos novios.
   - Porque  que Venancio fazia esta traduo  perguntou Guilherme a Berengrio, que
eslava ao nosso lado.
   - Foi pedida  abadia pelo senhor de Milo, e a abadia ganhar um direito de preleo
sobre a produo de vinho de algumas propriedades que ficam a oriente. - Berengrio
apontou para longe com a mo, mas logo acrescentou: - No  que a abadia se preste a
trabalhos venais para os leigos. Mas a comitente empenhou-se em que este precioso
manuscrito grego nos fosse emprestado pelo doge de Veneza, a quem o deu o imperador
de Bizncio, e quando Venancio tivesse terminado o seu trabalho teramos feito duas
cpias, uma para o comitente e outra para a nossa biblioteca.
  - Que portanto no desdenha recolher tambm fbulas pags - disse Guilherme.
  -A biblioteca  testemunho da verdade e do erro - disse ento uma voz atrs de ns.
   Era Jorge. Uma vez mais me espantei (mas muito havia ainda de me espantar nos dias
seguintes) pelo modo inopinado como aquele velho aparecia de improviso, como se ns
no o vssemos e ele nos visse a ns. Perguntei-me ainda que coisa andaria a fazer um
cego no scriptorium, mas dei-me conta em seguida que Jorge era onipresente em todos
os lugares da abadia. E freqentemente estava no scriptorium, sentado num escano
junto  lareira, e parecia que seguia tudo aquilo que acontecia na sala. Uma vez ouvi-o
do seu lugar perguntar em voz alta: Quem sobe?, e dirigia-se a Malaquias, que, em
passos abafados pela palha, se encaminhava para a biblioteca. Todos os monges o tinham
em grande estima e dirigiam-se freqentemente a ele lendo-lhe textos de difcil
compreenso, consultando-o para um esclio ou pedindo-lhe luzes sobre o modo de
representar um animal ou um santo. E ele olhava para o vcuo com os seus olhos
extintos, como se fixasse pginas que tinha vvidas na memria, e respondia que os falsos
profetas esto vestidos como bispos e que da sua boca saem rs, ou quais eram as pedras
que deviam adornar os muros da Jerusalm celeste, ou que os arimaspos devem ser
representados nos mapas junto da terra do Preste Joo - recomendando que no
exagerassem ao torn-los sedutores na sua monstruosidade, que bastava que fossem
representados de modo emblemtico, reconhecveis mas no concupiscveis ou
repelentes at ao riso.
   Uma vez ouvi-o aconselhar um escoliasta sobre o modo de interpretar a recapitulatio
nos textos de Ticnio segundo o esprito de Santo Agostinho, para que se evitasse a
heresia donatista. Doutra vez ouvi-o dar conselhos sobre o modo de, comentando,
distinguir os hereges dos cismticos. Ou ainda dizer a um estudioso perplexo que livro
deveria procurar no catlogo da biblioteca, e quase em que folha encontraria a
referncia, assegurando-lhe que o bibliotecrio decerto lho entregaria, porque se tratava
de obra inspirada por Deus. Enfim, uma outra vez ouvi-o dizer que um certo livro no era
procurado, porque existia,  verdade, no catlogo, mas tinha sido arruinado pelos ratos
cinqenta anos antes e pulverizava-se sob os dedos de quem agora lhe tocasse. Ele era,
em suma, a prpria memria da biblioteca e a alma do scriptorium. s vezes repreendia
os monges que ouvia conversar entre si: Apressai-vos em deixar testemunho da verdade,
que o tempo est prximo!, e aludia  vinda do Anticristo.
  - A biblioteca  testemunho da verdade e do erro - disse portanto Jorge.
   - Decerto, Apuleio e Luciano eram culpados de muitos erros - disse Guilherme. - Mas
esta fbula contm sob o vu das suas prprias fices tambm uma boa moral, porque
ensina como se pagam caro os prprios erros, e alm disso creio que a histria do homem
transformado em burro alude  metamorfose da alma que cai no pecado.
  - Pode ser - disse Jorge.
   - Porm, agora compreendo porque  que Venancio, durante aquela conversa de que
me falou ontem, estava to interessado nos problemas da comdia; de fato tambm as
fbulas deste tipo podem ser comparadas s comdias dos antigos. Nenhuma delas narra
a histria de homens que tenham existido verdadeiramente, como as tragdias, mas, diz
Isidoro, so fices: Fabulae poetae a fando nominaverunt quia non sunt res factue sed
tantum loquendo fsctae...
    primeira no compreendi porque  que Guilherme se tinha entranhado naquela
douta discusso, e precisamente com um homem que parecia no amar semelhantes
assuntos, mas a resposta de Jorge disse-me como o meu mestre tinha sido subtil.
  - Naquele dia no se discutia de comdias, mas apenas da legitimidade do riso - disse
Jorge, sombrio.
   E eu recordava-me muito bem que quando Venancio se tinha referido quela
discusso, precisamente no dia anterior, Jorge tinha afirmado que no se recordava.
  - Ah - disse Guilherme com negligncia -, julgava que tivsseis falado das mentiras dos
poetas e dos enigmas argutos...
  - Falava-se do riso - disse secamente Jorge. - As comdias eram escritas pelos pagos
para mover os espectadores ao riso, e faziam mal. Jesus Nosso Senhor nunca contou
comdias nem fbulas, mas apenas lmpidas parbolas que alegoricamente nos instruem
sobre o modo de ganhar o paraso, e assim seja.
  - Pergunto-me - disse Guilherme - porque sois to contrrio  idia de que Jesus tenha
porventura rido. Eu creio que o riso  um bom remdio, como os banhos, para curar os
humores e as outras afeces do corpo, em particular a melancolia.
   - Os banhos so uma coisa boa - disse Jorge -, e o prprio Aquinate os aconselha para
remover a tristeza, que pode ser paixo nociva quando no se dirige a um mal que possa
ser removido atravs da audcia. Os banhos restituem o equilbrio dos humores. O riso
sacode o corpo, deforma as linhas do rosto, torna o homem semelhante ao macaco.
  - Os macacos no riem, o riso  prprio do homem,  sinal da sua racionalidade - disse
Guilherme.
   - Tambm a palavra  sinal da racionalidade humana e com a palavra pode-se
blasfemar contra Deus. Nem tudo o que  prprio do homem  necessariamente bom. O
riso  sinal de estultcia. Quem ri no cr naquilo de que se ri, mas tambm no o odeia.
E portanto rir do mal significa no se dispor a combat-lo, e rir do bem significa
desconhecer a fora pela qual o bem se difunde por si. Por isto a regra diz: Decimus
humilitatis gradus est si non sit facilis ac promptus in risu, quia scriptum est: stultus in
risu exaltat vocem suam.
  - Quintiliano - interrompeu o meu mestre - diz que o riso  de reprimir no panegrico,
por dignidade, mas  de encorajar em muitos outros casos. Tcito louva a ironia de
Calprnio Piso, Plnio o jovem escreveu: Aliquando praeterea rideo, jocor, ludo, homo
sum.
   - Eram pagos  replicou Jorge. - A regra diz: Scurrilitates vero vel verba otiosa et
risum moventia aeterna clausura in omnibus locis damnamus, et ad talia eloquia
discipulum aperire os non permittimus.
   - Porm, quando o verbo de Cristo j tinha triunfado sobre a terra, Sinsio de Cirene
diz que a divindade soube combinar harmoniosamente cmico e trgico, e lio Spaziano
diz do imperador Adriano, homem de elevados costumes e de animo naturaliter cristo,
que ele soube misturar momentos de alegria e momentos de gravidade. E, enfim,
Ausnio recomenda que se deve dosear com moderao o srio e o jocoso.
   - Mas Paulino de Nola e Clemente de Alexandria puseram-nos em guarda contra estas
estultcias, e Sulpicio Severo diz que So Martinho nunca foi visto por ningum nem presa
da ira nem presa da hilaridade.
  - Porm recorda o santo algumas respostas spiritualiter salsa - disse Guilherme.
   - Eram prontas e sapientes, no ridculas. So Efraim escreveu um parntese contra o
riso dos monges, e no De habitu et conversatione monachorum recomenda-se que se
evitem obscenidades e faccias como se fossem o veneno das spides!
   - Mas Hildeberto disse:  Admittenda tibi joca sunt post seria quaedam, sed tamen et
dignis ipsa gerenda modis. E Joo de Salisbury autorizou uma modesta hilaridade. E,
enfim, o Eclesiastes, de onde citastes o passo a que se refere a vossa regra, onde se diz
que o riso  prprio do estulto, admite pelo menos um riso silencioso, o do animo sereno.
  - O animo  sereno apenas quando contempla a verdade e quando se deleita com o
bem cumprido, e da verdade e do bem no se ri. Eis porque Cristo no ria. O riso  fonte
de dvida.
  - Mas s vezes  justo duvidar.
   - No vejo a razo. Quando se duvida  preciso dirigir-se a uma autoridade, s
palavras de um padre ou de um doutor, e cessa qualquer razo de dvida. Pareceis-me
embebido de doutrinas discutveis, como as dos lgicos de Paris. Mas So Bernardo soube
intervir bem contra o castrado Abelardo, que queria submeter todos os problemas ao
exame frio e sem vida de uma razo no iluminada pelas escrituras, pronunciando o seu
 assim e no  assim. Decerto que aquele que aceitar estas idias perigosssimas pode
tambm apreciar o jogo do insipiente que ri daquilo de que s se deve saber a nica
verdade, que j foi dita uma vez por todas. Assim, rindo, o insipiente diz
implicitamente: Deus non est.
  - Venervel Jorge, pareceis-me injusto quando tratais Abelardo de castrado, porque
sabeis que incorreu em to triste condio pela iniqidade de outrem...
   - Pelos seus pecados. Pela altivez da sua confiana na razo do homem. Assim, a f
dos simples foi escarnecida, os mistrios de Deus foram desentranhados (ou tentou-se,
estultos aqueles que o tentaram), questes que se relacionavam com as coisas altssimas
foram tratadas temerariamente, escarneceu-se dos padres porque tinham considerado
que tais questes estavam mais sopitas do que expostas.
   - No estou de acordo, venervel Jorge. Deus quer de ns que exercitemos a nossa
razo sobre muitas coisas obscuras sobre as quais a escritura nos deixou livres de decidir.
E, quando algum vos prope acreditar numa proposio, vs deveis primeiro examinar
se ela  aceitvel, porque a nossa razo foi criada por Deus, e aquilo que agrada  nossa
razo no pode deixar de agradar  razo divina, sobre a qual, por outro lado, sabemos
s aquilo que, por analogia e freqentemente por negao, inferimos dos procedimentos
da nossa razo. E ento vedes que, por vezes, para minar a falsa autoridade de uma
proposio absurda que repugna  razo, tambm o riso pode ser um instrumento justo.
Freqentemente, o riso serve tambm para confundir os malvados e para fazer refulgir a
sua estultcia. Conta-se de So Mauro que os pagos o puseram em gua a ferver e ele se
lamentou que o banho estava demasiado frio; o governador pago meteu estupidamente
a mo na gua, para verificar, e queimou-se. Bela ao daquele santo mrtir que
ridicularizou os inimigos da f.
  Jorge escarneceu:
   - Mesmo nos episdios que contam os pregadores se encontram muitas petas. Um santo
imerso em gua a ferver sofre por Cristo e retm os seus gritos, no prega partidas de
crianas aos pagos!
  - Vedes? - disse Guilherme -, esta histria parece-vos que repugna  razo, e acusai-la
de ser ridcula! Seja embora tacitamente e controlando os vossos lbios, vs estais rindo
de alguma coisa e quereis que eu tambm no a tome a srio. Rides do riso, mas rides.
  Jorge teve um gesto de enfado:
   - Jogando com o riso arrastais-me para discursos vos. Mas vs sabeis que Cristo no
ria.
   - No tenho a certeza disso. Quando convida os fariseus a atirar a primeira pedra,
quando pergunta de quem  a efgie da moeda a pagar em tributo, quando joga com as
palavras e diz: Tu es petrus, eu creio que Ele dizia coisas argutas, para confundir os
pecadores, para sustentar o animo dos seus. Tambm fala com argcia quando diz a
Caifs: Tu o disseste. E Jeronimo quando comenta Jeremias, onde Deus diz a
Jerusalm: nudavi femora contra fa-ciem tuam, explica: Sive nudabo et relevabo
femora et posteriora tua. At Deus se exprime portanto por argcias para confundir
aqueles que quer punir. E sabeis muito bem que no momento mais aceso da luta entre
clunicenses e cistercenses os primeiros acusaram os segundos, para os tornar ridculos,
de no usarem bragas. E no Speculum stultorum conta-se do burro Brunello que se
pergunta o que aconteceria se de noite o vento levantasse os cobertores e o monge visse
as suas pudenta...
  Os monges em volta riram, e Jorge enfureceu-se:
   - Estais-me arrastando estes irmos para uma festa de doidos. Sei que  uso entre os
franciscanos cativar as simpatias do povo com estultcias deste gnero, mas destes jogos
vos direi aquilo que diz um verso que ouvi a um dos vossos pregadores: Tum podex
carmen extulit horridulum.
  A reprimenda era um pouco forte de mais, Guilherme tinha sido impertinente, mas
agora Jorge acusava-o de emitir peidos pela boca. Perguntei-me se esta resposta severa
no devia significar um convite, por parte do monge ancio, a sair do scriptorium. Mas vi
Guilherme, to combativo pouco antes, tornar-se manso como um cordeiro.
  - Peo-vos perdo, venervel Jorge - disse. - A minha boca traiu os meus pensamentos,
no queria faltar-vos ao respeito. Talvez aquilo que dizeis seja justo e eu me enganasse.
   Jorge, diante deste ato de delicada humildade, emitiu um grunhido que tanto podia
exprimir satisfao como perdo, e no pde fazer outra coisa seno voltar ao seu lugar,
enquanto os monges, que durante a discusso se tinham prxima do pouco a pouco,
refluam s suas mesas de trabalho. Guilherme voltou-se de novo diante da mesa de
Venancio e recomeou a buscar entre os papis. Com a sua resposta humilssima,
Guilherme tinha ganho alguns segundos de tranqilidade. E aquilo que viu naqueles
poucos segundos inspirou as suas investigaes da noite que estava para vir.
   Foram porm verdadeiramente, poucos segundos. Bncio aproximou-se de sbito,
fingindo ter esquecido o seu estilete sobre a mesa, quando se aproximara para ouvir a
conversa com Jorge, e sussurrou a Guilherme que tinha urgncia em falar-lhe, marcando-
lhe encontro por trs dos balnea. Disse-lhe ainda que se afastasse primeiro, que ele o
alcanaria dali a pouco.
   Guilherme hesitou alguns instantes, depois chamou Malaquias, que da sua mesa de
bibliotecrio, junto do catlogo, tinha seguido tudo quanto tinha acontecido, e pediu-
lhe, em virtude do mandato recebido do Abade (e frisou muito este seu privilgio), que
pusesse algum de guarda  mesa de Venancio, porque reputava til ao seu inqurito que
ningum se aproximasse dela durante todo o dia. at que ele pudesse voltar. Disse-o em
voz alta, porque nesse sentido empenhava no s Malaquias em vigiar os monges, mas os
prprios monges em vigiar Malaquias. O bibliotecrio no pde seno consentir, e
Guilherme afastou-se comigo.
  Enquanto atravessvamos o horto e nos pnhamos mais perto dos balnea, que ficavam
encostados  construo do hospital, Guilherme observou:
  - Parece que a muitos desagrada que eu ponha as mos sobre alguma coisa que est
por cima ou por baixo da mesa de Venancio.
  - E que ser?
  - Tenho a impresso que aqueles a quem desagrada tambm no o sabem.
   - Ento Bncio no tem nada a dizer-nos e est somente a atrair-nos para longe do
scriptorium?
  - Isso vamos j sab-lo - disse Guilherme.
  De fato, pouco depois, Bncio veio ter conosco.
  SEGUNDO DIA
  SEXTA
  Onde Bncio conta uma estranha histria, por onde se ficam a saber coisas pouco
edificantes sobre a vida da abadia.
   Aquilo que Bncio nos disse foi um tanto confuso. Parecia verdadeiramente que ele
nos tinha atrado ali s para nos afastar do scriptorium, mas tambm parecia que,
incapaz de inventar um pretexto convincente, dizia-nos tambm fragmentos de uma
verdade mais vasta que ele conhecia.
   Ele disse-nos que de manh tinha sido reticente, mas que agora, depois de madura
reflexo, achava que Guilherme devia saber toda a verdade. Durante a famosa conversa
sobre o riso, Berengrio tinha-se referido ao finis Africae. O que era? A biblioteca
estava cheia de segredos, e especialmente de livros que nunca tinham sido dados a ler
aos monges. Bncio tinha sido atingido pelas palavras de Guilherme sobre o exame
racional das proposies. Ele achava que um monge estudioso tinha o direito de conhecer
tudo aquilo que a biblioteca encerrava, disse palavras inflamadas contra o conclio de
Soissons que tinha condenado Abelardo, e, enquanto falava, demo-nos conta que este
monge ainda jovem, que se deleitava com a retrica, era agitado por frmitos de
independncia e que lhe custava a aceitar os vnculos que a disciplina da abadia punha 
curiosidade do seu intelecto. Eu aprendi sempre a desconfiar de tal curiosidade, mas sei
bem que esta atitude no desagradava ao meu mestre, e apercebi-me que ele
simpatizava com Bncio e que lhe dava crdito. Em resumo, Bncio disse-nos que no
sabia de que segredos Adelmo, Venancio e Berengrio tinham falado, mas que no lhe
desagradaria que daquela triste histria adviesse um pouco de luz sobre o modo como a
biblioteca era administrada, e que no desesperava que o meu mestre, fosse qual fosse o
modo como deslindasse a meada do inqurito, retirasse da elementos para estimular o
Abade a abrandar a disciplina intelectual que pesava sobre os monges - vindos de to
longe, como ele, acrescentou, precisamente para nutrir a sua mente com as maravilhas
ocultas no amplo ventre da biblioteca.
   Eu creio que Bncio era sincero ao esperar do inqurito aquilo que dizia.
Provavelmente, porm, queria ao mesmo tempo, como Guilherme tinha previsto,
reservar-se o direito de ser o primeiro a revistar a mesa de Venancio, devorado como era
pela curiosidade, e, para nos manter afastados dela, estava disposto a dar-nos em troca
outras informaes. E eis quais elas foram.
   Berengrio era consumido, j muitos entre os monges o sabiam, por uma insana paixo
por Adelmo, a mesma paixo cujos efeitos nefastos a clera divina tinha castigado em
Sodoma e Gomorra. Assim se exprimiu Bncio, talvez por respeito  minha jovem idade.
Mas quem viveu a sua adolescncia num mosteiro sabe que, ainda que se tenha mantido
casto, de tais paixes decerto ouviu falar, e por vezes teve de se guardar das insdias de
quem era escravo delas. Jovem monge como era, no tinha j recebido eu prprio, em
Melk, da parte de um monge idoso, cartelas com versos que de costume um leigo dedica
a uma mulher. Os votos monacais mantm-nos longe daquele antro de vcios que  o
corpo da fmea mas freqentemente conduzem-nos  beira de outros erros. Posso enfim
esconder-me que a minha prpria velhice  ainda hoje agitada pelo demnio meridiano,
quando me acontece demorar o meu olhar, no coro, sobre o rosto imberbe de um novio,
puro e fresco como uma menina?
   Digo estas coisas no para pr em dvida a escolha que fiz de me dedicar  vida
monstica, mas para justificar o erro de muitos para quem este santo fardo se revela
pesado. Talvez para justificar o delito horrvel de Berengrio. Mas parece-me, segundo
Bncio, que este monge cultivava o seu vcio de modo ainda mais ignbil, isto , usando
as armas da chantagem para obter de outros aquilo que a virtude e o decoro lhes
deveriam desaconselhar de doar.
   Portanto, h algum tempo que os monges ironizavam sobre os olhares ternos que
Berengrio lanava a Adelmo, que parece que eram de uma grande beleza. Enquanto
Adelmo, totalmente enamorado do seu trabalho, do qual somente parecia tirar deleite,
pouco cuidava da paixo de Berengrio. Mas talvez, quem sabe, ele ignorasse que o seu
animo, no fundo, o inclinava  mesma ignomnia. O fato  que Bncio disse que tinha
surpreendido um dilogo entre Adelmo e Berengrio em que este, aludindo a um segredo
que Adelmo pedia que lhe revelasse, lhe propunha o torpe mercado que at o leitor mais
inocente pode imaginar. E parece que Bncio ouviu dos lbios de Adelmo palavras de
consenso, quase ditas com alvio. Como se, aventurava Bncio, Adelmo no fundo no
desejasse outra coisa e lhe tivesse bastado encontrar uma razo diversa do desejo carnal
para consentir. Sinal, argumentava Bncio, de que o segredo de Berengrio devia dizer
respeito a arcanos da sapincia, de modo que Adelmo pudesse nutrir a iluso de ceder a
um pecado da carne para contentar um apetite do intelecto. E, acrescentou Bncio com
um sorriso, quantas vezes ele prprio no era agitado por apetites do intelecto to
violentos que, para content-los, teria consentido em secundar apetites carnais no
seus, mesmo contra a sua prpria vontade carnal.
  - No h momentos - perguntou a Guilherme - em que vs fareis at coisas
reprovveis para ter nas mos um livro que procurais h anos?
  - O sbio e virtuosssimo Silvestre II, h sculos, deu como oferta uma esfera armilar
preciosssima por um manuscrito, creio, de Estcio ou Lucano - disse Guilherme.
Acrescentou depois, prudentemente: - Mas tratava-se de uma esfera armilar, no da sua
prpria virtude.
   Bncio admitiu que o seu entusiasmo o tinha arrastado longe e retomou a narrativa.
Na noite antes de Adelmo morrer, ele tinha seguido os dois, movido pela curiosidade. E
tinha-os visto, depois de completas, encaminharem-se juntos para o dormitrio. Tinha
esperado longo tempo, conservando entreaberta a porta da sua cela, no longe da deles,
e tinha visto claramente Adelmo deslizar, quando o silncio tinha descido sobre o sono
dos monges, para a cela de Berengrio. Tinha continuado a velar, sem poder conciliar o
sono, at que ouvira a porta da cela de Berengrio que se abria e Adelmo que fugia de l
quase a correr, com o amigo procurando ret-lo. Berengrio tinha-o seguido enquanto
Adelmo descia ao andar inferior. Bncio tinha-os seguido cautamente, e  entrada do
corredor inferior tinha visto Berengrio, quase a tremer, que, esmagado num canto,
fixava a porta da cela de Jorge. Bncio tinha intudo que Adelmo se tinha lanado aos
ps do velho irmo para lhe confessar o seu pecado. E Berengrio tremia, sabendo que o
seu segredo era revelado, fosse embora sob o sigilo do sacramento.
   Depois Adelmo tinha sado, de rosto extremamente plido, tinha afastado de si
Berengrio, que procurava falar-lhe, e tinha-se precipitado para fora do dormitrio,
girando em torno da abside da igreja e entrando no coro pelo portal setentrional (que de
noite fica sempre aberto). Provavelmente queria rezar. Berengrio tinha-o seguido, mas
sem entrar na igreja, e vagueava entre os tmulos do cemitrio torcendo as mos.
   Bncio no sabia que fazer quando se apercebera que uma quarta pessoa se movia ali
perto. Tambm ela tinha seguido os dois e decerto no tinha reparado na presena de
Bncio, que se mantinha rgido contra o tronco de um carvalho plantado nos limites do
cemitrio. Era Venancio. Ao v-lo, Berengrio tinha-se agachado entre os tmulos, e
Venancio tinha entrado tambm ele no coro. Nessa altura, Bncio, temendo ser
descoberto, tinha regressado ao dormitrio. Na manh seguinte, o cadver de Adelmo
tinha sido encontrado aos ps da escarpa. E mais Bncio no sabia.
  Aproximava-se ento a hora de almoar. Bncio deixou-nos, e o meu mestre no lhe
perguntou mais nada. Ns ficamos por algum tempo atrs dos balnea, depois passeamos
por alguns minutos no horto, meditando sobre aquelas singulares revelaes.
  - Frangula - disse de repente Guilherme, inclinando-se a observar uma planta que
naquele dia de Inverno reconheceu no arbusto.  A infuso da casca  boa para as
hemorridas. E aquilo  arctium lappa; uma boa cataplasma de razes frescas cicatriza os
eczemas da pele.
  - Sois mais esperto do que Severino - disse-lhe -, mas agora dizei-me o que pensais
daquilo que ouvimos!
   - Caro Adso, devias aprender a raciocinar com a tua cabea. Provavelmente, Bncio
disse-nos a verdade. A sua narrativa coincide com a que fez Berengrio, alis to
mesclada de alucinaes, hoje de manh cedo. Tenta reconstruir. Berengrio e Adelmo
fazem juntos uma coisa muito feia, j o tnhamos intudo. E Berengrio deve ter revelado
a Adelmo aquele segredo que permanece, ai de mim, um segredo. Adelmo, depois de ter
cometido o seu delito contra a castidade e as regras da natureza, pensa apenas em
confiar-se a algum que possa absolv-lo, e corre junto de Jorge. Este tem um carter
muito austero, tivemos provas disso, e decerto acomete Adelmo com angustiantes
reprimendas. Talvez no lhe d a absolvio, talvez lhe imponha uma penitncia
impossvel, no sabemos, nem Jorge no-lo dir jamais. O fato  que Adelmo corre 
igreja a prostrar-se diante do altar, mas no aplaca o seu remorso. Neste ponto 
abordado por Venancio. No sabemos o que dizem um ao outro. Provavelmente, Adelmo
confia a Venancio o segredo recebido como presente (ou em paga) de Berengrio, e que
agora j nada lhe importa, pois que ele tem agora um segredo seu bem mais terrvel e
escaldante. Que acontece a Venancio? Provavelmente, tomado pela mesma curiosidade
ardente que hoje tambm movia o nosso Bncio, pago por aquilo que soube, deixa
Adelmo entregue aos seus remorsos. Adelmo v-se abandonado, projeta matar-se, sai
desesperado para o cemitrio e ai encontra Berengrio. Diz-lhe palavras tremendas,
lana-lhe  cara a sua responsabilidade, chama-lhe seu mestre de turpitude. Creio
mesmo que a narrativa de Berengrio, despojada de toda a alucinao, era exata.
Adelmo repete-lhe as mesmas palavras de desespero que deve ter ouvido a Jorge. E eis
que Berengrio se vai transtornado, por um lado, e Adelmo vai matar-se pelo outro.
Depois vem o resto, de que fomos quase testemunhas. Todos crem que Adelmo foi
morto. Venancio fica com a impresso que o segredo da biblioteca  ainda mais
importante do que julgava e continua a busca por sua conta. At que algum o faz parar,
antes ou depois de ele ter descoberto aquilo que queria.
  - Quem o mata? Berengrio?
   - Pode ser ou Malaquias, que deve guardar o Edifcio. Ou um outro. Berengrio 
suspeito precisamente porque est assustado, e sabia que agora Venancio possua o seu
segredo. Malaquias  suspeito: guarda da integridade da biblioteca, descobre que algum
a violou e mata. Jorge sabe tudo de todos, possui o segredo de Adelmo, no quer que eu
descubra o que Venancio poderia ter encontrado... Muitos fatos aconselhariam a
suspeitar dele. Mas diz-me tu como  que um homem cego pode matar outro na
plenitude das foras, e como  que um velho, embora robusto, ter podido transportar o
cadver para a jarra. Mas enfim, porque  que o assassino no poderia ser o prprio
Bncio? Poderia ter-nos mentido, ser movido por fins inconfessveis. E porqu limitar os
suspeitos apenas aos que participaram na conversa sobre o riso? Provavelmente, o delito
teve outros mbeis que nada tm a ver com a biblioteca. Em todo o caso, so precisas
duas coisas: saber como se entra na biblioteca de noite e ter uma candeia. Na candeia
pensa tu. Passa pela cozinha  hora do almoo, pega uma...
  - Um furto?
  - Um emprstimo, para maior glria do Senhor.
  - Se  assim, contai comigo.
   - timo. Quanto a entrar no Edifcio, vimos de onde apareceu Malaquias ontem 
noite. Hoje farei uma visita  igreja e quela capela em particular. Dentro de uma hora
iremos para a mesa. Depois temos uma reunio com o Abade. Sers admitido nela,
porque pedi para ter um secretrio que tome nota de quanto dissermos.
  SEGUNDO DIA
  NONA
   Onde o Abade se mostra orgulhoso das riquezas da sua abadia e temeroso dos hereges
e no fim Adso receia ter feito mal em andar pelo mundo.
   Encontramos o Abade na igreja, diante do altar-mor. Estava seguindo o trabalho de
alguns novios que tinham tirado de alguns penetrais uma srie de vasos sagrados,
clices, patenas, ostensrios, e um crucifixo que no tinha visto durante a funo da
manh. No pude conter uma exclamao de admirao diante da fulgurante beleza
daquelas alfaias sagradas. Era em pleno meio-dia, e a luz entrava a jorros pelas janelas
do coro e mais ainda pelas das fachadas, formando brancas cascatas que, como msticas
torrentes de divina substancia, iam cruzar-se em vrios pontos da igreja, inundando o
prprio altar.
   Os vasos, os clices, tudo revelava a sua matria preciosa: entre o amarelo do ouro, a
brancura imaculada dos marfins e a transparncia do cristal, vi reluzir gemas de todas as
cores e dimenses, e reconheci o jacinto, o topzio, o rubi, a safira, a esmeralda, o
crislico, o nix, o carbnculo e o jaspe e a gata. E ao mesmo tempo apercebi-me de
tudo quanto, de manh, arrebatado primeiro na orao e depois perturbado pelo terror,
no tinha notado: o frontal do altar e mais trs painis que lhe faziam de coroa eram
inteiramente de ouro, e enfim o altar parecia de ouro de qualquer parte que se olhasse
pare ele.
  O abade sorriu ao meu espanto.
   - Estas riquezas que vedes - disse, voltando-se pare mim e pare o meu mestre - e
outras que ainda vereis so a herana de sculos de piedade e devoo e testemunho do
poder e santidade desta abadia. Prncipes e poderosos da terra, arcebispos e bispos
sacrificaram a este altar e aos objetos que lhe so destinados os anis das suas
investiduras, os ouros e as pedras que eram sinal da sua grandeza, e quiseram refundi-los
aqui pare a maior glria do Senhor e deste seu lugar. Mau grado a abadia tenha sido hoje
fustigada por um outro evento lutuoso, no podemos esquecer diante da nossa
fragilidade a fora e a potncia do Altssimo. Aproximam-se as festividades do Santo
Natal, e estamos comeando a limpar as alfaias sagradas, de modo que o nascimento do
Salvador seja pois festejado com todo o fasto e a magnificncia que merece e requer.
Tudo dever aparecer no seu pleno fulgor... - acrescentou, olhando fixamente para
Guilherme, e compreendi depois porque insistia to orgulhosamente em justificar o seu
comportamento - porque pensamos que  til e conveniente no esconder mas, pelo
contrrio, proclamar as divinas liberalidades.
   - Decerto - disse Guilherme com cortesia -, se a vossa sublimidade acha que o Senhor
deve ser assim glorificado, a vossa abadia atingiu a maior excelncia nesse contributo de
louvores.
   - E assim  devido - disse o Abade. - Se nforas e frascos de ouro e pequenos
almofarizes ureos era uso que servissem, por vontade de Deus ou ordem dos profetas,
para recolher o sangue de cabras ou de vitelos ou da novilha no templo de Salomo,
tantos mais vasos de ouro e pedras preciosas, e tudo aquilo que tem mais valor entre as
coisas criadas, devem ser usados com contnua reverncia e plena devoo para acolher
o sangue de Cristo! Se por uma segunda criao a nossa substancia viesse a ser a mesma
dos querubins e dos serafins, seria ainda indigno o servio que ela poderia prestar a uma
vtima to inefvel...
  - Assim seja - disse.
   - Muitos objetam que uma mente santamente inspirada, um corao puro, uma
inteno cheia de f deveriam bastar para esta sagrada funo. Ns somos os primeiros a
afirmar explicita e resolutamente que esta  a coisa essencial: mas estamos convencidos
que tambm se deve render a homenagem atravs do ornamento exterior da sagrada
alfaia, porque  sumamente justo e conveniente que ns sirvamos o nosso Salvador em
todas as coisas, integralmente, Ele que no se recusou a prover-nos a ns em todas as
coisas integralmente e sem excees.
  - Essa sempre foi a opinio dos grandes da vossa ordem  assentiu Guilherme -, e
recordo coisas belssimas escritas sobre os ornamentos das igrejas pelo grandssimo e
venervel abade Sugero.
   - Assim  - disse o Abade. - Vede este crucifixo. No est ainda completo... - Tomou-o
nas mos com infinito amor e considerou-o com o rosto iluminado de beatitude. - Faltam
aqui algumas prolas, e ainda no as encontrei da medida justa. Em tempos, Santo Andr
dirigiu-se  cruz da Glgota dizendo que era adornada pelos membros de Cristo como de
prolas. E de prolas deve ser adornado este humilde simulacro daquele grande prodgio.
Mesmo se considerei oportuno mandar-lhe encastoar, neste ponto, sobre a prpria
cabea do Salvador, o mais belo diamante que jamais vistes. - Acariciou com mos
devotas, com os seus longos dedos brancos, as partes mais preciosas do sagrado lenho, ou
melhor do sagrado marfim, que desta esplndida matria eram feitos os braos da cruz. -
Quando, enquanto me deleito com todas as belezas desta casa de Deus, o encanto das
pedras multicolores me arrancou aos cuidados externos, e uma digna meditao me
levou a refletir, transferindo aquilo que  material para aquilo que  imaterial, sobre a
diversidade das sagradas virtudes, ento parece-me que me encontro, por assim dizer,
numa estranha regio do universo que j no est de todo fechada na lama da terra nem
de todo liberta na pureza do cu. E parece-me que, pela graa de Deus, eu posso ser
transportado deste mundo inferior ao superior por via anaggica...
   Falava, e tinha voltado o rosto para a nave. Um jorro de luz que penetrava do alto
estava, por uma particular benevolncia do astro diurno, iluminando o seu rosto e as
mos, que tinha abertas em forma de cruz, arrebatado como estava pelo seu prprio
fervor.
   - Toda a criatura  disse -, seja ela visvel ou invisvel,  uma luz, levada ao ser pelo
pai das luzes. Este marfim, este nix, mas tambm a pedra que nos circunda so uma
luz, porque eu percebo que so bons e belos, que existem segundo as prprias regras de
proporo, que diferem em gnero e espcie de todos os outros gneros e espcies, que
so definidos pelo seu prprio nmero, que no se afastam da sua ordem, que procuram
o seu lugar especfico conformemente  sua gravidade. E estas coisas so-me reveladas
tanto melhor quanto mais a matria que eu olho for preciosa por natureza e quanto
melhor ela se fizer luz da potncia criadora divina, na medida em que devo remontar 
sublimidade da causa, inacessvel na sua plenitude, a partir da sublimidade do efeito;
quanto melhor no me falar da divina causalidade um efeito admirvel como o ouro ou
o diamante, se j conseguem falar-me dela at mesmo o esterco e o inseto! E ento,
quando nestas pedras percebo essas coisas superiores, a alma chora comovida de alegria,
e no por vaidade terrena ou amor das riquezas, mas por amor purssimo da causa
primeira no causada.
  - Na verdade, esta  a mais doce das teologias - disse Guilherme com perfeita
humildade.
   E pensei que usava aquela insidiosa figura de pensamento a que os retricos chamam
ironia; a qual se deve usar fazendo-a preceder sempre da pronunciatio, que constitui o
seu sinal e a sua justificao; coisa que Guilherme nunca fazia. Razo pela qual o Abade,
mais propenso ao uso das figuras do discurso, tomou Guilherme  letra e acrescentou,
ainda presa do seu mstico arrebatamento:
  - E a mais imediata das vias que nos pem em contato com o Altssimo, teofania
material.
  Guilherme tossiu educadamente:
  - Eh... oh... - disse.
   Assim fazia quando queria introduzir um outro argumento. Conseguiu faz-lo com boa
graa, porque era seu costume - e creio que  tpico dos homens da sua terra - iniciar
cada uma das suas intervenes com longos gemidos preliminares, como se encaminhar a
exposio de um pensamento completo lhe custasse um grande esforo da mente. Ento,
j me tinha convencido, quantos mais gemidos antepunha  sua assero tanto mais
estava seguro da bondade da proposio que ela exprimia.
  - Eh... oh... - disse pois Guilherme. - Devemos falar do encontro e do debate sobre a
pobreza...
  - A pobreza... - disse ainda absorto o Abade, como se lhe custasse a descer daquela
regio do universo para onde o tinham arrebatado as suas gemas. -  verdade, o
encontro...
   E comearam a discutir afincadamente sobre coisas que eu, em parte, j sabia e em
parte consegui compreender escutando o seu colquio. Tratava-se, como j disse desde o
incio desta minha crnica fiel, da dupla querela que opunha, por um lado, o imperador
ao papa, e, por outro, o papa aos franciscanos que, no captulo da Perugia, embora com
muitos anos de atraso, tinham feito suas as teses dos espirituais sobre a pobreza de
Cristo; e do enredo que se tinha formado unindo os franciscanos ao imprio, enredo que
- de tringulo de oposies e de alianas - agora se tinha transformado num quadrado
pela interveno, ainda muito obscura para mim, dos abades da ordem de So Bento.
   Eu nunca atingi com clareza a razo por que os abades beneditinos tinham dado
proteo e refgio aos franciscanos espirituais, ainda antes que a sua prpria ordem
partilhasse de certo modo as suas opinies. Porque, se os espirituais pregavam a
renncia a todos os bens terrenos, os abades da minha ordem - tinha dito naquele mesmo
dia a luminosa confirmao disso - seguiam uma via no menos virtuosa mas de todo
oposta. Mas creio que os abades consideravam que um excessivo poder do papa
significava um poder dos bispos e das cidades, enquanto a minha ordem tinha conservado
intacto o seu poder atravs dos sculos, precisamente em luta com o clero secular e os
mercadores citadinos, colocando-se como direta medianeira entre o cu e a terra e
conselheira dos soberanos.
   Tinha ouvido repetir muitas vezes a frase segundo a qual o povo de Deus se dividia em
pastores (ou seja, os clrigos), ces (ou seja, os guerreiros) e ovelhas do povo. Mas
aprendi em seguida que essa frase pode ser repetida de vrios modos. Os beneditinos
haviam freqentemente falado no de trs ordens, mas de duas grandes divises, uma
que dizia respeito  administrao das coisas terrenas e outra que dizia respeito 
administrao das coisas celestes. Pelo que dizia respeito s coisas terrenas, valia a
diviso entre clero, senhores laicos e povo, mas sobre esta tripartio dominava a
presena da ordo monachorum, ligao direta entre o povo de Deus e o cu, e os monges
no tinham nada que ver com os pastores seculares, que eram os padres e os bispos,
ignorantes e corruptos, propensos ento aos interesses das cidades, onde as ovelhas
agora j no eram tanto os bons e fiis camponeses mas sim os mercadores e os artesos.
 ordem beneditina no desagradava que o governo dos simples fosse confiado aos
clrigos seculares, contando que o estabelecimento da regra definitiva desta relao
coubesse aos monges, em contato direto com a fonte de todo o poder terrestre, o
imprio, tal como estavam com a fonte de todo o poder celeste. Eis porque, creio,
muitos abades beneditinos, para restituir dignidade ao imprio contra o governo das
cidades (bispos e mercadores unidos), aceitaram tambm proteger os franciscanos
espirituais, cujas idias no partilhavam, mas cuja presena lhes era cmoda, na medida
em que oferecia ao imprio bons silogismos contra o poder excessivo do papa.
   Eram estas as razes, argi, pelas quais Abone se dispunha agora a colaborar com
Guilherme, enviado do imperador, para servir de medianeiro entre a ordem franciscana e
a sede pontifcia. De fato, mesmo na violncia da disputa que fazia periclitar tanto a
unidade da Igreja, Miguel de Cesena, vrias vezes chamado a Avinho pelo papa Joo,
tinha-se finalmente disposto a aceitar o convite, porque no queria que a sua ordem
ficasse definitivamente de relaes cortadas com o pontfice. Como geral dos
franciscanos, queria ao mesmo tempo fazer triunfar as suas posies e obter o consenso
papal, tambm porque intua que sem o consenso do papa no poderia permanecer
muito tempo  testa da ordem.
  Mas muitos tinham-lhe feito observar que o papa o esperaria em Frana para lhe armar
uma cilada, acus-lo de heresia e process-lo. E por isso aconselhavam que a ida de
Miguel a Avinho fosse precedida de algumas negociaes. Marslio tinha tido uma idia
melhor: enviar com Miguel tambm um legado imperial que apresentasse ao papa o
ponto de vista dos detensores do imperador. No tanto para convencer o velho Cahors
mas para reforar a posio de Miguel, que, fazendo parte de uma delegao imperial,
no poderia cair to facilmente como presa da vingana pontifcia.
  Tambm esta idia apresentava todavia numerosos inconvenientes e no era realizvel
imediatamente. Da viera a idia de um encontro preliminar entre os membros da
delegao imperial e alguns enviados do papa, para provar as respectivas posies e
redigir os acordos para um encontro em que a segurana dos visitantes italianos fosse
garantida. Da organizao deste primeiro encontro tinha sido encarregado precisamente
Guilherme de Baskerville, o qual deveria depois representar o ponto de vista dos telogos
imperiais em Avinho, se considerasse que a viagem era possvel sem perigo. Empresa
pouco fcil, porque se supunha que o papa, que queria Miguel sozinho para o poder
reduzir mais facilmente  obedincia, enviaria  Itlia uma delegao instruda de modo
a fazer fracassar, na medida do possvel, a viagem dos enviados imperiais  sua corte.
Guilherme tinha-se movimentado at ento com grande habilidade. Depois de longas
consultas com vrios abades beneditinos (eis a razo das muitas etapas da nossa viagem),
tinha escolhido a abadia onde estvamos, precisamente porque sabia que o Abade era
devotadssimo ao imprio e todavia, pela sua grande habilidade diplomtica, nada
malvisto na corte pontifcia. Territrio neutro, portanto, a abadia, onde os dois grupos
poderiam encontrar-se.
   Mas as resistncias do pontfice no acabavam ali. Ele sabia que, uma vez no terreno
da abadia, a sua delegao ficaria submetida  jurisdio do Abade: e, como dela
tambm fariam parte membros do clero secular, no aceitava esta clusula, alegando
temores de uma cilada imperial. Assim, tinha posto a condio de que a incolumidade
dos seus enviados fosse confiada a uma companhia de archeiros do rei de Frana s
ordens de pessoa da sua confiana. Tinha ouvido vagamente Guilherme discorrer acerca
disto com um embaixador do papa em Bobbio: tinha-se tratado de definir a frmula com
a qual designar os deveres desta companhia, ou seja, que coisa se entendia pela
salvaguarda da incolumidade dos legados pontifcios. Tinha-se finalmente aceitado uma
frmula proposta pelos avinhonenses e que tinha parecido razovel: os homens armados
e quem os comandava teriam jurisdio sobre todos aqueles que de qualquer modo
procurassem atentar contra a vida dos membros da delegao pontifcia e influenciar o
seu comportamento e juzo com atos violentos. Ento, o pacto parecera inspirado por
puras preocupaes formais. Agora, depois dos fatos recentes acontecidos na abadia, o
Abade estava inquieto e manifestou as suas dvidas a Guilherme. Se a delegao
chegasse  abadia enquanto era ainda desconhecido o autor de dois delitos (no dia
seguinte as preocupaes do Abade deveriam aumentar, porque os delitos seriam trs),
dever-se-ia admitir que circulava dentro daquelas muralhas algum capaz de influenciar
com atos violentos o juzo e o comportamento dos legados pontifcios.
   De nada valia procurar ocultar os crimes que tinham sido cometidos, porque se ainda
acontecesse mais alguma coisa os legados pontifcios pensariam num conluio contra eles.
E portanto as solues eram apenas duas. Ou Guilherme descobria o assassino antes da
chegada da delegao (e aqui o Abade olhou-o fixamente como a repreend-lo
tacitamente por ainda no ter chegado a nenhuma concluso sobre o assunto), ou ento
era necessrio avisar lealmente o representante do papa sobre aquilo que estava
acontecendo e pedir a sua colaborao para que a abadia fosse posta sob atenta
vigilncia durante o curso dos trabalhos. Coisa que desagradava ao Abade, porque
significava renunciar a parte da sua soberania e pr os seus prprios monges sob o
controle dos franceses. Mas no se podia arriscar. Guilherme e o Abade estavam ambos
contrariados pelo rumo que as coisas levavam, mas tinham poucas alternativas. Voltaram
a prometer, por isso, que tomariam uma deciso definitiva at ao dia seguinte.
Entretanto, no restava seno confiar na misericrdia divina e na sagacidade de
Guilherme.
   - Farei o possvel, Vossa Sublimidade - disse Guilherme. - Mas, por outro lado, no vejo
como a coisa possa comprometer deveras o encontro. Mesmo o representante pontifcio
ter de compreender que h diferena entre a obra de um louco, ou de um sanguinrio,
ou talvez apenas de uma alma perdida, e os graves problemas que homens probos viro
discutir.
   - Acreditais? - perguntou o Abade, olhando fixamente para Guilherme. - No esqueais
que os avinhonenses sabem que vm encontrar-se com menoritas, e portanto com
pessoas perigosamente prximas dos fraticelli e de outros ainda mais desvairados que os
fraticelli, de hereges perigosos que se mancharam com delitos - e aqui o Abade baixou a
voz  em confronto com os quais os fatos, alis horrveis, que aqui aconteceram
empalidecem como nvoa ao sol.
   - No se trata da mesma coisa! - exclamou Guilherme com vivacidade. - No podeis
colocar no mesmo plano os menoritas do captulo de Perugia e alguns bandos de hereges
que interpretaram mal a mensagem do Evangelho, transformando a luta contra as
riquezas numa srie de vinganas privadas ou de loucuras sanguinrias...
   - Ainda no h muitos anos que, a poucas milhas daqui, um desses bandos, como vs
lhe chamais, ps a ferro e fogo as terras do bispo de Vercelli e as montanhas da provncia
de Novara - disse secamente o Abade.
  - Falais de frei Dolcino e dos apostlicos...
  - Dos pseudo-apstolos - corrigiu o Abade.
   E mais uma vez ouvia citar frei Dolcino e os pseudo-apstolos, e mais uma vez em tom
circunspecto e quase com um leve aceno de terror.
  - Dos pseudo-apstolos - admitiu de boa vontade Guilherme.  Mas esses no tinham
nada a ver com os menoritas...
   - Professavam a mesma reverncia que eles por Joaquim de Calbria - instou o Abade -
, e podeis pergunt-lo ao vosso irmo Ubertino.
   - Fao notar a Vossa Sublimidade que agora  irmo vosso  disse Guilherme com um
sorriso e uma espcie de reverncia, como para cumprimentar o Abade pela aquisio
que a sua ordem tinha feito acolhendo um homem de tal reputao.
   - Eu sei, eu sei - sorriu o Abade. - E vs sabeis com que fraterna solicitude a nossa
ordem acolheu os espirituais quando incorreram na ira do papa. No falo s de Ubertino
mas tambm de muitos outros frades mais humildes, dos quais pouco se sabe, e dos quais
talvez se devesse saber mais. Porque aconteceu que ns acolhemos trnsfugas que se
apresentaram com o saio dos menoritas, e depois vim a saber que as vrias vicissitudes
da sua vida os tinham levado, por um certo tempo, bastante perto dos dolcinianos...
  - Mesmo aqui? - perguntou Guilherme.
  - Mesmo aqui. Estou a revelar-vos alguma coisa de que na verdade sei muito pouco, e,
em todo o caso, no o bastante para formular acusaes. Mas, visto que estais indagando
sobre a vida desta abadia,  bom que tambm vs conheais estas coisas. Dir-vos-ei
ento que suspeito, reparai, suspeito, com base em coisas que tenho ouvido ou
adivinhado, que houve um momento muito obscuro na vida do nosso despenseiro, que
precisamente chegou aqui h anos seguindo o xodo dos menoritas.
  - O despenseiro? Remgio de Varagine um dolciano? Parece-me o ser mais manso e em
todo o caso menos preocupado com a dona pobreza que eu jamais vi... - disse
Guilherme.
   - E de fato no posso dizer nada dele, e valho-me dos seus bons servios, pelos quais
toda a comunidade lhe est reconhecida. Mas digo isto para vos fazer compreender como
 fcil encontrar conexes entre um frade e um fraticello.
  - Mais uma vez a vossa magnitude  injusta, se assim posso dizer - interveio
Guilherme. - Estvamos a falar dos dolcinianos, no dos fraticelli. Dos quais muito se
poder dizer, sem sequer saber de quem se fala, porque deles h muitas espcies, mas
no que sejam sanguinrios. Poder-se- no mximo censurar-lhes que ponham em prtica
sem demasiado bom senso coisas que os espirituais pregaram com maior medida e
animados de verdadeiro amor de Deus, e nisto concordo que existam fronteiras bastante
tnues entre uns e outros...
  - Mas os fraticelli so hereges! - interrompeu secamente o Abade. - No se limitam a
defender a pobreza de Cristo e dos apstolos, doutrina que, mesmo que no possa
compartilh-la, pode ser oposta utilmente  arrogncia avinhonense. Os fraticelli
extraem dessa doutrina um silogismo prtico, inferem um direito  revolta, ao saque, 
perverso dos costumes.
  - Mas que fraticelli?
  - Todos em geral. Sabeis que se mancharam com delitos abominveis, que no
reconhecem o matrimnio, que negam o inferno, que cometem sodomia, que abraam a
heresia bogomila do ordo Bulgarie e do ordo Drygonthie...
   - Por favor - disse Guilherme -, no confundais coisas diversas! Vs falais como se
fraticelli, patarinos, valdenses, ctaros e esses bogomilos da Bulgria e hereges da
Dragovitsa fossem todos a mesma coisa!
   - So - disse secamente o Abade -, so porque so hereges e so porque pem em risco
a prpria ordem do mundo civil, at a ordem do imprio que vs me pareceis auspiciar.
H mais de cem anos os sequazes de Arnaldo de Brescia incendiaram as casas dos nobres
e dos cardeais, e foram estes os frutos da heresia lombarda dos patarinos. Sei de
histrias terrveis sobre estes hereges, e li-as em Cesrio de Eisterbach. Em Verona, o
cannico de So Gedeo, Everardo, notou uma vez que aquele que o hospedava todas as
noites saa de casa com a mulher e a filha. Interrogou no sei qual dos trs para saber
onde iam e que faziam. Vem e vers, foi a resposta, e ele seguiu-os at uma casa
subterrnea, muito ampla, onde estavam reunidas pessoas de ambos os sexos. Um
heresiarca, enquanto todos estavam em silncio, fez um discurso cheio de blasfmias,
com o propsito de corromper a sua vida e os seus costumes. Depois, apagada a vela,
cada um se lanou sobre a sua vizinha, sem fazer diferena entre a esposa legtima e a
mulher solteira, entre viva e virgem, entre senhora e serva, nem (o que era pior, o
Senhor me perdoe enquanto digo coisas to horrveis) entre filha e irm. Everardo, vendo
tudo isto, como jovem leviano e luxurioso que era, fingindo-se um discpulo, aproximou-
se no sei se da filha do seu hospedeiro ou de uma outra rapariga e, logo que apagaram a
vela, pecou com ela. Infelizmente fez isto, por mais de um ano, e no fim o mestre disse
que aquele jovem freqentava com tanto proveito as suas sesses que em breve estaria
em condies de instruir os nefitos. Nessa altura, Everardo compreendeu o abismo em
que tinha cado e conseguiu fugir  sua seduo, dizendo que tinha freqentado aquela
casa no porque fosse atrado pela heresia mas porque era atrado pelas raparigas.
Aqueles expulsaram-no. Mas esta, bem vedes,  a lei e a vida dos hereges, patarinos,
ctaros, joaquimitas, espirituais de qualquer seita. Nem h de que se admirar: no
crem na ressurreio da carne, nem no inferno como castigo dos malvados, e
consideram que podem fazer impunemente seja o que for. Eles, de fato, dizem-se
catharoi, isto , puros.
   - Abbone - disse Guilherme -, vs viveis isolado nesta esplndida e santa abadia, longe
das malcias do mundo. A vida nas cidades  muito mais complexa do que julgais, e
existem gradaes, bem sabeis, tambm no erro e no mal. Lot foi muito menos pecador
que os seus concidados, que conceberam pensamentos imundos at sobre os anjos
enviados por Deus, e a traio de Pedro no foi nada comparada com a traio de Judas;
de fato, um foi perdoado e o outro no. No podeis considerar patarinos e ctaros a
mesma coisa. Os patarinos so um movimento de reforma dos costumes no interior das
leis de Santa Madre Igreja. Eles sempre quiseram melhorar o modo de vida dos
eclesisticos.
  - Defendendo que no se deviam receber os sacramentos dos sacerdotes impuros...
  - E erraram, mas foi o seu nico erro de doutrina. Nunca se propuseram alterar a lei
de Deus...
  - Mas a pregao patarina de Arnaldo de Brescia, em Roma, h mais de duzentos anos,
impeliu a turba dos rsticos a incendiar as casas dos nobres e dos cardeais.
   - Arnaldo procurou arrastar para o seu movimento de reforma os magistrados da
cidade. Aqueles no o seguiram, mas encontrou consenso entre as turbas dos pobres e
dos deserdados. No foi responsvel pela energia e pela raiva com que aqueles
responderam aos seus apelos por uma cidade menos corrupta.
  - A cidade  sempre corrupta.
   - A cidade  o lugar onde hoje vive o povo de Deus, de que vs, de que ns somos os
pastores.  o lugar do escndalo, onde o prelado rico prega a virtude ao povo pobre e
esfomeado. As desordens dos patarinos nascem desta situao. So tristes, no so
incompreensveis. Os ctaros so outra coisa.  uma heresia oriental, fora da doutrina da
Igreja. Eu no sei se verdadeiramente cometem ou cometeram os delitos que lhes so
imputados. Sei que recusam o matrimnio, que negam o inferno. Pergunto-me se muitos
dos atos que no cometeram no lhes foram atribudos apenas em virtude das idias
(decerto nefandas) que defenderam.
  - E vs dizeis-me que os ctaros no se misturaram aos patarinos, e que ambos no so
mais que duas das faces, inumerveis, da mesma manifestao demonaca?
   - Digo que muitas destas heresias, independentemente das doutrinas que defendem,
obtm sucesso entre os simples, porque lhes sugerem a possibilidade de uma vida
diversa. Digo que, freqentemente, os simples no sabem muito de doutrina. Digo que
aconteceu muitas vezes que turbas de simples confundiram a pregao ctara com a dos
patarinos, e esta em geral com a dos espirituais. A vida dos simples, Abbone, no 
iluminada pela sapincia e pelo sentido vigilante das distines que nos faz sbios. 
obcecada pela doena, pela pobreza, feita balbuciante pela ignorncia.
Freqentemente, para muitos deles, a adeso a um grupo hertico  apenas um modo
como qualquer outro de gritar o seu desespero. Pode-se queimar a casa de um cardeal
seja porque se quer aperfeioar a vida do clero seja porque se considera que o inferno,
que ele prega, no existe. Isso faz-se sempre porque existe o inferno terreno, em que
vive o rebanho de que ns somos pastores. Mas vs sabeis muito bem que, como eles no
distinguem entre igreja blgara e sequazes do padre Liprando, freqentemente cambem
as autoridades imperiais e os seus defensores no distinguiram entre espirituais e
hereges. No raro, grupos gibelinos, para baterem o seu adversrio, defenderam entre o
povo tendncias ctaras. Na minha opinio fizeram mal. Mas aquilo que agora sei  que
os mesmos grupos, muitas vezes, para se desembaraarem destes inquietos e perigosos
adversrios demasiado simples, atriburam a uns as heresias dos outros e empurraram-
nos todos para a fogueira. Eu vi juro-vos Abbone, vi com os meus olhos, homens de vida
virtuosa, sinceramente partidrios da pobreza e da castidade, mas inimigos dos bispos,
que os bispos entregaram ao brao secular, quer ele estivesse ao servio do imprio ou
das cidades livres, acusando-os de promiscuidade sexual, sodomia, prticas nefandas...
de que talvez outros, mas no eles, se tinham tornado culpados. Os simples so carne
para o talho, para usar quando servem para pr em crise o poder adverso e para
sacrificar quando j no servem.
   - Ento - disse o Abade com evidente malcia -, frei Dolcino e os seus desatinados, e
Gerardo Segalelli e aqueles torpes assassinos foram ctaros malvados ou fraticelli
virtuosos, bogomilos sodomitas ou patarinos reformadores? Quereis dizer-me ento,
Guilherme, vs que sabeis tudo dos hereges, a ponto de parecerdes um deles onde est a
verdade?
  - Em parte nenhuma, por vezes - disse com tristeza Guilherme.
   - Vedes que at vs j no sabeis distinguir entre herege e herege? Eu tenho pelo
menos uma regra. Sei que hereges so aqueles que pem em risco a ordem com que se
rege o povo de Deus. E defendo o imprio porque ele me garante esta ordem. Combato o
papa porque est entregando o poder espiritual aos bispos das cidades, que se aliam aos
mercadores e s corporaes e no sabero manter esta ordem. Ns mantivemo-la
durante sculos. E, quanto aos hereges, tambm tenho uma regra, e ela resume-se na
resposta que deu Arnaldo Amalrico, abade de Citeaux, a quem lhe perguntava que fazer
dos citadinos de Bziers, cidade suspeita de heresia: Matai-os todos, Deus reconhecer
os seus.
  Guilherme baixou os olhos e ficou um certo tempo em silncio. Depois disse:
  - A cidade de Bziers foi tomada, e os nossos no olharam nem  dignidade nem ao
sexo nem  idade, e quase vinte mil homens morreram ao fio da espada. Feito assim o
massacre, a cidade foi saqueada e queimada.
  - Mesmo uma guerra santa  uma guerra.
   - Mesmo uma guerra santa  uma guerra. Por isso talvez no devesse haver guerras
santas. Mas que digo, estou aqui a defender os direitos de Lus, que no entanto est
pondo a ferro e fogo a Itlia. Tambm eu me encontro preso num jogo de estranhas
alianas. Estranha a aliana dos espirituais com o imprio; estranha a do imprio com
Marslio, que pede a soberania para o povo; e estranha a de ns os dois, to diversos por
propsitos e tradio. Mas temos duas tarefas em comum. O xito do encontro e a
descoberta de um assassino. Esforcemo-nos por proceder em paz.
  O Abade abriu os braos.
   - Dai-me o beijo da paz, frade Guilherme. Com um homem do vosso saber podemos
discutir longamente sobre sutis questes de teologia e de moral. Mas no devemos ceder
ao gosto da disputa como fazem os mestres de Paris. E verdade, temos uma tarefa
importante que nos espera, e devemos proceder de comum acordo. Mas falei destas
coisas porque creio que h uma relao, compreendeis?, uma relao possvel, ou seja,
que outros podem encontrar uma ligao entre os delitos que aqui aconteceram e as
teses dos vossos irmos. Por isso vos avisei, por isso devemos prevenir qualquer suspeita
ou insinuao por parte dos avinhonenses.
  - No deverei supor que a vossa Sublimidade me sugeriu tambm uma pista para a
minha investigao? Considerais que na origem dos eventos recentes possa existir alguma
obscura histria que remonta ao passado hertico de algum monge?
  O Abade calou-se por alguns instantes, olhando para Guilherme sem que nenhuma
expresso transparecesse do seu rosto. Depois disse:
   - Neste triste caso, o inquisidor sois vs. A vs compete ser suspeitoso e at arriscar
uma suspeita injusta. Eu sou aqui apenas o pai comum. E, acrescento, se soubesse que o
passado de um dos meus monges se presta a suspeitas verdicas, procederia eu j para
arrancar a planta m. Aquilo que sei, sabei-lo. Aquilo que no sei,  justo que venha 
luz graas  vossa sagacidade. Mas, em todo o caso, informai-vos sempre, e em primeiro
lugar a mim.
  Saudou e saiu da igreja.
   - A histria torna-se mais complicada, caro Adso  disse Guilherme de rosto sombrio. -
Ns corremos atrs de um manuscrito, interessamo-nos pelas diatribes de alguns monges
demasiado curiosos e pelo caso de outros monges demasiado luxuriosos, e eis que se
perfila cada vez com mais insistncia tambm uma outra pista, totalmente diversa. O
despenseiro, portanto... E com o despenseiro veio para aqui aquele estranho animal do
Salvador... Mas agora temos de ir repousar, porque projetamos ficar acordados durante a
noite.
   - Mas ento projetais ainda penetrar na biblioteca esta noite? No abandonais essa
primeira pista?
   - De modo nenhum. E, depois, quem disse que se trata de duas pistas diversas? Enfim,
esta histria do despenseiro poderia ser apenas uma suspeita do Abade.
  Dirigiu-se para o albergue dos peregrinos, chegando  soleira parou e falou como se
continuasse o discurso anterior.
  - No fundo, o Abade pediu-me que indagasse sobre a morte de Adelmo quando pensava
que acontecia algo de suspeito entre os seus jovens monges. Mas agora a morte de
Venancio faz nascer outras suspeitas, talvez o Abade tenha intudo que a chave do
mistrio est na biblioteca, e sobre isso no quer que eu indague. E eis que agora me
oferece a pista do despenseiro para desviar a minha ateno do Edifcio...
  - Mas porque  que no havia de querer que...
  - No faas demasiadas perguntas. O Abade disse-me desde o incio que na biblioteca
no se toca. L ter as suas razes. Pode ser que tambm ele esteja envolvido nalgum
caso que ele no pensava que pudesse ter relao com a morte de Adelmo, e agora d-se
conta que o escndalo se alarga e pode envolv-lo tambm a ele. E no quer que se
descubra a verdade, ou pelo menos no quer que a descubra eu...
  - Mas ento vivemos num lugar abandonado por Deus - disse desconsolado.
  - Encontraste-os, esses lugares onde Deus se sentiria  vontade? - perguntou-me
Guilherme, olhando-me do alto da sua estatura.
   Depois mandou-me repousar. Enquanto me deitava conclu que meu pai no deveria
ter-me mandado pelo mundo, que era mais complicado do que eu pensava. Estava a
aprender coisas de mais.
  - Salva me ab ore leonis - rezei, adormecendo.
  SEGUNDO DIA
  DEPOIS DE VSPERAS
  Onde, apesar do captulo ser breve, o velho Alinardo diz coisas bastante interessantes
sobre o labirinto e sobre o modo de l entrar.
   Acordei pouco antes de soar a hora da refeio da noite. Sentia-me entorpecido pelo
sono, porque o sono diurno  como o pecado da carne: quanto mais se teve mais se
queria ter, e no entanto sentimo-nos infelizes, saciados e insaciados ao mesmo tempo.
Guilherme no estava na sua cela, evidentemente tinha-se levantado muito antes.
Encontrei-o, depois de uma breve deambulao, quando saa do Edifcio. Disse-me que
tinha estado no scriptorium, folheando o catlogo e observando o trabalho dos monges,
na tentativa de se aproximar da mesa de Venancio para retomar a inspeo. Mas que,
por um motivo ou por outro, todos pareciam apostados em no o deixar remexer
naqueles papis. Primeiro aproximara-se dele Malaquias, para lhe mostrar algumas
miniaturas de valor. Depois Bncio tinha-o mantido ocupado com pretextos de nenhum
valor. Depois ainda, quando se tinha inclinado para retomar a sua inspeo, Berengrio
tinha-se posto a andar  sua volta, oferecendo a sua colaborao.
   Enfim Malaquias, vendo que o meu mestre parecia seriamente apostado em ocupar-se
das coisas de Venancio, tinha-lhe dito clara e nitidamente que talvez, antes de rebuscar
entre os papis do morto, fosse melhor obter a autorizao do Abade; que ele prprio,
apesar de ser o bibliotecrio, se tinha abstido disso, por respeito e disciplina; e que, em
todo o caso, ningum se tinha aproximado daquela mesa, como Guilherme lhe tinha
pedido, e que ningum se aproximaria dela enquanto o Abade no interviesse. Guilherme
tinha-lhe feito notar que o Abade lhe tinha dado licena para indagar por toda a abadia;
Malaquias tinha perguntado, no sem malcia, se o Abade tambm lhe tinha dado licena
para se mover livremente pelo scriptorium ou, no o quisesse Deus, pela biblioteca.
Guilherme tinha compreendido que no era o caso de se empenhar numa prova de fora
com Malaquias, embora todos aqueles movimentos e aqueles temores em torno dos
papis de Venancio lhe tivessem naturalmente fortificado o desejo de tomar
conhecimento deles. Mas a sua determinao de voltar l de noite, ainda no sabia
como, era tal que tinha decidido no criar incidentes. Alimentava, porm, evidentes
pensamentos de desforra que, se no fossem inspirados, como eram, pela sede de
verdade, teriam parecido muito obstinados e talvez reprovveis.
   Antes de entrar no refeitrio, demos ainda um pequeno passeio no claustro, para
dissipar os fumos do sono ao ar frio da noite. Por ali giravam ainda alguns monges em
meditao. No jardim que dava para o claustro distinguimos o velhssimo Alinardo de
Grottaferrata, que agora, imbecil de corpo, passava grande parte do seu dia entre as
plantas, quando no estava a rezar na igreja. Parecia no sentir frio e estava sentado ao
longo da parte externa das arcadas.
   Guilherme dirigiu-lhe algumas palavras de saudao, e o velho pareceu alegre por
algum conversar com ele.
  - Dia sereno - disse Guilherme.
  - Pela graa de Deus - respondeu o velho.
  - Sereno no cu, mas escuro na terra. Conheceis bem Venancio?
  - Que Venancio? - disse o velho. Depois uma luz se acendeu nos seus olhos. - Ah, o
rapaz morto. A besta gira pela abadia...
  - Qual besta?
  - A grande besta que vem do mar... Sete cabeas e dez cornos, e nos cornos dez
diademas, e nas cabeas trs nomes de blasfmia. A besta que parece um leopardo, com
ps como os do urso e a boca como a do leo... Eu vi-a.
  - Onde a vistes? Na biblioteca?
  - Biblioteca? Porqu? H anos que j no vou ao scriptorium e nunca vi a biblioteca.
Ningum vai  biblioteca. Eu conheci aqueles que subiam  biblioteca...
  - Quem, Malaquias, Berengrio?
  - Oh, no... - O velho riu com voz rouca. - Antes. O bibliotecrio que veio antes de
Malaquias, h muitos anos...
  - Quem era?
  - No me recordo, morreu quando Malaquias era ainda jovem. E aquele que veio antes
do mestre de Malaquias e era ajudante-bibliotecrio jovem quando eu era jovem... Mas
na biblioteca eu nunca pus os ps. Labirinto...
  - A biblioteca  um labirinto?
   - Hunc mundum tipice laberinthus denotat Ule - recitou absorto o velho. - Intranti
largus, redeunti sed nimis artus. A biblioteca  um grande labirinto, sinal do labirinto do
mundo. Entras e no sabes se sairs. No se devem violar as colunas de Hrcules...
   - Ento no sabeis como se entra na biblioteca quando as portas do Edifcio esto
fechadas?
   - Oh, sim - riu o velho -, muitos o sabem. Passas pelo ossrio. Podes passar pelo
ossrio, mas no queres passar pelo ossrio. Os monges mortos velam.
  - So esses, os monges mortos, que velam, no aqueles que giram de noite com uma
candeia pela biblioteca?
   - Com uma candeia? - O velho pareceu espantado. - Nunca ouvi essa histria. Os
monges mortos esto no ossrio, os ossos descem pouco a pouco do cemitrio e juntam-
se ali a guardar a passagem. Nunca viste o altar da capela que leva ao ossrio?
  - E a terceira  esquerda depois do transepto, no ?
   - A terceira? Talvez.  a da pedra do altar esculpida com mil esqueletos. O quarto
crnio  direita, carregas nos olhos... e ests no ossrio . Mas no vais l, eu nunca l
fui. O Abade no quer.
  - E a besta, onde a viste a besta?
  - A besta? Ah, o Anticristo... Ele est para vir, o milnio foi cumprido, esperamo-lo...
  - Mas o milnio foi cumprido h trezentos anos, e ento no veio...
  - O Anticristo no vem depois de se terem cumprido os mil anos. Cumpridos os mil
anos, inicia-se o reino dos justos, depois vem o Anticristo para confundir os justos, e
depois ser a batalha final...
   - Mas os justos reinaro por mil anos - disse Guilherme  Ou reinaram desde a morte de
Cristo at ao fim do primeiro milnio, e portanto  ento que devia vir o Anticristo, ou
ainda no reinaram, e o Anticristo est longe.
  - O milnio no se calcula a partir da morte de Cristo mas a partir da doao de
Constantino. Cumprem-se agora os mil anos...
  - E ento acaba o reino dos justos?
  - No sei, j no sei... Estou cansado. O clculo  difcil. Beato de Libana f-lo,
pergunta a Jorge, ele  jovem, recorda-se bem... Mas os tempos esto maduros. No
ouviste as sete trombetas?
  - Porqu as sete trombetas?
   - No ouviste como morreu o outro rapaz, o miniaturista? O primeiro anjo soprou a
primeira trombeta e dela veio granizo e fogo misturado com sangue. E o segundo anjo
soprou a segunda trombeta e a tera parte do mar tornou-se sangue... No morreu no
mar de sangue o segundo rapaz? Ateno  terceira trombeta! Morrer a tera parte das
criaturas vivendo no mar. Deus castiga-nos. O mundo todo em torno da abadia est
infestado pela heresia, disseram-me que est no trono de Roma um papa perverso que
usa hstias para prticas de necromancia e com elas nutre as suas morias... E entre ns
algum violou o interdito, quebrou os selos do labirinto...
  - Quem vo-lo disse?
  - Ouvi-o, todos murmuram que o pecado entrou na abadia. Tens gros-de-bico?
  A pergunta, dirigida a mim, surpreendeu-me.
  - No, no tenho gros-de-bico - disse confuso.
   - Para a prxima traz-me gros-de-bico. Mantenho-os na boca, vs a minha pobre boca
sem dentes, at que amoleam todos. Estimulam a saliva, aqua fons vitae. Amanh
trazes-me gros-de-bico?
  - Amanh trago-vos gros-de-bico - disse-lhe.
  Mas ele tinha adormecido. Deixamo-lo para ir para o refeitrio.
  - Que pensais do que disse? - perguntei ao meu mestre.
  - Ele goza da divina loucura dos centenrios. Difcil distinguir o verdadeiro do falso nas
suas palavras. Mas creio que nos disse alguma coisa sobre o modo de penetrar no
Edifcio. Vi a capela de onde saiu Malaquias a noite passada. Ali h na verdade um altar
de pedra, e na base esto esculpidos crnios, esta noite tentaremos.
  SEGUNDO DIA
  COMPLETAS
   Onde se entra no Edifcio, se descobre um visitante misterioso, se encontra uma
mensagem secreta com sinais de necromante, e desaparece, mal  encontrado, um livro
que depois ser procurado por muitos outros captulos sem olvidar o furto das preciosas
lentes de Guilherme.
   A ceia foi triste e silenciosa. Tinham passado pouco mais de doze horas desde que se
tinha descoberto o cadver de Venancio. Todos olhavam de soslaio para o seu lugar vazio
 mesa. Quando foi a hora de completas, o cortejo que se dirigiu ao coro parecia um
desfile fnebre. Participamos no ofcio ficando na nave e no perdendo de vista a
terceira capela. A luz era pouca, e quando vimos Malaquias emergir do escuro para
atingir a sua estala no pudemos compreender de onde saia exatamente. Pelo sim pelo
no deslizamos para a sombra, escondendo-nos na nave lateral, para que ningum visse
que ficvamos ali, terminado o ofcio. Eu tinha no meu escapulrio a candeia que tinha
subtrado na cozinha durante a ceia. Acend-la-iamos depois na grande trpode de
bronze que ficava acesa toda a noite. Tinha um pavio novo, e muito azeite. Teramos luz
para muito tempo.
   Estava demasiado excitado pelo que nos aprestamos a fazer para prestar ateno ao
rito, que acabou sem que quase me apercebesse. Os monges baixaram os capuchos sobre
o rosto e saram em lenta fila para se dirigirem s suas celas. A igreja ficou deserta,
iluminada pelo claro da trpode.
  - Vamos - disse Guilherme. - Ao trabalho.
  Aproximamo-nos da terceira capela. A base do altar era verdadeiramente semelhante
a um ossrio ; uma srie de crnios de rbitas vazias e profundas incutiam temor aos que
olhavam para eles, pousados como apareciam no admirvel relevo sobre um amontoado
de tbias. Guilherme repetiu em voz baixa as palavras que ouvira a Alinardo (o quarto
crnio  direita, carregas nos olhos). Introduziu os dedos nas rbitas daquele rosto
descarnado, e de sbito ouvimos como um rangido rouco. O altar moveu-se, girando
sobre um eixo oculto, deixando entrever uma abertura escura. Iluminando-a com a
minha candeia levantada, distinguimos uns degraus midos. Decidimos desc-los, depois
de termos discutido se devamos voltar a fechar a passagem atrs de ns. Era melhor
no, disse Guilherme, no sabamos se depois poderamos reabri-la. E, quanto ao risco de
sermos descobertos, se algum chegasse quela hora a manobrar o mesmo mecanismo
era porque sabia como entrar e no ficaria preso por uma passagem fechada.
   Descemos mais de uma dezena de degraus e penetramos num corredor em cujos lados
se abriam nichos horizontais, como mais tarde me aconteceu ver em muitas catacumbas.
Mas era a primeira vez que penetrava num ossrio , e tive muito medo. Os ossos dos
monges tinham sido recolhidos ali no curso dos sculos, exumados da terra e amontoados
nos nichos sem tentarem recompor a figura dos seus corpos. Porm, alguns nichos tinham
apenas ossos midos outros apenas crnios, bem dispostos quase em pirmide, de modo a
no se precipitarem uns sobre os outros, e era espetculo deveras aterrorizador,
especialmente com o jogo de sombras e de luzes que a candeia criava ao longo do nosso
caminho. Num nicho vi apenas mos, muitas mos, agora irremediavelmente
entrelaadas umas nas outras, num emaranhado de dedos mortos. Soltei um grito,
naquele lugar de mortos, sentindo por um momento a impresso que ali houvesse alguma
coisa de vivo, um chio, e um rpido movimento na sombra.
  - Ratos - tranqilizou-me Guilherme.
  - Que fazem os ratos aqui?
   - Passam, como ns, porque o ossrio conduz ao Edifcio, e portanto  cozinha. E aos
bons livros da biblioteca. E agora compreendes porque  que Malaquias tem um rosto to
austero. O seu ofcio obriga-o a passar por aqui duas vezes por dia,  noite e de manh.
Ele, sim, no tem de que se rir.
   - Mas porque  que o Evangelho nunca diz que Cristo ria? - perguntei sem uma boa
razo. -  deveras como diz Jorge?
   - Foram legies os que se perguntaram se Cristo riu. A coisa no me interessa
grandemente. Creio que nunca riu, porque, onisciente como devia ser o filho de Deus,
sabia que coisa faramos ns, os cristos. Mas eis que chegamos.
  E de fato, graas a Deus, o corredor tinha acabado; comeava uma nova srie de
degraus e, depois de percorridos estes, no tivemos seno que empurrar uma porta de
madeira rija reforada de ferro e encontramo-nos por trs da chamin da cozinha,
precisamente debaixo da escada de caracol que levava ao scriptorium.
  Enquanto subamos, pareceu-nos ouvir um rudo que vinha de cima.
  Ficamos um instante em silncio, depois disse.
  - E impossvel. No entrou ningum antes de ns...
  - Admitindo que esta fosse a nica via de acesso ao Edifcio. Nos sculos passados, isto
era uma fortaleza, e deve ter mais acessos secretos do que ns imaginamos. Vamos subir
devagar. Mas temos pouco por onde escolher. Se apagamos a candeia no sabemos por
onde vamos, se a mantemos acesa damos o alarme a quem se encontra em cima. A nica
esperana  que, se est l algum, tenha mais medo do que ns.
   Chegamos ao scriptorium, emergindo do torreo meridional. A mesa de Venancio
estava precisamente do lado oposto. Movendo-nos, no iluminvamos mais que algumas
braas de parede de cada vez, porque a sala era demasiado ampla. Esperamos que
ningum estivesse no ptio e visse a luz transparecer pelas janelas. A mesa parecia em
ordem, mas Guilherme inclinou-se logo a examinar as folhas da estante por baixo e teve
uma exclamao de desapontamento.
  - Falta alguma coisa? - perguntei.
   - Hoje vi aqui dois livros, e um era em grego. E  este ltimo que falta. Algum o
tirou, e a toda a pressa, porque um pergaminho caiu aqui ao cho.
  - Mas a mesa estava guardada...
  - Decerto. Talvez algum lhe tenha posto as mos s h pouco. Talvez esteja ainda
aqui. - Voltou-se para as sombras, e a sua voz ressoou entre as colunas: - Se ests aqui,
tem cuidado!
  Pareceu-me uma boa idia: como Guilherme j tinha dito,  sempre melhor que quem
nos incute medo tenha mais medo que ns.
   Guilherme pousou a folha que tinha encontrado aos ps da mesa e aproximou o rosto.
Pediu-me que lhe desse luz. Aproximei a candeia e distingui uma pgina em branco na
primeira metade, e na segunda coberta de caracteres pequenssimos cuja origem a custo
reconheci.
  -  grego? - perguntei.
  - Sim, mas no percebo bem. - Tirou do saio as suas lentes e p-las solidamente em
cima do nariz, depois aproximou ainda mais o rosto. -  grego, escrito muito pequeno, e
todavia desordenadamente. Mesmo com as lentes me custa a ler, seria precisa mais luz.
Aproxima-te...
   Tinha pegado na folha segurando-a diante do rosto, e eu, estupidamente, em vez de
lhe passar por trs, mantendo a candeia alta sobre a sua cabea, pus-me precisamente
diante dele. Ele pediu-me para me desviar para o lado, e, ao faz-lo, rocei com a chama
o verso da folha. Guilherme afastou-me com um empurro, perguntando-me se lhe
queria queimar o manuscrito, depois soltou uma exclamao. Vi claramente que na parte
superior da pgina tinham aparecido alguns sinais imprecisos de cor amarelo-escura.
Guilherme mandou-me dar-lhe a candeia, e moveu-a por trs da folha, mantendo a
chama bastante prxima da superfcie do pergaminho, de modo a aquec-lo sem lhe
tocar. Lentamente, como se uma mo invisvel estivesse traando Mane, Tekel, Fares,
vi desenhar-se, sobre o verso branco da folha, um a um,  medida que Guilherme movia
a candeia e enquanto o fumo que provinha da ponta da chama enegrecia o resto, traos
que no se assemelhavam aos de nenhum alfabeto, a no ser ao dos necromantes.
   - Fantstico! - disse Guilherme. - Cada vez mais interessante! - Olhou em seu redor: -
Mas ser melhor no expor esta descoberta s insdias do nosso hspede misterioso, se
ainda est aqui... - Tirou as lentes e pousou-as sobre a mesa, depois enrolou com
cuidado o pergaminho e escondeu-o no saio. Ainda aturdido por aquela seqncia de
eventos pelo menos miraculosos, estava para lhe pedir outras explicaes, quando um
rudo imprevisto e seco nos distraiu. Provinha dos ps da escada oriental que levava 
biblioteca. - O nosso homem est ali, apanha-o! - gritou Guilherme, e lanamo-nos
naquela direo, ele mais rpido, eu mais lento, porque levava a candeia. Ouvi um
estrondo de pessoa que tropea e cai, acorri, encontrei Guilherme aos ps da escada
observando um pesado volume de capa reforada por brochas metlicas. No mesmo
instante, ouvimos um outro barulho da direo de onde tnhamos vindo. - Estpido que
eu sou!  gritou Guilherme. - Depressa,  mesa de Venancio!
  Compreendi: algum que estava na sombra, por trs de ns, tinha atirado o volume
para nos atrair para longe.
  Uma vez mais Guilherme foi mais rpido que eu e alcanou a mesa. Eu, ao segui-lo,
entrevi entre as colunas uma sombra que fugia, enfiando pela escada do torreo
ocidental.
   Possudo de ardor guerreiro, meti a candeia na mo de Guilherme e atirei-me s cegas
pela escada por onde tinha descido o fugitivo. Naquele momento sentia-me como um
soldado de Cristo em luta com todas as legies infernais e ardia com o desejo de pr as
mos sobre o desconhecido para o entregar ao meu mestre. Quase rolei pela escada de
caracol abaixo, tropecei nas abas do meu hbito (foi aquele o nico momento da minha
vida, juro, que lamentei ter entrado numa ordem monstica!), mas naquele mesmo
instante, e foi pensamento de um relmpago, consolei-me  idia de que tambm o meu
adversrio devia sofrer do mesmo embarao. E, alm disso, se tinha tirado o livro, devia
ter as mos ocupadas. Precipitei-me quase na cozinha por trs do forno do po e,  luz
da noite estrelada que iluminava palidamente o vasto trio, vi a sombra que perseguia e
que enfiava pela porta do refeitrio, puxando-a atrs de si. Precipitei-me para ela,
custou-me uns segundos a abri-la, entrei, olhei em redor e j no vi ningum. A porta
que dava para o exterior estava ainda trancada. Voltei-me. Sombra e silncio. Distingui
um claro que vinha da cozinha e encostei-me a uma parede. Na soleira da passagem
entre as duas salas apareceu uma figura iluminada por uma candeia. Gritei. Era
Guilherme.
  - J no est ningum, como eu previa. Aquele no saiu por uma porta. No enfiou
pela passagem do ossrio ?
  - No, saiu daqui. Mas no sei por onde!
  - Eu disse-to, h outras passagens, e  intil procur-las. Provavelmente, o nosso
homem est emergindo de novo nalgum stio longe daqui. E, com ele, as minhas lentes.
  - As vossas lentes?
  - Precisamente. O nosso amigo no pde tirar-me a folha mas, com grande presena
de esprito, ao passar pela mesa agarrou as minhas lentes.
  - E porqu?
  - Porque no  parvo. Ouviu-lhe falar destas notas, compreendeu que eram
importantes, pensou que sem as lentes no sou capaz de as decifrar e tem como certo
que no me fiarei em ningum a ningum. De fato, agora  como se as no tivesse.
  - Mas como sabia da existncia das vossas lentes?
   - Vamos!  parte o fato de ontem termos falado delas com o mestre vidreiro, esta
manh no scriptorium pousei-as para rebuscar entre os papis de Venancio. Por isso, h
muitas pessoas que poderiam saber como aqueles objetos eram preciosos. E de fato
poderia mesmo ler um manuscrito normal, mas este no  e ia desenrolando de novo o
misterioso pergaminho -, onde a parte em grego  demasiado pequena e a parte superior
demasiado incerta... - Mostrou-me os sinais misteriosos que tinham aparecido como por
encanto ao calor da chama: - Venancio queria ocultar um segredo importante e usou uma
daquelas tintas que escrevem sem deixar marcas e reaparecem com o calor. Ou ento
usou sumo de limo. Mas, como no sei que substancia ter usado e os sinais podem
voltar a desaparecer, depressa, tu que tens bons olhos, copia-os j do modo mais fiel que
puderes e talvez um pouco maiores.
   E assim fiz, sem saber que coisa copiava. Tratava-se de uma srie de quatro ou cinco
linhas deveras parecidas com bruxaria, e agora reproduzo apenas os primeiros sinais,
para dar ao leitor uma idia do enigma que tnhamos diante dos olhos:
   Quando acabei de copiar, Guilherme pegou o papel e, apesar de estar sem as lentes,
as manteve perto de seus olhos para examinar.
  - Sim, sem dvida se trata de um alfabeto secreto, que teremos que decifrar  disse. 
Os traos no so muito firmes, e  provvel que a sua cpia no os tenha melhorado,
mas  evidente que os sinos pertencem a um alfabeto zodiacal. Vs? Na primeira linha
temos...  trouxe o papel para mais perto, entrecerrou os olhos em um esforo de
concentrao e disse: - Sagitrio, Sol, Mercrio, Escorpio...
  - Que significam?
   - Se Venancio tivesse sido ingnuo, teria usado o alfabeto zodiacal mas conhecido: A
igual a Sol, B igual a Jpiter... Ento a primeira linha se leria assim... tente transcreve-
la: RAIOASVAL...  Interrompeu-se.  No. No quer dizer nada, e Venancio no era
ingnuo Se valeu de outra chave para transformar o alfabeto. Temos que descobri-la.
  - E podemos?  perguntei admirado.
   -- Sim, quando se conhece um pouco a sabedoria rabe. Os melhores tratados de
criptografia so obra de sbios infiis, e em Oxford pude me inteirar de alguns deles.
Bacon tinha razo quando dizia que a conquista do saber para pelo conhecimento das
lnguas. H sculos Abu Bakr Ahmad ben Ali ben Washiyya an-Nabati escreveu um Livro
do frentico desejo do devoto em aprender os enigmas das escrituras antigas, donde
expus muitas regras para compor e decifrar alfabetos misteriosos, teis para prticas
mgicas, mas tambm para a correspondncia entre os exrcitos ou entre um rei e seus
embaixadores. E vi outros livros rabes onde se enumera uma srie de artifcios bastante
engenhosos. Por exemplo, podes reencobrir uma letra por outra, podes escrever uma
palavra ao contrrio, podes inverte a ordem das letras, mas colocando uma sim e outra
no, e voltando a empregar logo desde o princpio, podes, como neste caso, reencobrir
as letras por signos zodiacais, mas atribuindo as letras ocultas seu valor numrico, para
depois, seguir um outro alfabeto, transformar os nmeros em outras letras...
  - E qual desses sistemas ter utilizado Venancio?
  - Teramos que provar todos estes, e tambm outros. Mas a primeira regra para
decifrar uma mensagem consiste em adivinhar o que se quer dizer.
  - Mas ento no  preciso decifr-lo! Exclamei rindo.
   - No quis dizer isso. O que se pode fazer  formular hipteses sobre quais poderiam
ser as primeiras palavras da mensagem, e depois ver se a regra que ali se infere vale
para o resto do texto. Por exemplo, Venancio anotou aqui certamente a chave para
penetrar no finis Africae. Se eu tento pensar que a mensagem fala disto, eis que sou
iluminado de repente por um ritmo... Tenta olhar para as primeiras trs palavras, no
consideres as letras, considera s o nmero dos sinais... IIIIIIII IIIII IIIIIII... Agora tenta
dividir os grupos em slabas de pelo menos dois sinais cada uma e recita em voz alta: ta-
ta-ta, ta-ta, ta-ta-ta... No te vem nada em mente?
  - A mim no.
   - E a mim sim. Secretum finis Africae... Mas, se assim fosse, a ltima palavra devia ter
a primeira e a sexta letras iguais, e fato assim , eis duas vezes o smbolo da Terra. E a
primeira letra da primeira palavra, o S devia ser igual  ltima da segunda, e de fato eis
repetido o signo da Virgem. Talvez seja o bom caminho. Porm, poderia tratar-se apenas
de uma srie de coincidncias.  preciso encontrar uma regra de correspondncia...
  - Encontr-la onde?
   - Na cabea. Invent-la. E depois ver se  a verdadeira. Mas entre uma prova e outra o
jogo poderia levar-me um dia inteiro. No mais, porque (recorda-te) no h escritura
secreta que no possa ser decifrada com um pouco de pacincia. Mas agora arriscamo-
nos a atrasar-nos e queremos visitar a biblioteca. Tanto mais que sem as lentes nunca
conseguirei ler a segunda parte da mensagem, e tu no me podes ajudar, porque estes
sinais para os teus olhos...
  - Graecum est, non legitur - completei humilhado.
   - Exatamente, e vs que Bacon tinha razo. Estuda! Mas no desanimemos. Deixemos o
pergaminho e as tuas notas e subamos  biblioteca. Porque esta noite nem dez legies
internais conseguiro deter-nos.
  Persignei-me.
  - Mas quem pode ter-nos precedido aqui? Bncio?
  - Bncio ardia com desejo de saber que coisa havia entre os papis de Venancio, mas
no me parecia na disposio de nos pregar partidas to maliciosas. No fundo, tinha-nos
proposto uma aliana, e depois tinha ar de quem no tem coragem de entrar de noite no
Edifcio.
  - Ento, Berengrio? Ou Malaquias?
   - Berengrio parece-me que tem animo para lazer coisas deste gnero. No fundo, e co-
responsvel pela biblioteca,  rodo pelo remorso de ter trado algum dos seus segredos,
julgava que Venancio tinha tirado aquele livro e queria talvez rep-lo no lugar de onde
veio. No conseguiu subir, agora est escondendo o volume em qualquer parte, e
poderemos apanh-lo em flagrante, se Deus nos assistir, quando tentar rep-lo no seu
lugar.
  - Mas tambm poderia ser Malaquias, movido pelas mesmas intenes.
   - Diria que no. Malaquias tinha tido todo o tempo que queria para rebuscar na mesa
de Venancio quando ficou sozinho para fechar o Edifcio. Eu sabia-o muito bem e no
tinha meios de o evitar. Agora sabemos que no o fez. E, se refletires bem, no temos
motivo para suspeitar que Malaquias soubesse que Venancio tinha entrado na biblioteca
tirando de l alguma coisa. Isto, sabem-no Berengrio e Bncio e sabemo-lo tu e eu. A
seguir  confisso de Adelmo poderia sab-lo Jorge, mas no era ele decerto o homem
que se precipitava com tanto mpeto pela escada de caracol...
  - Ento, ou Berengrio ou Bncio...
   - E porque no Pacfico de Tivoli ou outro dos monges que aqui vimos hoje? Ou
Nicolau, o vidreiro, que sabe dos meus culos? Ou aquela bizarra personagem que 
Salvador, que nos disseram que anda de noite sabe-se l por que afazeres? Devemos
prestar ateno em no restringir o campo dos suspeitos simplesmente porque as
revelaes de Bncio nos orientaram numa nica direo. Bncio talvez quisesse
contundir-nos.
  - Mas pareceu-vos sincero.
  - Decerto. Mas recorda-te que o primeiro dever de um bom inquisidor  o de suspeitar
em primeiro lugar daqueles que te parecem sinceros.
  - Pssimo trabalho o do inquisidor - disse eu.
  - Por isso o abandonei. E, como vs, cabe-me retom-lo. Mas vamos  biblioteca.
  SEGUNDO DIA
  NOITE
  Onde se penetra finalmente no labirinto, se tem estranhas vises e, como acontece
nos labirinto, a a gente se perde.
   Voltamos ao scriptorium, desta vez pela escada oriental, que tambm subia ao andar
proibido, com a candeia ao alto diante de ns. Eu pensava nas palavras de Alinardo sobre
o labirinto e esperava coisas pavorosas.
   Fiquei surpreendido, quando emergimos no lugar onde no deveramos ter entrado, ao
encontrar-me numa sala de sete lados, no muito ampla, privada de janelas, em que
reinava, como de resto em todo o andar, um forte odor a fechado ou a mofo. Nada de
terrificante.
   A sala, como disse, tinha sete paredes, mas s em quatro delas se abria entre duas
colunazinhas encaixadas na parede, uma abertura, uma passagem bastante ampla
encimada por um arco de volta inteira. Ao longo das paredes fechadas encostavam-se
enormes armrios, carregados de livros dispostos com regularidade. Os armrios tinham
uma etiqueta numerada, assim como cada uma das prateleiras: claramente, os mesmos
nmeros que tnhamos visto no catlogo. No meio da sala uma mesa, tambm ela repleta
de livros. Sobre todos os volumes um vu bastante fino de poeira sinal de que os livros
eram limpos com uma certa freqncia. Pelo cho tambm havia qualquer sujidade. Por
cima do arco de uma das portas, uma grande inscrio, pintada na parede, apresentava
as palavras: Apocalypsis lesu Christi. No parecia esbatida, embora os caracteres fossem
antigos. Apercebemo-nos depois que, tambm nas outras salas, estas inscries eram na
verdade gravadas na pedra, e bastante profundamente e depois as cavidades tinham sido
preenchidas com tinta, como se usa para pintar a fresco as igrejas.
   Passamos por uma das aberturas. Encontramo-nos numa outra sala onde se abria uma
janela, que no lugar dos vidros apresentava placas de alabastro, com duas paredes
plenas e uma abertura, do mesmo tipo daquela por onde tnhamos acabado de passar,
que dava para outra sala, a qual tinha, tambm ela, duas paredes plenas com uma
janela, e uma outra porta que se abria diante de ns. Nas suas salas duas inscries
semelhantes na forma  primeira que tnhamos visto, mas com outras palavras. A
inscrio da primeira dizia: Super thronos viginti quatuor, e a da segunda: Nomen illi
mors. Quanto ao resto, embora as suas salas fossem mais pequenas do que aquela por
onde tnhamos entrado na biblioteca (de fato, aquela era heptagonal e estas duas
retangulares), o mobilirio era o mesmo: armrios com livros e mesa central.
   Acedemos  terceira sala. Esta no tinha livros nem inscrio. Sob a janela, um altar
de pedra. Havia trs portas, uma por onde tnhamos entrado, outra que dava para a sala
heptagonal j visitada, uma terceira que nos introduziu numa nova sala, no diferente
das outras, salvo pela inscrio, que dizia: Obscuratus est sol et aer. Daqui passava-se a
uma nova sala, cuja inscrio dizia: Faca est grando et ignis: era privada de outras
portas, ou melhor, chegados quela sala no se podia avanar e era preciso voltar para
trs.
   - Raciocinemos - disse Guilherme. - Cinco salas quadrangulares ou vagamente
trapezoidais, com uma janela cada uma, que giram em torno de uma sala heptagonal
sem janelas, a que  servida pela
   escada. Parece-me elementar. Estamos no torreo oriental: cada torreo do exterior
apresenta cinco janelas e cinco lados. A conta est certa. A sala vazia  precisamente a
que est voltada a oriente, na mesma direo do coro da igreja; a luz do Sol ao
amanhecer ilumina o altar, o que me parece justo e piedoso. A nica idia astuta
parece-me a das placas de alabastro. De dia filtram uma bela luz, de noite no deixam
transparecer sequer os raios lunares. No  pois um grande labirinto. Agora vejamos
onde levam as outras duas portas da sala heptagonal. Creio que nos orientaremos
facilmente.
   O meu mestre enganava-se, e os construtores da biblioteca tinham sido mais hbeis do
que julgvamos. No sei bem explicar o que aconteceu, mas ao abandonarmos o torreo
a ordem das salas tornou-se mais confusa. Umas tinham duas portas, outras trs. Todas
tinham uma janela, mesmo aquelas por onde entrvamos partindo de uma sala com
janela e pensando que amos para o interior do Edifcio. Cada uma delas tinha sempre o
mesmo tipo de armrios e de mesas, os volumes empilhados em boa ordem pareciam
todos iguais e no nos ajudavam decerto a reconhecer o lugar num golpe de vista.
Tentamos orientar-nos com as inscries. Uma vez tnhamos atravessado uma sala em
que estava escrito In diebus illis e depois de algumas voltas pareceu-nos que tnhamos ali
voltado. Mas recordvamos que a porta em frente  janela introduzia uma sala em que
estava escrito Primogeni-tus mortuorum, enquanto encontrvamos agora uma outra que
dizia de novo Apocalypsis lesu Christi, e no era a sala heptagonal de onde tnhamos
partido. Este fato convenceu-nos que, por vezes, as inscries se repetiam, eram iguais
em salas diferentes. Encontramos duas salas com inscrio Apocalypsis uma a seguir 
outra, e logo depois uma com Cecidit de coelo stella magna.
  De onde provinham as frases das inscries era evidente, tratava-se de versculos do
Apocalipse de Joo, mas no era nada claro nem por que razo estavam pintadas nas
paredes nem qual a lgica por que estavam dispostas. Para aumentar a nossa confuso,
reparamos que algumas inscries, no muitas, eram de cor vermelha em vez de negra.
   A certa altura encontramo-nos de novo na sala heptagonal do ponto de partida (aquela
era reconhecvel, porque a se abria a entrada da escada) e recomeamos a mover-nos
para a nossa direita, procurando seguir em frente de sala em sala. Passamos por trs
salas e depois achamo-nos diante de uma parede fechada. A nica passagem introduzia
numa nica sala que s tinha uma outra porta, pela qual samos, percorrendo mais
quatro salas, e achamo-nos de novo diante de uma parede. Voltamos  sala precedente
que tinha duas sadas, metemos por aquela que ainda no tnhamos tentado, passamos a
uma nova sala e encontramo-nos na sala heptagonal do ponto de partida.
  - Como se chamava a ltima sala onde voltamos para trs? - perguntou Guilherme.
  Fiz um esforo de memria:
  - Equus albus.
  - Bem,  preciso encontr-la de novo.
   E foi fcil. Dali, se no se queria andar para trs, no havia seno que passar  sala
dita Gratia vobis et pax, e dali,  direita, pareceu-nos encontrar uma nova passagem que
no nos fizesse voltar para trs. Com efeito, encontramos outra vez In diebus illis y
Primogenitus mortuorum (porm no eram as mesmas salas de pouco antes?), mas
finalmente chegamos a uma sala que nos parecia que ainda no tnhamos visitado: Tenia
pars terrae combusta est. Mas, naquele momento, j no sabamos onde estvamos em
relao ao torreo oriental.
   Estendendo a candeia para a frente, aventurei-me at s salas seguintes, um gigante
de propores ameaadoras, de corpo ondulado e flutuante como o de um fantasma,
veio ao meu encontro.
  - Um diabo! - gritei, e pouco faltou para me cair a candeia enquanto me voltava de
repente e me refugiava nos braos de Guilherme.
  Este tirou-me a candeia das mos e, afastando-me, avanou com uma deciso que me
pareceu sublime. Tambm ele viu qualquer coisa, porque recuou bruscamente. Depois
avanou de novo e levantou a candeia. Desatou a rir.
  - Verdadeiramente engenhoso. Um espelho!
  - Um espelho?
  - Sim, meu valente guerreiro. Lanaste-te com tanta coragem sobre um inimigo
verdadeiro, a pouco no scriptorium, e agora assustas-te diante da tua imagem. Um
espelho que te devolve a tua imagem aumentada e deformada.
  Tomou-me pela mo e conduziu-me diante da parede fronteira  entrada da sala.
Numa placa de vidro ondulada, agora que a candeia a iluminava mais de perto, vi as
nossas duas imagens, grotescamente deformadas, que mudava nossa forma e altura
conforme nos aproximvamos ou nos afastvamos dele.
   - Deves ler algum tratado de ptica - disse Guilherme divertido -, como decerto leram
os fundadores da biblioteca. Os melhores so os dos rabes. Alhazen comps um tratado
De aspectibus que com demonstraes geomtricas precisas, falou da fora dos espelhos.
Alguns deles, segundo o modo como  modulada a sua superfcie, podemos aumentar as
coisas mais minsculas (e que outra coisa faz as minhas lentes?), outros fazem aparecer
as imagens invertidas ou obliquas. Ou mostram dois objetos em vez de um, e quatro em
vez de dois. Outros ainda, como este, fazem de um ano um gigante ou de um gigante
num ano.
   - Jesus Senhor! - disse. - Ento so estas as vises que algum diz ter tido na
biblioteca?
   - Talvez. Uma idia deveras engenhosa. - Leu as inscries na parede, por cima do
espelho: Super thronos viginti quator.  ali a encontramos, mas era uma sala sem
espelho. E esta alm do mais, no tem janelas nem  heptagonal. Onde estamos? - Olhou
em seu redor e aproximou-se de um armrio: - Adso, sem aqueles benditos oculi ad
legendum no consigo compreender o que est escrito nestes livros. L-me alguns
ttulos.
  Peguei num livro ao acaso:
  - Mestre, no est escrito!
  - Como? Veja o que est escrito, que ls?
  - No leio. No so letras do alfabeto e no  grego, reconhec-lo-ia. Parecem
vermes, serpentezinhas, caganitas de moscas...
  - Ah,  rabe. H mais desses?
  - Sim, alguns. Mas c est um em latim, se Deus quiser. Al... Al Kuwarizmi, Tablete.
   - As tbuas astronmicas de Al Kuwarizmi, traduzidas por Abelardo de Bath! Obra
rarssima! Continua.
  - Isa ibn Ali, De oculis, Alkindi, De radiies stellatis...
  - Olha agora sobre a mesa.
  Abri um grande volume que estava sobre a mesa, um De bes-tiis. Calhou-me uma
pgina finamente iluminada, onde estava representado um belssimo unicrnio.
  - Bela obra - comentou Guilherme, que conseguia ver bem as imagens. - E aquilo?
  - Lber monstruorum de diversis generibus. Tambm este com belas imagens, mas
parecem-me mais antigas.
  Guilherme inclinou o rosto sobre o texto:
   - Iluminado por monges irlandeses, h pelo menos cinco sculos. O livro do unicrnio
, pelo contrrio, mais recente, parece-me feito  maneira dos franceses.
   Mais uma vez admirei a sabedoria do meu mestre. Entramos na sala a seguir e
percorremos as quatro salas seguintes, todas com janelas e todas cheias de volumes em
lnguas desconhecidas e mais alguns textos de cincias ocultas, e chegamos a uma
parede que nos obrigou a voltar para trs, porque as ltimas cinco salas penetravam
umas nas outras sem consentir outras sadas.
  - Pela inclinao das paredes, devemos estar no pentgono de outro torreo - disse
Guilherme - talvez nos enganemos.
   - Mas as janelas? - disse. - Como podem existir tantas janelas? Impossvel que todas as
salas dem para o exterior.
  - Esqueces o poo central, muitas daquelas que vimos so janelas que do para o
octgono do poo. Se fosse de dia, a diferena da luz dir-nos-ia quais so as janelas
exteriores e quais as interiores, e talvez at nos revelasse a posio da sala em relao
ao Sol. Mas de noite no se percebe nenhuma diferena. Voltemos para trs.
  Voltamos de novo  sala do espelho e viramos para a terceira porta, pela qual nos
parecia que ainda no tnhamos passado. Vimos diante de ns uma fileira de trs ou
quatro salas, e perto da ltima avistamos um claro.
  - Est aqui algum! - exclamei com voz sufocada.
  - Se est, j se apercebeu da nossa candeia - disse Guilherme cobrindo todavia a
chama com a mo.
  Detivemo-nos por um ou dois minutos. O claro continuava a oscilar levemente, mas
sem se tornar mais forte ou mais fraco.
  - Talvez seja apenas uma lmpada - disse Guilherme -, daquelas que se pem para
convencer os monges de que a biblioteca  habitada -, mas no h a sala heptagonal
central, pelas almas dos defuntos. Mas  preciso saber. Tu fica aqui cobrindo a candeia,
eu vou  frente com cautela.
  Ainda envergonhado pela triste figura que fizera diante do espelho, quis redimir-me
aos olhos de Guilherme:
  - No vou eu  disse - e vs ficais aqui. Avanarei com cautela, sou mais pequeno e
mais leve. Mal d conta que no h perigo, chamo-vos.
   Eu disse. Avancei atravs de trs salas caminhando rente s paredes gil como um
gato (ou como um novio que desce  cozinha a roubar queijo na despensa, empresa em
que era perito em Melk). Cheguei  soleira da sala de onde provinha o claro, bastante
fraco, rastejando ao longo da parede atrs da coluna que servia de p direito e espreitei
para a sala. No havia ningum. Uma espcie de lmpada estava pousada sobre a mesa
acesa, e fumegava quase apagada. No era uma candeia como a nossa parecia antes um
turbulo destapado, no tinha chama, mas uma cinza ligeira ardia queimando alguma
coisa. Enchi-me de coragem e entrei. Sobre a mesa ao lado do turbulo estava aberto um
livro de cores vivas. Aproximei-me e distingui sobre a pgina quatro riscas de diversas
cores, amarelo, vermelho, azul-turquesa e terra-queimada. Apresentava um animal,
horrvel de ver, um grande drago de dez cabeas que arrastava com a causa as estrelas
do cu e as fazia precipitar sobre a terra. E repentinamente vi que o drago se
multiplicava, e as escamas da sua pele se tornavam como uma selva de estilhaos
rutilantes que se soltaram da folha e vieram rodopiar  solta da minha cabea. Inclinei-
me para trs e vi o teto da sala que se inclinava e descia sobre mim, depois ouvi como
um sibilo de mil serpentes, mas no medonho, quase sedutor, e apareceu uma mulher
circundada de luz que aproximou o seu rosto do meu respirando-me para a cara. Afastei-
a com as mos estendidas, e pareceu-me que as minhas mos tocavam os livros do
armrio em frente, ou que eles cresciam desmesuradamente. J no me dava conta do
lugar onde estava, e onde estava a terra e onde o cu. Vi no centro da sala Berengrio,
que me fixava com um sorriso odioso, transpirando luxria. Cobri o rosto com as mos, e
as minhas mos pareceram-me os membros de um sapo, viscosas e espalmadas. Gritei,
creio, senti um sabor acidulado na boca, depois afundei-me numa escurido infinita, que
parecia abrir-se cada vez mais debaixo de mim, e no soube mais nada.
   Acordei aps um perodo que me pareceu de sculos, sentindo pancadas que me
ressoavam na cabea. Estava estendido no cho, e Guilherme dava-me bofetadas nas
faces. J no estava naquela sala, e os meus olhos distinguiram uma inscrio que dizia:
Requiescant a laboribus suis.
  - V, v, Adso - sussurrava-me Guilherme. - No  nada...
  - As coisas... - disse ainda delirando.  Alm, a besta...
  - No h besta nenhuma. Encontrei-te a delirar aos ps de uma mesa onde se
encontrava uma belo apocalipse morabe, aberto na pgina da mulier amicta sole que
enfrenta o drago. Mas apercebi-me, pelo cheiro, que tu tinhas respirado alguma coisa
de nocivo e tirei-te logo dali. Tambm a mim me di a cabea.
  - Mas o que  que eu vi?
   - No viste nada.  que, ali, ardiam substancias capazes de provocar vises, reconheci
o cheiro,  uma coisa dos rabes, talvez a mesma que o velho da montanha dava a
cheirar aos seus assassinos antes de os impelir para as suas empresas. E assim explicamos
o mistrio das vises. Algum pe ervas mgicas durante a noite para convencer os
visitantes importunos que a biblioteca est protegida por presenas diablicas. Que
sentiste, afinal?
  Confusamente, por aquilo que recordava, contei-lhe a minha viso e Guilherme riu:
   - Metade era a ampliao daquilo que tinhas distinguido no livro e na outra metade
deixavas falar os teus desejos e os teus receios. Esses so os efeitos que ativam tais
ervas. Amanh  preciso falar disso com Severino, creio que sabe mais do que quer fazer-
nos crer. So ervas, apenas ervas, sem necessidade daquelas preparaes necromanticas
de que nos falava o vidreiro. Ervas, espelhos... Este lugar da sapincia interdita 
defendido por muitas e sapientssimas invenes. A cincia usada para ocultar em vez de
iluminar. No me agrada. Uma mente perversa preside  Santa defesa da biblioteca. Mas
foi uma noitada pesada, temos de sair, por agora. Tu ests atordoado e tens necessidade
de gua e de ar fresco. Intil tentar abrir estas janelas, demasiado altas e fechadas
talvez h dezenas de anos. Como puderam pensar que Adelmo se tenha atirado daqui?
   Sair, disse Guilherme. Como se fosse fcil. Sabamos que a biblioteca era acessvel de
um nico torreo, o oriental. Mas onde estvamos naquele momento? Tnhamos perdido
completamente a orientao. A volta que demos, errando com o temor de nunca mais
sairmos daquele lugar, eu sempre vacilante e acometido por acessos de vmitos,
Guilherme bastante preocupado comigo e despeitado com a pequenez da sua cincia,
deu-nos, ou melhor, deu-lhe a ele, uma idia para o dia seguinte. Deveramos voltar 
biblioteca, admitindo que alguma vez dela sassemos, com um tio de madeira
queimada, ou outra substancia capaz de deixar sinais nas paredes.
   - Para encontrar a sada de um labirinto - recitou de fato Guilherme - no h seno um
meio. Ao chegar a cada novo n, ou seja, nunca visitado antes, o percurso de chegada
ser distinguido com trs sinais. Se se observar sinais em algum dos caminhos do n, sele
indicar que o mesmo j foi visitado, e ento s marcar um nico sinal no percurso de
chegada. Se todas as passagens j tiverem sido marcadas ento ser preciso refazer o
caminho, voltando para trs. Mas, se uma ou duas passagens do n ainda no tiverem
sinais, escolher-se- uma qualquer, aplicando-lhe dois sinais. Encaminhando-se por uma
passagem que tem um nico sinal, aplicar-lhe-emos outros dois, de modo que, agora,
aquela passagem tenha trs. Todas as partes do labirinto deveriam ter sido percorridas
se, chegando a um n, nunca se seguir a passagem com trs sinais, a menos que j
nenhuma das outras passagens esteja privada de sinais...
  - Como sabeis? Sois perito em labirintos?
  - No, recito de um texto antigo que uma vez li.
  - E, segundo essa regra, sai-se?
   - Quase nunca, que eu saiba. Mas tentaremos na mesma. E depois, nos prximos dias,
terei lentes e terei tempo para me deter melhor sobre os livros. Pode ser que l onde o
percurso das inscries nos confunde, o dos livros nos d uma regra.
  - Tereis as lentes? Como fareis para as encontrar?
  - Eu disse que terei lentes. Farei outras. Creio que o vidreiro no espera seno uma
ocasio desse gnero para fazer uma nova experincia. Se tiver os utenslios adequados
para lapidar cacos. Quanto aos cacos, naquela oficina h muitos.
  Enquanto vaguevamos procurando caminho, de repente, no centro de uma sala, senti
acariciarem-me o rosto com uma mo invisvel, enquanto um gemido, que no era
humano nem era
  animal, ecoava naquele espao e no seguinte, como se um espectro vagueasse de sala
em sala. Devia estar preparado para as surpresas da biblioteca, mas, uma vez mais,
aterrorizei-me e dei um salto para trs. Tambm Guilherme devia ter tido uma
experincia semelhante  minha, porque tocava a face, levantando a candeia e olhando
em seu redor.
  Ele ergueu uma mo, depois examinou a chama que parecia agora mais viva, depois
umedeceu um dedo e manteve-o direito diante de si.
   -  claro - disse depois, e mostrou-me dois pontos, em duas paredes opostas,  altura
de um homem. Abriam-se a duas seteiras estreitas, e, aproximando delas a mo, podia
sentir-se o ar frio que provinha do exterior. Aproximando depois o ouvido sentia-se um
zumbido, como se de fora agora soprasse vento. - A biblioteca devia ter tambm um
sistema de ventilao - disse Guilherme -, de contrrio a atmosfera seria irrespirvel,
especialmente no Vero. Alm disso, estas seteiras tambm fornecem uma justa dose de
umidade, a fim de que os pergaminhos no sequem. Mas a habilidade dos fundadores no
ficou por aqui. Dispondo as seteiras segundo certos ngulos, asseguraram que, nas noites
de vento, a aragem que penetra por estas aberturas se cruze com outra aragem e se
adense pela fileira das salas, produzindo os sons que ouvimos. Os quais, unidos aos
espelhos e s ervas, aumentam o temor dos incautos que aqui penetram, como ns sem
conhecer bem o lugar. E ns prprios pensamos por um momento que eram fantasmas
que respiravam para a cara. S nos demos conta agora, porque s agora se levantou o
vento. E tambm este mistrio est resolvido. Mas com tudo isto no sabemos ainda
como sair!
   Assim falando vaguevamos no vazio, j perdidos, sem o cuidado de ler as inscries
que apareciam todas iguais. Camos numa nova sala heptagonal, giramos pelas salas
vizinhas, no encontramos qualquer sada. Voltamos para trs, caminhamos durante
quase uma hora, renunciando a saber onde estvamos. A certa altura, Guilherme decidiu
que estvamos derrotados, no nos restava seno pormo-nos a dormir nalguma sala e
esperar que no dia seguinte Malaquias nos encontrasse. Enquanto nos lamentvamos pelo
miservel fim da nossa bela empresa, encontramos inopinadamente a sala de onde partia
a escada. Agradecemos com fervor ao cu e descemos com grande alegria.
   Uma vez na cozinha, lanamo-nos para a chamin, entramos no corredor do ossrio , e
juro que o esgar mortfero daquelas cabeas nuas me pareceu o sorriso de pessoas
queridas. Reentramos na igreja e samos pelo portal setentrional, sentando-nos enfim
felizes sobre as lajes de pedra dos tmulos. O ar belssimo da noite pareceu-me um
blsamo divino. As estrelas brilhavam  nossa volta, e as vises da biblioteca pareceram-
me bastante longnquas.
  - Como  belo o mundo e como so feios os labirintos! - disse aliviado.
   - Como seria belo o mundo se houvesse uma regra para andar nos labirintos -
respondeu o meu mestre.
  - Que horas sero? - perguntei.
  - Perdi a noo do tempo. Mas ser bom encontrarmo-nos nas nossas celas antes que
toquem a matinas.
   Costeamos o lado esquerdo da igreja, passamos diante do portal (voltei-me para o
outro lado para no ver os velhos do Apocalipse, super thronos viginti quatuor!) e
atravessamos o claustro para chegar ao albergue dos peregrinos.
  Na soleira da construo estava o Abade, que nos olhou com severidade.
  - Procurei-vos toda a noite - disse a Guilherme. - No vos encontrei na cela, no vos
encontrei na igreja...
  - Seguamos uma pista... - disse vagamente Guilherme, com visvel embarao.
  O Abade fixou-o longamente, depois disse com voz lenta e severa:
  - Procurei-vos logo depois de completas. Berengrio no estava no coro.
  - Que coisa me estais dizendo? - fez Guilherme com ar hilrio. De fato tornava-se-lhe
agora claro quem se tinha aninhado no scriptorium.
  - No estava no coro a completas - repetiu o Abade -, e no voltou pare a sua cela.
Vo tocar a matinal, e veremos agora se reaparece. De contrrio, temo alguma nova
desgraa.
  A matinal, Berengrio no estava.
  TERCEIRO DIA
  DE LAUDAS A PRIMA
  Onde se encontra um pano sujo de sangue na cela de Berengrio, desaparecido, e 
tudo.
   Enquanto escrevo sinto-me cansado, como me sentia naquela noite, ou melhor,
naquela manh. Que dizer? Depois do ofcio, o Abade incitou a maior parte dos monges,
j em alarme, a procurar por toda a parte, sem resultado.
  Quando estavam para chamar as laudas, procurando na cela de Berengrio, um monge
encontrou debaixo do enxergo um pano branco sujo de sangue. Mostraram-no ao Abade,
que viu nele tenebrosos auspcios. Estava presente Jorge, que, ao ser informado, disse:
Sangue!, como se a coisa lhe parecesse inverossmil. Disseram-no a Alinardo, que
abanou a cabea e disse:
  - No, no,  terceira trombeta a morte vem pela gua...
  Guilherme observou o pano e depois disse:
  - Agora tudo  claro.
  - Ento, onde est Berengrio? - perguntaram-lhe.
  - No sei - respondeu.
  Ouviu-o Aymaro, que elevou os olhos ao cu e sussurrou a Pedro de Sant Albano:
  - Os ingleses so assim.
  Cerca de prima, quando j no havia sol, foram enviados servos a explorar os ps da
escarpa, a toda a volta das muralhas. Voltaram a tera, no tendo encontrado nada.
   Guilherme disse-me que no podamos ter feito melhor. Era preciso esperar os
eventos. E dirigiu-se  forja entretendo-se em cerrada conversa com Nicolau, o mestre
vidreiro.
  Eu sentei-me na igreja, junto ao portal central, enquanto se celebravam as missas.
Assim devotamente adormeci, e longo tempo, porque parece que ns, jovens, temos
mais necessidade de sono que os velhos, que j dormiram tanto e se preparam para
dormir pela eternidade.
  TERCEIRO DIA
  TERA
   Onde Adso reflete no scriptorium sobre a histria da sua ordem e sobre o destino dos
livros.
   Sa da igreja menos cansado mas com a mente confusa, porque o corpo no goza um
repouso tranqilo seno nas horas noturnas. Subi ao scriptorium, pedi licena a Malaquias
e comecei a folhear o catlogo. E enquanto lanava olhares distrados s folhas que me
passavam debaixo dos olhos, observava na realidade os monges.
  Fiquei impressionado com a calma e com a serenidade com que eles estavam
absorvidos pelo seu trabalho, como se um seu irmo no fosse afanosamente procurado
por todo o recinto e outros dois no tivessem j desaparecido em circunstancias
pavorosas. Aqui se v disse para comigo, a grandeza da nossa ordem: durante sculos e
sculos homens como estes viram irromper as turbas dos brbaros, saquear as suas
abadias, precipitar os reinos em vrtices de fogo, e todavia continuaram a ler a meia voz
palavras que se transmitiam h sculos e que eles transmitiam aos sculos vindouros.
Continuaram a ler e a copiar quando, se aproximava o milnio, porque no haviam de
continuar a faz-lo agora?
  No dia anterior, Bncio tinha dito que estaria disposto a cometer um pecado para ter
um livro raro. No mentia nem gracejava. Um monge deveria decerto amar os seus livros
com humildade, querendo o seu bem e no a glria da sua prpria curiosidade: mas
aquilo que  para os leigos a tentao do adultrio e para os eclesisticos seculares a
ambio de riquezas , para os monges, a seduo do conhecimento.
   Folheei o catlogo e danou diante dos meus olhos uma festa de ttulos misteriosos:
Quinti Seren de medicamentis, Phaenomena, Lber Aesopi de natura animalium. Lber
Aethici peronymi de cosmographia, Libri tres quos Arculphus episcopus Adamnano
excipiente de loas sanctis ul-tramarnis designavit conscribendos, Libellus Q. lulii
Hilaronis de origine mundi, Solini Polyhisor de situ orbis terrarum et mirabili-bus,
Almagesthus...... No me espantava que o mistrio dos delitos girasse  volta da
biblioteca. Para estes homens votados  escrita, a biblioteca era ao mesmo tempo a
Jerusalm celeste e um mundo subterrneo nos confins entre a terra incgnita e os
infernos. Eles eram dominados pela biblioteca, pelas suas promessas e pelos seus
interditos. Viviam com ela, por ela e talvez contra ela, na esperana culpvel de violar
um dia todos os seus segredos. Porque no haviam de se arriscar  morre para satisfazer
uma curiosidade da sua mente, ou matar para impedir que algum se apropriasse de um
seu segredo ciosamente guardado?
   Tentaes, decerto, soberba da mente. Bem diverso era o monge escrivo imaginado
pelo nosso santo fundador, capaz de copiar sem compreender, abandonado  vontade de
Deus, escrevente porque orante e orante enquanto escrevente. Porque j no era assim?
Oh, no eram decerto apenas aquelas as degenerescncias da nossa ordem! Tinha-se
tornado demasiado poderosa, os seus abades rivalizavam com os reis, no tinha acaso em
Abbone o exemplo de um monarca que com ar de monarca procurava resolver
controvrsias entre monarcas? O prprio saber que as abadias tinham acumulado era
agora usado como moeda de troca, razo de soberba, motivo de ostentao e prestgio;
tal como os cavaleiros ostentavam armaduras e estandartes, os nossos abades
ostentavam cdices iluminados... E tanto mais (loucura! ) quanto agora os nossos
mosteiros tinham perdido at a palma da sabedoria: agora as escolas catedrais, as
corporaes urbanas, as universidades copiavam livros, talvez mais e melhor do que ns,
e produziam-nos novos - e talvez fosse esta a causa de tantas desventuras.
   A abadia em que me encontrava talvez fosse ainda a ltima a ostentar uma certa
excelncia na produo e reproduo da sabedoria. Mas, talvez precisamente por isso, os
seus monges j no se satisfaziam com a obra santa da cpia, queriam tambm eles
produzir novos complementos da natureza, impelidos pela cobia de coisas novas. E no
se apercebiam, intu confusamente naquele momento (e sei-o bem hoje, j encanecido
pelos anos e pela experincia), que, assim fazendo, eles sancionavam a runa da sua
excelncia. Porque, se aquele novo saber que eles queriam produzir reflusse livremente
para fora daquelas muralhas, nada mais distinguiria aquele sagrado lugar de uma escola
catedral ou de uma universidade citadina. Permanecendo oculto, pelo contrrio,
mantinha intactos o seu prestgio e a sua fora, no era corrompido pela disputa, pela
arrogncia quodlibetal que quer submeter ao exame do sic et non todo o mistrio e toda
a grandeza. Eis, disse para comigo, as razes do silncio e da obscuridade que circundam
a biblioteca, ela  reserva de saber mas s pode manter esse saber intacto se impedir
que chegue a qualquer um, at aos prprios monges. O saber no  como a moeda, que
permanece fisicamente ntegra mesmo atravs das trocas mais infames: ele  antes,
como um fato belssimo, que se consome atravs do uso e da ostentao. No  assim de
fato o prprio livro, cujas pginas se esfarelam, cujas tintas e ouros se tornam opacos se
demasiadas mos lhe tocam? A est, via a pouca distncia de mim Pacfico de Tivoli, que
folheava um volume antigo cujas folhas se tinham como que colado umas s outras
devido  umidade. Molhava o indicador e o polegar com a lngua para folhear o seu livro,
e a cada toque da sua saliva aquelas pginas perdiam vigor, abri-las queria dizer dobr-
las, oferec-las  severa ao do ar e do p, que roeriam as finas veias em que o
pergaminho se encrespava no esforo e produziriam novos mofos l onde a saliva tinha
amolecido mas enfraquecido o canto da folha. Como um excesso de doura torna mole e
inbil o guerreiro, este excesso de amor possessivo e curioso predisporia o livro  doena
destinada a mat-lo.
  Que se deveria fazer? Cessar de ler, somente conservar? Eram justos os meus temores?
Que diria o meu mestre?
   Vi, no muito longe, um rubricador, Magnus de Iona, que tinha acabado de esfregar o
seu velo com a pedra-pomes e o amolecia com o gesso, para depois lhe alisar a superfcie
com a plaina. Um outro a seu lado, Rbano de Toledo, tinha fixado o pergaminho  mesa,
marcando-lhe as margens com pequenos furos laterais de ambos os lados, entre os quais
agora riscava com um estilete metlico linhas horizontais finssimas. Dentro em pouco as
duas folhas encher-se-iam de cores e de formas, a pgina tornar-se-ia como um relicrio,
flgida de gemas encastoadas naquele que seria depois o tecido devoto da escritura.
Aqueles dois irmos disse para comigo, esto vivendo as suas horas de paraso na terra.
Estavam produzindo novos livros, iguais queles que o tempo havia depois de destruir
inexoravelmente... Portanto, a biblioteca no podia ser ameaada por nenhuma fora
terrena, era portanto uma coisa viva... Mas, se era viva, porque no devia abrir-se ao
risco do conhecimento? Era isto o que queria Bncio e, provavelmente, o que tinha
querido Venancio?
   Senti-me confuso e temeroso com os meus pensamentos. Talvez eles no conviessem a
um novio que devia apenas seguir com escrpulo e humildade a regra durante os anos
futuros - o que depois fiz, sem me pr outras perguntas, enquanto  minha volta o
mundo se afundava numa tempestade de sangue e de loucura.
  Era a hora da refeio matinal, e dirigi-me  cozinha, onde j me tinha tornado amigo
dos cozinheiros, que me deram alguns dos melhores bocados.
  TERCEIRO DIA
  SEXTA
  Onde Adso recebe as confidncias de Salvador, que no se podem resumir em poucas
palavras, mas que lhe inspiram muitas e preocupantes meditaes.
   Enquanto comia vi, evidentemente reconciliado com o cozinheiro, Salvador, que a um
canto devorava com satisfao um pastel de carne de ovelha. Comia como se nunca
tivesse comido na sua vida, sem deixar cair sequer uma migalha, e parecia dar graas a
Deus por aquele fato extraordinrio.
  Piscou-me o olho e disse-me, na sua linguagem bizarra, que comia por todos aqueles
anos em que tinha jejuado. Interroguei-o. Contou-me a sua infncia penosa numa aldeia
em que os ares eram maus, as chuvas muito freqentes e os campos apodreciam
enquanto tudo era viciado por mortferos miasmas. Houve, assim o entendi, aluvies
durante estaes e estaes, a ponto de os campos j no terem regos e com um moio
de semente se fazer um sesteiro, e depois o sesteiro ainda se reduzia a quase nada. At
os senhores tinham rostos brancos como os pobres, embora, observou Salvador, os pobres
morressem mais do que os senhores, talvez (observou com um sorriso) porque eram em
maior nmero... Um sesteiro custava quinze soldos, um moio sessenta soldos, os
pregadores anunciavam o fim dos tempos, mas os pais e os avs de Salvador recordavam-
se que tambm tinha sido assim de outras vezes, de modo que da tinham tirado a
concluso que os tempos estavam sempre para acabar. E assim, quando haviam comido
todas as carcaas das aves e todos os animais imundos que se podiam encontrar, correu
voz que algum na aldeia comeava a desenterrar os mortos. Salvador explicava com
muita habilidade, como se fosse um histrio, como costumavam fazer aqueles homeni
malissimi, que escavavam com os dedos debaixo da terra, nos cemitrios, no dia
seguinte s exquias de algum. Gnam!, dizia, e cravava os dentes no seu pastel de
ovelha, mas eu via no seu rosto o trejeito do desesperado que comia o cadver. E depois,
no contentes com escavar em terra consagrada, uns piores do que os outros, como
ladres de estrada, agachavam-se na floresta e surpreendiam os viandantes. Zs!, dizia
Salvador, a faca na garganta, e Gnam! E os piores de todos atraiam as crianas com um
ovo ou uma ma e davam cabo delas, mas, como Salvador me precisou com muita
seriedade, cozendo-as primeiro. Contou o caso de um homem que foi  aldeia vender
carne cozida por pouco dinheiro, e ningum conseguia capacitar-se de tamanha sorte;
depois o padre disse que se tratava de carne humana, e o homem foi desfeito em
pedaos pela multido enfurecida. Mas, nessa mesma noite, um qualquer da aldeia foi
escavar a fossa do morto e comeu das carnes do canibal, de modo que, quando foi
descoberto, a aldeia condenou-o tambm  morte.
   Mas Salvador no me contou s esta histria. Com palavras truncadas, empenhando-
me eu em recordar o pouco que sabia de provenal e de dialetos italianos, contou-me a
histria da sua fuga da aldeia natal e o seu vagabundear pelo mundo. E no seu relato
reconheci muitos que j tinha conhecido ou encontrado ao longo do caminho, e muitos
outros que conheci depois reconheo-os agora, de modo que no tenho a certeza de no
lhes atribuir,  distncia no tempo, aventuras e delitos que foram de outros, antes dele e
depois dele, e que, agora, na minha mente cansada, se aplanam para desenhar uma
nica imagem precisamente pela fora da imaginao que, unindo a recordao do ouro
 do monte, sabe compor a idia de uma montanha de ouro.
   Freqentemente durante a viagem tinha ouvido Guilherme nomear os simples, termo
com que alguns do seus irmos designavam no s o povo mas ao mesmo tempo os
iletrados. Expresso que me pareceu sempre genrica, porque nas cidades italianas tinha
encontrado homens de comrcio e artesos que no eram clrigos mas que no eram
iletrados, embora os seus conhecimentos se manifestassem atravs do uso da lngua
vulgar. E, devo dizer, alguns dos tiranos que governavam naquele tempo a pennsula
eram ignorantes em cincia teolgica, e mdica, e lgica, e em latim, mas no eram
decerto simples ou ingnuos. Por isso, creio que tambm o meu mestre, quando falava
dos simples, usava um conceito bastante simples. Mas, indubitavelmente, Salvador era
um simples, vinha de uma terra castigada, durante sculos, pela penria e pelas
prepotncias dos senhores feudais. Era um simples mas no era um tolo. Aspirava a um
mundo diverso, que, no tempo em que fugiu de casa dos seus, pelo que me disse,
assumia o aspecto do pas de Cocanha, onde, das rvores que transpiram mel, crescem
formas de queijo e salpices perfumados.
   Impelido por esta esperana, como se se recusasse a reconhecer este mundo como um
vale de lgrimas, em que (como me ensinaram) at a injustia foi predisposta pela
providncia para manter o equilbrio das coisas, cujos desgnios freqentemente nos
escapam, Salvador viajou por vrias terras, do seu Monferrate natal at  Ligria, e
subindo depois da Provena s terras do rei de Frana.
   Salvador vagueou pelo mundo, mendigando, roubando aqui e ali, fingindo-se doente,
pondo-se ao servio transitrio de algum senhor, seguindo de novo a via da floresta, da
estrada principal. Pelo relato que me fez, vi-o associado queles bandos de vadios que
depois, nos anos que se seguiram, vi cada vez mais vaguear pela Europa: falsos monges,
charlates, embusteiros, corcundas, pedintes e maltrapilhos, leprosos e estropiados,
andarilhos, vagabundos, cantores ambulantes, clrigos sem ptria, estudantes
itinerantes, batoteiros, malabaristas, mercenrios invlidos, judeus errantes, escapados
aos infiis com o esprito incapacitado, loucos, fugitivos do degredo, malfeitores de
orelhas cortadas, sodomitas, e entre eles artesos ambulantes, teceles, caldeireiros,
cadeireiros, amoladores, empalhadores, pedreiros, e ainda canalhas de toda a espcie,
batoteiros, malandros, malandres, patifes, velhacos, guies, burles, zs-ningum,
pedintes, e cannicos e padres simomacos, e aldrabes e gente que ento vivia  custa
da credulidade alheia, falsrios de bulas e selos papais, vendedores de indulgncias,
falsos paralticos que se deitavam  porta das igrejas, vadios em fuga dos conventos,
vendedores de relquias, perdoadores, adivinhos e quiromantes, necromantes,
curandeiros, falsos mendigos, e fornicadores de toda a espcie, corruptores de monjas e
de raparigas com enganos e violncias, simuladores de hidropisia, epilepsia,
hemorridas, gota e chagas, e at de loucura melanclica. Havia-os que aplicavam
emplastros pelo corpo para fingirem lceras incurveis, outros que enchiam a boca com
uma substancia cor de sangue para simularem escarros de tsica, patifes que fingiam ser
dbeis de um dos membros, usando bengalas sem necessidade e imitando a epilepsia,
sarnas, bubes, inchaos, aplicando vendas, tinturas de aafro, usando ferros nas mos,
faixas na cabea, enfiando-se fedorentos nas igrejas e deixando-se cair de repente nas
praas, cuspindo baba e revirando os olhos, deitando pelas narinas sangue feito de sumo
de amoras e vermelho, para arrancar comida ou dinheiro s gentes atemorizadas que
recordavam os convices dos santos padres  esmola: divide com o esfomeado o teu po,
leva para casa quem no tem teto, visitemos Cristo, acolhamos Cristo, vistamos Cristo,
porque como a gua purga o fogo assim a esmola purga os nossos pecados.
  Mesmo depois dos fatos que narro, ao longo do curso do Danbio, vi e ainda vejo
muitos destes charlates, que tinham os seus nomes e as suas subdivises em legies,
como os demnios: capes, lotori, protomdicos, pauperes verecundi, cangalheiros,
esfomeados, cruzeiros, chagados, relicrios, enfatinhados, apalpadores, incchi specrini,
cochini, esfarrapados e atarantados, acconi e admiracti, muruadores, tremelicantes,
vira-latas, falsos-bordes, desdentados, lacrimejantes e farsantes.
   Era como um lodo que escorria pelas veredas do nosso mundo, e entre eles
insinuavam-se pregadores de boa-f, hereges  procura de novas presas, agitadores de
discrdia. Tinha sido precisamente o papa Joo, sempre temeroso dos movimentos dos
simples que pregassem e praticassem a pobreza, que se tinha lanado contra os
pregadores mendicantes, que, segundo ele, atraam os curiosos arvorando estandartes
pintados com figuras, pregavam e extorquiam dinheiro. Estaria o papa simonaco e
corrupto, na verdade, quando equiparava frades mendicantes, que pregavam a pobreza,
a estes bandos de deserdados e de rapinadores? Eu, naqueles dias, depois de ter viajado
um pouco pela pennsula italiana, j no tinha as idias claras: tinha ouvido frades de
Altopascio que, pregando, ameaavam excomunhes e prometiam indulgncias,
absolviam de roubos e fratricdios, de homicdios e perjrios contra o desembolso de
dinheiro, davam a entender que no seu hospital se celebravam por dia at cem missas,
para as quais recolhiam doaes, e que, com os seus bens, dotavam duzentas raparigas
pobres. E tinha ouvido falar de frade Paulo Coxo, que na floresta de Rieri vivia como
eremita e se gabava de ter tido diretamente do Esprito Santo a revelao de que o ato
carnal no era pecado: assim, seduzia as suas vtimas, que chamava suas irms,
obrigando-as a entregar ao aoite a carne nua, fazendo em terra cinco genuflexes em
forma de cruz, antes de apresentar as suas vtimas a Deus e de pretender delas aquilo a
que chamava o beijo da paz. Mas seria verdade? E que coisa ligava estes eremitas, que se
diziam iluminados, aos frades da vida pobre que percorriam as estradas da pennsula
fazendo verdadeiramente penitncia, malvistos pelo clero e pelos bispos cujos vcios e
roubos fustigavam?
   Pelo relato de Salvador, tal como se misturava com as coisas que eu j sabia por mim,
estas distines no apareciam  luz do dia: tudo parecia igual a tudo. Por vezes parecia-
me um daqueles pedintes aleijados de Turena de que fala a fbula , os quais, ao
aproximarem-se dos despojos milagrosos de So Martinho, se puseram em fuga temendo
que o santo os curasse, tirando-lhes assim a fonte dos seus lucros, e o santo, sem
piedade, agraciou-os antes de chegarem  fronteira, punindo-os da sua malvadez ao
restituir-lhes o uso dos membros. Outras vezes, pelo contrrio, o rosto ferido do monge
iluminava-se de luz dulcssima quando me contava como, vivendo entre aqueles bandos,
tinha escutado a palavra dos pregadores franciscanos, como ele clandestinos, e tinha
compreendido que a vida pobre e errante que levava no devia ser tomada como uma
sombria necessidade mas como um gesto alegre de dedicao, e tinha comeado a fazer
parte de seitas e grupos penitenciais cujos nomes estropiava e cuja doutrina definia de
modo bastante imprprio. Dai deduzi que tinha encontrado patarinos e valdenses, e
talvez ctaros, arnaldistas e humilhados, e que, vagueando pelo mundo, tinha passado
de grupo em grupo, assumindo gradualmente como misso a sua condio de errante e
fazendo pelo Senhor aquilo que antes fazia pelo seu ventre.
   Mas como e at quando? Pelo que compreendi, uns trinta anos antes, ele tinha-se
agregado a um convento de menoritas na Toscana e ai tinha endossado o saio de So
Francisco, sem tomar ordens. Ali, creio, tinha aprendido o pouco latim que falava,
misturando-o com os falares de todos os lugares em que, pobre sem ptria, tinha estado
e de todos os companheiros de vagabundagem que tinha encontrado, desde os
mercenrios das minhas terras aos bogomilos dlmatas. Ali se tinha entregue a uma vida
de penitncia, dizia (penitenciagite, citava-me com olhos inspirados, e de novo ouvi a
frmula que tinha intrigado Guilherme), mas, segundo parece, tambm os frades
menores junto de quem estava tinham idias confusas, porque, irados contra o cannico
da igreja vizinha, acusado de roubos e outras aes nefandas, invadiram-lhe um dia a
casa e fizeram-no rolar pelas escadas, de maneira que o pecador morreu, e depois
saquearam a igreja. Por isto, o bispo enviou homens armados, os frades dispersaram-se,
e Salvador vagueou longo tempo pela alta Itlia com um bando de fraticelli, ou melhor,
de menoritas mendicantes sem outra lei ou disciplina.
   Refugiou-se ento na regio de Toulouse, onde lhe aconteceu uma estranha histria,
enquanto se inflamava ao ouvir o relato das grandes empresas dos cruzados. Uma massa
de pastores e de gente humilde, em grande procisso, reuniu-se um dia para atravessar o
mar e combater contra os inimigos da f. Chamaram-lhes pastorelli. De fato, o que eles
queriam era fugir da sua terra maldita. Havia dois chefes, que lhes inculcaram falsas
teorias, um sacerdote, que tinha sido privado da sua igreja devido  sua conduta, e um
monge apstata da ordem de So Bento. Estes tinham feito perder a cabea queles
ingnuos a tal ponto que, correndo em bandos atrs deles, at rapazes de dezesseis
anos, contra a vontade dos pais, levando consigo apenas uma sacola e um bordo, sem
dinheiro, abandonando os campos, os seguiam como um rebanho e formavam uma grande
multido. Ento, j no seguiam nem a razo nem a justia, mas apenas a fora e a sua
vontade. Encontraram-se todos juntos, finalmente livres e com uma obscura esperana
de terras prometidas, como que os embriagou. Percorriam as aldeias e as cidades
apoderando-se de tudo, e se um deles era preso assaltavam as prises e libertavam-no.
Quando entraram na fortaleza de Paris para fazer sair alguns dos seus companheiros que
os senhores tinham mandado prender, pois que o preboste de Paris tentava opor
resistncia, feriram-no e atiraram-no pelos degraus da fortaleza e quebraram as portas
do crcere. Depois alinharam-se em posio de batalha no prado de Saint-Germain. Mas
ningum ousou fazer-lhes frente, e saram de Paris dirigindo-se para a Aquitania. E
matavam todos os judeus que iam encontrando e despojavam-nos dos seus bens...
  - Porqu os judeus? - perguntei a Salvador.
  E ele respondeu-me:
  - E porque no?
   E explicou-me que toda a vida tinham ouvido os pregadores que os judeus eram os
inimigos da cristandade e acumulavam os bens que a eles lhes eram negados. Perguntei-
lhe se no era porm verdade que os bens eram acumulados pelos senhores e pelos
bispos, atravs das dcimas, e que, portanto, os pastorelli no combatiam os seus
verdadeiros inimigos. Respondeu-me que, quando os verdadeiros inimigos so demasiado
fortes,  preciso ento escolher inimigos mais fracos. Refleti que, por esse motivo, os
simples so assim chamados. S os poderosos sabem sempre com grande clareza quem
so os seus verdadeiros inimigos. Os senhores no queriam que os pastorelli pusessem em
perigo os seus bens, e foi portanto uma grande sorte para eles que os chefes dos
pastorelli insinuassem a idia de que muitas das riquezas estavam entre os judeus.
   Perguntei quem tinha metido na cabea  multido que era preciso atacar os judeus.
Salvador no se recordava. Creio que, quando se renem tais multides seguindo uma
promessa e pedindo de imediato alguma coisa, nunca se sabe quem fala no meio deles.
Pensei que os seus chefes tinham sido educados nos conventos e nas escolas episcopais, e
falavam a linguagem dos senhores, embora a traduzissem em termos compreensveis a
pastores. E os pastores no sabiam onde estava o papa, mas sabiam onde estavam os
judeus. Em suma, tomaram de assalto uma alta e slida torre do rei de Frana, onde os
judeus, assustados, tinham acorrido a refugiar-se em massa. E os judeus que saam por
baixo das muralhas da torre defendiam-se corajosa e tenazmente, lanando lenha e
pedras. Mas os pastorelli pegaram fogo  porta da torre, torturando os judeus barricados
com o fumo e o fogo. Os judeus, no podendo salvar-se, preferindo matar-se a morrer s
mos dos no circuncisos, pediram a um deles, que parecia o mais corajoso, que os
matasse com a espada. Ele consentiu, e matou quase quinhentos. Depois saiu da torre
com os filhos dos judeus, e pediu aos pastorelli para ser batizado. Mas os pastorelli
disseram-lhe: Tu fizeste um tal massacre entre a tua gente e agora pretendes livrar-te
da morte?, e fizeram-no em pedaos, poupando as crianas, que mandaram batizar.
Depois dirigiram-se para Carcassonne, perpetrando muitas e sangrentas rapinas pelo
caminho. Ento o rei de Frana apercebeu-se que eles tinham passado os limites e
ordenou que se lhes opusesse resistncia em todas as cidades por onde passassem e se
defendessem inclusivamente os judeus como se fossem homens do rei...
   Porque  que o rei se tornou to solcito para com os judeus naquela altura? Talvez
por ter receio daquilo que os pastorelli poderiam fazer em todo o reino e que o seu
nmero crescesse demasiado. Ento sentiu ternura at pelos judeus, quer porque os
judeus eram teis ao comrcio do reino quer porque agora era preciso destruir os
pastorelli, e era necessrio que todos os bons cristos achassem razo para chorarem
sobre os seus delitos. Mas muitos cristos no obedeceram ao rei, pensando que no era
justo defender os judeus, que sempre tinham sido inimigos da f crist. E em muitas
cidades a gente do povo, que tivera de pagar usura aos judeus, sentia-se feliz, porque os
pastorelli os puniam pela sua riqueza. Ento, o rei ordenou sob pena de morte que no
se desse ajuda aos pastorelli. Reuniu um numeroso exrcito e atacou-os, e muitos deles
foram mortos, outros escaparam pela fuga e refugiaram-se nas florestas, onde pereceram
 mingua. Em pouco tempo foram todos aniquilados. E o representante do rei capturou-
os e enforcou-os aos vinte e trinta de cada vez nas rvores mais altas, para que a vista
dos seus cadveres servisse de exemplo eterno e mais ningum ousasse perturbar a paz
do reino.
   O fato singular  que Salvador me contou esta histria como se se tratasse de uma
virtuosssima empresa. E, de fato, continuava convencido que a multido dos pastorelli
se tinha agitado para conquistar o sepulcro de Cristo e libert-lo dos infiis, e no me foi
possvel fazer-lhe crer que esta belssima conquista j tinha sido feita, no tempo de
Pedro, o Eremita e de So Bernardo e sob o reinado de Lus, o Santo, de Frana. De
qualquer modo, Salvador no foi para a terra dos infiis, porque teve de se afastar o
mais depressa possvel das terras francesas. Passou pela provncia de Novara, disse-me,
mas sobre o que ento aconteceu foi muito vago. E finalmente chegou a Casale, onde
conseguiu que o acolhessem no convento dos menoritas (e creio que aqui tinha
encontrado Remgio), precisamente no tempo em que muitos deles, perseguidos pelo
papa, mudavam de saio e procuravam refgio em mosteiros de outra ordem, para no
acabarem por ser queimados. Como de fato nos tinha contado Ubertino. Por causa das
suas longas experincias em muitos trabalhos manuais (que tinha feito com fins
desonestos quando errava livremente e com fins santos quando errava por amor de
Cristo), Salvador foi logo escolhido pelo despenseiro como seu ajudante. Eis porque h
muitos anos estava naquele sitio, pouco interessado nos fatos da ordem, muito na
administrao da cave e da despensa, livre de comer sem roubar e de louvar o Senhor
sem ser queimado.
   Esta foi a histria que dele ouvi, entre duas dentadas, e perguntei-me o que teria ele
inventado e o que teria calado.
  Olhei-o com curiosidade, no pela singularidade da sua experincia mas antes
precisamente porque o que lhe tinha acontecido me parecia um eptome esplndido de
tantos eventos e movimentos que tornavam fascinante e incompreensvel a Itlia daquele
tempo.
   Que tinha emergido daquela conversa? A imagem de um homem de vida aventurosa,
capaz at de matar um seu semelhante sem dar conta do seu prprio delito. Mas, embora
naquele tempo uma ofensa  lei divina me parecesse igual a qualquer outra, comeava j
a compreender alguns dos fenmenos de que ouvia falar, e compreendia que uma coisa 
o massacre que uma multido, arrebatada quase ao xtase e trocando as leis do diabo
pelas do Senhor, podia cometer, e outra coisa  o delito individual perpetrado a sangue-
frio, no silncio e na astcia. E no me parecia que Salvador pudesse ter-se manchado
com um crime semelhante.
  Por outro lado, queria descobrir alguma coisa sobre as insinuaes feitas pelo Abade,
e estava obcecado pela idia de frei Dolcino, de quem no sabia quase nada. E no
entanto o seu fantasma parecia adejar sobre muitas conversas que tinha ouvido naqueles
dois dias.
  Assim, perguntei-lhe  queima-roupa:
  - Nas tuas viagens nunca conheceste frei Dolcino?
   A reao de Salvador foi singular. Arregalou os olhos, se acaso pudesse t-los ainda
mais arregalados, benzeu-se repetidas vezes, murmurou algumas frases entrecortadas,
numa linguagem que daquela vez, verdadeiramente no entendi. Mas pareceram-me
frases de negao. At ento tinha-me olhado com simpatia e confiana, diria com
amizade. Naquele instante olhou-me quase com rancor. Depois, com um pretexto
qualquer, foi-se embora.
   A partir de agora no podia resistir mais. Quem era este frade que incutia terror a
quem o ouvia nomear? Decidi que no podia ficar mais tempo subjugado pelo meu desejo
de saber. Uma idia me atravessou a mente. Ubertino! Ele prprio tinha pronunciado
aquele nome, na primeira noite em que o encontramos, ele sabia tudo das vicissitudes
claras e obscuras dos frades, fraticelli e outras raas daqueles ltimos anos. Onde podia
encontr-lo aquela flora? Certamente na igreja, mergulhado na orao. E foi ali, visto
que gozava de um momento de liberdade, que me dirigi.
  No o encontrei, e no o encontrei mesmo at  noite. E assim fiquei com a minha
curiosidade, enquanto aconteciam os outros fatos que devo agora narrar.
  TERCEIRO DIA
  NONA
  Onde Guilherme fala a Adso do grande rio hertico, da Juno dos simples na igreja,
das suas dvidas sobre a cognoscivilidade das leis gerais, e quase por acaso conta como
decifrou os sinais necromnticos deixados por Venancio.
   Encontrei Guilherme na forja, trabalhando com Nicolau, ambos bastante absorvidos
pelo seu trabalho. Tinham disposto sobre o balco muitos minsculos discos de vidro,
talvez j prontos para serem inseridos nas juntas de um vitral, e tinham reduzido alguns,
com os instrumentos adequados,  espessura desejada. Guilherme experimentava-os,
pondo-os diante dos olhos. Nicolau, por seu lado, estava dando instrues aos ferreiros
para que construssem a forquilha em que os vidros melhores deveriam ser depois
encastoados.
   Guilherme resmungava irritado, porque, at quele momento, a lente que mais o
satisfazia era cor de esmeralda, e ele, dizia, no queria ver os pergaminhos como se
fossem prados. Nicolau afastou-se para vigiar os ferreiros. Enquanto se atarefava com os
seus pequenos discos, contei-lhe o meu dilogo com Salvador.
  - O homem teve vrias experincias  disse -, talvez tenha estado realmente com os
dolcinianos. Esta abadia  um verdadeiro microcosmo; quando tivermos c os legados do
papa Joo e frei Miguel o quadro estar realmente completo.
  - Mestre - disse-lhe -, eu j no compreendo nada.
  - A propsito de qu, Adso?
   - Primeiro, acerca das diferenas entre grupos herticos. Mas isso pergunto-vo-lo
depois. Agora estou preocupado com o prprio problema da diferena. Tive a impresso
de que, falando com Ubertino, vs tentastes demonstrar-lhe que so todos iguais, santos
e hereges. E, ao invs, falando com o Abade, vs esforveis-vos por lhe explicar a
diferena entre herege e herege, e entre herege e ortodoxo. Isto , vos censurveis a
Ubertino que considerasse diferentes aqueles que no fundo eram iguais, e ao Abade que
considerasse iguais aqueles que no fundo eram diferentes.
  Guilherme pousou por um instante as lentes sobre a mesa.
  - Meu bom Adso - disse -, procuremos fazer distines, e distingamos ento nos termos
das escolas de Paris. Ento, dizem por l, todos os homens tm a mesma forma
substancial, ou engano-me?
   - Decerto - disse, orgulhoso do meu saber  so animais racionais e se distinguem por
serem capazes de rir.
  - Muito bem. Porm, Toms  diferente de Boaventura, e Toms e gordo enquanto
Boaventura  magro, e at pode acontecer que Ugaccione seja mau enquanto Francisco 
bom, e Aldemaro  fleumtico enquanto Agilulfo  bilioso. Ou no?
  - Sem dvida,  assim.
  - Ento isso significa que h identidade, em homens diferentes, quanto  sua forma
substancial e diferena quanto aos acidente, ou melhor, quanto s suas terminaes
superficiais.
  - , sem dvida alguma, assim.
  - E ento, quando digo a Ubertino que a mesma natureza humana, na complexidade
das suas operaes, preside tanto ao amor do bem como ao amor do mal, procuro
convencer Ubertino da identidade da natureza humana. Quando depois digo ao Abade
que h diferena entre um ctaro e um valdense, insisto na variedade dos seus
acidentes. E insisto nisso porque acontece que se queima um valdense atribuindo-lhe os
acidentes de um ctaro e vice-versa. E quando se queima um homem queima-se a sua
substancia individual e reduz-se a puro nada aquilo que era um concreto ato de existir,
bom em si pelo mesmo, pelo menos aos olhos de Deus, que o mantinha no ser. Parece-te
uma boa razo para insistir sobre as diferenas?
  - Sim, mestre - respondi com entusiasmo. - Agora compreendi porque falais assim, e
aprecio a vossa boa filosofia!
  - No  a minha - disse Guilherme -, e nem sequer sei se  a boa. Mas o importante 
que tu tenhas compreendido. Vamos agora  tua segunda pergunta.
   -  que  disse - creio que no sirvo para nada. J no consigo distinguir a diferena
acidental entre valdenses, ctaros, pobres de Lio, humilhados, beguinos, santanrios,
lombardos, joaquimitas, patarinos, apostlicos, pobres lombardos, arnaldistas,
guilhermistas, seguidores do livre esprito e luciferinos. Que hei-de fazer?
   - Oh, pobre Adso - riu Guilherme, dando-me uma afetuosa palmadinha na nuca -, no
ests errado de todo! Vs,  como se nos ltimos dois sculos, e ainda antes, este nosso
mundo tivesse sido percorrido por ventos de intolerncia, esperana e desespero, todos
juntos... Ou ento no, no  uma boa analogia. Pensa num rio, denso e majestoso, que
corre por milhas e milhas entre robustos diques, e tu sabes onde est o rio, onde o
dique, onde a terra firme. A certa altura, o rio, de cansao, porque correu por
demasiado tempo e demasiado espao, porque se aproxima o mar, que anula em si todos
os rios, j no sabe o que . Torna-se o seu prprio delta. Permanece talvez um brao
maior, mas muitos outros se ramificam, em todas as direes, e alguns confluem uns nos
outros, e j no sabes o que est na origem do que , e por vezes no sabes o que ainda
 rio e o que  j mar...
  - Se bem compreendo a vossa alegoria, o rio  a cidade de Deus, ou o reino dos justos,
que se aproxima do milnio, e nesta incerteza ele j no se contm, nascem falsos e
verdadeiros profetas, e tudo conflui na grande plancie onde ter lugar o Armagedon...
   - No pensava exatamente nisso. Mas tambm  verdade que entre ns, franciscanos,
continua viva a idia de uma terceira idade e do advento do reino do Esprito Santo. No,
procurava antes fazer-te compreender como o corpo da Igreja, que tambm foi durante
sculos o corpo de toda a sociedade, o povo de Deus, se tornou demasiado rico, e denso,
e arrasta consigo as escrias de todos os pases que atravessou, e perdeu a sua pureza
prpria. Os braos do delta so, se quiseres, outras tantas tentativas do rio para correr o
mais depressa possvel para o mar, ou seja, para o momento da purificao. Mas a minha
alegoria era imperfeita, servia apenas para te dizer como os ramos da heresia e dos
movimentos de renovao, quando o rio j no se contm, so numerosos e se
confundem. Podes ainda acrescentar  minha pssima alegoria a imagem de algum que
tenta  viva fora reconstruir os diques do rio, mas no consegue. E alguns braos do
delta so enterrados, outros reconduzidos ao rio por canais artificiais, outros ainda
deixam-nos correr, porque no se pode conter tudo, e  bom que o rio perca parte da
sua gua se quer manter-se ntegro no seu curso, se quer ser um curso reconhecvel.
  - Cada vez compreendo menos.
  - Tambm eu. No sou forte a falar de modo parablico. Esquece esta histria do rio.
Procura antes compreender como nasceram muitos dos movimentos que nomeaste, h
pelo menos duzentos anos, e j morreram, outros so recentes...
  - Mas quando se fala de hereges nomeiam-se todos em conjunto.
  -  verdade, mas este  um dos modos pelos quais a heresia se difunde e um dos
modos pelos quais  destruda.
  - No compreendo novamente.
   - Meu Deus, como  difcil. Bem. Imagina que s um reformador dos costumes e renes
alguns companheiros no cimo de um monte, para viver na pobreza. E, algum tempo
depois, vs que muitos vm a ti, mesmo de terras distantes, e te consideram um profeta,
ou um novo apstolo, e te seguem. Vm verdadeiramente por ti ou por aquilo que dizes?
  - No sei, espero. Porqu de outro modo?
  - Porque ouviram aos seus pais histrias de outros reformadores lendas de
comunidades mais ou menos perfeitas, e pensam que esta aquela e aquela  esta.
  - Assim, qualquer movimento herda os filhos dos outros.
   - Decerto, porque a ele acorrem na sua maior parte os simples, que no tm sutileza
doutrinal. E no entanto os movimentos de reforma dos costumes nascem em lugares e de
modos diversos e com diversas doutrinas. Por exemplo, confundem-se freqentemente os
ctaros e os valdenses. Mas existe entre eles uma grande diferena. Os valdenses
pregavam uma reforma dos costumes no interior da Igreja, os ctaros pregavam uma
Igreja diversa, uma diversa viso de Deus e da moral. Os ctaros pensavam que o mundo
estava dividido entre as foras opostas do bem e do mal, e tinham constitudo uma Igreja
em que se distinguiam os crentes perfeitos dos simples, e tinham os seus sacramentos e
os seus ritos; tinham constitudo uma hierarquia muito rgida, quase tanto como a da
nossa Santa Madre Igreja, e no pensavam de forma nenhuma em destruir qualquer
forma de poder. O que te explica porque aderiram aos ctaros mesmo homens de
comando, proprietrios, feudatrios. Tambm no pensavam em reformar o mundo,
porque a oposio entre bem e mal para eles no poder jamais ser desfeita. Os
valdenses, pelo contrrio (e com eles os arnaldistas ou os pobres lombardos), queriam
construir um mundo diverso a partir de um ideal de pobreza, por isso acolhiam os
deserdados e viviam em comunidade do trabalho das suas prpria mos. Os ctaros
negavam os sacramentos da Igreja, os valdenses no, negavam s a confisso auricular.
  - Mas porque  que ento so confundidos e se fala deles como da mesma planta m?
   - J to disse, aquilo que os faz viver  tambm aquilo que os faz morrer. Enriquecem
com os simples que foram estimulados por outros movimentos e que crem que se trata
do mesmo movimento de revolta e de esperana; e so destrudos pelos inquisidores, que
atribuem a uns os erros dos outros, e se os seguidores de um movimento cometeram um
delito, este delito ser atribudo a cada seguidor de cada um dos movimentos. Os
inquisidores esto errados segundo a razo, porque juntam doutrinas contrastantes; tm
razo segundo o erro dos outros, porque quando nasce um movimento, verbigratia, de
arnaldistas, numa cidade, para a convergem tambm aqueles que seriam ou foram
ctaros ou valdenses algures. Os apstolos de frei Dolcino pregavam a destruio fsica
dos clrigos e dos senhores, e cometeram muitas violncias; os valdenses so contrrios 
violncia, e os fraticelli tambm. Mas tenho a certeza de que nos tempos de frei Dolcino
convergiram no seu grupo muitos que j tinham seguido a pregao dos fraticelli ou dos
valdenses. Os simples no podem escolher a sua heresia, Adso, agarram-se a quem prega
na sua terra, a quem passa pela aldeia ou pela praa.  com isto que jogam os seus
inimigos. Apresentar aos olhos do povo uma nica heresia, que possa aconselhar ao
mesmo tempo no s a recusa do prazer sexual mas tambm a comunho dos corpos, 
boa arte de pregador: porque mostra os hereges como um nico enredo de diablicas
contradies que ofendem o senso comum.
  - Portanto no h relao entre eles e  por engano do demnio que um simples que
quereria ser joaquimita ou espiritual cai nas mos dos ctaros ou vice-versa?
   - E, no entanto, no  assim. Procuremos recomear do princpio, Adso, e asseguro-te
que procuro explicar-te uma coisa sobre a qual nem eu sequer creio possuir a verdade.
Penso que o erro  crer que primeiro vem a heresia, depois os simples que a ela se do (e
se condenam). Na verdade, primeiro vem a condio dos simples, depois a heresia.
  - E como?
   - Tu tens uma viso clara da constituio do povo de Deus. Um grande rebanho,
ovelhas boas e ovelhas ms, refreadas por ces mastins, os guerreiros, ou melhor, o
poder temporal, o imperador e os senhores guiados pelos pastores, os clrigos, os
intrpretes da palavra divina. A imagem  clara.
  - Mas no  verdadeira. Os pastores combatem com os ces, porque cada um deles
quer os direitos do outro.
  -  verdade, e  exatamente isso que torna imprecisa a natureza do rebanho. Perdidos
como so para se dilacerarem mutuamente, ces e pastores j no cuidam do rebanho.
Uma parte dele fica de fora.
  - Como de fora?
  - Nas margens. Camponeses no so camponeses, porque no tm terra, ou aquela que
tm no os alimenta. Cidados no so cidados, porque no pertencem nem a uma arte
nem a outra corporao, so a arraia-mida, presa de qualquer um. Viste alguma vez nos
campos grupos de leprosos?
  - Sim, uma vez vi cem juntos. Disformes, com a carne a desfazer-se e toda
esbranquiada, de muletas, plpebras inchadas, os olhos ensangentados, no falavam
nem gritavam: chiavam como ratos.
   - Eles so para o povo cristo os outros, os que se encontram nas margens do rebanho.
O rebanho odeia-os, eles odeiam o rebanho. Quereriam ver-nos todos mortos, todos
leprosos como eles.
   - Sim, recordo uma histria do rei Tristo, que devia condenar Isolda, a Bela, e a fazia
subir  fogueira e vieram os leprosos e disseram ao rei que a fogueira era castigo leve e
que havia um pior. E gritaram-lhe: d-nos Isolda, que pertena a todos ns, o mal acende
os nossos desejos, d-a aos teus leprosos, olha, os nossos farrapos esto colados s
chagas que gemem, ela, que a teu lado se comprazia com os ricos tecidos forrados de
baio e com as jias, quando vir a corte dos leprosos, quando tiver de entrar nos nossos
tugrios e deitar-se conosco, ento reconhecer deveras o seu pecado e ter saudades
deste belo fogo de saras!
   - Vejo que, sendo um novio de So Bento, tens leituras bastante curiosas - gracejou
Guilherme, e eu corei, porque sabia que um novio no devia ler romances de amor, mas
entre ns, rapazinhos, circulavam no mosteiro de Melk, e liamo-los de noite  luz da
vela. - Mas no importa - continuou Guilherme -, compreendeste o que queria dizer. Os
leprosos excludos quereriam arrastar todos na sua ruma. E tornar-se-o tanto piores
quanto mais os exclusos, e quanto mais os representares como uma corte de lmures que
querem a tua runa tanto mais eles sero excludos. So Francisco compreendeu isto, e a
sua primeira escolha foi ir viver entre os leprosos. No se muda o povo de Deus se no se
integrarem no seu corpo os marginais.
  - Mas vs falveis de outros excludos, no so os leprosos que compem os
movimentos herticos.
   - O rebanho  como uma srie de crculos concntricos, das mais amplas distncias do
rebanho  sua periferia imediata. Os leprosos so sinal da excluso em geral. So
Francisco tinha-o compreendido. No queria ajudar apenas os leprosos, que a sua ao
Ter-se-ia reduzido a um bem pobre e impotente ato de caridade. Queria significar outra
coisa. Contaram-te as prdicas aos pssaros?
  - Oh, sim, ouvi essa historia belssima e admirei o santo que gozava da companhia
daquelas ternas criaturas de Deus  disse com grande fervor.
   - Pois bem, contaram-te uma histria falsa, ou melhor, a histria que a ordem est
hoje a reconstruir. Quando Francisco falou ao povo da cidade e aos seus magistrados e
viu que estes no o compreendiam saiu para o cemitrio e ps-se a pregar a corvos e
pegas, a gavies, a aves de rapina que se alimentavam de cadveres.
  - Que coisa horrenda  disse -, no eram ento pssaros bons!
   - Eram aves de rapina, aves excludas, como os leprosos. Francisco pensava decerto
naquele verso do Apocalipse que diz: Vi um anjo, levantado no Sol, gritar com voz forte
e dizer a todas as aves que voavam ao sol, vinde e reuni-vos todas no grande banquete
de Deus, comei a carne de reis, a carne de tribunos e de soberbos, a carne de cavalos e
de cavaleiros, a carne de livres e de escravos, de pequenos e de grandes!
  - Ento, Francisco queria incitar os excludos  revolta?
   - No, isso fizeram-no quando muito Dolcino e os seus. Francisco queria chamar os
excludos, prontos para a revolta, a fazer parte do povo de Deus. Para recompor o
rebanho era preciso reencontrar os excludos. Francisco no conseguiu, e digo-te com
muita amargura. Para reintegrar os excludos devia agir no interior da Igreja, para agir
no interior da Igreja devia obter o reconhecimento da sua regra, da qual sairia uma
ordem, e uma ordem, como da resultou, recomporia a imagem de um crculo,  margem
do qual esto os excludos. Ento compreendes, agora, porque existem os bandos dos
fraticelli e dos joaquimitas, que renem  sua volta os excludos, uma vez mais.
   -Mas no estvamos a falar de Francisco, mas de como a heresia  o produto dos
simples e dos excludos.
   - De fato. Falvamos dos excludos do rebanho das ovelhas. Durante sculos, enquanto
o papa e o imperador se digladiavam nas suas diatribes de poder, estes continuaram a
viver nas margens, eles, os verdadeiros leprosos, dos quais os leprosos so apenas a
imagem disposta por Deus para que ns compreendssemos esta admirvel parbola e
dizendo leprosos compreendssemos excludos, pobres, simples, deserdados,
desenraizados dos campos, humilhados nas cidades. No compreendemos, o mistrio da
lepra continuou a obcecar-nos porque no reconhecemos a sua natureza de sinal.
Excludos como eram do rebanho, todos eles estavam prontos a escutar, ou a produzir,
qualquer pregao que, reclamando-se da palavra de Cristo, pusesse com eleito sob
acusao o comportamento dos ces e dos pastores e prometesse que um dia eles seriam
punidos. Isto, os poderosos sempre o compreenderam. A reintegrao dos excludos
impunha a reduo dos seus privilgios, por isso os excludos que assumiam conscincia
da sua excluso eram rotulados de hereges, independentemente da sua doutrina. E
estes, por seu lado, cegos pela sua excluso, no estavam verdadeiramente interessados
em nenhuma doutrina. A iluso da heresia  esta. Qualquer um  herege, qualquer um 
ortodoxo, no conta a f que um movimento oferece, conta a esperana que prope.
Todas as heresias so a bandeira de uma realidade da excluso. Raspa a heresia,
encontrars o leproso. Qualquer batalha contra a heresia quer somente isto: que o
leproso permanea tal como . Quanto aos leprosos, que lhes queres pedir? Que
distingam no dogma trinitrio ou na definio da eucaristia o que  justo e o que 
errado? Vamos, Adso, estes so jogos para ns, homens de doutrina. Os simples tm
outros problemas. E, repara, resolvem-nos todos da pior maneira. Por isso se tornam
hereges.
  - Mas porque  que alguns os apiam?
  - Porque servem o seu jogo, que raramente diz respeito  f e mais freqentemente 
conquista do poder.
  -  por isso que a Igreja de Roma acusa de heresia todos os seus adversrios?
  -  por isso, e  por isso que reconhece como ortodoxia a heresia que pode reconduzir
sob o seu prprio controle ou que tem de aceitar, porque se tornou demasiado forte e
no seria bom t-la como adversria. Mas no h uma regra precisa, depende dos
homens, das circunstncias. E isto  vlido tambm para os senhores laicos. H cinqenta
anos, a comuna de Pdua emitiu uma ordem pela qual quem matava um clrigo era
condenado  multa de um denrio grande...
  - Nada!
   - Exato. Era um modo de encorajar o dio popular contra os clrigos, a cidade estava
em luta contra o bispo. Agora compreendes porque, h tempos, em Cremona, os fiis do
imprio ajudaram os ctaros, no por razes de f, mas para colocar em embarao a
Igreja de Roma. Por vezes, as magistraturas citadinas encorajam os hereges porque
traduzem em lngua vulgar o Evangelho: o vulgar  hoje em dia a lngua das cidades, o
latim  a lngua de Roma e dos mosteiros. Ou ento apiam os valdenses porque afirmam
que todos, homens e mulheres, pequenos e grandes, podem ensinar e pregar, e o
operrio que  discpulo dez dias depois procura outro para se tornar seu mestre...
  - E assim eliminam a diferena que torna insubstituveis os clrigos! Mas ento porque
acontece depois que as prprias magistraturas citadinas se revoltam contra os hereges e
do mo forte  Igreja para os mandar queimar?
   - Porque se apercebem que a sua expanso tambm por em crise os privilgios dos
leigos que falam em lngua vulgar. J no conclio de Latro de mil cento e setenta e nove
(v que so histrias que remontam a quase a duzentos anos atrs), Walter Map punha
em guarda contra aquilo que aconteceria dando crdito queles homens idiotas e
iletrados que eram os valdenses. Disse, se bem recordo, que eles no tm morada fixa,
caminham descalos sem nada possurem, mantendo tudo em comum, seguindo nus o
Cristo nu; ora comeam deste modo humildssimo porque so excludos, mas, se se lhes
deixa demasiado espao, expuls-los-o a todos. Por isto, depois as cidades favoreceram
as ordens medicantes e a ns franciscanos em particular: porque permitamos
estabelecer uma relao harmoniosa entre necessidade de penitncia e vida citadina,
entre a Igreja e os burgueses que se interessavam pelos seus mercados...
  - Atingiu-se, ento, a harmonia entre amor de Deus e amor dos negcios?
   - No, bloquearam-se os movimentos de renovao espiritual, canalizaram-se nos
limites de uma ordem reconhecida pelo papa. Mas aquilo que serpenteava por baixo no
foi canalizado. Acabou, por um lado, nos movimentos dos flagelantes, que no fazem mal
a ningum, nos bandos armados como os de frei Dolcino, nos ritos de bruxaria como os
dos frades de Montefalco de que falava Ubertino...
  - Mas quem tinha razo, quem tem razo, quem est errado? - perguntei perdido.
  - Todos tinham as suas razes, todos erraram.
  - Mas vs - gritei quase num mpeto de rebelio -, porque no tomais posio, porque
no me dizeis onde est a verdade?
   Guilherme ficou algum tempo em silncio, levantando para a luz a lente sobre a qual
estava a trabalhar. Depois baixou-a sobre a mesa e mostrou-me, atravs da lente, um
ferro de trabalho:
  - Olha - disse-me -, que vs?
  - O ferro, um pouco maior.
  - A est, o mximo que se pode fazer  ver melhor.
  - Mas  sempre o mesmo ferro!
  - Tambm o manuscrito de Venancio ser sempre o mesmo manuscrito quando puder
l-lo graas a esta lente. Mas quando ler o manuscrito talvez conhea melhor uma parte
da verdade. E talvez possamos tornar melhor a vida da abadia.
  - Mas no basta!
   - Estou a dizer mais do que parece, Adso. Talvez que te falo de Roger Bacon.
Provavelmente no foi o homem mais sbio de todos os tempos, mas sempre me fascinou
a esperana que animava o seu amor pela sabedoria. Bacon acreditava na fora, nas
necessidades, nas invenes espirituais dos simples. No teria sido um bom franciscano
se no tivesse pensado que os pobres, os deserdados, os idiotas e os iletrados falam
muitas vezes com a boca de Nosso Senhor. Se tivesse podido conhec-los de perto, teria
prestado mais ateno aos fraticelli que aos provinciais da ordem. Os simples tm
qualquer coisa mais que os doutores, que muitas vezes se perdem  procura das leis mais
gerais. Eles tm a intuio do individual. Mas esta intuio, s por si, no basta. Os
simples captam uma verdade sua, talvez mais verdadeira que a dos doutores da Igreja,
mas depois consomem-na em gestos irrefletidos. Que  preciso fazer? Dar a cincia aos
simples? Demasiado fcil ou demasiado difcil. E depois, que cincia? A da biblioteca de
Abbone? Os mestres franciscanos puseram-se este problema. O grande Boaventura dizia
que os sbios devem levar a uma clareza conceptual a verdade implcita nos gestos dos
simples...
  - Como o captulo de Perugia e as doutas memrias de Ubertino que transformam em
decises teolgicas o apelo dos simples  pobreza - disse.
   - Sim, mas viste-o, chega tarde e, quando chega, a verdade dos simples j se
transformou na verdade dos poderosos, mais adequada para o Imperador Lus que para
um frade de vida pobre. Como ficar prximo da experincia dos simples mantendo-lhe,
por assim dizer, a virtude operativa, a capacidade de operar para a transformao e para
o melhoramento do seu mundo? Este era o problema de Bacon: Quod enim laicali
ruditate turgescit non habet effectum nisi fortuito, dizia. A experincia dos simples tem
sadas selvagens e incontrolveis. Sed opera sapientiae certa lege vallantur et in finem
debitum efficaciter diriguntur. Que  como dizer que mesmo na conduo das coisas
prticas, sejam elas a mecnica, a agricultura ou o governo de uma cidade,  preciso
uma espcie de teologia. Ele pensava que a nova cincia da natureza devia ser a nova
grande empresa dos doutos para coordenar, atravs de um conhecimento diverso dos
processos naturais, as necessidades elementares que constituam tambm o acervo
desordenado, mas a seu modo verdadeiro e justo, das expectativas dos simples. A nova
cincia, a nova magia natural. S que para Bacon esta empresa devia ser dirigida pela
Igreja, e creio que dizia isso porque, no seu tempo, a comunidade dos clrigos
identificava-se com a comunidade dos sbios. Hoje j no  assim, nascem sbios fora
dos mosteiros, e das catedrais, e at das universidades. V por exemplo neste pas, o
maior filsofo do nosso sculo no foi um monge, mas um boticrio. Falo daquele
florentino cujo poema ters ouvido nomear, que eu nunca li porque no compreendo o
seu vulgar, e pelo que sei me agradaria muito pouco, porque divaga sobre coisas muito
distantes da nossa experincia. Mas escreveu, creio, as coisas mais sbias que nos  dado
compreender sobre a natureza dos elementos e de todo o cosmo, e sobre a conduo dos
estados. Assim, penso que, como eu e os meus amigos consideramos hoje que para a
conduo das coisas humanas no compete  Igreja legislar mas  assemblia do povo, do
mesmo modo, no futuro, competir  comunidade dos doutos propor esta novssima e
humana teologia, que  filosofia natural e magia positiva.
  - Uma belssima empresa  disse -, mas  possvel?
  - Bacon acreditava nisso.
  - E vos?
  - Tambm eu acreditava nisso. Mas para acreditar nisso ser preciso estar certo de
que os simples tm razo porque possuem a intuio do individual, a nica que  boa.
Porm, se a intuio do individual  a nica que  boa como poder a cincia chegar a
recompor as leis universais atravs das quais, e pela interpretao das quais, a boa
magia se torna operante?
  - Pois  disse -, como poder?
   - J no sei. Tive muitas discusses em Oxford com o meu amigo Guilherme de Oscam,
que est agora em Avinho. Semeou de dvidas o meu esprito. Porque, se s a intuio
do individual  justa, o fato que causas do mesmo gnero tenham efeitos do mesmo
gnero  proposio difcil de provar. Um mesmo corpo pode ser frio ou quente, doce ou
amargo, mido ou seco, num lugar... e num outro lugar no. Como posso descobrir a
relao universal que torna ordenadas as coisas se no posso mover um dedo sem criar
uma infinidade de novos seres, pois que, com tal movimento, mudam todas as relaes
de posio entre o meu dedo e todos os outros objetos? As relaes so os modos pelos
quais a minha mente capta a relao entre seres singulares, mas qual  a garantia de que
este modo  universal e estvel?
  - Mas vs sabeis que a uma certa espessura de um vidro corresponde um certo poder
de viso, e  porque o sabeis que podeis agora construir lentes iguais quelas que
perdestes, seno como podereis?
   - Sutil resposta, Adso. Com efeito, eu elaborei esta proposio, que a espessura igual
deve corresponder igual poder de viso. Emiti-a porque de outras vezes tive intuies
individuais do mesmo tipo. Decerto  conhecido de quem experimenta a propriedade
curativa das ervas que todos os indivduos herbceos da mesma natureza tm no
paciente igualmente disposto, efeitos da mesma natureza, e por isso o experimentador
formula a proposio que toda a erva desse tipo ajuda o doente febril, ou que toda a
lente de tal tipo aumenta em igual medida a viso do olho. A cincia de que falava
Bacon versa indubitavelmente sobre estas proposies. Repara, falo de proposies sobre
as coisas, no de coisas. A cincia tem a ver com as proposies e os seus termos, e os
termos indicam coisas singulares. Compreendes, Adso, eu tenho de acreditar que a
minha proposio funciona, porque o aprendi com base na experincia, mas para o
acreditar tenho de supor que h leis universais, e no entanto no posso falar delas,
porque o prprio conceito de que existem leis universais e uma dada ordem das coisas
implicaria que Deus fosse prisioneiro delas, enquanto Deus  coisa to absolutamente
livre que, se quisesse, e com um s ato da sua vontade, o mundo seria de outra maneira.
  - Portanto, se bem compreendo, fazeis, e sabeis porque fazeis, mas no sabeis porque
sabeis que sabeis aquilo que fazeis?
  Devo dizer com orgulho que Guilherme me olhou com admirao.
  - Talvez seja assim. De qualquer modo, isso diz-te porque me sinto to inseguro da
minha verdade, mesmo se creio nela.
  - Sois mais mstico que Ubertino! - disse maliciosamente.
   - Talvez. Mas, como vs, trabalho sobre as coisas da natureza. E tambm na
investigao que estamos desenvolvendo no quero saber quem  bom ou quem  mau,
mas quem esteve no scriptorium ontem  noite, quem pegou nos culos, quem deixou
sobre a neve as pegadas de um corpo que arrasta outro corpo, e onde est Berengrio.
Isto so fatos depois tentarei lig-los entre si, se acaso for possvel, porque  difcil dizer
qual o efeito que  produzido por uma certa causa; bastaria a interveno de um anjo
para tudo mudar, por isso no  de admirar se no se pode demonstrar que uma coisa  a
causa de outra coisa. Mesmo que seja preciso tentar sempre, como estou fazendo.
  -  uma vida difcil, a vossa - disse.
  - Mas encontrei Brunello - exclamou Guilherme, aludindo ao cavalo de dois dias antes.
  - Ento h uma ordem do mundo!  gritei triunfante.
   - Ento h um pouco de ordem nesta minha pobre cabea  respondeu Guilherme.
Naquele momento entrou Nicolau, trazendo uma forquilha quase pronta e mostrando-a
triunfante. - E quando esta forquilha estiver sobre o meu pobre nariz  disse Guilherme -
talvez a minha pobre cabea esteja ainda mais condenada.
   Veio um novio informar-nos que o Abade queria ver Guilherme e o esperava no
jardim. O meu mestre foi obrigado a adiar as suas experincias para mais tarde, e
apressamo-nos para o lugar do encontro. Enquanto nos encaminhvamos para l,
Guilherme deu uma palmada na testa, como se s naquele momento se recordasse de
alguma coisa que tinha esquecido.
  - A propsito  disse -, decifrei os sinais cabalsticos de Venancio.
  - Todos?! Quando?
  - Quando dormias. E depende daquilo que estenderes por todos. Decifrei os sinais que
apareceram  chama, aqueles que tu copiaste. Os apontamentos em grego tm de
esperar que eu tenha umas novas lentes.
  - Ento? Tratava-se do segredo do finis Africae?
   - Sim, e a chave era bastante fcil. Venancio dispunha dos doze signos zodiacais e de
oito signos para os cinco planetas, os dois luminares e a Terra. Vinte signos ao todo. O
bastante para lhes associar as letras do alfabeto latino, dado que podes usar a mesma
letra para exprimir o som das duas iniciais de unum y velut. A ordem das letras, sabemo-
la. Qual podia ser a ordem dos signos? Pensei na ordem dos cus, quando o quadrante
zodiacal na ltima periferia. Portanto, Terra, Lua, Mercrio, Vnus, Sol, etctera, e
depois, em seguida, os signos zodiacais na sua seqncia tradicional, tal como tambm
os classifica Isidoro de Sevilha, a comear pelo Carneiro e pelo solstcio da Primavera,
acabando com os Peixes. Ora, se experimentares aplicar esta chave, eis que a mensagem
de Venancio adquire um sentido.
   Mostrou-me o pergaminho, sobre o qual tinha transcrito a mensagem em grandes
letras latinas: Secretum fins Africae manus supra idolum age primum et septimum de
quatuor.
  -  claro? - perguntou.
  - A mo sobre o dolo opera sobre o primeiro e sobre o stimo dos quatro... - repeti,
abanando a cabea. - No  mesmo nada claro!
   - Eu sei. Seria preciso antes de mais nada saber o que entendia Venancio por idolum.
Uma imagem, um fantasma, uma figura? E depois, que sero estes quatro que tm um
primeiro e um stimo? E que  preciso fazer deles? Mov-los, empurr-los, pux-los?
  - Ento no sabemos nada e estamos no ponto de partida  disse com grande
desapontamento.
  Guilherme parou e olhou para mim com um ar nada benvolo.
  - Meu rapaz  disse -, tens diante de ti um pobre franciscano que, com os seus
modestos conhecimentos e um pouco de habilidade, que deve ao infinito poder do
Senhor, conseguiu, em poucas horas, decifrar uma escrita secreta que o seu autor tinha a
certeza de que permaneceria hermtica para todos menos para ele... e tu, miservel
malandro iletrado, permites-te dizer que estamos no ponto de partida?
   Desculpei-me com muita atrapalhao. Tinha ferido a vaidade do meu mestre,
sabendo quanto ele era orgulhoso da rapidez e segurana das suas dedues. Guilherme
tinha na verdade concludo uma obra digna de admirao, e no era culpa sua se o
astutssimo Venancio no s tinha ocultado quanto tinha descoberto sob as aparncias de
um obscuro alfabeto zodiacal, mas tinha ainda elaborado um indecifrvel enigma.
  - No importa, no importa, no te desculpes - interrompeu-me Guilherme. - No fundo
tens razo, sabemos ainda muito pouco. Vamos.
  TERCEIRO DIA
  VSPERAS
  Onde se fala ainda com o Abade, Guilherme tem algumas idias mirabolantes para
decifrar o enigma do labirinto, e o consegue de modo mais razovel. Depois ele e Adso
comem queijo em pasteizinhos.
  O Abade esperava-nos com ar sombrio e preocupado. Tinha na mo um papel.
   - Recebi agora uma carta do Abade de Conques - disse. - Comunica-me o nome
daquele a quem Joo confiou o comando dos soldados franceses, e o cuidado da
incolumidade da delegao. No  um homem de armas, no  um homem de corte, e
ser ao mesmo tempo um membro da delegao.
  - Raro conbio de diferentes virtudes - disse Guilherme inquieto. - Quem ser?
  - Bernardo Gui, ou Bernardo Guidoni, como queirais chamar-lhe.
  Guilherme explodiu com uma exclamao na sua prpria lngua, que eu no
compreendi, nem o Abade, e talvez fosse melhor para todos, porque a palavra que
Guilherme disse sibilava de modo obsceno.
  - A coisa no me agrada - acrescentou logo. - Bernardo foi durante anos martelo dos
hereges na regio de Toulouse e escreveu uma Practica officii inquisitionis heretice
pravi-tatis para uso de todos aqueles que tenham de perseguir e destruir valdenses,
beguinos, santanrios fraticelli e dolcinianos.
  - Eu sei. Conheo o livro, admirvel de doutrina.
   - Admirvel de doutrina - admitiu Guilherme. -  dedicado a Joo, que em anos
passados lhe confiou muitas misses na Flandres e aqui na Alta Itlia. E, mesmo quando
foi nomeado bispo da Galiza, nunca o viram na sua diocese e continuou a atividade
inquisitorial. Agora julgava que se tivesse retirado no bispado de Lodve, mas, ao que
parece, Joo repe-no em ao e precisamente aqui na Itlia Setentrional. Porqu
precisamente Bernardo e porqu com a responsabilidade dos homens armados?
   - A resposta existe - disse o Abade - e confirma todos os temores que vos exprimia
ontem. Sabeis bem, mesmo que no queirais admiti-lo comigo, que as posies sobre a
pobreza de Cristo e da Igreja defendidas pelo captulo de Perugia, embora com
abundncia de argumentos teolgicos, so as mesmas que, de modo muito menos
prudente e com um comportamento menos ortodoxo, defendem muitos movimentos
herticos. No  preciso muito para demonstrar que as posies de Miguel de Cesena,
feitas suas pelo imperador, so as mesmas de Ubertino e de Angelo Clareno. E at aqui
as duas delegaes estaro de acordo. Mas Gui poderia fazer mais, e tem habilidade para
isso: procurar defender que as teses de Perugia so as mesmas dos fraticelli, ou dos
pseudo-apstolos. Estais de acordo?
  - Dizeis que as coisas esto assim ou que Bernardo Gui dir que esto assim?
  - Digamos que digo que ele o dir - concedeu prudentemente o Abade.
   - Concordo tambm eu. Mas isso estava previsto. Quero dizer, sabia-se que se chegaria
a isso mesmo sem a presena de Bernardo. No mximo, Bernardo f-lo- com mais
eficincia do que muitos curiais de pouco valor, e tratar-se- de discutir contra ele com
maior sutileza.
   - Sim - disse o Abade -, mas nesse caso estamos diante da questo suscitada ontem. Se
no encontramos at amanh o culpado de dois ou talvez trs delitos, terei de conceder
a Bernardo que exera uma vigilncia sobre as coisas da abadia. No posso ocultar a um
homem investido com o poder de Bernardo (e por nosso mtuo acordo, recordemo-lo)
que aqui na abadia aconteceram, esto ainda a acontecer, fatos inexplicveis. Seno, no
momento em que ele o descobrisse, no momento em que (Deus no queira) acontecesse
um novo fato misterioso, ele teria todo o direito de gritar que tinha havido traio...
   -  verdade - murmurou Guilherme preocupado. - No h nada a fazer.  preciso
estarmos atentos e vigiar Bernardo, que vigiar o misterioso assassino. Talvez seja um
bem, porque Bernardo, ocupado a cuidar do assassino, estar menos disponvel para
intervir na discusso.
  - Bernardo ocupado em descobrir o assassino ser um espinho no flanco da minha
autoridade, recordai-vos disso. Esta obscura histria impe-me pela primeira vez a
cedncia de parte do meu poder dentro destas muralhas, e  um fato novo no s na
histria desta abadia mas da prpria ordem clunicense. Faria fosse o que fosse para o
evitar. E a primeira coisa a fazer seria negar hospitalidade s delegaes.
   - Rogo ardentemente a Vossa Sublimidade que reflita sobre essa grave deciso - disse
Guilherme. - Vs tendes nas mos uma carta do imperador que vos convida
calorosamente a...
  - Sei aquilo que me liga ao imperador - disse bruscamente o Abade -, e sabei-lo
tambm vs. E portanto sabeis que infelizmente no posso retroceder. Mas tudo isto est
muito feio. Onde est Berengrio?, que lhe aconteceu?, que estais fazendo?
   - Sou apenas um frade que conduziu h muito tempo eficazes investigaes
inquisitoriais. Vs sabeis que no se encontra a verdade em dois dias. E, afinal, que
poder me haveis concedido? Posso entrar na biblioteca? Posso fazer todas as perguntas
que quiser, defendido sempre pela vossa autoridade?
  - No vejo a relao entre os delitos e a biblioteca  disse carrancudo o Abade.
  - Adelmo era miniaturista, Venancio tradutor, Berengrio ajudante-bibliotecrio... -
explicou pacientemente Guilherme.
   - Nesse sentido, os sessenta monges tm que ver com a biblioteca, tal como tm a ver
com a igreja. Porque  que ento no procurais na igreja? Frade Guilherme, vs estais
conduzindo um inqurito por meu mandado e nos limites em que vos pedi para o
conduzirdes. Quanto ao resto, dentro deste recinto, eu sou o nico senhor depois de
Deus, e por sua graa. E isto valer tambm para Bernardo. Por outro lado - acrescentou
em tom mais manso -, nem sequer  dito que Bernardo esteja aqui para o encontro. O
abade de Conques escreve-me tambm que desce  Itlia para prosseguir para o sul. Diz-
me tambm que o papa pediu ao cardeal Bertrando do Poggetto para vir de Bolonha e se
dirigir para aqui para tomar o comando da delegao pontifcia. Bernardo vem aqui
talvez para se encontrar com o cardeal.
  - O que, numa perspectiva mais ampla, seria pior. Bertrando  o martelo dos hereges
na Itlia Central. Este encontro entre dois campees da luta anti-hertica pode anunciar
uma ofensiva mais vasta no pas, para envolver no fim todo o movimento franciscano...
  - E disto informaremos imediatamente o imperador - disse o Abade -, mas neste caso o
perigo no seria imediato. Vigiaremos. Adeus.
  Guilherme ficou um momento silencioso enquanto o Abade se afastava. Depois disse-
me:
  - Sobretudo, Adso, procuremos no nos deixar dominar pela pressa. As coisas no se
resolvem rapidamente quando tm de se acumular tantas pequenas experincias
individuais. Eu volto ao laboratrio, porque sem as lentes no s no poderei ler o
manuscrito mas tambm no convir sequer que se volte esta noite  biblioteca. Tu vai
informar-te se se sabe alguma coisa de Berengrio.
   Naquele momento correu ao nosso encontro Nicolau de Morimondo, portador de
pssimas notcias. Quando procurava lapidar melhor a melhor lente, aquela em que
Guilherme depositava tantas esperanas, esta quebrara-se. E uma outra, que talvez
pudesse substitui-la, tinha-se rachado quando tentava encaix-la na forquilha. Nicolau
mostrou-nos desconsoladamente, o cu. Era j a hora de vsperas, e a obscuridade
estava descendo. Naquele dia j no se poderia trabalhar. Mais um dia perdido,
reconheceu amargamente Guilherme, reprimindo (como me confessou depois) a tentao
de agarrar pelo pescoo o vidreiro desajeitado, que, alis, j estava bastante humilhado.
  Deixamo-lo com a sua humilhao e fomos informar-nos acerca de Berengrio.
Naturalmente, ningum o tinha encontrado.
   Sentamo-nos num ponto morto. Passeamos um pouco pelo claustro, sem saber que
fazer. Mas, pouco depois, vi que Guilherme estava absorto, com o olhar perdido no ar,
como se no visse nada. Havia pouco tinha tirado do saio um raminho daquelas ervas que
o tinha visto colher semanas antes, e estava-o mastigando como se dele retirasse uma
espcie de calma excitao. De fato parecia ausente, mas de vez em quando os seus
olhos iluminavam-se, como se no vazio da sua mente se tivesse acendido um idia nova;
depois recaa naquele seu singular e ativo hebetismo. De repente disse:
  - Decerto, poder-se-ia...
  - O qu? - perguntei.
   - Pensava num modo de nos orientarmos no labirinto. No  simples de realizar, mas
seria eficaz... No fundo, a sada  no torreo oriental, e isso sabemo-lo. Ora supe que
tnhamos uma mquina que nos diz de que lado est o setentrio. Que aconteceria?
  - Que naturalmente bastaria girar para a direita e dirigir-nos-amos para oriente. Ou
ento bastaria ir em sentido contrrio, e saberamos que amos para o torreo
meridional. Mas, mesmo admitindo que existisse semelhante magia, o labirinto 
precisamente um labirinto, e mal nos dirigssemos para oriente encontraramos uma
parede que nos impediria de ir a direito e perderamos de novo o caminho... - observei.
   - Sim, mas a mquina de que falo indicaria sempre a direo do setentrio, mesmo
que ns tivssemos mudado o caminho, e a cada momento dir-nos-ia para que lado
voltar.
   - Seria maravilhoso. Mas seria preciso ter essa mquina, e ela deveria ser capaz de
reconhecer setentrio de noite e em local fechado, sem poder ver nem o Sol nem as
estrelas... E no creio que mesmo o vosso Bacon possusse uma mquina semelhante! - ri.
   - E no entanto enganas-te - disse Guilherme -, porque uma mquina do gnero foi
construda e alguns navegadores usaram-na. Ela no tem necessidade das estrelas nem
do Sol, porque desfruta a fora de uma pedra maravilhosa, igual quela que vimos no
hospital de Severino, aquela que atrai o ferro. E foi estudada por Bacon e por um mago
picardo, Pedro de Maricourt, que descreveu os seus mltiplos usos.
  - E vs sabereis constru-la?
   - Em si no seria difcil. A pedra pode ser usada para produzir muitas mirabilia, entre
elas uma mquina que se move perpetuamente sem nenhuma fora externa, mas o
achado mais simples foi tambm descrito por um rabe, Baylek al Qabayaki. Pegas num
vaso cheio de gua e pes-lhe a flutuar uma rolha de cortia em que enfiaste uma agulha
de ferro. Depois passas a pedra magntica sobre a superfcie da gua, com um
movimento circular, at que a agulha adquira as mesmas propriedades da pedra. E ento
a agulha, mas f-lo-ia tambm a pedra se tivesse tido a possibilidade de se mover em
torno de um eixo, coloca-se com a ponta na direo de setentrio, e se tu te moveres
com o vaso, ele volta-se sempre para o lado da tramontana.  intil que te diga que se
tiveres marcado no bordo do vaso, em relao a transmontana, tambm as posies de
austro, aquilo e assim sucessivamente, sabers sempre para que lado te hs-de mover
na biblioteca para chegar ao torreo oriental.
   - Que coisa maravilhosa! - exclamei. - Mas porque  que a agulha aponta sempre para
setentrio? A pedra atrai o ferro, eu vi, e imagino que uma imensa quantidade de ferro
atraia a pedra. Mas ento... ento na direo da Estrela Polar, nos limites extremos do
globo, existem grandes minas de ferro!
   - Algum sugeriu de fato que  assim. Salvo que a agulha no aponta exatamente na
direo da estrela nutica, mas para o ponto de encontro dos meridianos celestes. Sinal
que, como foi dito, hic lapis gerit in se similitudinem coeli, e os plos do magnete
recebem a sua inclinao dos plos do cu e no dos da terra. O que  um belo exemplo
de movimento impresso a distncia e no por direta causalidade material: um problema
de que se est ocupando o meu amigo Joo de Gianduno, quando o imperador no lhe
pede que faa afundar Avinho nas vsceras da terra...
   - Ento vamos buscar a pedra de Severino, e um vaso, e gua, e uma rolha de cortia -
disse excitado.
  - Devagar, devagar - disse Guilherme. - No sei porqu, mas nunca vi uma mquina
que, perfeita na descrio dos filsofos, seja perfeita depois no seu funcionamento
mecnico. Enquanto a pdoa de um campons, que nenhum filsofo jamais descreveu,
funciona como deve ser... Tenho receio de que girando pelo labirinto com uma candeia
numa mo e um vaso cheio de gua na outra... Espera, ocorre-me outra idia. A mquina
indicaria setentrio mesmo se estivssemos fora do labirinto, no e?
  - Sim, mas nesse caso no nos serviria porque teramos o Sol e as estrelas... - disse.
  - Eu sei, eu sei. Mas, se a mquina funciona tanto fora como dentro, porque no havia
de ser assim tambm para a nossa cabea?
  - A nossa cabea? Decerto que ela funciona tambm fora, e, efetivamente, de fora
sabemos muito bem qual  a orientao do Edifcio! Mas  quando estamos dentro que j
no compreendemos nada!
   - Exatamente. Mas esquece agora a mquina. Pensar na mquina induziu-me a pensar
nas leis naturais e nas leis do nosso pensamento. Eis a questo: temos de encontrar de
fora um modo de descrever o Edifcio como  por dentro...
  - E como?
  - Deixa-me pensar. No deve ser assim to difcil...
  - E o mtodo que mencionavas fazer? No quereis percorrer o labirinto fazendo sinais
com um carvo?
   - No  disse -, quanto mais penso nisso, menos me convence. Talvez consiga recordar
bem a regra, ou talvez para andar num labirinto seja preciso ter uma boa Ariana que te
espere  porta segurando a ponta de um fio. Mas no existem fios assim to longos. E
ainda que existissem, isso significaria (muitas vezes as tabulas dizem a verdade) que s
se sai dum labirinto com uma ajuda externa. Onde as leis do exterior sejam iguais s do
interior. Pronto, Adso, usaremos as cincias matemticas. S nas cincias matemticas,
como diz Averroes, se identificam as coisas conhecidas por ns com as conhecidas de
modo absoluto.
  - Ento vedes que admitis conhecimentos universais.
   - Os conhecimentos matemticos so proposies construdas pelo nosso intelecto de
modo a funcionarem sempre como verdadeiras, ou porque so inatas ou porque a
matemtica foi inventada antes das outras cincias. E a biblioteca foi construda por
uma mente humana que pensava de modo matemtico, porque sem matemtica no se
fazem labirintos. E, portanto, trata-se de confrontar as nossas proposies matemticas
com as proposies do construtor, e deste confronto pode surgir cincia, porque 
cincia de termos sobre termos. E, em todo o caso, pra de me arrastar para discusses
metafsicas. Que bicho te mordeu hoje? Melhor, tu que tens bons olhos pegar num
pergaminho, numa tabuinha, alguma coisa em que fazer sinais, e um estilete... bem,
tens tudo, timo, Adso. Vamos dar uma volta em torno do Edifcio, enquanto temos
ainda um pouco de luz.
   Andamos portanto longamente em torno do Edifcio. Isto , examinamos de longe os
torrees oriental meridional e ocidental com as paredes que os ligavam. Porque, quanto
ao resto, dava para o despenhadeiro, mas, por razes de simetria, no devia ser
diferente daquilo que vamos.
  E aquilo que vamos, observou Guilherme enquanto me fazia tomar notas precisas na
minha tabuinha, era que cada muro tinha duas janelas, e cada torreo cinco.
   - Ora raciocina - disse-me o meu mestre. - Cada uma das salas que vimos tinha uma
janela...
  - Menos as de sete lados - disse.
  - E  natural, so as do centro de cada torre.
  - E menos algumas que encontramos sem janelas e no eram heptagonais.
   - Esquece-as. Primeiro encontremos a regra, depois procuremos justificar as excees.
Portanto, teremos no exterior cinco salas por cada torre e duas salas por cada muro,
cada uma com uma janela. Mas se de uma sala com janela se prossegue para o interior
do edifcio encontra-se uma outra sala com janela. Sinal de que se trata das janelas
interiores. Ora que forma tem o poo interior, tal como se v na cozinha e no
scriptorium?
  - Octogonal - disse.
   - timo. E de cada lado do octgono, no scriptorium, abrem-se duas janelas. Isto quer
dizer que por cada lado do octgono h duas salas interiores? Exato?
  - Sim, mas e as salas sem janela?
  - So oito ao todo. De fato, a sala interna de cada torreo, de sete lados, tem cinco
paredes que do para cada uma das cinco salas de cada torreo. Com que confinam as
outras duas paredes? No com uma sala situada ao longo das paredes exteriores, porque
haveria janelas, nem com uma disposta ao longo do octgono, pelas mesmas razes, e
porque seriam ento salas exageradamente compridas. Tenta efetivamente traar um
desenho de como poder aparecer a biblioteca vista do alto. Vs que correspondendo a
cada torre deve haver duas salas que confinam com a sala heptagonal e do para duas
salas que confinam com o poo octogonal interior.
  Tentei traar o desenho que o meu mestre me sugeria e lancei um grito de triunfo.
   - Mas ento sabemos tudo! Deixai-me contar... A biblioteca tem cinqenta e seis salas,
das quais quatro heptagonais e cinqenta e duas mais ou menos quadradas, e, destas,
quatro no tm janelas, enquanto vinte e oito do para o exterior e dezesseis para o
interior!
   - E os quatro torrees tm cada um cinco salas de quatro lados e uma de sete... A
biblioteca est construda segundo uma harmonia celeste a que se podem atribuir vrios
e mirficos significados...
  - Esplndida descoberta  disse -, mas ento porque  to difcil orientarmo-nos nela?
   - Porque aquilo que no corresponde a nenhuma lei matemtica  a disposio das
passagens. Algumas salas permitem a passagem a muitas outras, algumas outras a uma
s, e h que perguntar se no haver salas que no permitem a passagem a nenhuma. Se
considerares este elemento, mais a falta de luz e a ausncia de indcio fornecido pela
posio do Sol (e acrescenta-lhes as vises e os espelhos), compreenders como o
labirinto  capaz de confundir quem quer que o percorra, j agitado por um sentimento
de culpa. Por outro lado, pensa como ns estvamos desesperados ontem a noite quando
no conseguamos encontrar o caminho. O mximo de confuso conseguido com o
mximo de ordem: parece-me um clculo sublime. Os construtores da biblioteca eram
grandes mestres.
  - Como faremos ento para nos orientarmos?
   - No ponto em que estamos no  difcil. Com o mapa que tu traaste, e que bem ou
mal deve corresponder ao traado da biblioteca, logo que estejamos na primeira sala
heptagonal, mover-nos-emos de modo a encontrar imediatamente uma das duas salas
cegas. Depois voltando sempre  direita, depois de trs ou quatro salas, deveremos estar
de novo num torreo, que no poder ser seno o torreo setentrional, at voltar a uma
outra sala cega, que  esquerda confinar com a sala heptagonal e  direita dever
permitir-nos encontrar um trajeto anlogo quele que te acabo de dizer, at chegar ao
torreo ocidental.
  - Sim, se todas as salas dessem para todas as salas...
  - De fato. E para isso precisamos do teu mapa, para marcar as paredes inteiras, de
modo a saber que desvios vamos fazendo. Mas no ser difcil.
  - Mas temos a certeza de que funcionar? - perguntei perplexo, porque me parecia
tudo demasiado simples.
    - Funcionar - respondeu Guilherme. - Omnes enim causae effectuum naturalium
dantur per lineas, ngulos et figuras. Aliter enim impossibile est scire propter quid in
illis. - citou. - So palavras de um dos grandes mestres de Oxford. Mas infelizmente no
sabemos ainda tudo. Aprendemos a maneira de no nos perdermos. Agora trata-se de
saber se h uma regra que governa a distribuio dos livros nas salas. E os versculos do
Apocalipse dizem-nos muito pouco, at porque muitos se repetem igualmente em salas
diferentes...
  - E no entanto o livro do apstolo permitiria encontrar bem mais de cinqenta e seis
versculos!
  - Sem dvida. Portanto, s alguns versculos so bons. Estranho. Como se tivessem tido
menos de cinqenta, trinta, vinte... Oh, pela barba de Merlim!
  - De quem?
  - No tem importncia, ... um mago da minha terra... Usaram tantos versculos
quantas as letras do alfabeto! Claro que  assim! O texto dos versculos no conta,
contam as letras iniciais. Cada sala  assinalada por uma letra do alfabeto, e todas
juntas compem um texto que temos de descobrir!
  - Como um carme figurado, em forma de cruz ou de peixe!
   - Mais ou menos, e provavelmente no tempo em que a biblioteca foi constituda este
tipo de carmes estava muito em voga.
  - Mas de onde se inicia o texto?
  - Duma inscrio maior que as outras, da sala heptagonal do torreo da entrada... ou
ento... mas  claro, das frases a vermelho!
  - Mas so tantas!
   - E portanto haver muitos textos, ou muitas palavras. Agora tu vais copiar melhor e
em ponto maior o teu mapa, depois, ao visitar a biblioteca, no s marcars com o teu
estilete, e ao de leve, as salas por onde passarmos, e a posio das portas e das paredes
(no falando das janelas), mas tambm a letra inicial do versculo que a aparece, e, de
qualquer modo, como um bom miniaturista, fars maiores as letras a vermelho.
   - Mas como  que - disse admirado - fostes capaz de resolver o mistrio da biblioteca
olhando-a de fora e no o resolvestes quando estveis l dentro?
  - Assim Deus conhece o mundo, porque o concebeu na sua mente, como do exterior,
antes que fosse criado, enquanto ns no lhe conhecemos a regra, porque vivemos
dentro dele encontrando-o j feito.
  - Assim podem conhecer-se as coisas observando-as do exterior!
   - As coisas da arte, porque voltamos a percorrer na nossa mente as operaes do
artfice. No as coisas da natureza, porque no so obra da nossa mente.
  - Mas para a biblioteca isso basta-nos, no  verdade?
   - Sim - disse Guilherme. - Mas s para a biblioteca. Agora vamos descansar. Eu no
posso fazer nada at amanh de manh quando tiver... espero... as minhas lentes. Mais
vale dormir e levantarmo-nos cedo. Procurarei refletir.
  - E a ceia?
   - Ah, sim, a ceia. Passou a hora entretanto. Os monges j esto em completas. Mas
talvez a cozinha ainda esteja aberta. Vai buscar alguma coisa.
  - Roubar?
  - Pedir. A Salvador, que agora  teu amigo.
  - Mas roubar ele.
  - s por acaso o guarda do teu irmo? - perguntou Guilherme com as palavras de Caim.
   Mas apercebi-me que gracejava e queria dizer que Deus  grande e misericordioso. Por
isso pus-me  procura de Salvador, e encontrei-o perto das cavalarias.
  - Belo - disse apontando para Brunello, e como para puxar conversa. - Gostava de o
montar.
   - No se puede. Abbonis est. Mas no  preciso um bom cavalo para correr muito. -
Indicou-me um cavalo robusto mas desajeitado - Mesmo aquele sufficit... Vide illuc,
tertius equi...
  Queria indicar-me o terceiro cavalo. Ri-me do seu engraadssimo latim.
  - E que fars com aquele? - perguntei-lhe.
   E contou-me uma histria estranha. Disse que se podia tornar qualquer cavalo, mesmo
o animal mais velho e fraco, to veloz como Brunello.  preciso misturar na sua aveia
uma erva que se chama satirio, bem moda, e depois untar-lhe as coxas com gordura de
veado. Depois sobe-se para o cavalo e antes de o esporear volta-se-lhe o focinho para
levante e pronunciam-se-lhe ao ouvido, trs vezes em voz baixa, as palavras Gaspar,
Melchior, Melquisardo. O cavalo partir  desfilada e far numa hora o caminho que
Brunello faria em oito horas. E se se lhe tivesse suspenso ao pescoo os dentes de um
lobo que o prprio cavalo, correndo, tivesse morto, o animal no sentiria sequer o
cansao.
   Perguntei-lhe se alguma vez tinha experimentado. Disse-me, aproximando-se
circunspecto e sussurrando-me ao ouvido, com o seu hlito deveras desagradvel, que
era muito difcil, porque o satirio agora s era cultivado pelos bispos e pelos cavaleiros
seus amigos, que se serviam dele para aumentarem o seu poder. Pus fim ao seu discurso
e disse-lhe que naquela noite o meu mestre queria ler uns livros na cela e desejava
comer l em cima.
  -  c comigo  disse -, fao um pastelzinho de queijo.
  - Como ?
  - Facilis. Pegas no queijo que no seja demasiado velho, nem demasiado salgado, e
cortado em fatias, em bocados quadrados ou sicut te agradar. Et postea pors um pouco
de manteiga, ou melhor, de banha fresca  rechauffer sobre a brasia. E dentro vamos a
pr duas fatias de queijo, e quando te parecer que est quente, zucharum et canela
supra positurum du bis. E manda-o imediatamente in tabula, que se que comido quente.
  - Vai pelo pastelzinho de queijo - disse-lhe.
  E ele desapareceu em direo s cozinhas, dizendo-me que o esperasse. Chegou meia
hora depois com um prato coberto com um pano. O cheiro era bom.
  - Toma - disse-me, e estendeu-me tambm uma grande candeia cheia de azeite.
  - Para fazer o qu? - perguntei.
   - Sais pas, moi - disse com ar manhoso. - Fileisch o teu magiste quer ir ao lugar escuro
esta noite.
   Salvador sabia evidentemente mais do que eu suspeitava. No investiguei o qu, e
levei a comida a Guilherme. Comemos, e eu retirei-me para minha cela. Ou, pelo menos,
fingi. Queria ainda encontrar Ubertino, e as escondidas entrei na Igreja.
  TERCEIRO DIA
  DEPOIS DE COMPLETAS
   Onde Ubertino conta a Adso a Histria de frei Dolcino, Adso evoca ou l outras
histrias na biblioteca por sua conta e depois sucede que tem um encontro com uma
rapariga bela e terrvel como um exrcito alinhado para a batalha.
   De fato encontrei Ubertino ao p da esttua da Virgem. Uni-me silenciosamente a ele
e, por um momento, fingi (confesso-o) que rezava. Depois atrevi-me a falar-lhe.
  - Padre santo - disse-lhe -, posso pedir-lhe luz e conselho?
  Ubertino olhou para mim, tomou-me pela mo e levantou-me, conduzindo-me a
sentar-me com ele numa cadeira. Estreitou-me nos seus braos, e pude sentir o seu
hlito no meu rosto.
  - Filho carssimo - disse -, tudo aquilo que este pobre velho pecador puder fazer pela
tua alma, ser feito com alegria. Que te perturba? As nsias, no  verdade? - perguntou
quase com nsia ele tambm. - As nsias da carne?
  - No - respondi corando -, quando muito as nsias da mente, que quer conhecer
demasiadas coisas...
  - E  mal. O Senhor conhece as coisas, a ns cabe apenas adorar a sua sapincia.
  - Mas a ns cabe tambm distinguir o bem do mal e compreender as paixes humanas.
Sou novio, mas serei monge e sacerdote, e tenho de aprender onde est o mal e que
aspecto tem, para um dia o reconhecer e para ensinar os outros a reconhec-lo.
  - Isso  justo, rapaz. E ento que queres conhecer?
  - A planta m da heresia, padre - disse com convico. E depois, tudo de uma vez: -
Ouvi falar de um homem malvado que seduziu outros, frei Dolcino.
  Ubertino ficou em silncio. Depois disse:
   -  justo, ouviste-nos fazer-lhe referncia uma noite destas com frade Guilherme. Mas
 uma histria muito triste, de que me faz mal falar, porque ensina (sim, neste sentido
devers sab-la, para tirar dela um til ensinamento), porque ensina, dizia, como do
amor de penitncia e do desejo de purificar o mundo pode nascer sangue e extermnio.
  Sentou-se melhor, alargando o seu abrao em volta dos meus ombros, mas mantendo
sempre uma mo no meu pescoo, como para me comunicar no sei se a sua sapincia ou
o seu ardor.
  - A histria comea antes de frei Dolcino  disse -, h mais de sessenta anos, e eu era
uma criana. Foi em Parma. Ali comeou a pregar um certo Gerardo Segalelli, que
convidava todos  vida de penitncia e percorria as estradas gritando penitenciagite!,
que era o seu modo de homem inculto para dizer: Penitentiam agite, appropinquabit
enim regnum coelorum. Convidava os seus discpulos a tornarem-se semelhantes aos
apstolos, e quis que a sua seita fosse denominada na ordem dos apstolos e que os seus
percorressem o mundo como pobres mendicantes vivendo s de esmolas...
   - Como os fraticelli - disse. - No era este o mandato de Nosso Senhor e do vosso
Francisco?
   - Sim - admitiu Ubertino com uma ligeira hesitao na voz e com um suspiro. - Mas
provavelmente Gerardo exagerou. Ele e os seus foram acusados de j no reconhecerem
a autoridade dos sacerdotes, a celebrao da missa, a confisso, e de vagabundearem no
cio.
  - Mas tambm foram acusados disso os franciscanos espirituais. E no dizem hoje os
menoritas que no se deve reconhecer a autoridade do papa?
   - Sim, mas no a dos sacerdotes. Ns prprios somos sacerdotes. Meu rapaz,  difcil
distinguir nestas coisas. A linha que divide o bem do mal e to sutil... De qualquer modo,
Gerardo errou e manchou-se de heresia... Pediu para ser admitido na ordem dos
menores, mas os nossos irmos no o aceitaram. Passava os dias na igreja dos nossos
frades, e ali viu pintados os apstolos com sandlias nos ps e capas em volta dos
ombros, e assim deixou crescer os cabelos e a barba, ps sandlias nos ps e a corda dos
frades menores, porque seja quem for que queira fundar uma nova congregao vai
sempre buscar alguma coisa  ordem do beato Francisco.
  - Mas ento estava na verdade...
   - Mas errou nalguma coisa... Vestido com um manto branco sobre uma tnica branca e
com os cabelos compridos conquistou entre os simples fama de santidade. Vendeu uma
casita que tinha e, recebido o pagamento, subiu a uma pedra de onde, em tempos
antigos, as autoridades costumavam pregoar, e, com o saquinho das moedas na mo, no
as espalhou nem as deu aos pobres, mas, tendo chamado uns malandros que jogavam ali
perto, espalhou-as entre eles dizendo: Que as leve quem quiser, e aqueles malandros
pegaram no dinheiro e foram jog-lo aos dados, e blasfemavam contra Deus vivo, e ele,
que tinha dado, ouvia e no corava.
   - Mas Francisco tambm se despojou de tudo, e ouvi hoje a Guilherme que foi pregar a
gralhas e gavies, e tambm aos leprosos, isto ,  ral, que o povo dos que se diziam
virtuosos mantinha  margem...
   - Sim, mas Gerardo nalguma coisa errou, Francisco nunca entrou em choque com a
Santa Igreja, e o Evangelho manda dar aos pobres, no aos malandros. Gerardo deu e no
recebeu nada em troca, porque tinha dado a gente m, e teve mau princpio, mau
prosseguimento e mau fim, porque a sua congregao foi condenada pelo papa Gregrio
X.
  - Provavelmente  disse - era um papa menos clarividente que aquele que aprovou a
regra de Francisco...
   - Sim, mas nalguma coisa Gerardo errou, e Francisco, pelo contrrio, sabia bem o que
fazia. E enfim, rapaz, estes guardadores de porcos e de vacas que de um dia para o outro
se tornam pseudo-apstolos queriam, beatamente e sem suor, viver das esmolas
daqueles que os frades menores tinham educado com tanta fadiga e com to herico
exemplo de pobreza! Mas no se trata disso - acrescentou logo -,  que para se
assemelhar aos apstolos, que ainda eram judeus, Gerardo Segalelli fez-se circuncidar, o
que vai contra as palavras de Paulo aos Glatas, e tu sabes que muitas e santas pessoas
anunciam que o Anticristo futuro vir do povo dos circuncisos... Mas Gerardo fez pior,
andava reunindo os simples e dizia: Vinde comigo  vinha, e aqueles que no o
conheciam entravam com ele na vinha alheia, julgando-a sua, e comiam as uvas dos
outros...
  - No devem ter sido os frades menores a defender a propriedade dos outros - disse
impudentemente.
  Ubertino fixou-me com olhar severo:
   - Os frades menores pedem para ser pobres, mas nunca pediram aos outros que fossem
pobres. No se pode impunemente atentar contra a propriedade dos bons cristos, os
bons cristos apontar-te-o como um bandido. E assim aconteceu a Gerardo. De quem
disseram, enfim (repara eu no sei se  verdade, e confio nas palavras de frade
Salimbene, que conheceu aquela gente), que, para pr  prova a sua fora de vontade e
a sua continncia, dormiu com algumas mulheres sem ter relaes sexuais; mas, quando
os seus discpulos tentaram imit-lo, os resultados foram bem diversos... Oh, no so
coisas que deva saber um rapaz, a fmea  baixel do demnio... Gerardo continuava a
gritar penitenciagite, mas um seu discpulo, um certo Guido Putagio, procurou tomar a
direo do grupo, e andava com grande pompa com muitas cavalgaduras e fazia grandes
despesas e banquetes como os cardeais da Igreja de Roma. E depois houve rixas entre
eles pelo comando da seita, e aconteceram coisas de grande torpeza. E no entanto
muitos vieram junto de Gerardo, no s camponeses, mas tambm gente das cidades,
inscritos nas artes, e Gerardo mandava-os despir a fim de que nus seguissem Cristo nu, e
mandava-os pelo mundo a pregar, mas ele, para si, mandou fazer uma veste sem
mangas, branca, de tecido grosso, e assim vestido mais parecia um bufo que um
religioso! Viviam ao ar livre, mas por vezes subiam aos plpitos das igrejas
interrompendo a assemblia do povo devoto e expulsando os pregadores, e uma vez
puseram um menino no trono episcopal da igreja de Sant Orso, em Ravena. E diziam-se
herdeiros da doutrina de Joaquim de Fiore...
  - Mas tambm os franciscanos  disse -, tambm Gerardo de Borgo San Donnino,
tambm vs o disseste! - exclamei.
  - Acalma-te, rapaz. Joaquim de Fiore foi um grande profeta e foi o primeiro a
compreender que Francisco havia de marcar a renovao da Igreja. Mas os pseudo-
apstolos usaram a sua doutrina para justificar as suas loucuras, Segalelli trazia consigo
uma apstola, uma certa Tripia ou Ripia, que tinha a pretenso de ter o dom da
profecia. Uma mulher, compreendes?
  - Mas, padre - tentei objetar -, vs mesmo falveis h dias da santidade de Clara de
Montefalco e de Angela de Foligno...
   - Essas eram santas! Viviam na humildade reconhecendo o poder da Igreja, nunca se
arrogaram o dom da profecia! Pelo contrrio, os pseudo-apstolos asseveravam que as
mulheres tambm podiam andar de cidade em cidade a pregar, como fizeram muitos
outros hereges. E j no conheciam diferena alguma entre solteiros e casados, nem voto
algum voltou a ser considerado perptuo. Em resumo, para no te aborrecer demasiado
com histrias tristssimas cujos pormenores no podes compreender bem, o bispo Obizzo
de Parma decidiu finalmente pr Gerardo a ferros. Mas aqui aconteceu uma coisa
estranha, que te diz como  fraca a natureza humana e insidiosa a planta da heresia.
Porque, finalmente, o bispo libertou Gerardo e acolheu-o junto de si,  sua mesa, e ria
com as suas piadas, e conservava-o como seu bufo.
  - Mas porqu?
   - No sei, ou receio sab-lo. O bispo era nobre e no gostava dos mercadores e dos
artesos da cidade. Talvez no lhe desagradasse que Gerardo, com as suas prdicas de
pobreza, falasse contra eles e passasse do pedido de esmola  rapina. Mas finalmente
interveio o papa, e o bispo voltou  sua justa severidade, e Gerardo acabou na fogueira
como herege impenitente. Era o incio deste sculo.
  - E que tem a ver com estas coisas frei Dolcino?
   - Tem, e isto diz-te como a heresia sobrevive  prpria destruio dos hereges. Este
Dolcino era bastardo de um sacerdote que vivia na diocese de Novara, nesta parte da
Itlia, um pouco mais a setentrio. Algum disse que nasceu noutro lugar, no vale do
Ossola, ou em Romagnano. Mas pouco importa. Era um jovem de agudssimo engenho e
foi educado nas letras, mas roubou o sacerdote que se ocupava dele e fugiu para oriente,
para a cidade de Trento. E ali retomou as pregaes de Gerardo, de modo ainda mais
hertico, afirmando ser o nico verdadeiro apstolo de Deus, e que todas as coisas
deviam ser comuns no amor, e que era lcito andar indiferentemente com todas as
mulheres, pelo que ningum podia ser acusado de concubinato, mesmo que andasse com
a mulher e com a filha...
  - Pregava verdadeiramente essas coisas ou foi acusado disso? Porque ouvi dizer que os
espirituais tambm foram acusados de crimes como aqueles frades de Montefalco...
   - De hoc satis - interrompeu bruscamente Ubertino. - Esses j no eram frades. Eram
hereges. E precisamente conspurcados por Dolcino. E por outro lado, escuta, basta saber
aquilo que Dolcino fez depois para o definir como malvado. Como chegou ao
conhecimento das teorias dos pseudo-apstolos no fao a menor idia. Provavelmente
passou por Parma, quando jovem, e ouviu Gerardo. Sabe-se que manteve contato na
provncia de Bolonha com aqueles hereges depois da morte de Segalelli. Mas ao certo
sabe-se que iniciou a sua pregao em Trento. Ali, seduziu uma rapariga lindssima e de
famlia nobre, Margarida, ou ela seduziu-o a ele, como Helosa seduziu Abelardo, porque,
recorda-te,  atravs da mulher que o diabo penetra no corao dos homens! Nessa
altura, o bispo de Trento expulsou-o da sua diocese, mas Dolcino j tinha reunido mais
de mil sequazes, e iniciou a sua marcha que o reconduziu s terras onde tinha nascido. E
ao longo do caminho juntavam-se-lhe outros ingnuos, seduzidos pelas suas palavras, e
provavelmente juntaram-se-lhe muitos hereges valdenses que habitavam as montanhas
por onde passava, ou ele queria reunir-se aos valdenses dessas terras a setentrio.
Chegando  provncia de Novara, Dolcino encontrou um ambiente favorvel  sua
revolta, porque os vassalos que governavam o pas de Gattinara em nome do bispo de
Vercelli tinham sido expulsos pela populao, que acolheu portanto os bandidos de
Dolcino como bons aliados.
  - Que tinham feito os vassalos do bispo?
   - No sei, e no me compete a mim julg-lo. Mas, como vs, a heresia casa-se com a
revolta contra os senhores, em muitos casos, e por isso o herege comea a pregar a dona
pobreza e depois cai presa de todas as tentaes do poder, da guerra, da violncia.
Havia uma luta entre famlias na cidade de Vercelli, os pseudo-apstolos aproveitaram-se
disso, e estas famlias valeram-se da desordem trazida pelos pseudo-apstolos. Os
senhores feudais recrutavam aventureiros para roubar os citadinos, e os citadinos pediam
a proteo do bispo de Novara.
  - Que histria complicada. Mas Dolcino com quem estava?
   - No sei, participava por si prprio, tinha-se inserido em todas estas disputas e dai
tirava ocasio para pregar a luta contra a propriedade alheia em nome da pobreza.
Dolcino acampou com os seus, que eram ento trs mil, num monte prximo de Novara,
chamado da Parede Calva, e construram pequenos castelos e habitculos, e Dolcino
dominava sobre toda aquela multido de homens e mulheres que viviam na
promiscuidade mais vergonhosa. Dali enviava cartas aos seus fiis, em que expunha a sua
doutrina hertica. Dizia e escrevia que o seu ideal era a pobreza, e que no estavam
ligados por nenhum vnculo de obedincia exterior, e que ele, Dolcino, tinha sido
mandado por Deus para desselar as profecias e compreender as escrituras do Antigo e do
Novo Testamento. E chamava ministros do diabo aos clrigos seculares, pregadores e
frades menores, e desobrigava qualquer um do dever de lhes obedecer. E distinguia
quatro idades da vida do povo de Deus: a primeira do Antigo Testamento, dos patriarcas
e dos profetas, antes da vinda de Cristo, em que o matrimnio era bom porque a gente
se devia multiplicar; a segunda a idade de Cristo e dos apstolos, e foi a poca da
santidade e da castidade; depois veio a terceira, em que os pontfices tiveram a
principio de aceitar as riquezas terrenas para poder governar o povo, mas quando os
homens comearam a afastar-se do amor de Deus veio Bento, que falou contra toda a
possesso temporal; quando depois os monges de Bento voltaram tambm a acumular
riquezas, vieram os frades de So Francisco e de So Domingos, ainda mais severos do
que Bento na pregao contra o domnio e a riqueza terrena. Mas, enfim, agora, que a
vida de tantos prelados de novo contradizia todos aqueles bons preceitos, tinha-se
chegado ao fim da terceira idade e era necessrio converter-se aos ensinamentos dos
apstolos.
  - Mas ento Dolcino pregava aquelas coisas que tinham pregado os franciscanos, e
entre os franciscanos precisamente os espirituais, e vs mesmo, padre!
   - Oh, sim, mas tirava da um prfido silogismo! Dizia que para pr fim a esta terceira
idade da corrupo era necessrio que todos os clrigos, os monges e os frades
morressem de morte crudelssima; dizia que todos os prelados da Igreja, os clrigos, as
monjas, os religiosos e as religiosas e todos aqueles que fazem parte das ordens dos
pregadores e dos frades menores, dos eremitas, e do prprio papa Bonifcio deveriam ser
exterminados pelo imperador escolhido por ele, Dolcino, e este seria Frederico da Siclia.
   - Mas no foi precisamente Frederico que acolheu na Siclia com favor os espirituais
expulsos da Umbria, e no so os menoritas que pedem precisamente que o imperador,
ainda que agora seja Lus, destrua o poder temporal do papa e dos cardeais?
   -  prprio da heresia, ou da loucura, transtornar os pensamentos mais retos e lev-los
a conseqncias contrrias  lei de Deus e dos homens. Os menoritas nunca pediram ao
imperador que matasse os outros sacerdotes.
  Enganava-se, sei-o agora. Porque, quando alguns meses depois, o Bvaro instaurou a
sua prpria ordem em Roma, Marslio e outros menoritas fizeram aos religiosos fiis ao
papa precisamente aquilo que Dolcino pedia que se fizesse. Com isto no quero dizer que
Dolcino estivesse na verdade sendo justo, mas em todo o caso, diria que Marslio estava
equivocado. Mas eu comeava a perguntar-me, especialmente depois do colquio
daquela tarde com Guilherme, como era possvel aos simples que seguiam Dolcino
distinguir entre as promessas dos espirituais e a aplicao que lhes dava Dolcino. Acaso
no era ele culpado de pr em prtica aquilo que homens reputados como ortodoxos
tinham pregado por via puramente mstica? Ou, talvez ali estivesse a diferena, a
santidade consistia em esperar que Deus nos desse aquilo que os seus santos tinham
prometido, sem procurar obt-lo por meios terrenos? Agora sei que  assim e sei porque
Dolcino estava em erro no se deve transformar a ordem das coisas, ainda que se deva
esperar fervorosamente na sua transformao. Mas naquela noite era dominado por
pensamentos contraditrios.
   - Enfim - dizia-me Ubertino -, a marca da heresia encontr-la- sempre na soberba.
Numa segunda carta, Dolcino, no ano de mil trezentos e trs, nomeava-se chefe supremo
da congregao apostlica, nomeava como seus lugares-tenentes a prfida Margarida
(uma mulher) e Longino de Brgamo, Frederico de Novara, Alberto Carentino e Valderico
de Brescia. E comeava a divagar sobre uma seqncia de papas futuros, dois bons, o
primeiro e o ltimo, dois maus, o segundo e o terceiro. O primeiro  Celestino, o segundo
 Bonifcio VIII, de quem os profetas dizem: A soberba do teu corao te infamou,  tu
que habitas nas fendas das rochas. O terceiro papa no  nomeado, mas Jeremias dele
teria dito: Ei-lo, qual leo. E, infmia, Dolcino reconhecia o leo em Frederico da
Siclia. O quarto papa para Dolcino era ainda desconhecido, e deveria ser o papa santo, o
papa anglico de que falava o abade Joaquim. Deveria ser eleito por Deus, e ento
Dolcino e todos os seus (que naquela altura eram j quatro mil) receberiam em conjunto
a graa do Esprito Santo, e a Igreja seria assim renovada at ao fim do mundo. Mas nos
trs anos que precediam a sua vinda todo o mal deveria ser consumado. E foi isso o que
procurou fazer Dolcino, levando a guerra a toda a parte. E o quarto papa, e aqui se v
como o demnio joga com os seus scubos, foi precisamente Clemente V, que proclamou
a cruzada contra Dolcino. E foi justo, porque, naquelas cartas, Dolcino j defendia
teorias inconciliveis com a ortodoxia. Ele afirmou que a Igreja Romana  uma meretriz,
que no deve obedincia aos sacerdotes, que todo o poder espiritual tinha doravante
passado para a seita dos apstolos, que s os apstolos formam a nova Igreja, que os
apstolos podem anular o matrimnio, que ningum, poder ser salvo se no fizer parte
da seita, que nenhum papa pode absolver do pecado, que no se devem pagar as
dcimas, que  vida mais perfeita viver sem votos do que com votos, que uma igreja
consagrada no vale nada para a orao, no mais do que um estbulo, e que se pode
adorar Cristo nos bosques e nas igrejas.
  - Disse verdadeiramente essas coisas?
   - Decerto, isto  seguro, escreveu-as. Mas fez infelizmente pior. Logo que tomou
posio na Parede Calva, comeou a saquear as aldeias do vale, a fazer incurses para
arranjar abastecimentos, conduzindo em suma uma autntica guerra contra os stios
vizinhos.
  - Todos contra ele?
   - No se sabe. Provavelmente recebeu apoios de alguns, disse-te que se tinha inserido
num n inextricvel de discrdias locais. Tinha cado entretanto o Inverno de mil
trezentos e cinco, um dos mais rigorosos dos ltimos decnios, e havia por toda a parte
uma grande penria. Dolcino enviava uma terceira carta aos seus sequazes, e muitos
ainda se lhe juntavam, mas l em cima a vida tinha-se tornado impossvel e chegaram a
uma fome tal que comiam a carne dos cavalos e de outros animais e feno cozido. E
muitos morreram por isso.
  - Mas contra quem se batiam agora?
   - O bispo de Vercelli tinha apelado para Clemente V, e tinha sido proclamada uma
cruzada contra os hereges. Foi estabelecida uma indulgncia plenria para quem quer
que nela participasse, foram solicitados Luis de Sabia, os inquisidores da Lombardia, o
arcebispo de Milo. Muitos pegaram na cruz para ajudarem os vercelenses e os
novarenses, mesmo da Sabia, da Provena, da Frana, e o bispo de Vercelli teve o
comando supremo. Eram contnuos os reencontros entre as vanguardas dos dois
exrcitos, mas as fortificaes de Dolcino eram inexpugnveis, e, de uma maneira ou de
outra, os mpios recebiam socorros.
  - De quem?
   - De outros mpios, creio, que tiravam satisfao daquela fonte de desordem. Ao
findar o ano de mil trezentos e cinco, o heresiarca foi obrigado porm a abandonar a
Parede Calva deixando os feridos e os doentes, e transferiu-se para o territrio de
Trivero, onde se entrincheirou num monte que ento se chamava Zubello e que dali em
diante passou a dizer-se Rubello ou Rebello, porque se tinha tornado a fortaleza dos
rebeldes  Igreja. Em suma, no te posso contar tudo aquilo que aconteceu, e foram
massacres terrveis. Mas no fim os rebeldes foram obrigados a render-se, Dolcino e os
seus foram capturados e acabaram com justia na fogueira.
  - A bela Margarida tambm?
  Ubertino olhou para mim:
   - Recordaste-te que era bela, no  verdade? Era bela, dizem, muitos senhores do
lugar pensaram fazer dela sua esposa para a salvarem da fogueira. Mas ela no quis,
morreu impenitentemente com o impenitente do seu amante. E que isto te sirva de
lio, livra-te da meretriz da Babilnia, mesmo quando assume a forma da criatura mais
delicada.
   - Mas agora dizei-me padre. Sei que o despenseiro do convento, e talvez tambm
Salvador, encontraram Dolcino e estiveram com ele de alguma maneira...
   - Cala-te, e no pronuncies juzos temerrios. Conheci o despenseiro num convento de
menoritas. Depois dos fatos que se relacionam com a histria de Dolcino,  verdade.
Muitos espirituais naqueles anos, antes de decidirmos encontrar refgio na ordem de So
Bento, tiveram uma vida agitada, e tiveram de deixar os seus conventos. No sei onde
ter estado Remgio antes de eu o encontrar. Sei que foi sempre um bom frade, ao
menos do ponto de vista da ortodoxia. Quanto ao resto, ai de mim, a carne  fraca...
  - Que pretendeis dizer?
   - No so coisas que devas saber. Pois bem, em suma, j que falamos disso, e tens de
poder distinguir o bem do mal...  hesitou ainda - dir-te-ei que ouvi murmurar aqui, na
abadia, que o despenseiro no sabe resistir a certas tentaes... Mas so murmuraes.
Porem deves aprender a nem sequer pensar nestas coisas. - Puxou-me de novo para si,
abraando-me com fora, e indicou-me a esttua da Virgem: - Tu deves iniciar-te no
amor sem mcula. Eis aquela em que a feminilidade foi sublimada. Por isso, dela podes
dizer que  bela, como a amada do cntico dos Cnticos. Nela - disse com o rosto
arrebatado por um gudio interior, precisamente como o Abade no dia em que falou das
gemas e do ouro dos seus vasos -, nela at a graa do corpo se faz sinal das belezas
celestes e por isso o escultor a representou com todas as graas de que a mulher deve
ser adornada. - Indicou-me o busto delicado da Virgem, erguido e apertado por um
corpete atado ao centro com cordes, com que brincavam as pequenas mos do Menino.
 Vs? Pulchra enim sunt ubera quae paululum supereminent et tument modice, nec
fluitantia licenter, sed leniter restricta, repressa sed non depressa... Que sentes diante
desta dulcssima viso?
   Corei violentamente, sentindo-me agitado como por um fogo interior. Ubertino deve
t-lo percebido, ou talvez reparasse no ardor das minhas faces, porque logo acrescentou:
   - Mas deves aprender a distinguir o fogo do amor sobrenatural do deliquo dos sentidos.
 difcil at para os santos.
  - Mas como se reconhece o amor bom? - perguntei, tremendo.
   - Que  o amor? No h nada no mundo, nem homem nem diabo, nem coisa alguma,
que eu considere to suspeito como o amor, que este penetra na alma mais que qualquer
outra coisa. No existe nada que tanto ocupe e ligue o corao como o amor. Por isso, a
menos que tenha as armas que a governam, a alma precipita-se por amor numa imensa
runa. E eu creio que, sem as sedues de Margarida, Dolcino no se teria condenado, e
sem a vida proterva e promscua da Parede Calva muitos no teriam sentido o fascnio da
sua rebelio. Repara, eu no te digo estas coisas apenas do amor nocivo, que
naturalmente deve ser evitado por todos como coisa diablica, eu digo isto, e com
grande medo, mesmo do amor bom que corre entre Deus e o homem, entre o homem e o
seu prximo. Freqentemente acontece que dois ou trs, homens ou mulheres, se amem
muito cordialmente e nutram uns pelos outros uma singular afeio, e desejem viver
sempre juntos, e quando uma parte deseja a outra quer. A confesso-te que um
sentimento deste gnero experimentei-o eu por mulheres virtuosas como Angela e Clara.
Pois bem, tambm isto  bastante reprovvel, ainda que se faa espiritualmente e por
Deus... Porque mesmo o amor sentido pela alma, se no est armado mas  acolhido com
calor, vem depois a cair, ou ento opera desordenadamente. Oh, o amor tem diversas
propriedades, a princpio por ele a alma se enternece, depois cai enferma... Mas depois
pressente o calor verdadeiro do amor divino e grita, e lamenta-se, faz-se pedra metida
na fornalha para se desfazer em cal, e crepita lambida pela chama...
  - E esse  o amor bom?
  Ubertino acariciou-me a cabea, e quando o olhei vi que tinha os olhos enternecidos
de lgrimas:
   - Sim, este  enfim amor bom. - Retirou a mo dos meus ombros. - Mas como  difcil -
acrescentou -, como  difcil distingui-lo do outro. E, por vezes, quando a tua alma 
tentada pelos demnios sentes-te como o homem enforcado pela garganta que, de mos
atadas atrs das costas e olhos vendados, permanece suspenso da forca e no entanto
vive, sem nenhum auxilio, sem nenhum apoio, sem nenhum remdio, a girar no vazio... -
O seu rosto j no estava banhado apenas pelo pranto, mas por uma camada de suor. -
Agora vai-te embora - disse-me  pressa -, disse-te aquilo que querias saber. Por aqui o
coro dos anjos, por ali a garganta do inferno. Vai, e seja louvado o Senhor.
  Prostrou-se de novo diante da Virgem, e ouvi-o soluar baixinho. Rezava.
   No sa da igreja. O colquio com Ubertino tinha-me introduzido no esprito e nas
vsceras um estranho fogo e uma indizvel inquietao. Talvez por isso me achei inclinado
 desobedincia e decidi voltar sozinho  biblioteca. Nem eu sequer sabia o que
procurava. Queria explorar sozinho um lugar ignoto, fascinava-me a idia de me poder
orientar sem a ajuda do meu mestre. Ali subi como Dolcino tinha subido ao monte
Rubello.
   Tinha comigo a candeia (porque a tinha levado?, j nutria talvez esse desgnio
secreto?), e penetrei no ossrio quase de olhos fechados Em pouco tempo cheguei ao
scriptorium.
  Era uma noite fatal, creio, porque, enquanto revistava as mesas, descobri uma sobre a
qual estava aberto um manuscrito que um monge copiava naqueles dias. O ttulo atraiu-
me logo: Historia fratris Dulcini Heresiarche. Creio que era a mesa de Pedro de Sant
Albano, de quem me tinham dito que estava a escrever uma monumental histria da
heresia (depois do que aconteceu na abadia naturalmente que j no a escreveu... mas
no antecipemos os eventos). No era pois anormal que ali estivesse aquele texto, e
outros havia de assunto afim, sobre os patarinos e sobre os flagelantes. Mas tomei como
um sinal sobrenatural, no sei ainda se celeste ou diablico, aquela circunstncia, e pus-
me a ler avidamente o escrito. No era muito longo, e na primeira parte dizia, com
muitos outros pormenores que esqueci, o que me tinha dito Ubertino. Ai se falava
tambm dos numerosos delitos cometidos pelos dolcinianos durante a guerra e o assdio.
E da batalha final, que foi das mais cruentas. Mas a encontrei tambm aquilo que
Ubertino no me tinha contado, e dito por quem evidentemente tinha visto tudo e com
isso tinha ainda a imaginao inflamada.
   Soube portanto como em Maro de 1307, em sbado santo, Dolcino, Margarida e
Longino, finalmente presos, foram conduzidos  cidade de Biella e entregues ao bispo,
que esperava a deciso do papa. O papa, logo que soube a notcia, transmitiu-a ao rei de
Frana, Filipe, escrevendo: Chegaram-nos notcias muitssimo agradveis, fecundas de
alegria e exultao, porque aquele demnio pestfero, filho de Belial, e horrendssimo
heresiarca Dolcino, depois de longos perigos, fadigas, massacres e freqentes incurses
com os seus sequazes, est finalmente prisioneiro nos nossos crceres, por obra do nosso
venervel irmo Raniero, bispo de Vercelli, capturado no dia da santa ceia do Senhor, e
a numerosa gente que estava com ele, infectada pelo contgio, foi morta naquele
mesmo dia. O papa foi impiedoso em relao aos prisioneiros e ordenou ao bispo que
lhes desse a morte. Ento, em Julho do mesmo ano, no primeiro dia do ms, os hereges
foram entregues ao brao secular. Enquanto os sinos da cidade tocavam a rebate, foram
postos em cima de um carro, circundados pelos carrascos e seguidos pela milcia, que
percorreu toda a cidade, enquanto, a cada esquina, com tenazes em brasa, rasgavam as
carnes aos rus. Margarida foi a primeira a ser queimada diante de Dolcino,que no
moveu um nico msculo do rosto, tal como no tinha soltado um lamento quando as
tenazes lhe mordiam os membros. Depois o carro continuou o seu caminho, enquanto os
carrascos enfiavam os seus ferros em vasos cheios de fachos ardentes. Dolcino sofreu
outros tormentos, e ficou sempre mudo, salvo quando lhe amputaram o nariz, porque
encolheu um pouco os ombros, e quando lhe arrancaram o membro viril, pois nessa
altura lanou um longo suspiro, como um gemido. As ltimas coisas que disse soaram a
impenitncia, e advertiu que ressuscitaria ao terceiro dia. Depois foi queimado, e as
cinzas foram dispersas ao vento.
   Fechei o manuscrito com as mos a tremer. Dolcino tinha cometido muitos delitos,
tinham-me dito, mas tinha sido horrorosamente queimado. E tinha-se comportado na
fogueira... como?, com a firmeza dos mrtires ou com a arrogncia dos danados?
Enquanto subia vacilando as escadas que levavam  biblioteca, compreendi porque
estava to perturbado. Lembrei-me de repente de uma cena que tinha visto no muitos
meses antes, pouco depois da minha chegada  Toscana. Perguntava-me mesmo como 
que a tinha quase esquecido at ento, como se a minha alma doente tivesse querido
apagar uma recordao que lhe pesava como um pesadelo. Ou melhor, no a tinha
esquecido, porque cada vez que ouvia falar dos fraticelli revia imagens daquele
acontecimento, mas logo as rechaava para os recantos do meu esprito, como se fosse
um pecado ter sido testemunha daquele horror.
   Tinha ouvido falar pela primeira vez de fraticelli nos dias em que, em Florena, tinha
visto queimar um na fogueira. Tinha sido pouco antes de encontrar em Pisa frade
Guilherme. Ele estava demorando a sua chegada quela cidade, e meu pai tinha-me dado
licena para visitar Florena, cujas belssimas igrejas tnhamos ouvido elogiar. Tinha
vagueado pela Toscana, para aprender melhor a lngua vulgar italiana, e tinha
finalmente ficado uma semana em Florena, porque tinha ouvido falar muito daquela
cidade e desejava conhec-la.
   Foi assim que, mal ali cheguei, ouvi falar de um grande caso que estava agitando toda
a cidade. Um fraticello hertico, acusado de delitos contra a religio, e levado 
presena do bispo e outros eclesisticos, era naqueles dias submetido a severa
inquisio. E, seguindo aqueles que me falavam disso, encaminhei-me at ao lugar onde
se desenrolava o evento, enquanto ouvia a gente dizer que aquele fraticello, de nome
Miguel, era em verdade um homem muito piedoso, que tinha pregado penitncia e
pobreza, repetindo as palavras de So Francisco, e tinha sido arrastado diante dos juzes
pela malcia de certas mulheres que, fingindo confessar-se a ele, lhe tinham depois
atribudo propostas herticas; e, mais, tinha sido apanhado pelos homens do bispo
precisamente em casa daquelas mulheres, fato esse que me espantava, porque um
homem da Igreja no deveria ir administrar os sacramentos em lugares to pouco
adequados, mas esta parecia ser a fraqueza dos fraticelli, no terem na devida
considerao as convenincias, e talvez houvesse algo de verdadeiro na voz do povo, que
os achava, alm de hereges, de costumes duvidosos (tal como se continuava a dizer que
os ctaros eram blgaros e sodomitas).
   Cheguei  igreja de So Salvador, onde se desenrolava o processo, mas no pude
entrar por causa da grande multido que estava em frente. Porm, alguns tinham-se
iado e agarrado s grades das janelas, e viam e ouviam quando ali se passava, e
contavam-no aos outros que se encontravam em baixo. Estavam ento relendo a frade
Miguel a confisso que tinha feito no dia anterior, em que dizia que Cristo e os seus
apstolos no tiveram nenhuma coisa nem em particular nem em comum por razo de
propriedade, mas Miguel protestava que o tabelio lhe tinha acrescentado agora
muitas falsas conseqncias e gritava (e isto ouvi-o de fora): Haveis de prestar contas
disto no dia do Juzo! Mas os inquisidores leram a confisso como a tinham redigido e no
fim perguntaram-lhe se queria humildemente conformar-se com as opinies da Igreja e
de todo o povo da cidade. E ouvi Miguel que gritava em voz alta que queria era
conformar-se com aquilo em que acreditava, isto , que queria manter Cristo como
pobre crucificado e o papa Joo XXII como herege, pois que dizia o contrrio. Seguiu-se
uma grande discusso, em que os inquisidores, entre os quais muitos franciscanos,
queriam fazer-lhe compreender que as escrituras no tinham dito aquilo que ele dizia, e
ele acusava-os de negarem a regra da sua prpria ordem, e aqueles caam-lhe em cima
perguntando-lhe se porventura julgava entender as escrituras melhor do que eles, que
eram mestres na matria. E frei Miguel, deveras muito pertinaz, contestava-os, tanto
que aqueles punham-se a atac-lo com provocaes como: E agora queremos que tu
mantenhas Cristo como se fosse proprietrio e o Papa Joo como catlico e santo. E
Miguel, no desistindo: No, hertico. E aqueles diziam que nunca tinham visto
ningum to duro na prpria iniqidade. Mas entre a multido fora do palcio ouvi
muitos que diziam que ele era como Cristo entre os fariseus, e apercebi-me que entre o
povo muitos acreditavam na santidade de frade Miguel.
   Finalmente, os homens do bispo levaram-no de novo para a priso e puseram-no a
ferros. E  noite disseram-me que muitos dos frades amigos do bispo tinham ido insult-
lo e pedir-lhe que se retratasse, mas ele respondia como algum que estivesse seguro da
sua prpria verdade. E repetia a todos que Cristo era pobre, e que o mesmo tinham dito
tambm So Francisco e So Domingos, e que, se por professar esta reta opinio devia
ser condenado ao suplcio, tanto melhor, porque em breve poderia ver o que diziam as
escrituras, e os vinte e quatro velhos do Apocalipse, e Jesus Cristo e So Francisco, e os
gloriosos mrtires. E disseram-me que disse: Se lemos com tanto fervor a doutrina de
certos santos abades com tanto mais fervor e alegria devemos desejar estar no meio
deles. E a palavras deste gnero os inquisidores saam do crcere de rosto sombrio
gritando indignados (e eu ouvi-os): Tem o diabo no corpo!
  No dia seguinte soubemos que a condenao tinha sido pronunciada, e dirigindo-me ao
episcopado pude ver o pergaminho, e uma parte copiei-a na minha tabuinha.
   Comeava In nomine Domini amen. Hec est quedam condemnatio corporalis et
sententia condemnationis corporalis lata, data et in hiis criptis sententialiter
pronumptiata et promulgata..., etctera, e prosseguia com uma severa descrio dos
pecados e das culpas do dito Miguel, que aqui em parte reproduzo para que o leitor
julgue com prudncia:
   Johannem vocatum fratrem Micchaelem lacobi, de comitatu Sancti Fre-diani,
hominem male condictionis, et pessime conversationis, vite et fame, hereticum et
hertica labe pollutum et contra fidem cactolicam credentem et affirmantem... Deum
pre oculis non habendo sed potius humani generis inimicum, scienter, studiose,
appensate, nequiter et animo et intentione, exer-cendi hereticam pravitatem stetit et
conversatus fuit cum Fraticellis, vocatis fraticellis della povera vita hereticis et
scismaticis et eorum pravam sectam et heresim secutus fuit et sequitur contra fidem
cactolicam... et accessit ad dictam civitatem Florentie et in locis publicis dicte civitatis
in dicta inquisi-tione contentis, credidit, tenuit et pertinaciter affirmavit ore e corde...
quod Christus redentor noster non habuit rem aliquam in proprio vel comuni sed habuit a
quibuscumque rebus quas sacra scriptura eum habuisse testatur, tantum simplicem facti
usum.
   Mas no eram apenas estes os delitos de que era acusado, e um, entre outros,
pareceu-me dos mais torpes, embora eu no saiba (tal como se desenrolou o processo) se
ele ter na verdade afirmado tal coisa, mas dizia-se, em suma, que o dito menorita tinha
defendido que So Toms de Aquino no era santo nem gozava da eterna salvao, mas,
pelo contrrio, era condenado e em estado de perdio! E a sentena conclua
cominando a pena, pois que o acusado no tinha querido emendar-se:
   Costal nobis etiam ex predictis et ex dicta sententia lata per dictum do-minum
episcopum florentinum, dictum Johannem fore hereticum, nolle se tantis herroribus et
heresi corrigere et emendare, et se ad rectam viam fidei dirigiere, habentes dictum
Johannem pro irreducibili, pertinace et hostinato in dictis suis perversis herroribus, ne
ipse Johannes de dictis suis sceleribus et herroribus perversis valeat gloriari, et ut eius
pena alus transeat in exemplum; idcirco, dictum Johannem vocatum fratrem Micchaelem
hereticum et scismaticum quod ducatur ad locum iustitie consuetum, et ibidem igne et
flammis igneis accensis concremetur et comburatur, ita quod penitus moria-tur et anima
a corpore separetur.
   E, depois que a sentena foi tornada pblica, foram ainda homens da Igreja  priso e
advertiram Miguel daquilo que iria acontecer, e ouvi-os at dizer: Frei Miguel, j esto
feitas as mitras com as capas, e tm pintados fraticelli acompanhados por diabos. Para
o amedrontar e obrig-lo enfim a retratar-se. Mas frade Miguel ps-se de joelhos e disse:
Eu penso que  volta da fogueira estar o nosso padre Francisco e, digo mais, creio que
ai estaro Jesus e os apstolos, e os gloriosos mrtires Bartolomeu e Antnio. O que era
um modo de recusar pela ltima vez as ofertas dos inquisidores.
   Na manh seguinte tambm eu estive na ponte do episcopado onde se tinham reunido
os inquisidores,  presena dos quais foi levado, sempre acorrentado, frade Miguel. Um
dos fiis ajoelhou-se diante dele, para receber a bno, e foi preso pelos homens de
armas e conduzido imediatamente para a priso. Depois, os inquisidores voltaram a ler a
sentena ao condenado e perguntaram de novo se queria arrepender-se. Cada vez que a
sentena dizia que ele era um herege, Miguel respondia herege no sou, pecador, sim,
mas catlico, e quando o texto nomeava o venerabilissimo e santssimo papa Joo
XXII Miguel respondia no, mas herege. Ento o bispo ordenou que Miguel fosse
ajoelhar-se diante dele, e Miguel disse que no se ajoelhava diante dos hereges.
Obrigaram-no a ajoelhar-se  fora, e ele murmurou: Sou desculpado diante de Deus.
E, como tinha sido levado para ali com todos os seus paramentos sacerdotais, iniciou-se
um rito em que pea a pea os paramentos lhe eram tirados, at que ficou apenas com
aquele saiote que em Florena chamam cioppa. E como manda o uso para o padre que se
desconsagra, com um ferro cortante rasparam-lhe as pontas dos dedos e raparam-lhe o
cabelo. Depois foi confiado ao capito e aos seus homens, que o trataram muito
duramente e o puseram a ferros, levando-o de novo para o crcere enquanto ele dizia 
multido: Per Dominum moriemur. Devia ser queimado, assim ouvi, s no dia seguinte.
E nesse mesmo dia foram perguntar-lhe se queria confessar-se e comungar. E recusou
cometer pecado aceitando os sacramentos de quem estava em pecado. E nisto, creio, fez
mal, e mostrou-se corrompido pela heresia dos patarinos.
   E chegou enfim a manh do suplcio, e foi busc-lo um porta-bandeira que me pareceu
pessoa amiga, porque lhe perguntou que espcie de homem era e porque se obstinava
quando bastava afirmar aquilo que todo o povo afirmava e aceitar a opinio da Santa
Madre Igreja. Mas Miguel durssimo: Eu creio em Cristo pobre crucificado. E o porta-
bandeira foi-se embora abrindo os braos. Chegaram ento o capito e os seus homens e
levaram Miguel para o ptio onde estava o vigrio do bispo, que lhe voltou a ler a
confisso e a condenao. Miguel interveio ainda para contestar opinies falsas que lhe
eram atribudas: e eram na verdade de to grande sutileza que eu no as recordo e
ento no as compreendi bem. Mas sobre elas se decidia a morte de Miguel, decerto, e a
perseguio dos fraticelli. De tal modo que eu no compreendia por que motivo homens
da Igreja e do brao secular se encarniavam tanto contra pessoas que queriam viver na
pobreza e consideravam que Cristo no tinham tido bens terrenos. Porque, dizia para
comigo, quando muito, deviam temer homens que querem, viver na riqueza e subtrair
dinheiro aos outros, e levar a Igreja para o pecado e introduzir nela prticas de simonia.
E falei disto a um que estava perto de mim, porque no resistia a ficar calado. E aquele
sorriu trocista e disse-me que um frade que pratica a pobreza torna-se mau exemplo
para o povo, que depois j no se habitua aos frades que no a praticam. E que,
acrescentou, aquela pregao de pobreza metia idias nocivas na cabea do povo, que
da sua pobreza retiraria razes de orgulho, e o orgulho pode levar a muitos atos
orgulhosos. E enfim, que eu devia saber que nem sequer para ele era claro por meio de
que silogismo, ao pregar a pobreza para os frades, se estava do lado do imperador, e isso
no agradava ao papa. Pareceram-me todas timas razes, ainda que ditas por um
homem de pouca doutrina. Salvo que, sendo assim, no compreendia por que motivo frei
Miguel queria morrer to horrendamente para satisfazer o imperador, ou resolver uma
questo entre ordens religiosas. E, de fato, algum entre os presentes dizia: No  um
santo, foi enviado por Lus para semear a discrdia entre os citadinos, e os fraticelli so
toscanos mas por trs deles esto os enviados do Imprio. E outros: Mas  um louco,
esta possudo pelo demnio cheio de orgulho, e goza do martrio por danada soberba;
obrigam estes frades a ler demasiadas vidas de santos, melhor seria que tomassem
mulher! E outros ainda: No, teramos necessidade que todos os cristos fossem assim,
prontos a testemunhar a sua f como no tempo dos pagos. E ao escutar aquelas vozes,
quando j no sabia que pensar, aconteceu-me que pude ver de frente o condenado, que
a espaos a multido diante de mim escondia. E vi o rosto de algum que olha alguma
coisa que no  desta rerra, como algumas vezes vi nas esttuas dos santos arrebatados
em vises. E compreendi que, fosse louco ou vidente, ele, lucidamente, queria morrer,
porque acreditava que, morrendo havia de, derrotar o seu inimigo, fosse ele qual fosse.
E compreendo que o seu exemplo levaria outros  morte. E apenas fiquei assombrado por
tanta firmeza porque ainda hoje no sei se neles prevalece um amor orgulhoso pela
verdade em que crem, que os leva  morte, ou um orgulhoso desejo de morte, que os
leva a testemunhar a sua verdade, qualquer que ela seja. E por isso me sinto arrebatado
de admirao e temor.
  Mas voltemos ao suplcio, que j se estavam todos encaminhando para o lugar da
condenao  morte.
   O capito e os seus levaram-no para fora da porta, com o saiote vestido, e parte dos
botes desapertados, e ele andava com passo largo e a cabea inclinada, recitando o seu
ofcio, que parecia um dos mrtires. E a multido era tanta que no se acreditava, e
muitos gritavam: No morras!, e ele respondia: Quero morrer por Cristo. Mas tu
no morres por Cristo, diziam-lhe, e ele: Mas pela verdade. Chegando a um lugar
chamado o canto do Proconsolo, um gritou-lhe que pedisse a Deus por todos eles, e ele
abenoou a multido. E nos Fondamenti de Santa Liperata um disse-lhe: Que tolo que
s, cr no papa!, e ele respondeu: Fizestes um deus deste vosso papa, e acrescentou:
Estes vossos papados bem vos amanharam (que era um jogo de palavras, ou chiste, que
tornava os papas como animais, no dialeto toscano, como me explicaram): e todos se
espantaram que fosse para a morte dizendo piadas.
   Em San Giovanni gritaram-lhe: Salva a vida!, e ele respondeu: Salvai-vos dos
pecados!; no Mercaro Vecchio gritaram-lhe: Salva-te, salva-te!, e ele respondeu:
Salvai-vos do inferno; no Mercaro Nuovo bradaram-lhe: Arrepende-te, arrepende-
te!, e ele respondeu: Arrependei-vos das usuras. E chegando a Santa Croce viu os
frades da sua ordem que estavam na escadaria e censurou-os porque no seguiam a regra
de So Francisco. E alguns deles encolhiam os ombros, mas outros, envergonhados
cobriam o rosto com o capucho.
   E andando em direo  porta da Giustizia muitos diziam-lhe: Nega, nega, no
queiras morrer!, e ele: Cristo morreu por ns. E eles: Mas tu no s Cristo, no
deves morrer por ns!, e ele: Mas eu quero morrer por Ele. No prado da Giustizia, um
disse-lhe se no podia fazer um certo frade seu superior que tinha negado, mas Miguel
respondeu que no tinha negado, e vi muitos entre a multido que concordavam e
incitavam Miguel a ser forte assim, eu e muitos outros compreendemos que aqueles eram
dos seus e apartamo-nos.
   Chegou-se enfim fora da porta e diante de ns apareceu a pira, ou choupana, como ali
lhe chamavam, porque a lenha era disposta em forma de cabana, e ai se fez um crculo
de cavaleiros armados para que a gente no se aproximasse demasiado. E foi ento que
ataram frade Miguel  coluna. E ouvi ainda um gritar-lhe Mas o que  isto, por quem
queres morrer?, e ele respondeu Esta  uma verdade que habita dentro de mim, da
qual no se pode dar testemunho seno pela morte. Acenderam o fogo. E frade Miguel,
que j tinha entoado o Credo, entoou depois o Te Deum. Cantou talvez oito versos,
depois dobrou-se, como se fosse espirrar, e caiu por terra, porque tinha ardido as cordas.
E j estava morto, porque antes que o corpo arda de todo j se morre pelo grande calor,
que faz rebentar o corao, e pelo fumo, que invade o peito.
   Depois a cabana ardeu completamente como uma tocha e fez-se um grande claro, e
se no fosse pelo pobre corpo carbonizado de Miguel que ainda se via entre os paus
incandescentes teria dito que estava diante da sara ardente. E estive to perto de ter
uma viso que (recordei enquanto subia as escadas da biblioteca) me tinham subido
espontaneamente aos lbios algumas palavras sobre o arrebatamento exttico que tinha
lido nos livros de Santa Hildegarda: A chama consiste numa esplndida claridade, num
inato vigor e num gneo ardor, mas a esplndida claridade possui-a para reluzir e o gneo
ardor a fim de queimar.
   Recordei-me de algumas frases de Ubertino sobre o amor. A imagem de Miguel na
fogueira confundiu-se com a de Dolcino, e a de Dolcino com a de Margarida, a Bela. Senti
de novo aquela inquietao que me tinha invadido na igreja.
   Tentei no pensar nisso e prossegui decididamente para o labirinto. Penetrava ali
sozinho pela primeira vez, as longas sombras projetadas pela candeia no pavimento
aterrorizavam-me como as vises das noites anteriores. Temia a cada instante encontrar-
me diante de outro espelho, porque a magia dos espelhos  tal que, mesmo sabendo que
so espelhos, no deixam de te inquietar.
   Alm disso no procurava orientar-me nem evitar a sala dos perfumes que provocam
vises. Prosseguia como possudo pela febre e no sabia onde queria ir. De fato no me
afastei muito do ponto de partida, porque pouco depois achei-me de novo na sala
heptagonal por onde tinha entrado. Aqui, sobre uma mesa, estavam dispostos alguns
livros que no me parecia ter visto na noite anterior. Adivinhei que eram obras que
Malaquias tinha retirado do scriptorium e que no tinha ainda recolocado nos lugares a
elas destinadas. No compreendia se estava muito distante da sala dos perfumes, porque
me sentia como aturdido, e podia ser por algum eflvio que chegava at aquele lugar ou
pelas coisas que tinha fantasiado at ento. Abri um volume ricamente iluminado, que,
pelo estilo, me parecia que provinha dos mosteiros da ltima Thule.
   Fiquei impressionado, numa pgina em que comeava o santo evangelho do apstolo
Marco, com a imagem de um leo. Era certamente um leo, ainda que nunca os tivesse
visto em carne e osso, e o miniaturista tinha-lhe reproduzido com fidelidade as feies,
inspirando-se talvez ao ver lees de Hibernia, terra de criaturas monstruosas, e
convenci-me de que este animal, como alis diz o Fisilogo, concentra em si todos os
caracteres das coisas mais horrendas e majestosas ao mesmo tempo. Assim aquela
imagem me evocava simultaneamente a imagem do inimigo e a de Cristo Nosso Senhor, e
nem sabia em que chave simblica devia l-la, e tremia todo, quer pelo temor quer pelo
vento que penetrava pelas fendas das paredes.
   O leo que vi tinha uma boca eriada de dentes, e uma cabea finamente coberta por
escamas como a das serpentes, o corpo enorme, que se segurava em quatro patas de
unhas pontiagudas e ferozes, assemelhava-se pelo velo a um daqueles tapetes que mais
tarde vi trazer do Oriente, de escamas vermelhas e esmaragdinas, onde se desenhavam,
amarelos como a peste, horrveis e robustos entablamentos de ossos. Amarela era
tambm a cauda, que se retorcia do dorso subindo at  cabea, terminando com uma
ltima voluta de tufos brancos e negros.
   J estava muito impressionado com o leo (e mais de uma vez me tinha voltado para
trs como se esperasse ver aparecer de repente um animal com aquele aspecto), quando
decidi ver outras folhas, e o meu olhar caiu, no incio do evangelho de Mateus, sobre a
imagem de um homem. No sei porqu, assustou-me mais ele do que o leo: o rosto era
de homem, mas este homem estava couraado numa espcie de casula rgida que o
cobria at aos ps, e esta casula ou couraa estava incrustada de pedras vermelhas e
amarelas. Aquela cabea, que sobressaia, enigmtica, de um castelo de rubis e topzios,
surgiu-me (quanto o terror me fez blasfemo!) como o assassino misterioso cujo
impalpvel rasto seguamos. E depois compreendi porque ligava to estreitamente a fera
e a couraa ao labirinto: porque ambas, como todas as figuras daquele livro, emergiam
de um tecido figurado de labirintos entrelaados, onde linhas de nix e esmeralda, fios
de crisoprsio, fitas de berilo pareciam aludir todos ao novelo de salas e corredores em
que me encontrava. O meu olhar perdia-se, sobre a pgina, por caminhos
resplandecentes, como os meus ps se iam perdendo na teoria inquietante das salas da
biblioteca, e ver representado naqueles pergaminhos o meu errar encheu-me de
inquietao e convenceu-me de que cada um daqueles livros contava por misteriosas
gargalhadas a minha histria daquele momento. De te fabula narratur, disse para
comigo, e perguntei-me se aquelas pginas no conteriam j a histria dos instantes
futuros que me esperavam.
   Abri outro livro, e este pareceu-me de escola hispnica. As cores eram violentas, os
vermelhos pareciam sangue ou fogo. Era o livro da revelao do apstolo, e ca uma vez
mais, como na noite anterior, sobre a pgina da mulier amicta sole. Mas no era o
mesmo livro, a iluminura era diferente, aqui o artista tinha insistido mais longamente
sobre as feies da mulher. Comparei-lhe o rosto, o seio, as ancas flexuosas  esttua da
Virgem que tinha visto com libertino. O trao era diferente, mas esta mulier tambm me
pareceu belssima. Pensei que no devia insistir nestes pensamentos, e voltei algumas
pginas. Encontrei outra mulher, mas desta vez era a meretriz da Babilnia. As suas
feies no me impressionaram tanto como o pensamento que tambm ela era uma
mulher como a outra, e, no entanto, esta era baixel de todo o vcio, aquela era
receptculo de toda a virtude. Mas as feies eram femininas em ambos os casos, e a
certa altura j no fui capaz de compreender o que as distinguia. De novo senti uma
agitao interior, a imagem da Virgem da igreja sobreps-se  da bela Margarida. Estou
condenado!, disse para comigo. Ou Estou louco. E decidi que no podia ficar mais
tempo na biblioteca.
   Por sorte estava prximo da escada. Precipitei-me por ela abaixo com risco de
tropear e apagar a candeia. Achei-me de novo sob as amplas abbadas do scriptorium,
mas nem ali me detive, e lancei-me pela escada que levava ao refeitrio.
   Ali parei ofegante. Pelas vidraas penetrava a luz da Lua, naquela noite
resplandecente, e quase j no tinha necessidade da candeia, indispensvel, porm,
pelas clulas e cubculos da biblioteca. Todavia, mantive-a acesa, como a procurar
conforto. Mas ainda ofegava, e pensei que devia beber gua para acalmar a tenso. Pois
que a cozinha era ao lado, atravessei o refeitrio e abri lentamente uma das portas que
dava para a segunda metade do rs-do-cho do Edifcio.
  E, nesse instante, o meu terror, em vez de diminuir, aumentou. Porque me apercebi
imediatamente que algum estava na cozinha, junto ao forno do po; ou pelo menos,
apercebi-me de que naquele canto brilhava uma candeia e, cheio de medo, apaguei a
minha. Assustado como estava, incuti medo, e, de fato, o outro (ou os outros) apagaram
rapidamente a sua. Mas em vo, porque a luz da noite iluminava o bastante a cozinha
para desenhar diante de mim, no pavimento, uma ou mais sombras confusas.
  Eu, enregelado, j no ousava nem retroceder nem avanar. Ouvi um balbucio e
pareceu-me ouvir, submissa, uma voz de mulher. Depois, do grupo informe que se
desenhava obscuramente junto do forno, uma sombra escura e tosca destacou-se e fugiu
para a porta exterior, que evidentemente estava entreaberta, voltando a fech-la atrs
de si.
   Fiquei eu, no limiar entre refeitrio e cozinha, e qualquer coisa de impreciso junto ao
forno. Qualquer coisa de impreciso e - como dizer? - de gemebundo. De fato provinha da
sombra um gemido, quase um pranto submisso, um soluar rtmico, de medo.
   Nada infunde mais coragem ao medroso que o medo alheio. Mas no me movi para a
sombra impelido pela coragem; antes, diria, impelido por uma embriaguez no diferente
daquela que me tinha dominado quando tinha tido as vises. Havia na cozinha qualquer
coisa de afim dos sufumgios que me tinham surpreendido na biblioteca no dia anterior.
Ou talvez no se tratasse das mesmas substancias, mas aos meus sentidos superexcitados
elas fizeram o mesmo efeito. Sentia um odor de traganta, almen e trtaro, que os
cozinheiros usavam para aromatizar o vinho. Ou talvez, como soube depois, se estivesse
naqueles dias preparando a cerveja (que naquela plaga a norte da pennsula era tida
num certo apreo), e produzia-se segundo a moda do meu pas, com urze, mirto dos
pauis e rosmaninho de pntano selvagem. Todos eles aromas que, mais do que as minhas
narinas, inebriaram a minha mente.
  E, enquanto o meu instinto racional era gritar vade retro! e afastar-me da coisa
gemente que certamente era um scubo que me fora evocado pelo maligno, qualquer
coisa na minha vis apetitiva me impeliu para a frente, como se quisesse participar de um
prodgio.
  Assim, aproximei-me da sombra, at que,  luz da noite, que caa das altas janelas,
me apercebi que era uma mulher, a tremer, que com uma mo apertava contra o peito
um embrulho e que se retraa chorando para a boca do forno.
   Deus, a Santssima Virgem e todos os santos do paraso me assistam agora ao dizer o
que me aconteceu. O pudor, a dignidade do meu estado (agora velho monge neste belo
mosteiro de Melk, lugar de paz e serena meditao) aconselhar-me-iam as mais piedosas
cautelas. Deveria dizer simplesmente que qualquer coisa de mal aconteceu, mas que no
 honesto repetir o que foi e no me perturbaria a mim prprio nem ao meu leitor.
   Mas propus-me contar, sobre aqueles fatos remotos, toda a verdade, e a verdade 
indivisvel, brilha pela sua prpria evidncia, e no consente ser diminuda pelos nossos
interesses e pela nossa vergonha. O problema , sobretudo, dizer que aconteceu no
como agora o vejo e o recordo (mesmo se agora recordo tudo com impiedosa vivacidade,
e nem sei se  o arrependimento que se seguiu a fixar de modo to vivo casos e
pensamentos da minha memria ou a insuficincia daquele mesmo arrependimento que
ainda me atormenta dando vida, na minha mente angustiada, a cada um dos mais
pequenos pormenores da minha vergonha), mas como o vi e o senti ento. E posso faz-
lo, com fidelidade de cronista, porque, se fechar os olhos posso repetir no s tudo
quanto fiz como quanto pensei naqueles instantes, como se copiasse um pergaminho
escrito ento. Devo portanto prosseguir deste modo, e So Miguel Arcanjo me proteja:
porque, para edificao dos leitores futuros e para flagelao da minha culpa, quero
agora contar como um jovem pode incorrer nas tramas do demnio, a fim de que elas
possam ser conhecidas e evidentes, e quem ainda nelas incorrer possa venc-las.
   Era, pois uma mulher. Que digo, uma rapariga. Tendo tido at ento (e a partir de
ento, sejam dadas graas a Deus) pouca familiaridade com os seres daquele sexo, no
sei dizer que idade podia ter. Sei que era jovem, quase adolescente, talvez tivesse
dezesseis ou dezoito primaveras, ou talvez vinte, e fui atingido pela impresso de
humana realidade que emanava daquela figura. No era uma viso, e pareceu-me em
todo o caso valde bona. Talvez porque tremia como um passarinho no Inverno, e
chorava, e tinha medo de mim.
   Assim, pensando que o dever de todo o bom cristo  socorrer o seu prximo,
aproximei-me dela com grande doura e em bom latim disse-lhe que no devia ter medo,
porque era um amigo, em todo o caso no um inimigo, certamente no o inimigo como
ela, talvez, receava.
  Talvez devido  suavidade que emanava do meu olhar, a criatura acalmou-se e
aproximou-se de mim. Apercebi-me que no compreendia o meu latim e, por instinto,
dirigi-me a ela na minha lngua vulgar alem, e isto assustou-a muitssimo, no sei se por
causa dos sons speros, inslitos para a gente daquela plaga, ou porque estes sons lhe
recordavam alguma outra experincia com soldados da minha terra. Ento sorri,
considerando que a linguagem dos gestos e do rosto  mais universal que a das palavras,
e ela aquietou-se. Sorriu-me tambm e disse-me algumas palavras.
  Conhecia pouqussimo a sua lngua vulgar, e em todo o caso era diferente da que em
parte tinha aprendido em Pisa, mas apercebi-me pelo tom que ela me dizia palavras
doces, e pareceu-me que dizia qualquer coisa como: Tu s jovem, tu s belo...
Raramente acontece a um novio, que tenha passado toda a sua infncia num mosteiro,
ouvir afirmaes acerca da sua prpria beleza, e, pelo contrrio,  costume avisarem-nos
que a beleza corporal  fugaz e  de ter em bastante vil conta: mas as tramas do inimigo
so infinitas, e confesso que aquela aluso  minha venustidade, por mais enganadora
que fosse, desceu docemente aos meus ouvidos e deu-me uma irreprimvel emoo.
Tanto mais que a rapariga, ao dizer isto, tinha estendido a mo e com as pontas dos
dedos tinha aflorado a minha face, ento completamente imberbe. Senti como uma
impresso de desfalecimento, mas naquele momento no conseguia divisar sombra de
pecado no meu corao. Tanto pode o demnio quando quer pr-nos  prova e apagar do
nosso esprito as marcas da graa.
   Que senti? Que vi? Eu recordo apenas que as emoes do primeiro instante foram
privadas de toda a expresso, porque a minha lngua e a minha mente no tinham sido
educadas para nomearem sensaes daquele tipo. Enquanto no me lembraram outras
palavras interiores, ouvidas noutro tempo e noutros lugares, certamente ditas com
outros fins, mas que me pareceram harmonizar-se admiravelmente com o meu gudio
daquele momento, como se tivessem nascido consubstancialmente para o exprimir.
Palavras que se tinham recalcado nas cavernas da minha memria subiram  superfcie
(muda) dos meus lbios, e esqueci que elas tinham servido nas escrituras ou nas pginas
dos santos para exprimir bem mais flgidas realidades. Mas havia pois verdadeira
diferena entre as delcias de que tinham falado os santos e as que o meu esprito
exagitado experimentava naquele instante? Naquele instante anulou-se em mim o
sentido vigilante da diferena. Que  precisamente, parece-me, o sinal do
arrebatamento nos abismos da identidade.
   De repente, a rapariga surgiu-me como a virgem negra mas bela de que fala o Cntico.
Ela trazia um pobre vestido coado de tecido cru que se abria de modo bastante
impudico sobre o peito, e tinha ao pescoo um colar feito de pedrinhas coloridas e,
creio, de nenhum valor. Mas a cabea erguia-se altivamente sobre um pescoo branco
como torre de marfim, os seus olhos eram claros como as piscinas de Hesebon, o seu
nariz era uma torre do Lbano, as madeiras da sua cabea como prpura. Sim, a sua
cabeleira surgiu-me como um rebanho de cabras, os seus dentes como rebanhos de
ovelhas que saem do banho, todas aos pares, de modo que nenhuma delas estava antes
da companheira. Como s bela, minha amada, como s bela, pus-me a murmurar, a
tua cabeleira  como um rebanho de cabras que desce das montanhas de Galaad, como
fitas de prpura so os teus lbios, gomo de rom  a tua face, o teu pescoo  como a
torre de David a que esto suspensos mil broqueis. E perguntava-me, deslumbrado e
aturdido, quem era aquela que se elevava diante de mim como a aurora, bela como a
Lua, flgida como o Sol, terribilis ut castrorum acies ordinata.
   Ento a criatura aproximou-se de mim ainda mais, atirando para um canto o embrulho
escuro que at ai tinha mantido apertado contra o peito, e levantou outra vez a mo
para me acariciar o rosto, e repetiu mais uma vez as palavras que eu j tinha ouvido. E
enquanto no sabia se fugir dela ou aproximar-me ainda mais, enquanto a minha cabea
pulsava como se as trombetas de Josu estivessem para fazer derrubar as muralhas de
Jeric, e ao mesmo tempo desejava e receava tocar-lhe, ela teve um sorriso de grande
alegria, emitiu um gemido submisso de cabra enternecida, e desfez os laos que lhe
apertavam o vestido sobre o peito, e fez deslizar o vestido do corpo como uma tnica, e
ficou diante de mim como Eva devia ter aparecido a Ado no jardim do den. Pulchra
sunt ubera quae paululum supere-minent et tument modice, murmurei, repetindo a
frase que tinha ouvido a Ubertino, porque os seus seios me surgiram como dois veados,
gmeos de uma gazela que pastavam entre os lrios, o seu umbigo foi uma taa redonda
onde nunca falta vinho drogado, o seu ventre um monto de trigo contornado de flores
dos vales.
   O sidus clarum puellarum, gritei-lhe, o porta clausa, fons hortorum, celia cusios
unguentorum, celia pigmentaria!, e achei-me sem querer encostado ao seu corpo,
sentindo-lhe o calor e o perfume acre de ungentos jamais conhecidos. Lembrei-me:
Filhos, quando vem o amor louco, nada pode o homem!, e compreendi que, fosse
quanto sentia trama do inimigo ou dom celeste, j nada podia fazer para contrariar o
impulso que me movia, e: Oh, langueo, gritei, e: Causam languoris video nec caveo!,
tambm porque um odor rseo emanava dos seus lbios e eram belos os seus ps nas
sandlias, e as pernas eram como colunas e como colunas as curvas dos seus flancos,
obra de mo de artista.  amor, filha de delcias, um rei ficou preso  tua trana,
murmurava dentro de mim, e fiquei entre os seus braos, e camos juntos sobre o
pavimento nu da cozinha e, no sei se por minha iniciativa ou por artes dela, achei-me
livre do meu saio de novio, e no tivemos vergonha dos nossos corpos et cuneta erant
bona.
   E ela beijou-me com os beijos da sua boca, e os seus amores foram mais deliciosos que
o vinho e ao odor eram deliciosos os seus perfumes, e era belo o seu pescoo entre as
prolas e as suas faces entre os brincos, como s bela, minha amada, como s bela, os
teus olhos so pombas (dizia), e deixa-me ver a tua face, deixa-me sentir a tua voz, que
a tua voz  harmoniosa e a tua face encantadora, fiquei louco de amor, minha irm,
fiquei louco com um s olhar teu, com uma s gema do teu pescoo, favo que goteja so
os teus lbios, mel e leite sob a tua lngua, o perfume da tua respirao  como o dos
pomos, os teus seios em cachos, os teus seios como cachos de uva, o teu palato um vinho
delicioso que vai direito ao meu amor e flui sobre os lbios e sobre os dentes. Fonte de
jardim, nardo e aafro, canela e cinamomo, mirra e alos, eu comia o meu favo e o
meu mel, bebia o meu vinho e o meu leite, quem era, quem era afinal esta que se
elevava como a aurora, bela como a Lua, flgida como o Sol, terrvel como tropas em
fileiras?
   Oh, Senhor, quando a alma  arrebatada, ento a nica virtude est em amar aquilo
que vs (no  verdade?), a suma felicidade em ter aquilo que tens, ento a vida bem-
aventurada bebe-se na sua fonte (no foi dito?) ento saboreia-se a verdadeira vida que
depois desta morte nos tocar viver junto dos anjos na eternidade... Isto pensava, e
parecia-me que as profecias se verificavam, enfim, enquanto a rapariga me acumulava
de douras indescritveis, e era como se o meu corpo fosse todo ele um olho de frente e
de trs e visse as coisas circundantes num relance. E compreendia que disso, que  o
amor, se produzem a um tempo a unidade e a suavidade e o bem e o beijo e o amplexo,
como j tinha ouvido dizer julgando que me falassem de outra coisa. E s por um
instante, enquanto a minha alegria estava prestes a tocar o znite, lembrei-me que
estava talvez experimentando, e de noite, a possesso do demnio meridiano condenado
enfim a mostrar-se na sua mesma natureza de demnio  alma que no xtase pergunta
quem s?, ele que sabe arrebatar a alma e iludir o corpo. Mas sbito me convenci que
diablicas eram decerto as minhas hesitaes, porque nada podia ser mais justo, mais
delicioso, mais santo que aquilo que estava sentindo e cuja doura crescia momento a
momento. Como uma pequena gota de gua infusa numa certa quantidade de vinho toda
se dispersa para tomar cor e sabor de vinho, como o ferro incandescente e inflamado se
torna quase igual ao fogo perdendo a sua forma primitiva, como o ar inundado pela luz
do Sol  transformado no mximo esplendor e na mesma claridade, a ponto de j no
parecer iluminado mas de ser ele mesmo luz, assim eu me sentia morrer de terna
liquefao, de modo que me restou apenas fora para murmurar as palavras do salmo:
Eis que o meu peito  como o vinho novo, sem abertura, que rompe odres novos, e de
sbito vi uma fulgidssima luz e nela uma forma cor de safira que se abrasava toda num
fogo rutilante e suavssimo, e aquela luz esplndida difundiu-se por todo o fogo
resplendente e aquela luz fulgidssima e aquele fogo rutilante pela forma inteira.
   Enquanto, quase esvado, caa sobre o corpo a que me tinha unido, compreendi, num
ltimo sopro de vitalidade, que a chama consiste numa esplndida claridade, num inato
vigor e num gneo ardor, mas a esplndida claridade possui-a para reluzir e o gneo ardor
a fim de queimar. Depois compreendi o abismo, e os abismos ulteriores que ele invocava.
   Agora que, com a mo trmula (e no sei se pelo horror do pecado de que falo ou pela
culpvel nostalgia do fato que rememoro), escrevo estas linhas, apercebo-me de ter
usado para descrever o meu hediondo xtase daquele instante as mesmas palavras que
usei, no muitas pginas atrs, para descrever o fogo que queimava o corpo mrtir do
fraticello Miguel. E no foi por acaso que a minha mo, submissa executora da alma,
traou as mesmas expresses pare duas experincias to diferentes, porque
provavelmente as vivi do mesmo modo, ento, quando as apreendi, e h pouco, quando
procurava faz-las reviver a ambas no pergaminho.
   H uma misteriosa sabedoria pela qual fenmenos dispares entre si podem ser
nomeados com palavras anlogas, a mesma pela qual as coisas divinas podem ser
designadas com nomes terrenos, e por smbolos equvocos Deus pode ser dito leo ou
leopardo, e a morte, ferida, e a alegria, chama, e a chama, morte, e a morte, abismo, e
o abismo, perdio, e a perdio, delquio, e o delquio, paixo.
   Porque  que eu, jovem, nomeava o xtase de morte que me tinha impressionado no
mrtir Miguel com as palavras com que a santa tinha nomeado o xtase de vida (divine)
mas com as mesmas palavras no podia nomear o xtase (culpvel e passageiro) de gozo
terreno, que, por seu lado, logo depois me tinha parecido sensao de morte e
anulamento? Eu procuro agora raciocinar sobre o modo como apreendi, a poucos meses
de distncia, duas experincias igualmente exaltantes e dolorosas, e sobre o modo como
naquela noite na abadia rememorei uma e apreendi sensivelmente a outra, a poucas
horas de distncia e ainda o modo como ao mesmo tempo as revivi agora, traando estas
linhas, e como nos trs caves as recitei a mim mesmo com as palavras da diversa
experincia de uma alma santa que se anulava na viso da divindade. Acaso terei
blasfemado (ento, agora)? Que havia de smile no desejo de morte de Miguel, no
arrebatamento que senti  vista da chama que o consumia, no desejo de conjuno
carnal que senti com a rapariga, no mstico pudor com que o traduzia alegoricamente, e
no mesmo desejo de anulamento jubiloso que movia a santa a morrer do seu prprio
amor pare viver mais e eternamente?  possvel que coisas to equivocal possam dizer-se
de modo to unvoco? E, no entanto,  isto, parece, o ensinamento que nos deixaram os
maiores entre os doutores: omnos ergo figura tanto evidentius veritatem demonstrat
quanto apertius per dissimilem similitudinem figuram se esse et nom veritatem probat.
Mas, se o amor da chama e do abismo so figura do amor de Deus, podem ser figura do
amor da morte e do amor do pecado? Sim, tal como o leo e a serpente so a um tempo
figura de Cristo e do demnio.  que a justeza da interpretao no pode ser fixada
seno pela autoridade dos padres, e no cave que me aflige no tenho autorictas a que a
minha mente obediente posse referir-se, e ardo na dvida (e de novo a figura do povo
intervm para definir o vazio de verdade e a plenitude de erro que me anulam!). Que se
passa,  Senhor, na minha alma, agora que me deixo prender pelo vrtice das
recordaes e suscito a conflagrao de tempos diversos, como se estivesse para alterar
a ordem dos astros e a seqncia dos seus movimentos celestes? Certamente supero os
limites da minha inteligncia pecadora e doente. Vamos, voltemos  tarefa que
humildemente me tinha proposto. Estava falando daquele dia e do total esmorecimento
dos sentidos em que abismei. Eis que disse aquilo de que me recordei naquela ocasio, e
que a isto se limite a minha dbil pena de fiel e verdico cronista.
  Fiquei estendido, no sei por quanto tempo, com a rapariga a meu lado. Com um
movimento leve, apenas a sua mo continuava a tocar o meu corpo, agora mido de
suor. Sentia uma exaltao interior, que no era paz, mas como o ltimo ardor abafado
de um fogo tardasse a extinguir-se sob a cinza quando a chama  j morta. No hesitaria
em chamar bem-aventurado quele a quem fosse concedido sentir algo de semelhante
(murmurava como no sono), ainda que raramente, nesta vida (e de fato s o senti aquela
vez, e apenas rapidamente, e pelo espao de um s instante). Como se j no se
existisse, no se sentir por completo a si mesmo, ser abatido, quase aniquilado, e se
algum dos mortais (dizia para comigo) pudesse por um s instante e rapidamente
saborear o que eu saboreei logo veria com maus olhos este mundo perverso, seria
perturbado pela malcia do viver quotidiano, sentiria o peso do seu corpo de morte...
No era isto o que me tinham ensinado? Aquele convite de todo o meu esprito a perder a
memria na beatitude era decerto (agora o compreendia) a irradiao do sol eterno, e a
alegria que ele produz abre, distende, engrandece o homem, e a garganta
completamente aberta que o homem traz em si mesmo j no se fecha com tanta
facilidade,  a ferida aberta pelo golpe de espada do amor, e no h aqui em baixo nada
que seja mais doce e mais terrvel. Mas tal  o direito do Sol, ele seteia o ferido com os
seus raios e todas as pregas se alargam, o homem abre-se e dilata-se, as suas prprias
veias so completamente abertas, as suas foras j no so capazes de executar as
ordens que recebem mas so unicamente movidas pelo desejo, o esprito arde abismado
no abismo do que agora toca, vendo o seu prprio desejo e a sua prpria verdade
superados pela realidade que viveu e que vive. E assiste-se estupefato ao seu prprio
delquio.
  Foi imerso em tais sensaes de inenarrvel jbilo interior que adormeci.
  Reabri os olhos algum tempo depois, e a luz da noite, talvez por causa de uma nuvem,
era muito mais dbil. Estendi a mo de lado e j no senti o corpo da rapariga. Voltei a
cabea: j no estava.
   A ausncia do objeto que tinha desencadeado o meu desejo e saciado a minha sede
fez-me apreender de repente a sanidade daquele desejo e a perversidade daquela sede.
Omne animal triste post coitum. Tomei conscincia do fato de ter pecado. Agora, a anos
e anos de distncia, quando ainda choro amargamente a minha falta, no posso esquecer
que naquela noite eu tinha sentido um grande jbilo, e ofenderia o Altssimo, que criou
todas as coisas em bondade e beleza, se no admitisse que naquela histria de dois
pecadores sucedeu alguma coisa que em si, naturaliter, era bom e belo. Mas,
provavelmente,  a minha velhice atual que me faz sentir culpavelmente como belo e
bom tudo o que foi da minha juventude. Agora que deveria voltar o meu pensamento
para a morte, que se aproxima. Ento, jovem, no pensei na morte, mas sentida e
sinceramente chorei pelo meu pecado.
  Levantei-me tremendo, tambm porque tinha estado longo tempo sobre as pedras
glidas da cozinha e tinha o corpo entorpecido. Voltei a vestir-me, quase febrilmente.
Ento distingui num canto o embrulho que a rapariga tinha abandonado ao fugir. Inclinei-
me para examinar o objeto: era uma espcie de pacote feito de tecido enrolado, que
parecia provir das cozinhas. Desdobrei-o, e no momento no compreendo o que tinha
dentro, tanto por causa da pouca luz como da forma informe do seu contedo. Depois
compreendi: entre cogulos de sangue e bocados de carne mais flcida e esbranquiada,
estava diante dos meus olhos, morto mas ainda palpitante da vida gelatinosa das vsceras
mortas, sulcado de nervos vidos, um corao, de grandes dimenses.
  Um vu escuro desceu-me sobre os olhos, uma saliva acdula subiu-me  boca. Lancei
um urro e ca como cai um corpo morto.
  TERCEIRO DIA
  NOITE
  Onde Adso, transtornado, se confessa a Guilherme e medita sobre a funo da mulher
no plano da criao, porm, descobre depois o cadver de um homem.
  Voltei a mim quando algum me banhava o rosto. Era frade Guilherme, que trazia uma
candeia e me tinha posto alguma coisa debaixo da cabea.
  - Que sucedeu, Adso - perguntou-me -, que andas de noite a roubar fressuras pela
cozinha?
   Em resumo, Guilherme tinha acordado, tinha-me procurado j no sei por que razo,
e, no me encontrando, tinha suspeitado que tivesse ido fazer alguma bravata 
biblioteca. Aproximando-se do Edifcio pelo lado da cozinha, tinha visto uma sobra que
saa pela porta para o horto (era a rapariga que se afastava, talvez por ter ouvido algum
que se aproximava). Tinha procurado compreender quem era e segui-la, mas ela (ou
melhor, aquilo que para ele era uma sombra) tinha-se afastado para o muro da cerca e
depois tinha desaparecido. Ento, Guilherme - depois de uma explorao nos arredores -
tinha entrado na cozinha e, ali, tinha-me encontrado desmaiado.
  Quando lhe apontei, ainda aterrorizado, para o embrulho com o corao, balbuciando
qualquer coisa sobre um novo delito, ps-se a rir:
  - Adso, mas que homem poderia ter um corao to grande?  um corao de vaca, ou
de boi, mataram justamente hoje um animal! Melhor, como se encontra nas tuas mos?
  Naquela altura, oprimido pelos remorsos, alm de aturdido pelo terror, desatei num
pranto violento e pedi que me administrasse o sacramento da confisso. O que ele fez, e
eu contei-lhe tudo sem lhe ocultar nada.
  Frade Guilherme escutou-me com grande seriedade, mas com uma sombra de
indulgncia. Quando acabei, tomou um ar srio e disse-me:
   - Adso, tu pecaste,  certo, e contra o mandamento que te impe no fornicar, e
contra os teus deveres de novio. Para tua desculpa, conta o fato que te encontraste
numa daquelas situaes em que se teria condenado at um padre no deserto. E sobre a
mulher como fonte de tentao j falaram o bastante as escrituras. Da mulher diz o
Eclesiastes que a sua conversao  como fogo ardente, e os Provrbios dizem que ela se
apodera da alma preciosa do homem e que os mais fortes foram arruinados por ela. E diz
ainda o Eclesiastes: descobri que mais amarga que a morte  a mulher, que  como o
lao dos caadores, o seu corao  como uma rede, as suas mos so cadeias. E outros
disseram que ela  baixel do demnio. Apurado isto, querido Adso, eu no consigo
convencer-me que Deus tenha querido introduzir na criao um ser to imundo sem o
dotar de alguma virtude. E no posso deixar de refletir sobre o fato que Ele lhe concedeu
muitos privilgios e motivos de apreo, dos quais pelo menos trs, muito grandes. De
fato, criou o homem neste mundo vil, e da lama, e a mulher num segundo tempo, no
paraso e da nobre matria humana. E no a formou dos ps ou das entranhas do corpo
de Ado, mas da costela. Em segundo lugar, o Senhor, que pode tudo, poderia ter
encarnado diretamente num homem de algum modo miraculoso, e escolheu, pelo
contrrio, habitar no ventre de uma mulher, sinal de que no era to imunda como isso.
E, quando apareceu depois da ressurreio, apareceu a uma mulher. E, enfim, na glria
celeste nenhum homem ser rei naquela ptria, pelo contrrio, a ser rainha uma
mulher que nunca pecou. Se portanto o Senhor teve tantas atenes para com a prpria
Eva e para com as suas filhas,  assim to anormal que tambm ns nos sintamos atrados
pelas graas e pela nobreza daquele sexo? Aquilo que quero dizer-te, Adso,  que de
certeza no deves voltar a faz-lo, mas que no  assim to monstruoso que tu tenhas
sido tentado a faz-lo. E, por outro lado, que um monge, ao menos uma vez na vida,
tenha tido experincia da paixo carnal, de modo a um dia poder ser indulgente e
compreensivo com os pecadores a quem dar conselho e conforto... Pois bem, querido
Adso,  coisa para no auspiciar antes que acontea, mas nem sequer para vituperar
demasiado depois de ter acontecido. E portanto vai com Deus e no falemos mais nisso.
Mas, em vez disso, para no estar a medicar demasiado sobre alguma coisa que ser
melhor esquecer, se o conseguires - e pareceu-me que nesta altura a sua voz
enfraqueceu como por alguma comoo interior -, perguntemo-nos antes o sentido de
quanto aconteceu esta noite. Quem era essa rapariga e com quem tinha encontro?
  - Isso  que eu no sei, e no vi o homem que estava com ela - disse.
   - Bem, mas podemos deduzir quem era por muitos indcios absolutamente seguros.
Antes de mais nada, era um homem feio e velho, com quem uma rapariga no vai de boa
vontade, especialmente se  bela como tu dizes, mesmo que me parea, meu querido
lobato, que estavas Dronenso a achar delicado qualquer alimento.
  - Porqu feio e velho?
  - Porque a rapariga no ia ter com ele por amor, mas por um pacote de rojes.
Certamente era uma
  rapariga da aldeia que, talvez no pela primeira vez, se entrega por fome a algum
monge luxurioso e obtm como recompensa alguma coisa para meter  boca, ela e a sua
famlia.
  - Uma meretriz!  exclamei horrorizado.
   - Uma camponesa pobre, Adso. Talvez com os irmozinhos para sustentar. E que,
podendo, se daria
   por amor e no por lucro. Como fez esta noite. De fato, dizes-me que te achou jovem
e belo e te deu grtis e por amor tudo o que a outros daria, ao invs, por um corao de
boi e algum pedao de pulmo. E sentiu-se to virtuosa pelo dom gratuito que fez de si,
e consolada, que fugiu sem levar nada em troca. Eis porque penso que o outro, ao qual
te comparou, no era nem jovem nem belo.
  Confesso que, embora o meu arrependimento fosse vivssimo, aquela explicao me
encheu de dulcssimo orgulho, mas calei-me e deixei continuar o meu mestre.
   - Esse velhote feio devia ter a possibilidade de descer  aldeia e ter contatos com os
camponeses, por algum motivo ligado ao seu ofcio. Devia conhecer o modo de fazer
entrar e sair gente da cerca, e saber que na cozinha havia aquelas fressuras (e talvez
amanh se dissesse que, ficando a porta aberta, um co tinha entrado e as tinha
comido). E, enfim, devia ter um certo sentido da economia, e um certo interesse em que
a cozinha no fosse privada de vitualhas mais preciosas, seno ter-lhe-ia dado um bife ou
outra parte mais saborosa. E vs agora que a imagem do nosso desconhecido se desenha
com muita clareza e que todas estas propriedades, ou acidentes, bem convm a uma
substancia que no teria receio em definir como o nosso despenseiro, Remgio de
Varagine. Ou, se me enganasse, como o nosso misterioso Salvador. O qual, entre outras
coisas, sendo destas paragens sabe falar bastante bem com as gentes do lugar e sabe
como convencer uma rapariga a fazer aquilo que queria faz-la fazer, se tu no tivesses
chegado.
  -  decerto assim - disse convencido - mas que nos serve agora?
  - Nada. E tudo - disse Guilherme. - A histria pode estar relacionada ou no com os
delitos de que nos ocupamos. Por outro lado, se o despenseiro foi dolciniano, isto explica
aquilo e vice-versa. E sabemos agora enfim que esta abadia, de noite,  lugar de muitas
e errantes vicissitudes. E quem sabe se o nosso despenseiro, ou Salvador, que a
percorrem no escuro com tanta desenvoltura, no sabem em todo o caso mais do que
aquilo que dizem.
  - Mas di-lo-o a ns?
   - No, se nos comportarmos de modo compassivo, ignorando os seus pecados. Mas, se
tivssemos mesmo de saber alguma coisa, teramos na mo um modo de os persuadir a
falar. Por outras palavras, se houver necessidade disso, o despenseiro ou Salvador so
nossos, e Deus nos perdoar esta prevaricao, visto que perdoa tantas outras coisas -
disse, olhando-me com malcia, e eu no tive animo para fazer observaes sobre o
carter lcito dos seus propsitos.  E agora deveramos ir para a cama, porque daqui a
uma hora so matinas. Mas vejo-te ainda agitado, meu pobre Adso, ainda temeroso do
teu pecado... No h nada como uma boa pausa na igreja para nos distender o animo. Eu
absolvi-te, mas nunca se sabe. Vai pedir confirmao ao Senhor.
   E deu-me uma palmada bastante enrgica na cabea, talvez como prova de paternal e
viril afeto, talvez como indulgente penitncia. Ou talvez (como culpavelmente pensei
naquele momento) por uma espcie de benigna inveja, de homem sedento de
experincias novas e ardentes como era.
   Encaminhamo-nos para a igreja, saindo pela nossa via habitual, que percorri depressa
fechando os olhos, porque todos aqueles ossos me recordavam com demasiada evidncia,
naquela noite, como tambm eu era p e quo insensato tinha sido o orgulho da minha
carne.
   Ao chegar  nave vimos uma sombra diante do altar-mor. Julgava que era ainda
Ubertino. Mas era Alinardo, que  primeira vista no nos reconheceu. Disse que j era
incapaz de dormir, e tinha decidido passar a noite a rezar por aquele jovem monge
desaparecido (no recordava sequer o seu nome). Rezava pela sua alma se estivesse
morto, pelo seu corpo se jazesse enfermo e s em qualquer stio.
   - Demasiados mortos  disse -, demasiados mortos... Mas estava escrito no livro do
apstolo. Com a primeira trombeta veio o granizo, com a segunda, a tera parte do mar
tornou-se sangue, e um encontraste-lo no granizo, o outro no sangue... A terceira
trombeta adverte que uma estrela ardente cair na tera parte dos rios e das fontes.
Assim, digo-vos, desapareceu o nosso terceiro irmo. E temei pelo quarto, porque ser
atingida a tera parte do Sol, e da Lua e das estrelas, de modo que a obscuridade ser
quase completa...
  Enquanto saamos pelo transepto, Guilherme perguntou-se se nas palavras do velho
no haveria algo de verdadeiro.
  - Mas - fi-lo observar - isso pressuporia que uma nica mente diablica, usando o
Apocalipse como guia, tivesse predisposto os trs desaparecimentos, admitindo que
Berengrio tambm esteja morto. Pelo contrrio, sabemos que o de Adelmo foi devido 
sua vontade...
   -  verdade - disse Guilherme -, mas a mesma mente diablica, ou doente, poderia ter
tirado inspirao da morte de Adelmo para organizar de modo simblico as outras duas.
E, se assim fosse, Berengrio deveria encontrar-se num rio ou numa fonte. E no h rios
e fontes na abadia, pelo menos no tais que algum se possa afogar ou a possa ser
afogado...
  - H apenas os banhos - observei quase por acaso.
  - Adso! - disse Guilherme -, sabes que essa pode ser uma idia? Os balnea!
  - Mas a j devem ter olhado...
  - Vi os servos esta manh quando faziam as suas buscas, abriram a porta da construo
dos balnea e deram uma olhadela em torno, sem revistar, no esperavam ainda ter de
procurar algo de bem escondido, esperavam um cadver que jazesse teatralmente em
qualquer parte, como o cadver de Venancio na talha... Vamos dar uma olhadela,
entretanto ainda est escuro e parece-me que a nossa candeia arde ainda com gosto.
  Assim fizemos, e abrimos sem dificuldade a porta da construo dos balnea, encostada
ao hospital.
   Resguardadas umas das outras mediante amplas cortinas, estavam as banheiras, no
recordo quantas. Os monges usavam-nas para a sua higiene, quando a regra lhes fixava o
dia, e Severino usava-as por razes teraputicas, porque nada melhor que um banho para
acalmar o corpo e a mente. Uma chamin num canto permitia facilmente aquecer a
gua. Encontramo-la suja de cinza fresca, e diante dela estava um grande caldeiro
entornado. A gua tirava-se de uma fonte num canto.
   Olhamos nas primeiras banheiras, que estavam vazias. S a ltima, dissimulada por
uma cortina estendida, estava cheia, e a seu lado jazia, um monte, uma veste. 
primeira vista,  luz da nossa lmpada, a superfcie do lquido pareceu-nos calma: mas,
como a luz lhe bateu de cima, entrevimos no fundo, inanimado, um corpo humano, nu.
Tiramo-lo lentamente para fora: era Berengrio. E este, disse Guilherme, tinha
verdadeiramente o aspecto de um afogado. As feies do rosto estavam inchadas. O
corpo, branco e mole, privado de plos, parecia o de uma mulher, salvo o espetculo
obsceno das flcidas pudenta. Corei, depois tive um arrepio. Benzi-me, enquanto
Guilherme abenoava o cadver.
   QUARTO DIA
  LAUDAS
  Onde Guilherme e Severino examinam o cadver de Berengrio e descobrem que tem
a lngua negra, coisa singular para um afogado. Depois discutem sobre venenos
dolorosssimos e sobre um furto remoto.
  No me demorarei a dizer como informamos o Abade, como toda a abadia acordou
antes da hora cannica, os gritos de horror, o espanto e a dor que se viam nos rostos de
todos, como a notcia se propagou a todo o povo do planalto, com os servos que se
benziam e pronunciavam esconjuros. E no sei se naquela manh o primeiro ofcio se
desenrolou segundo as regras, e quem nele tomou parte. Eu segui Guilherme e Severino,
que mandaram envolver o corpo de Berengrio e ordenaram que o estendessem sobre
uma mesa no hospital.
   Mal o Abade e os outros monges se afastaram, o ervanrio e o meu mestre observaram
longamente o cadver com a frieza dos homens da medicina.
   - Morreu afogado - disse Severino -, no h dvida. A cara est inchada, o ventre est
raso...
   - Mas no foi afogado por outros - observou Guilherme -, seno ter-se-ia rebelado
contra a violncia do homicida, e teramos encontrado marcas de gua espalhada em
torno da banheira. Pelo contrrio, estava tudo arrumado e limpo, como se Berengrio
tivesse aquecido a gua, enchido a banheira, e nela se tivesse acomodado de livre
vontade.
   - Isso no me admira - disse Severino. - Berengrio sofria de convulses, e eu prprio
lhe tinha dito vrias vezes que os banhos tpidos servem para acalmar a excitao do
corpo e do esprito. Vrias vezes me tinha pedido licena para ter acesso aos balnea.
Assim poderia ter feito esta noite...
  - A noite passada - observou Guilherme -, porque este corpo, como vs, ficou na gua
pelo menos um dia...
  -  possvel que tenha sido a noite passada - concordou Severino.
   Guilherme p-lo parcialmente ao corrente dos acontecimentos da noite anterior. No
lhe disse que tnhamos estado furtivamente no scriptorium mas, ocultando-lhe vrias
circunstncias, disse-lhe que tnhamos perseguido uma figura misteriosa que nos tinha
tirado um livro. Severino compreendeu que Guilherme lhe dizia apenas uma parte da
verdade mas no fez mais perguntas. Observou que a agitao de Berengrio, se era ele
o ladro misterioso, podia t-lo levado a procurar a tranqilidade num banho
restaurador. Berengrio, observou, era de natureza muito sensvel, por vezes uma
contrariedade ou uma emoo provocavam-lhe tremores, suores frios, arregalava os
olhos e caa por terra cuspindo uma baba esbranquiada.
   - Em todo o caso - disse Guilherme -, antes de vir para aqui esteve em qualquer outro
stio, porque no vi nos balnea o livro que roubou.
  - Sim - confirmei com um certo orgulho -, levantei a sua veste, que jazia ao lado da
banheira, e no encontrei marcas de nenhum objeto volumoso.
  - Muito bem - sorriu-me Guilherme. - Portanto esteve em qualquer outro stio, depois
admitamos ainda que, para acalmar a sua prpria agitao, e talvez para se subtrair s
nossas buscas, se tenha enfiado nos balnea e tenha mergulhado na gua. Severino, julgas
que o mal de que sofria era suficiente para lhe fazer perder os sentidos e faz-lo afogar?
  - Podia ser - observou Severino duvidando. - Por outro lado, se tudo aconteceu h duas
noites, podia ter havido gua em torno da banheira, que depois secou. Assim, no
podemos concluir que tenha sido afogado  viva fora.
   - No - disse Guilherme. - Alguma vez viste um assassinado que, antes de se deixar
afogar, despe a roupa?
   Severino abanou a cabea, como se aquele argumento j no tivesse grande valor. H
alguns instantes que estava examinando as mos do cadver:
  - Eis uma coisa curiosa... - disse.
  - O qu?
   - No outro dia observei as mos de Venancio, quando o corpo foi limpo do sangue, e
notei um pormenor a que no tinha dado muita importncia. As pontas de dois dedos da
mo direita de Venancio estavam escuras, como enegrecidas por uma substancia escura.
Exatamente, vs? Como agora as pontas de dois dedos de Berengrio. Mais, aqui temos
mesmo algumas marcas no terceiro dedo. Ento pensei que Venancio tinha tocado nas
tintas do scriptorium...
   - Muito interessante - observou Guilherme pensativo, aproximando os olhos dos dedos
de Berengrio. A Alba estava surgindo, a luz no interior era ainda fraca, o meu mestre
sofria evidentemente pela falta da suas lentes. - Muito interessante - repetiu. - O
indicador e o polegar esto escuros nas pontas, o mdio s na parte interna, e
levemente. Mas tambm h marcas mais leves na mo esquerda, pelo menos no indicador
e no polegar.
  - Se fosse s a mo direita, seriam os dedos de quem agarra alguma coisa pequena, ou
comprida e delgada...
  - Como um estilete. Ou um alimento. Ou um inseto. Ou uma serpente. Ou um
ostensrio. Ou um pau. Demasiadas coisas. Mas se tinham um sinal na outra mo tambm
podia ser uma faca, a direita segura bem e a esquerda colabora com menor fora...
  Severino esfregava agora ligeiramente os dedos do morto, nelas a cor escura no
desaparecia. Notei que tinha posto um par de luvas, que provavelmente usava quando
manuseava substancias venenosas. Cheirava, mas sem tirar dai sensao alguma.
  - Poderia citar-te muitas substancias vegetais (e at minerais) que provocam marcas
deste tipo. Algumas letais, outras no. Os miniaturistas tm por vezes os dedos sujos de
p de ouro...
   - Adelmo era miniaturista - disse Guilherme.  Suponho que diante do seu corpo
esfacelado tu no
   pensaste em examinar-lhe os dedos. Mas estes podiam ter tocado nalguma coisa que
tenha pertencido a Adelmo.
  - Verdadeiramente no sei - disse Severino. - Dois mortos, ambos com os dedos negros.
Que deduzes?
  - No deduzo nada, nihil sequitur geminis ex particularibus unquam. Seria preciso
reconduzir ambos os casos a uma regra. Por exemplo: existe uma substancia que
  enegrece os dedos dos que tocam...
  Terminei triunfante o silogismo:
  - ... Venancio e Berengrio tm os dedos enegrecidos, cargo tenham tocado essa
substancia!
   - Muito bem, Adso - disse Guilherme -, pena que o teu silogismo no seja vlido,
porque aut semel aut iterum mdium genera-liter esto, e neste silogismo o termo mdio
nunca aparece como geral. Sinal de que escolhemos mal a premissa maior. No devia
dizer: todos aqueles que todos os que tocam certa substancia tem os dedos negros, pois
tambm podia haver pessoas com os dedos negros e que no tivessem tocado a
substancia. Devia dizer: todos aqueles e s todos aqueles que tm os dedos negros
tocaram certamente uma dada substancia. Venancio e Berengrio etctera. Com o que
teramos um Darii, um timo terceiro silogismo de primeira figura.
  - Ento teremos a resposta! -disse todo contente.
  - Ai, Adso, como te fias em silogismos! Temos apenas e de novo a pergunta. Isto ,
pusemos a hiptese que Venancio e Berengrio tocaram a mesma coisa, hiptese sem
dvida razovel. Mas, uma vez que imaginamos uma substancia que, nica entre todas,
provoca este resultado (o que  ainda para apurar), no sabemos qual  nem onde eles a
tero encontrado, e porque a tero tocado. E, repara bem, no sabemos sequer se 
afinal a substancia que tocaram aquela que os conduziu  morte. Imagina que um louco
queria matar todos aqueles que tocam no p de ouro. Diramos que  o p de ouro que
mata?
   Fiquei perturbado. Sempre tinha acreditado que a lgica era uma arma universal, e
apercebia-me agora como a sua validade dependia do modo como se usava. Por outro
lado, freqentando o meu mestre, tinha-me dado conta, e dei-me conta cada vez mais
dos dias que se seguiram, que a lgica podia servir de muito com a condio de entrar
dentro dela e depois sair.
  Severino, que no era decerto um bom lgico, refletia entretanto segundo a sua
prpria experincia:
   - O universo dos venenos  vrio, como vrios so os mistrios da natureza - disse.
Indicou uma srie de frascos e ampolas que j uma vez tnhamos admirado, dispostos em
boa ordem nas estantes ao longo das paredes, junto de muitos volumes. - Como j te
disse, muitas destas ervas, devidamente compostas e dosadas, poderiam dar lugar a
bebidas e ungentos mortais. Eis ali datura stramonium, beladona, cicuta: podem dar
sonolncia, excitao, ou ambas; administradas com cautela so timos medicamentos,
em doses excessivas levam  morte. Ali est a fava de Santo Incio, a angustura pseudo-
ferrugnea, a nux vmica, que poderiam tirar a respirao...
  - Mas nenhuma destas substancias deixaria sinais nos dedos?
   - Nenhuma, creio. Depois, existem substancias que s se tornam perigosas se
ingeridas, e outras que, pelo contrrio, atuam sobre a pele. O helboro branco pode
provocar vmitos em quem o agarra para o arrancar da terra. Existem begnias que
quando esto em flor provocam embriaguez nos jardineiros que as tocam, como se
tivessem bebido vinho. O helboro negro, s de o tocar provoca diarria. Outras plantas
provocam palpitaes de corao, outras na cabea, outras ainda fazem perder a voz.
Pelo contrrio, o veneno da vbora, aplicado na pele sem penetrar no sangue, produz
apenas uma ligeira irritao... Mas uma vez mostraram-me um composto que, aplicado
na parte interna das coxas de um co, perto dos rgos genitais, leva o animal a morrer
em pouco tempo, no meio de convulses atrozes, com os membros que pouco a pouco se
tornam rgidos...
  - Sabes muitas coisas sobre os venenos - observou Guilherme com um tom de voz que
parecia de admirao.
  Severino fixou-o e suportou o seu olhar por alguns instantes:
  - Sei aquilo que um mdico, um ervanrio, uma pessoa que cultiva a cincia e a sade
humana deve saber.
  Guilherme ficou longo tempo distrado. Depois pediu a Severino que abrisse a boca do
cadver e que lhe observasse a lngua. Severino, intrigado, usou uma esptula delgada,
um dos instrumentos da sua arte mdica, e executou. Deu um grito de estupefao:
  - A lngua est negra!
   - Ento  isso - murmurou Guilherme. - Agarrou alguma coisa com os dedos e ingeriu-
a... Isto elimina os venenos que citaste antes, que matam penetrando atravs da pele.
Mas no torna mais fceis as nossas indues. Porque agora temos de pensar, para ele e
para Venancio, num gesto voluntrio, no casual, no devido a distrao ou a
imprudncia, nem induzido pela violncia. Agarraram alguma coisa e introduziram-na na
boca conscientes do que faziam.
  - Um alimento? Uma bebida?
  - Talvez! Talvez! O que seria? Um instrumento musical, por exemplo uma flauta.
  - Absurdo!  disse Severino.
   - Decerto que  absurdo. Mas no devemos transcutar nenhuma hiptese, por
extraordinria que seja. Mas agora procuremos remontar  matria venenosa. Se algum
que conhece os venenos como tu se tivesse introduzido aqui e tivesse usado algumas
destas tuas ervas teria podido compor um ungento mortal capaz de produzir aqueles
sinais nos dedos e na lngua? Capaz de ser posto num alimento, numa bebida, numa
colher, nalguma coisa que se mete  boca?
  - Sim - admitiu Severino -, mas quem? E depois, mesmo adquirindo essa hiptese,
como teria sido administrado o veneno aos nossos pobres irmos?
  Francamente tambm eu no conseguia imaginar Venancio ou Berengrio deixando-se
abordar por algum que lhes estendia uma substancia misteriosa que algum o
oferecera. Mas Guilherme no pareceu perturbado por esta extravagncia.
   - Nisso pensaremos depois  disse -, porque agora queria que tu procurasses recordar
algum fato que talvez no te tenha ainda voltado  mente, no sei, algum que tenha
feito perguntas sobre as suas ervas. algum que tenha acesso fcil ao hospital....
   - Um momento - disse Severino -, h muito tempo, falo de anos, conservava numa
daquelas estantes uma substancia muito forte, que me tinha dado um irmo que tinha
viajado por pases distantes. No sabia dizer-me de que era feita, certamente de ervas,
e nem todas conhecidas. Era, na aparncia, viscosa e amarelada, mas aconselharam-me
que no lhe tocasse, porque se ficasse mesmo s em contato com os lbios ter-me-ia
morto em pouco tempo. O irmo disse-me que, mesmo ingerida em doses mnimas,
provocava no espao de meia hora uma sensao de prostrao, depois uma lenta
paralisia de todos os membros, e por fim a morte. No queria lev-la consigo, e fez-me
presente dela. Conservei-a por longo tempo, porque me propunha examin-la de alguma
maneira. Depois, um dia, houve no planalto uma grande tempestade. Um dos meus
ajudantes, um novio, tinha deixado a porta do hospital aberta, e o furaco tinha
devastado toda a sala em que agora estamos. Ampolas quebradas, lquidos espalhados
pelo pavimento, ervas e ps dispersos. Trabalhei um dia a pr de novo em ordem as
minhas coisas, e pedi ajuda apenas para varrer os cacos e as ervas j irrecuperveis. No
fim apercebi-me que faltava precisamente a ampola de que te falava. Primeiro
preocupei-me, depois convenci-me que se tinha quebrado e confundido com outros
detritos. Mandei lavar bem o pavimento do hospital e as estantes.
  - E tinhas visto a ampola poucas horas antes do furaco?
  - Sim... Ou melhor, no, agora que penso nisso. Estava atrs de uma fila de frascos,
bem escondida, e no a fiscalizava todos os dias...
  - Ento, pelo que sabes, podiam ter-te tirado mesmo muito tempo antes do furaco,
sem tu saberes?
  - Agora que me fazes refletir, sim, sem dvida nenhuma.
   - E esse teu novio podia ter-te tirado e depois podia ter aproveitado o ensejo do
furaco para deixar de propsito a porta aberta e criar a confuso entre as tuas coisas...
  Severino pareceu muito excitado:
   - Decerto, sim. No s, mas recordando quanto aconteceu, admirei-me muito que o
furaco, por muito violento que fosse, tivesse derrubado tantas coisas. Poderia
perfeitamente dizer que algum aproveitou o furaco para devastar a sala e produzir
mais danos que o vento poderia ter feito!
  - Quem era o novio?
   - Chamava-se Agostinho. Mas morreu o ano passado, ao cair de um andaime quando,
com outros monges e servos, limpava as esculturas da fachada da igreja. E depois,
pensando bem, ele tinha jurado e tresjurado que no tinha deixado a porta aberta antes
do furaco. Fui eu, enfurecido, que o considerei responsvel pelo incidente. Talvez
estivesse verdadeiramente inocente.
  - E assim temos uma terceira pessoa, talvez bem mais esperta que um novio, que
tinha conhecimento do teu veneno. A quem tinhas falado nisso?
   - Disso, precisamente, no me recordo. Ao Abade, claro, pedindo-lhe licena para
conservar uma substancia to perigosa. E a mais algum, talvez precisamente na
biblioteca, porque procurava herbrios que pudessem revelar-me alguma coisa.
  - Mas no me disseste que conservas junto de ti os livros mais teis  tua arte?
   - Sim, e muitos - disse, indicando num angulo da sala algumas estantes carregadas de
dezenas de volumes. - Mas na altura procurava certos livros que no poderia conservar e
que at Malaquias era reticente em me deixar ver, de tal modo que tive de pedir
autorizao ao Abade. - A sua voz tornou-se mais baixa, como se tivesse escrpulo em
que eu a ouvisse. - Sabes, num lugar desconhecido da biblioteca conservam-se mesmo
obras de necromancia, de magia negra, receitas de filtros diablicos. Pude consultar
algumas destas obras, por dever cientfico, e esperava encontrar uma descrio daquele
veneno e das suas funes. Em vo.
  - Ento, falaste nisso a Malaquias.
  - Decerto, sem dvida a ele, e talvez tambm ao prprio Berengrio, que lhe assistia.
Mas no tires concluses apressadas: no me recordo, talvez enquanto falava estivessem
presentes outros monges, sabes, por vezes no scriptorium h bastante gente...
  -No suspeito de ningum. Procuro apenas compreender o que pode ter acontecido.
Em todo o caso dizes-me que o fato aconteceu h alguns anos, e  curioso que algum
tenha tirado com tanta antecipao um veneno que havia de vir a usar tanto tempo
depois. Seria indcio de uma vontade maligna que incubou longamente na sombra um
propsito homicida.
  Severino benzeu-se com uma expresso de horror no rosto.
  - Deus nos perdoe a todos! - disse.
  No havia mais comentrios a fazer. Voltamos a cobrir o corpo de Berengrio, que
devia ser preparado para as exquias.
  QUARTO DIA
  PRIMA
   Onde Guilherme induz primeiro Salvador e depois o despenseiro a confessar o seu
passado, Severino encontra as lentes roubadas, Nicolau traz as novas e Guilherme, com
seis olhos, vai decifrar o manuscrito de Venancio.
   amos a sair quando entrou Malaquias. Pareceu contrariado com a nossa presena, e
fez meno de se retirar. Do interior, Severino viu-o e disse:
  - Procuravas-me?  por...
  Interrompeu-se, olhando para ns. Malaquias fez-lhe um sinal, imperceptvel, como
para dizer Falaremos depois... Ns amos a sair, ele vinha a entrar, encontramo-nos
todos trs no vo da porta. Malaquias disse, de modo bastante redundante:
  - Procurava o irmo ervanrio... Tenho... tenho dores de cabea.
  - Deve ser o ar fechado da biblioteca - disse-lhe Guilherme com um tom de pressurosa
compreenso. - Devias fazer sufumgios.
  Malaquias moveu os lbios como se ainda quisesse falar, depois, desistiu, baixou a
cabea e entrou, enquanto ns nos afastvamos.
  - Que vai fazer junto de Severino? - perguntei.
   - Adso - disse-me com impacincia o mestre -, aprende a raciocinar com a sua cabea.
- Depois mudou de conversa: - Temos de interrogar algumas pessoas, agora. Pelo menos -
acrescentou, ao mesmo tempo que, com o olhar, explorava o planalto -, enquanto ainda
esto vivas. A propsito: doravante prestemos ateno quilo que comemos e bebemos.
Tira sempre os teus alimentos do prato comum e as tuas bebidas da caneca de onde j se
tenham servido os outros. Depois de Berengrio, somos aqueles que sabem mais coisas.
Alm, naturalmente, do assassino.
  - Mas quem quereis interrogar agora?
   - Adso - disse Guilherme -, ters observado que aqui as coisas mais interessantes
acontecem de noite. De noite se morre, de noite se anda pelo scriptorium, de noite se
introduzem mulheres na cerca... Temos uma abadia diurna e uma abadia noturna, e a
noturna parece desgraadamente mais interessante que a diurna. Portanto, toda a
pessoa que ande de noite nos interessa, incluindo por exemplo o homem que viste ontem
 noite com a rapariga. Talvez a histria da rapariga no tenha nada a ver com a dos
venenos, ou talvez sim. Em todo o caso tenho c a minha idia sobre o homem de ontem
 noite, que deve ser pessoa que sabe tambm outras coisas sobre a vida noturna deste
santo lugar. E, fala-se do lobo, ei-lo que justamente vai a passar l em baixo.
   Apontou-me Salvador, o qual, por sua vez, nos tinha visto. Notei uma leve hesitao
no seu passo, como se, desejando evitar-nos, tivesse parado para voltar atrs. Foi um
instante. Evidentemente tinha dado conta de que no podia furtar-se ao encontro, e
retomou a marcha. Dirigiu-se a ns com um largo sorriso e um benedicite um tanto
untuoso. O meu mestre quase no o deixou acabar e falou-lhe em tom brusco.
  - Sabes que amanh chega aqui a inquisio? - perguntou-lhe.
  Salvador no pareceu contente. Com um fio de voz perguntou.
  - E eu?
  - E tu fars bem em dizer-me a verdade a mim, que sou teu amigo, e sou frade menor
como tu foste, em vez de a dizeres amanh aos outros que conheces muito bem.
   Assaltado assim bruscamente, Salvador pareceu abandonar qualquer resistncia. Olhou
com ar submisso para Guilherme como para lhe fazer compreender que estava pronto a
dizer-lhe aquilo que lhe perguntasse.
  - Esta noite estava na cozinha uma mulher. Quem estava com ela?
  - Oh, femena que vndese come mercanda non puede num-quam ser bona ni tener
cortesa! - recitou Salvador.
  - No quero saber se era boa rapariga. Quero saber quem estava com ela!
  - Deus, como so as femenas malvadas e espertas! Pensam dia e noite como o homem
enganar...
  Guilherme agarrou-o bruscamente pelo peito:
  - Quem estava com ela, tu ou o despenseiro?
   Salvador compreendeu que no podia mentir durante mais tempo. Comeou a contar
uma estranha histria, pela qual fadigosamente ficamos a saber que ele para agradar ao
despenseiro, lhe arranjava raparigas na aldeia, fazendo-as entrar durante a noite na
cerca por vias que no nos quis dizer. Mas tresjurou que agia por puro bom corao,
deixando transparecer um cmico remorso pelo fato de no encontrar modo de tambm
tirar da o seu prazer, de modo que a rapariga, depois de ter contentado o despenseiro,
lhe desse qualquer coisa tambm a ele. Disse tudo isto com viscosos e lbricos sorrisos, e
piscadelas de olhos, como para dar a entender que falava com homens feitos de carne,
acostumados s mesmas prticas. E olhava para mim de soslaio, e eu no podia retorquir-
lhe como quereria, porque me sentia ligado a ele por um segredo comum, seu cmplice e
companheiro de pedao.
  Guilherme decidiu naquela altura tentar tudo por tudo. Perguntou-lhe de chofre:
  - Conheceste Remgio antes ou depois de teres estado com Dolcino?
   Salvador ajoelhou-se a seus ps, suplicando-lhe entre lgrimas que no quisesse
perd-lo e que o salvasse da inquisio, Guilherme jurou-lhe solenemente que no dizia
a ningum quanto viesse a saber, e Salvador no hesitou em entregar o despenseiro 
nossa merc. Tinham-se conhecido na Parede Calva, ambos do bando de Dolcino, com o
despenseiro tinha fugido e entrado no convento de Casale, com ele se tinha transferido
entre os clunicenses. Mastigava implorando perdo, e claro que dele no se poderia
saber mais. Guilherme decidiu que valia a pena apanhar Remgio de surpresa, e deixou
Salvador, que correu a refugiar-se na igreja.
  O despenseiro estava na parte oposta da abadia, diante dos celeiros, e estava a
negociar com alguns aldees do vale. Olhou-nos com apreenso, e procurou mostrar-se
muito atarefado, mas Guilherme insistiu para falar com ele. At ento tnhamos tido com
aquele homem poucos contatos; ele tinha sido corts conosco, ns com ele. Naquela
manh, Guilherme dirigiu-se-lhe como teria feito com um irmo da sua ordem. O
despenseiro pareceu embaraado com aquela confiana e respondeu a princpio com
muita prudncia.
  - Pelas razes do teu ofcio, tu s obrigado a vaguear pela abadia mesmo quando os
outros dormem, imagino - disse Guilherme.
  - Depende - respondeu Remgio -, por vezes h pequenos servios a despachar e tenho
de lhes dedicar algumas horas de sono.
  - No te aconteceu nada, nestes casos, que possa indicar-nos quem ter vagueado,
sem ter as tuas justificaes, entre a cozinha e a biblioteca?
  - Se tivesse visto alguma coisa, teria dito ao Abade.
  - Certo - concordou Guilherme, e mudou bruscamente de conversa: - A aldeia do vale
no  muito rica, pois no?
  - Sim e no - respondeu Remgio -, habitam a alguns prebendrios que dependem da
abadia, e estes partilham da nossa riqueza nos anos de abundncia. Por exemplo, no dia
de So Joo receberam doze moios de malte, um cavalo, sete bois, um touro, quatro
novilhas, cinco vitelos, vinte ovelhas, quinze porcos, cinqenta frangos e dezessete
colmias. E, depois, vinte porcos fumados, vinte e sete formas de banha, meia medida
de mel, trs medidas de sabo, uma rede de pesca...
   - J compreendi, j compreendi - interrompeu Guilherme -, mas tens de admitir que
isso ainda no me diz qual  a situao da aldeia, quais os habitantes que so
prebendrios da abadia, e quanta terra tem de cultivar por sua conta quem no 
prebendrio...
   - Oh, para isso - disse Remgio -, uma famlia normal l em baixo chega a possuir at
cinqenta tbuas de terreno.
  - Quanto  uma tbua?
  - Naturalmente, quatro trabucos quadrados.
  - Trabucos quadrados? quantos so?
   - Trinta e seis ps quadrados por trabuco. Ou, se quiseres, oitocentos trabucos
lineares fazem uma milha piemontesa. E calcula que uma famlia, nas terras para norte,
pode cultivar oliveiras para ao menos meio saco de azeite.
  - Meio saco?
  - Sim, um saco tem cinco heminas, e uma hemina tem oito taas.
  - J compreendi - disse o meu mestre desanimado. - Cada regio tem as suas medidas.
Vs por exemplo, o vinho medi-lo em canadas?
  - Ou em almudes. Seis almudes, um barril, e oito barris uma pipa. Se quiseres, um
almude tem seis pintas de duas canadas.
  - Creio que tenho as idias claras - disse Guilherme resignado.
  - Desejas saber mais alguma coisa? - perguntou Remgio, com um tom que me pareceu
um desafio.
   - Sim! Perguntava-te sobre o modo como viviam no vale porque meditava hoje na
biblioteca sobre as prdicas de Humberto de Romans s mulheres, e em particular sobre
o captulo Ad mulleres pauperes in villulis. Onde diz que estas, mais que outras, so
tentadas aos pecados da carne, por causa da sua misria, e sabiamente diz que elas
peccant enim mortaliter, cum peccant cum quocumque laico, mortalius vero quando cum
Clerico in sacris ordinibus constituto, mxime vero quando cum Religioso mundo mortuo.
Tu sabes melhor que eu que, mesmo em lugares santos como as abadias, as tentaes do
demnio meridiano nunca faltam. Perguntava-me se, nos teus contatos com a gente da
aldeia, ters vindo a saber que alguns monges, Deus no queira, tenham induzido
algumas raparigas a fornicao.
  Embora o meu mestre dissesse estas coisas com tom quase distrado, o meu leitor ter
compreendido como aquelas palavras perturbavam o pobre despenseiro. No sei dizer se
empalideceu, mas direi que tanto esperava que empalidecesse que o vi empalidecer.
   - Perguntas-me coisas que, se as soubesse, j teria dito ao Abade - respondeu
humildemente. - Em todo o caso, se, como imagino, essas notcias servem  tua
investigao, no te calarei nada que possa vir a saber. Melhor, agora que me fazes
pensar, a propsito da tua primeira pergunta... Na noite em que morreu o pobre Adelmo,
eu circulava pelo ptio... sabes, uma histria de galinhas... rumores que tinha captado
sobre um certo ferrador que de noite andava a roubar na capoeira... Pois bem, naquela
noite aconteceu-me ver... de longe, no poderia jurar... Berengrio, que reentrava no
dormitrio ladeando o coro, como se proviesse do Edifcio... No me admirei, porque,
entre os monges, murmurava-se h algum tempo sobre Berengrio, talvez tenhas
sabido...
  - No, diz-me.
  - Bem, como dizer? Suspeitava-se que Berengrio nutria paixes que... no convm a
um monge...
   - Queres talvez sugerir-me que tinha relaes com raparigas da aldeia, como te estava
a perguntar?
  O despenseiro tossiu, embaraado, e teve um sorriso bastante imundo:
  - Oh, no... paixes ainda mais inconvenientes...
  - Porque um monge que se deleite carnalmente com raparigas da aldeia pratica, pelo
contrrio, paixes de algum modo convenientes?
   - No disse isso, mas tu ensinas-me que h uma hierarquia na depravao como na
virtude. A carne poder ser tentada segundo a natureza e... contra a natureza.
  - Tu ests a dizer-me que Berengrio era movido por desejos carnais por homens do
seu sexo?
  - Eu digo que isso se murmurava dele... Comunicava-te estas coisas como prova da
minha sinceridade e da minha boa vontade...
   - E eu agradeo-te. E concordo contigo que o pecado de sodomia  bem pior que
outras formas de luxria, sobre as quais francamente no me sinto inclinado a
investigar...
  - Misrias, misrias, se acaso se verificassem - disse com filosofia o despenseiro.
   - Misrias, Remgio. Somos todos pecadores. Jamais procuraria o argueiro no olho do
irmo, tanto temo ter uma grande trave no meu. Mas ficar-te-ei grato por todas as traves
de que me quiseres falar no futuro. Assim, conversaremos sobre grandes e robustos
troncos de madeira e deixaremos que os argueiros volteiem no ar. Quanto dizias que 
um trabuco?
  - Trinta e seis ps quadrados. Mas no te preocupes. Quando quiseres saber alguma
coisa com preciso vem ter comigo. Conta que tens em mim um amigo fiel.
  - Como tal eu te considero - disse Guilherme com calor.  Ubertino disse-me que, em
tempos, pertenceste  mesma ordem que eu. Jamais trairia um antigo irmo,
especialmente nestes dias em que se espera a chegada de uma delegao pontifcia
conduzida por um grande inquisidor, famoso por ter queimado tantos dolcinianos. Dizias
que um trabuco tem trinta e seis ps quadrados?
  O despenseiro no era tolo. Decidiu que j no valia a pena jogar ao gato e ao rato,
tanto mais que se apercebia de ser o rato.
   - Frade Guilherme  disse -, vejo que tu sabes muito mais coisas do que eu imaginava.
No me traias e eu no te trairei.  verdade, sou um pobre homem carnal, e cedo aos
engodos da carne. Salvador disse-me que tu ou o teu novio o tnheis surpreendido
ontem  noite na cozinha. Tu tens viajado muito, Guilherme, sabes que nem sequer os
cardeais de Avinho so modelos de virtude. Sei que no  por estes pequenos e
miserveis pecados que me ests a interrogar. Mas compreendo tambm que soubeste
alguma coisa sobre a minha histria de outros tempos. Tive uma vida bizarra, como
aconteceu a muitos de ns, menoritas. H anos acreditei no ideal de pobreza, abandonei
a comunidade para me entregar  vida errante. Acreditei na pregao de Dolcino, como
muitos outros como eu. No sou um homem culto, recebo ordens mas mal sei dizer
missa. Sei pouco de teologia. E talvez no consiga sequer afeioar-me s idias. Vs, em
tempos tentei rebelar-me contra os senhores, agora sirvo-os, e pelo senhor destas terras
comando outros como eu. Ou rebelar-se ou trair, do-nos pouca escolha, a ns simples.
  - Por vezes, os simples compreendem as coisas melhor que os doutos - disse
Guilherme.
   - Talvez - respondeu o despenseiro com um encolher de ombros. - Mas nem sequer sei
porque fiz aquilo que fiz, ento. Vs, para Salvador era compreensvel, vinha dos servos
da gleba, de uma infncia de penria e de doenas... Dolcino representava a rebelio e a
destruio dos senhores. Para mim foi diferente, era de famlia citadina, no fugia da
fome. Foi... no sei como dizer, uma festa de loucos, um belo carnaval... Nos montes
com Dolcino, antes de sermos reduzidos a comer a carne dos nossos companheiros mortos
em combate, antes de morrerem tantos de privaes que no se podia com-los a todos,
e atiravam-se como pasto s aves e s feras nas encostas do Rebello... ou talvez mesmo
nesses momentos... respirssemos um ar... posso dizer de liberdade? No sabia antes o
que era a liberdade, os pregadores diziam-nos. A verdade vos far livres. Sentamo-nos
livres, pensvamos que era a verdade. Pensvamos que tudo aquilo que fazamos era
justo...
   - E ai comeaste... a unir-vos livremente com uma mulher? - perguntei, e nem sequer
sei porqu, mas obcecavam-me desde a noite anterior as palavras de Ubertino, e aquilo
que tinha lido no scriptorium, e os prprios casos que me tinham acontecido.
  Guilherme olhou para mim intrigado, provavelmente no esperava que eu fosse to
audacioso e impudente. O despenseiro fixou-me como se eu fosse um estranho animal.
   - No Rebello  disse - havia gente que durante toda a infncia tinha dormido, aos dez e
mais, em poucos cvados de terra batida, irmos e irms, pais e filhas. Que queres que
fosse para eles aceitar esta nova situao? Faziam por eleio aquilo que antes tinham
feito por necessidade. E depois, de noite, quando temes a chegada das esquadras
inimigas e te aconchegas ao teu companheiro, sobre a terra, para no sentir frio... Os
hereges: vs, mongezinhos que vindes de um castelo e acabais numa abadia, credes que
 um modo de pensar, inspirado pelo demnio. Pelo contrrio;  um modo de viver, e
... e foi... uma experincia nova...J no havia patres, e Deus, diziam-nos, estava
conosco. No digo que tivssemos razo, Guilherme, e de fato vs-me aqui porque os
abandonei bem depressa. Mas  que nunca compreendi as vossas disputas doutas sobre a
pobreza de Cristo e o uso e o fato e o direito... J to disse, foi um grande carnaval, e no
carnaval fazem-se as coisas ao contrrio. Depois tornas-te velho, no te tornas sbio,
mas tornas-te gluto. E aqui fao de gluto... Podes condenar um herege, mas queres
condenar um gluto?
  - J chega Remgio - disse Guilherme. - No te interrogo por aquilo que sucedeu
ento, mas por aquilo que aconteceu recentemente. Ajuda-me, e eu no procurarei
decerto a tua runa. No posso e no quero julgar-te. Mas tens de me dizer o que sabes
sobre os fatos da abadia. Andas demasiado, de noite e de dia, para no saberes alguma
coisa. Quem matou Venancio?
  - No sei, juro-te. Sei quando morreu e onde.
  - Quando? Onde?
  - Deixa-me contar. Naquela noite, uma hora depois de completas, entrei na cozinha...
  - Por onde, e por que razes?
  - Pela porta que d para o horto. Tenho uma chave que h algum tempo mandei fazer
aos ferreiros. A porta da cozinha  a nica que no  trancada por dentro. E as razes...
no contam, disseste tu mesmo que no queres acusar-me pelas fraquezas da minha
carne... - Sorriu embaraado. - Mas no queria to-pouco que julgasses que passo os
meus dias na fornicao... Naquela noite procurava comida para oferecer  rapariga que
Salvador devia fazer entrar na cerca...
  - Por onde?
   - Oh, a cerca das muralhas tem outras entradas, alm do portal. Conhece-as o Abade,
conheo-as eu... Mas naquela noite a rapariga no veio, mandei-a voltar para trs
precisamente por causa daquilo que descobri e que vou contar. Eis porque tentei faz-la
voltar ontem  noite. Se vs tivsseis chegado pouco depois, ter-me-ieis encontrado a
mim em vez de Salvador, foi ele que me avisou que havia gente no Edifcio, e eu voltei
para a minha cela...
  - Voltemos  noite entre domingo e segunda.
  - Pois bem: eu entrei na cozinha e vi por terra Venancio, morto.
  - Na cozinha?
  - Sim, perto da pia. Acabava talvez de descer do scriptorium.
  - Nenhuma marca de luta?
  - Nenhuma. Ou melhor, perto do corpo estava uma chvena quebrada, e havia sinais
de gua no cho.
  - Porque sabes que era gua?
  - No sei. Pensei que fosse gua. Que podia ser?
   Como Guilherme me fez observar depois, aquela chvena podia significar duas coisas
diversas. Ou precisamente ali na cozinha algum tinha dado de beber a Venancio uma
poo venenosa, ou o desgraado j tinha ingerido o veneno (mas onde?, e quando) e
tinha descido a beber para acalmar um improviso ardor, um espasmo, uma dor que lhe
queimava as vsceras, ou a lngua (que, certamente, a sua devia estar negra como a de
Berengrio).
   Em todo o caso, de momento no se podia saber mais nada. Descoberto o cadver, e
aterrorizado, Remgio tinha-se perguntado o que fazer, e tinha decidido no fazer nada.
Se pedisse socorro, devia admitir que tinha vagueado durante a noite pelo Edifcio, e isso
no teria valido de nada ao irmo j perdido. Portanto, tinha decidido deixar as coisas
como estavam, esperando que algum descobrisse o corpo na manh seguinte, ao abrir
as portas. Tinha corrido a deter Salvador, que j estava a fazer entrar a rapariga na
abadia, depois  ele e o seu cmplice - tinham voltado a dormir, se acaso se podia
chamar sono  viglia agitada que tiveram at matinas. E a matinas, quando os
porqueiros foram avisar o Abade, Remgio julgava que o cadver tinha sido descoberto
onde ele o tinha deixado, e tinha ficado interdito ao descobri-lo na talha. Quem tinha
feito desaparecer o cadver da cozinha? Sobre isto, Remgio no tinha nenhuma idia.
  - O nico que pode mover-se livremente pelo edifcio  Malaquias - disse Guilherme.
  O despenseiro reagiu com energia:
  - No! Malaquias no. Isto , no creio... Em todo o caso, no fui eu que te disse algo
contra Malaquias...
  - Est tranqilo, qualquer que seja a dvida que te liga a Malaquias. Sabe alguma coisa
de ti?
   - Sim - corou o despenseiro -, e comportou-se como homem discreto. Se estivesse no
teu lugar eu vigiaria Bncio. Tinha estranhas ligaes com Berengrio e Venancio... Mas,
juro-te, no vi mais nada. Se souber alguma coisa, dir-te-ei.
  - Por agora pode chegar. Voltarei junto de ti, se tiver necessidade.
  O despenseiro, evidentemente aliviado, voltou aos seus negcios, repreendendo
asperamente os aldees, que tinham deslocado no sei que sacos de sementes.
  Naquele entretanto chegou junto de ns Severino. Trazia na mo as lentes de
Guilherme, as que lhe tinham tirado duas noites antes.
   - Encontrei-as no saio de Berengrio - disse. - Vi-as no nariz, no outro dia na
biblioteca. So as tuas, no so?
  - Deus seja louvado - exclamou alegremente Guilherme.  Resolvemos dois problemas!
Tenho as minhas lentes e sei finalmente que era Berengrio o homem que nos derrubou a
noite passada no scriptorium!
  Mal tnhamos acabado de falar quando chegou a correr Nicolau de Morimondo, ainda
mais triunfante que Guilherme. Tinha nas mos um par de lentes acabadas, montadas na
sua forquilha:
  - Guilherme  gritava -, consegui-o sozinho, acabei-as, creio que funcionam!
  Depois viu que Guilherme tinha outras lentes no rosto e ficou petrificado. Guilherme
no quis humilh-lo, tirou as suas velhas lentes e mediu as novas:
  - So melhores que as outras - disse. - Quer dizer que terei as velhas de reserva e
usarei sempre as tuas. - Depois voltou-se para mim: - Adso, agora retiro-me para a minha
cela para ler aqueles papis que sabes. Finalmente! Espera-me em qualquer stio. E
obrigado, obrigado a todos vs, carssimos irmos.
   Soava a hora tera e dirigi-me para o coro, para recitar com os outros o hino, os
salmos, os versculos e o Kyrye. Os outros rezavam pela alma do morto Berengrio. Eu
agradecia a Deus por nos ter feito encontrar no um mas dois pares de lentes.
   Devido  grande serenidade, esquecidas todas as torpezas que tinha visto e ouvido,
adormeci, acordando quando o ofcio terminou. Dei-me conta que naquela noite no
tinha dormido, e perturbei-me pensando que tinha, alm disso, usado muitas das minhas
foras. E naquela altura, saindo para o ar livre, o meu pensamento comeou a ser
obcecado pela recordao da rapariga.
  Procurei distrair-me, e pus-me a andar depressa pelo planalto. Experimentava uma
sensao de leve vertigem. Esfregava as mos entorpecidas uma contra a outra. Batia
com os ps no cho. Ainda tinha sono, e no entanto sentia-me acordado e cheio de vida.
No compreendia o que me estava acontecendo.
  QUARTO DIA
  TERA
  Onde Adso se debate nos padecimentos de amor, depois chega Guilherme com o texto
de Venancio, que continua a permanecer indecifrvel, mesmo depois de ter sido
decifrado.
   Na verdade, depois do meu encontro pecaminoso com a rapariga, os outros terrveis
acontecimentos quase me tinham feito esquecer aquela aventura, e, por outro lado, logo
depois de me ter confessado a frade Guilherme, o meu esprito tinha-se aliviado do
remorso que havia sentido ao acordar depois da minha culpvel cedncia, de tal maneira
que me parecia ter entregado ao frade, com as palavras, o prprio fardo de que elas
eram a voz significativa. Para que outra coisa serve, com efeito, a benfica purificao
da confisso, seno pare descarregar o peso do pecado, e do remorso que comporta, no
prprio seio de Nosso Senhor, obtendo com o perdo uma nova area ligeireza de alma,
de forma a esquecer o corpo martirizado pela inequcia? Mas no me tinha libertado de
tudo. Agora que passeava ao sol plido e frio daquela manh invernal, circundado pelo
fervor dos homens e dos animais, comeava a recorder os acontecimentos passados de
modo diverso. Como se de tudo quanto tinha acontecido j no restassem o
arrependimento e as palavras consoladoras da purificao penitencial, mas apenas
imagens de corpos e de membros humanos. Saltava-me  mente sobreexcitada o
fantasma de Berengrio inchado de gua, e estremecia de nojo e de piedade. Depois
como para afugentar aquele lmure, a minha mente dirigia-se a outras imagens de que a
memria fosse fresco receptculo, e no podia deixar de ver, evidente aos meus olhos
(aos olhos da alma, mas quase como se aparecesse diante dos olhos carnais), a imagem
da rapariga, bela e terrvel, como exrcito alinhado pare a batalha.
   Comprometi-me (velho amanuense de um texto nunca escrito at agora, mas que
durante longos decnios falou na minha mente) a ser cronista fiel, e no s por amor da
verdade, nem pelo desejo (alis muito digno) de instruir os meus leitores futuros; mas
tambm para libertar a minha memria ressequida e cansada de vises que durante toda
a vida a tm atormentado. E por isso devo dizer tudo, com decncia mas sem vergonha.
E devo dizer, agora, e com todas as letras, aquilo que ento pensei e quase tentei
esconder a mim prprio, passeando pelo planalto, pondo-me por vezes a correr para
poder atribuir ao movimento do corpo o bater improvisado do meu corao, parando
para admirar as obras dos vilos e imaginando que me distraa na sua contemplao,
aspirando o ar frio a plenos pulmes, como faz quem bebe vinho para esquecer temor ou
dor.
  Em vo. Eu pensava na rapariga. A minha carne tinha esquecido o prazer, intenso,
pecaminoso e passageiro (coisa vil) que me tinha dado a unio com ela; mas a minha
alma no tinha esquecido o seu rosto, e no conseguia sentir como perversa essa
recordao, melhor, palpitava como se naquele rosto resplandecessem todas as douras
da criao.
   Percebia, de modo confuso e quase negando a mim prprio a verdade de quanto
sentia, que aquela pobre, suja, impudente criatura que se vendia (quem sabe com que
proterva constncia) a outros pecadores, aquela filha de Eva que, frgil como todas as
suas irms, tinha tantas vezes feito comrcio com a sua prpria carne, era todavia
qualquer coisa de esplndido e de mirfico. O meu intelecto sabia-a fonte de pecado, o
meu apetite sensitivo percebia-a como receptculo de toda a graa.  difcil dizer aquilo
que eu sentia. Poderia tentar escrever que, ainda preso pelas tramas do pecado,
desejava, culpavelmente, v-la aparecer a todo o instante, e quase espiava o trabalho
dos operrios para perscrutar se, do ngulo de uma cabana, do escuro de um estbulo,
aparecia a figura que me tinha seduzido. Mas no escreveria a verdade, ou ento
tentaria pr um vu  verdade para atenuar a sua fora e a sua evidncia. Porque a
verdade  que eu via a rapariga, via-a nos ramos da rvore despojada que palpitavam
ligeiramente quando um pssaro transido voava para a procurar refgio; via-a nos olhos
das novilhas que saam do estbulo, e ouvi-a no balido dos cordeiros que se cruzavam
com o meu errar. Era como se toda a criao me falasse dela, e desejava, sim, voltar a
v-la, mas tambm estava pronto a aceitar a idia de jamais voltar a v-la, e de jamais
me unir a ela, contando que pudesse gozar do jbilo que me invadia naquela manh, e
t-la sempre perto ainda que estivesse, e por toda a eternidade, longe de mim. Era,
procuro agora compreender, como se o universo inteiro, que claramente  quase um
livro escrito pelo dedo de Deus, onde cada coisa nos fala da imensa bondade do seu
criador, em que cada criatura  quase escritura e espelho da vida e da morte, em que a
mais humilde rosa se faz glosa do nosso caminho terreno, como se tudo em suma, no me
falasse de outra coisa seno do rosto que apenas tinha entrevisto nas sombras odorosas
da cozinha. Cedia a estas fantasias porque me dizia (ou melhor, no me dizia, porque
naquele momento no formulava pensamentos traduzveis em palavras) que, se o mundo
inteiro est destinado a falar-me do poder, bondade e sabedoria do criador, e se naquela
manh o mundo inteiro me falava da rapariga, que (por pecadora que fosse) sempre era
ainda um captulo do grande livro da criao, um versculo do grande salmo cantado pelo
cosmo - dizia-me (agora digo) que, se isto acontecia, no podia deixar de fazer parte do
grande desgnio teofnico que rege o universo, disposto em forma de citara, milagre de
consonncia e harmonia. Quase inebriado, gozava ento da presena dela nas coisas que
via, e, desejando-a nelas,  vista delas me saciava. E, no entanto, sentia como uma dor,
porque, ao mesmo tempo, sorria de uma ausncia, mesmo sendo feliz com tantos
fantasmas de uma presena. Torna-se-me difcil explicar este mistrio de contradio,
sinal de que o esprito humano  bastante frgil e nunca prossegue diretamente ao longo
dos caminhos da razo divina, que construiu o mundo como um pericito silogismo, mas
deste silogismo colhe apenas proposies isoladas e freqentemente desconexas, de
onde a nossa facilidade em cair vtima das iluses do maligno. Era uma iluso do maligno
a que naquela manh tanto me emocionava? Hoje penso que era, porque era novio, mas
penso que o humano sentimento que me agitava no era mau em si, mas apenas em
relao ao meu estado. Porque, em si, era o sentimento que move o homem para uma
mulher a fim de que um se una com a outra, como quer o apstolo dos gentios, e ambos
sejam carne de uma s carne, e juntos procriem novos seres humanos e se assistam
mutuamente da juventude  velhice. S que o apstolo falou assim para aqueles que
procuram o remdio para a concupiscncia e para quem no quer arder, recordando
porm que bem mais prefervel  o estado de castidade, a que eu, monge, me tinha
consagrado. E assim eu sofria, naquela manh, aquilo que era mal para mim, mas para
outros talvez fosse bem, e bem dulcssimo, pelo que agora compreendo que a minha
perturbao no era devida  perversidade dos meus pensamentos, em si dignos e
suaves, mas  perversidade da relao entre os meus pensamentos e os votos que tinha
pronunciado. E, assim, fazia mal em gozar de uma coisa sob uma certa razo e m sob
outra, e o meu direito estava em tentar conciliar com o apetite natural os ditames da
alma racional. Agora sei que sofria pelo contraste entre o apetite intelectivo, onde
deveria manifestar-se o imprio da vontade, e o apetite sensitivo, sujeito das paixes
humanas. Com eleito, actus appetitus sensitivi in quantum habent transmutationem
corporalem annexam, passiones dicuntur, non autem actus voluntatis. E o meu ato
apetitivo era precisamente acompanhado por um tremor de todo o corpo, por um
impulso fsico a gritar e a agitar-me. O anglico doutor diz que as paixes em s no so
ms, salvo que devem ser moderadas pela vontade guiada pela alma racional. Mas a
minha alma racional estava naquela manh adormecida de cansao, o qual refreava o
apetite irascvel, que se dirige para o bem e para o mal enquanto conhecidos. Para
justificar a minha irresponsvel leviandade de ento, direi hoje, e com as palavras do
doutor anglico, que era indubitavelmente possudo de amor, que  paixo e  lei
csmica, porque tambm a gravidade dos corpos  amor natural. E por esta paixo era
naturalmente seduzido, porque nesta paixo appetitus tendit in appetibile realiter
consequendum ut sit ibi finis motus. Pelo que, naturalmente, amor facit quod ipsae res
quae amantur, amanti aliquo modo uniantur et amor est magis cognitivus quam cognitio.
Com efeito, eu via agora a rapariga melhor do que a tinha visto na noite anterior, e
compreendia-a intus et in cute, porque nela compreendia-me a mim e em mim ela
mesma. Pergunto-me agora se aquilo que sentia era o amor da amizade, em que o
semelhante ama o semelhante e quer apenas o bem de outrem, ou amor de
concupiscncia, em que se quer o seu prprio bem e o incompleto quer apenas o que o
completa. E creio que amor de concupiscncia tinha sido o da noite, em que queria da
rapariga alguma coisa que nunca tinha tido, enquanto naquela manh da rapariga no
queria nada, e queria apenas o seu bem, e desejava que ela fosse subtrada  cruel
necessidade que a obrigava a dar-se por pouca comida, e fosse feliz, e no queria pedir-
lhe mais nada, mas apenas continuar a pens-la e a v-la nas ovelhas, nos bois, nas
rvores, na luz serena que envolvia de jbilo a cerca da abadia.
   Agora sei que causa do amor  o bem, e o que  bem define-se por conhecimento, e
no se pode amar seno aquilo que se apreendeu como bem, enquanto a rapariga a tinha
apreendido, sim, como bem do apetite irascvel mas como mal da vontade. Mas, ento,
era presa de tantos e to contrastantes movimentos do esprito, porque aquilo que sentia
era semelhante ao amor mais santo, precisamente como o descrevem os doutores: ele
produzia-me o xtase, em que amante e amado querem a mesma coisa (e, por misteriosa
iluminao, eu naquele momento sabia que a rapariga, onde quer que estivesse, queria
as mesmas coisas que eu prprio queria ), e por ela eu sentia cime, mas no o mau,
condenado por Paulo na primeira aos corntios, que  principium contentionis e no
admite consortium in amato, mas aquele de que fala Dionsio nos Nomes Divinos, pelo
que tambm Deus  dito ciumento propter multum amorem quem habet ad existentia (e
eu amava a rapariga precisamente porque ela existia, e era feliz, no invejoso, de que
ela existisse). Era ciumento do modo em que, para o anglico doutor, o cime  motus in
amatum, cime de amizade que leva a mover-se contra tudo aquilo que prejudica o
amado (e eu outra coisa no fantasiava naquele instante seno libertar a rapariga do
poder de quem lhe estava comprando as carnes sujando-a com as prprias paixes
nefastas).
   Agora sei, como diz o doutor, que o amor pode levar o amante quando  excessivo. E o
meu era excessivo. Tentei explicar aquilo que ento sentia, no tento de modo nenhum
justificar o que sentia. Falo do que foram os meus culpveis ardores de juventude. Eram
maus, mas a verdade impe-me que diga que, ento, os percebi como extremamente
bons. E que isto sirva para instruir quem, como eu, cair nas redes da tentao. Hoje,
velho, conheceria mil formas de escapar a tais sedues (e pergunto-me at que ponto
devo ter orgulho nisso, pois que estou liberto das tentaes do demnio meridiano; mas
no liberto de outras, de tal modo que me pergunto se quanto estou fazendo no ser
culpvel condescendncia para com a paixo terrestre da rememorao, estpida
tentativa de fugir ao fluxo do tempo e  morte).
   Ento salvei-me quase por instinto miraculoso. A rapariga aparecia-me na natureza e
nas obras humanas que me circundavam. Procurei, pois, por feliz intuio da alma,
mergulhar na detalhada contemplao daquelas obras. Observei o trabalho dos vaqueiros
que levavam os bois para fora do estbulo, dos porqueiros que davam comida aos porcos,
dos pastores que atiavam os ces a reunir as ovelhas, dos camponeses que levavam
espelta e milho aos moinhos e saam deles com sacos de boa comida. Mergulhei na
contemplao da natureza, procurando esquecer os meus pensamentos e procurando
olhar os seres apenas como nos aparecem, e olvidar-me na sua viso, jucundamente.
  Como era belo o espetculo da natureza ainda no tocada pela sabedoria, muitas
vezes perversa, do homem!
   Vi o cordeiro, a quem foi dado este nome quase em reconhecimento da sua pureza e
bondade. Com efeito, o nome agnus deriva do fato que este animal agnoscit reconhece a
sua prpria me e reconhece a sua voz no meio do rebanho, enquanto a me, entre
tantos cordeiros de idntica forma e de idntico balido, reconhece sempre e apenas o
seu filho, e alimenta-o. Vi a ovelha, que oris se diz ab oblatione, porque servia desde os
primeiros tempos para os ritos sacrificiais; a ovelha que, como  seu costume, ao chegar
o Inverno, procura a erva com avidez e se enche de forragem antes de os pastos serem
queimados pelo gelo. E os rebanhos eram vigiados pelos ces, assim chamados por canor
por causa do seu latido. Animal perfeito entre os outros, com dons superiores de
agudeza, o co reconhece o seu prprio dono, e  adestrado para a caa s feras nos
bosques, para a guarda dos rebanhos contra os lobos, protege a casa e os filhos do seu
dono, e por vezes, em tais funes de defesa, encontra a morte. O rei Garamante, que
tinha sido feito prisioneiro pelos seus inimigos, foi reconduzido  ptria por uma matilha
de duzentos ces que abriram caminho no meio das fileiras adversrias; o co de Jaso
Lcio, depois da morte do dono, continuou a recusar a comida at morrer de inanio; o
do rei Lismaco lanou-se na fogueira do prprio dono para morrer com ele. O co tem o
poder de curar as feridas lambendo-as com a lngua, e a lngua dos seus cachorros pode
curar as leses intestinais. Por natureza costuma utilizar duas vezes o mesmo alimento,
depois de o ter vomitado. Sobriedade que  smbolo de perfeio de esprito, tal como o
poder taumatrgico da sua lngua  smbolo da purificao dos pecados obtida atravs da
confisso e da penitncia. Mas que o co volte quilo que vomitou  tambm sinal de
que, depois da confisso, se volta aos mesmos pecados de antes, e esta moralidade foi-
me bastante til naquela manh para admoestar o meu corao, enquanto admirava as
maravilhas da natureza.
   Entretanto, os meus passos levavam-me para os estbulos dos bois, que estavam a sair
em grande nmero guiados pelos seus boieiros. Pareceram-me logo tal como eram e so,
smbolos de amizade e de bondade, porque cada boi no trabalho volta-se para procurar o
seu companheiro de arado, se por acaso ele, naquele momento, estiver ausente, e para
ele se volta com efetuosos mugidos. Os bois, obedientes, aprendem a voltar sozinhos ao
estbulo quando chove, e quando se abrigam na manjedoura estendem continuamente a
cabea para olhar para fora a ver se o mau tempo cessou, porque aspiram a voltar ao
trabalho. E com os bois saam, naquele momento, os vitelinhos, que, fmeas e machos,
tiram o seu nome da palavra viriditas, ou mesmo de virgo, porque naquela idade eles so
ainda frescos, jovens e castos, e mal tinha feito e fazia, disse para comigo, em ver nos
seus movimentos graciosos uma imagem da rapariga no casta. Nestas coisas pensei,
reconciliado com o mundo e comigo mesmo, observando o alegre trabalho da hora
matutina. E no pensei mais na rapariga, ou melhor, esforcei-me por transformar o ardor
que sentia por ela num sentimento de alegria interior e de paz devota.
   Disse para comigo que o mundo era bom e admirvel. Que a bondade de Deus se
manifesta at nos animais mais horrveis, como explica Honrio Augustoduniense. 
verdade, h serpentes to grandes que devoram os cercos e nadam atravs dos oceanos,
e h a besta cenocroca, de corpo de burro, cornos de cabra-monts, peito e faces de
leo, p de cavalo mas fendido como o do boi, um corte na boca que chega at s
orelhas, a voz quase humana e no lugar dos dentes um nico slido osso. E h a besta
mantcora, de rosto de homem, uma tripla ordem de dentes, corpo de leo, cauda de
escorpio, olhos glaucos, cor de sangue e voz semelhante ao sibilo das serpentes, vida
de carne humana. E h monstros com oito dedos em cada p, e focinhos de lobo, unhas
aduncas, pele de ovelha e latido de co, que se tornam negros em vez de brancos com a
velhice, e excedem em muito a nossa idade. E h criaturas com olhos nos ombros e dois
furos no peito em vez de narinas, porque lhes falta a cabea, e outras ainda que habitam
ao longo do rio Ganges, que vivem s do odor de um certo pomo, e morrem quando se
afastam dele. Mas mesmo todas estas bestas imundas cantam na sua variedade os
louvores do Criador e a sua sabedoria, como o co, o boi, a ovelha, o cordeiro e o lince.
Como  grande, disse ento para comigo, repetindo as palavras de Vicente Belovacense,
a mais humilde beleza deste mundo, e como  agradvel aos olhos da razo considerar
atentamente no s os modos e os nmeros e as ordens das coisas, to decorosamente
estabelecidos por todo o universo, mas tambm o volver dos tempos que
incessantemente se enovelam atravs de sucesses e quedas, marcados pela morte
daquilo que nasceu. Confesso, como pecador que sou, com a alma ainda h pouco
prisioneira da carne, que fui movido ento por espiritual doura para com o criador e a
regra deste mundo, e admirei com jubilosa venerao a grandeza e a estabilidade da
criao.
   Nesta boa disposio de esprito me encontrou o meu mestre quando, arrastado pelos
meus ps e sem dar conta, completado quase o priplo da abadia, me encontrei de novo
onde nos tnhamos deixado duas horas antes. Ali estava Guilherme, e o que me disse
distraiu-me dos meus pensamentos e fez-me volver de novo a mente para os tenebrosos
mistrios da abadia.
   Guilherme parecia muito contente. Tinha na mo a folha de Venancio, que finalmente
tinha decifrado. Fomos para a sua cela, longe de ouvidos indiscretos, e ele traduziu-me
aquilo que tinha lido. Depois da frase em alfabeto zodiacal (secretum finis Africae manus
supra idolum age primum et septimum de quatuor), eis o que dizia o texto grego:
  O veneno tremendo que d a purificao...
  A arma melhor para destruir o inimigo...
  Usa as pessoas humildes vis e brutas, tira prazer do seu defeito... No devemos
morrer.. No nas casas dos nobres e dos poderosos mas das aldeias dos camponeses,
depois de abundante repasto e libaes.. Corpos toscos, caras disformes.
  Estupram virgens e deitam-se com meretrizes, no malvados, sem temor
  Uma verdade diversa, uma diversa imagem da verdade...
  As venerveis figueiras.
  A pedra desavergonhada rola pela planura... Sob os olhos.
   necessrio enganar e surpreender enganando, dizer as coisas ao contrario do que se
acreditava, dizer uma coisa e entender outra.
  Para eles as cigarras cantaro da terra.
  Nada mais. Na minha opinio, demasiado pouco, quase nada. Pareciam os desvarios de
um demente, e disse-o a Guilherme.
   - Podia ser. E parece sem dvida mais demente do que era por causa da minha
traduo. Conheo o grego duma forma bastante aproximativa. E todavia, posto que
Venancio fosse louco, ou fosse louco o autor do livro, isto no nos diria porque  que
tantas pessoas, e nem todas loucas, tanto fizeram, primeiro para esconder o livro e
depois para o recuperar...
  - Mas as coisas que esto escritas aqui provm do livro misterioso?
   - Trata-se sem dvida de coisas escritas por Venancio. V-lo tambm tu, no se trata
de um pergaminho antigo. E devem ser notas tiradas ao ler o livro, seno Venancio no
teria escrito em grego. Ele recopiou certamente, abreviando-as, frases que encontrou no
volume subtrado ao finis Africae. Levou-o para o scriptorium e comeou a l-lo,
anotando aquilo que lhe parecia digno de nota. Depois aconteceu qualquer coisa. Ou se
sentiu mal, ou ouviu algum subir. Ento reps o livro, com as notas, debaixo da mesa,
provavelmente prometendo-se retom-lo na noite seguinte. Em todo o caso,  apenas
partindo desta folha que poderemos reconstruir a natureza do livro misterioso, e  s da
natureza daquele livro que ser possvel inferir a natureza do homicida. Porque em todo
o delito cometido para possuir o objeto, a natureza do objeto deveria fornecer-nos uma
idia, embora plida, da natureza do assassino. Se se mata por um punhado de ouro, o
assassino ser pessoa vida, se por um livro, o assassino estar ansioso por guardar para
si os segredos daquele livro.  preciso portanto saber o que diz o livro que ns no
temos.
  - E vs sereis capaz, por estas poucas linhas, de compreender de que livro se trata?
   - Querido Adso, estas parecem as palavras de um texto sagrado, cujo significado vai
para alm da letra. Lendo-as esta manh, depois de termos falado com o despenseiro,
impressionou-me o fato de tambm aqui se fazer referncia aos simples e aos
camponeses como portadores de uma verdade diversa da dos sbios. O despenseiro
deixou compreender que alguma estranha cumplicidade o ligava a Malaquias. Que
Malaquias tivesse escondido algum perigoso texto hertico que Remgio lhe tinha
entregado? Ento Venancio teria lido e anotado alguma misteriosa instruo respeitante
a uma comunidade de homens rudes e vis em revolta contra tudo e todos. Mas...
  - Mas?
   - Mas dois fatos esto contra esta minha hiptese. Um  que Venancio no parecia
interessado em tais questes: era um tradutor de textos gregos, no um pregador de
heresias... O outro  que frases como a das Figueiras, da pedra ou das cigarras no
seriam explicadas por esta primeira hiptese...
  - So talvez enigmas com outro significado - sugeri. - Ou tendes outra hiptese?
  - Tenho, mas  ainda confusa. Parece-me, lendo esta pgina, j ter lido algumas
destas palavras, e voltam-me  mente frases quase semelhantes que vi algures. Parece-
me que esta folha fala de algo de que j se falou nos dias anteriores... mas no me
recordo o qu. Tenho de pensar nisso. Talvez tenha de ler outros livros.
  - Como assim? Para saber o que diz um livro tendes de ler outros?
   - Por vezes pode fazer-se assim. Muitas vezes os livros falam de outros livros. Muitas
vezes um livro incuo  como uma semente, que florescer num livro perigoso, ou
inversamente,  o fruto doce de uma raiz amarga. No poderias, lendo Alberto, saber o
que poderia ter dito Toms? Ou, lendo Toms, saber o que ter dito Averroes?
  -  verdade - disse admirado. At ento tinha pensado que cada livro falava das
coisas, humanas ou divinas, que esto fora dos livros. Agora apercebia-me que, no raro,
os livros falam dos livros, ou melhor,  como se falassem entre si.  luz desta reflexo, a
biblioteca pareceu-me ainda mais inquietante. Era portanto o lugar de um longo e
secular sussurro, de um dilogo imperceptvel entre pergaminhos e pergaminhos, uma
coisa viva, um receptculo de poderes que uma mente humana no podia dominar,
tesouro de segredos emanados de tantas mentes, e sobrevivendo  morte daqueles que
os tinham produzido ou deles se tinham feito mensageiros  Mas ento - disse - para que
serve esconder os livros, se dos livros patentes se pode remontar aos ocultos?
   - No arco dos sculos no serve de nada. No arco dos anos e dos dias serve para
alguma coisa. De fato, vs como ns nos encontramos perdidos.
   - E, assim, uma biblioteca no  um instrumento para distribuir a verdade, mas para
retardar a sua apario? perguntei espantado.
  - Nem sempre e no necessariamente. Neste caso .
  QUARTO DIA
  SEXTA
  Onde Adso vai procurar trufas e encontra os menoritas a chegar na abadia, estes tm
um longo colquio com Guilherme e Ubertino e se sabem coisas muito tristes sobre Joo
XXII.
   Depois destas consideraes, o meu mestre decidiu no fazer mais nada. J disse que
tinha por vezes destes momentos de total falta de atividade, como se o ciclo incessante
dos astros tivesse parado, e ele com um e outros. Assim fez naquela manh. Estendeu-se
no enxergo com os olhos abertos no vazio e as mos cruzadas sobre o peito, movendo
apenas os lbios, como se recitasse uma orao, mas de modo irregular e sem devoo.
   Pensei que ele pensava, e resolvi respeitar a sua meditao. Voltei ao ptio e vi que o
sol tinha enfraquecido. De bela e lmpida que era, a manh (enquanto o dia se preparava
para consumir a sua primeira metade) estava a tornar-se mida e brumosa. Grossas
nuvens moviam-se de setentrio e estavam a invadir o cume do planalto, cobrindo-o de
uma camada ligeira. Parecia nvoa, e talvez tambm subisse nvoa da terra, mas quela
altura, era difcil distinguir as brumas que vinham de baixo das que desciam do alto,
comeava a ver-se com dificuldade a mole dos edifcios mais distantes.
   Vi Severino, que reunia os porqueiros e alguns dos seus animais com alegria. Disse-me
que iam ao longo das faldas do monte, e ao vale,  procura de trufas. Eu no conhecia
ainda aquele fruto do fundo do bosque que crescia naquela pennsula e parecia tpico das
terras beneditinas, quer em Norcia  negro - quer naquelas terras - mais branco e
perfumado. Severino explicou-me o que era, e como era gostoso, preparado dos modos
mais variados. E disse-me que era dificlimo de encontrar, porque se escondia debaixo da
terra, mais secreto que um cogumelo, os nicos animais capazes de o encontrar,
seguindo o olfato, eram os porcos. Salvo que, mal o encontrassem, queriam devor-lo, e
era preciso afast-los logo e intervir para o desenterral. Soube depois que muitos gentis-
homens no desdenhavam entregar-se quela caa, seguindo os porcos como se fossem
sabujos muito nobres, e seguidos, por sua vez, pelos servos com as enxadas. Recordo at
que, alguns anos mais tarde, um senhor das minhas terras, sabendo que eu conhecia a
Itlia, me perguntou como  que l tinha visto senhores que levavam os porcos a pastar,
e eu ri compreendendo que, pelo contrrio, andavam  procura de trufas. Mas como eu
disse quele que estes senhores desejavam encontrar o tar-tufo debaixo da terra para
depois o comerem, aquele compreendeu que eu dizia que procuravam der Teufel, ou
melhor, o diabo, e benzeu-se devotadamente olhando-me assombrado. Depois o equvoco
desfez-se, e rimo-nos ambos. Tal  a magia das falas humanas, que por humano acordo
significam muitas vezes, com sons iguais, coisas diversas.
   Intrigado com os preparativos de Severino, decidi segui-lo, at porque compreendi que
ele se entregava quela busca para esquecer os tristes casos que a todos oprimiam; e eu
pensei que, ajudando-o a esquecer os seus pensamentos, teria talvez, seno esquecido,
pelo menos refreado os meus. E no escondo, pois que decidi escrever sempre e s a
verdade, que, secretamente, me seduzia a idia de que, descendo o vale, poderia talvez
entrever algum que no digo. Mas a mim prprio e quase em voz alta afirmei pelo
contrrio que, como naquele dia se esperava a chegada das duas delegaes, poderia
talvez avistar uma.
    medida que se desciam as curvas do monte, o ar tornava-se mais claro; no que
voltasse o sol, que a parte superior do cu estava carregada de nuvens, mas as coisas
distinguiam-se nitidamente, porque a nvoa permanecia sobre as nossas cabeas.
Melhor, tendo descido muito, voltei-me para olhar o cimo do monte, e no vi mais nada:
de metade da subida em diante, o cume da colina, o planalto, o Edifcio, tudo
desaparecia entre as nuvens.
   Na manh da nossa chegada, quando j estvamos entre os montes, em certas curvas,
era ainda possvel distinguir, a pouco mais de dez milhas e talvez menos, o mar. A nossa
viagem tinha sido rica de surpresas, porque, de repente, encontrvamo-nos como sobre
um terrao montanhoso que dava a pique para golfos belssimos, e no muito depois
penetrava-se em gargantas profundas, onde montanhas se elevavam entre as montanhas,
e uma embotava  outra a vista da costa longnqua, enquanto o sol penetrava a custo no
fundo dos vales. Nunca como naquele lugar da Itlia tinha visto to estreitas e repentinas
interpenetraes de mar e montes, de litorais e paisagens alpinas, e no vento que
sibilava entre as gargantas podia perceber-se a luta alternada dos blsamos marinhos e
dos glidos sopros rupestres.
  Naquela manh, porm, tudo era cinzento e quase branco-leite. No havia horizontes
mesmo quando as gargantas se abriam para as costas longnquas. Mas demoro-me em
recordaes de pouco interesse para a histria que nos preocupa, meu paciente leitor.
Assim, no falarei das sucessivas vicissitudes da nossa bisca dos derteufel. E falarei
antes da delegao dos frades menores, que fui o primeiro a avistar, correndo
imediatamente para o mosteiro, para avisar Guilherme de sua chegada.
  O meu mestre deixou que os recm-chegados entrassem e fossem saudados pelo Abade
segundo o rito. Depois foi ao encontro do grupo, e foi uma seqncia de abraos e de
saudaes fraternas.
   J tinha passado a hora da refeio, mas haviam posto uma mesa para os hspedes, e
o Abade teve a delicadeza de os deixar entre si e sozinhos com Guilherme, dispensados
dos deveres da regra, livres de se alimentarem e de trocarem ao mesmo tempo as suas
impresses: dado que afinal se tratava, Deus me perdoe a desagradvel comparao,
como de um conselho de guerra a reunir-se o mais depressa possvel antes que chegasse
o nosso inimigo, isto , a delegao avinhonense.
   intil dizer que os recm-chegados tambm se encontraram logo com Ubertino, que
todos saudaram com a surpresa, a alegria e a venerao que eram devidas  sua longa
ausncia, e aos temores que tinham rodeado o seu desaparecimento, e s qualidades
daquele corajoso guerreiro que h dcadas tinha caminhado com eles na mesma batalha.
   Dos frades que compunham o grupo direi depois, falando da reunio do dia seguinte.
At porque eu falei pouqussimo com eles, preso como estava pelo conselho a trs que se
estabeleceu imediatamente entre Guilherme, Ubertino e Miguel de Cesena.
   Miguel devia ser um homem bem estranho: ardente na sua paixo franciscana (tinha
por vezes os gestos, as inflexes de Ubertino nos seus momentos de arrebatamento
mstico); muito humano e jovial na sua natureza terrestre de homem das Romagne,
capaz de apreciar a boa mesa e feliz por se voltar a encontrar com os amigos; sutil e
evasivo, tornando-se de repente astuto e hbil como uma raposa, manhoso como uma
toupeira, quando se afloravam problemas de relaes entre os poderosos; capaz de
grandes risadas, de fervidas tenses, de eloqentes silncios, hbil em desviar o seu
olhar do interlocutor quando a pergunta daquele exigia que se mascarasse, com a
distrao, a recusa da resposta.
   Dele j disse alguma coisa nas pginas precedentes, e eram coisas que tinha ouvido
dizer, mas por pessoas, que por sua vez, tambm tinham ouvido dizer. Agora, porm,
compreendia melhor muitas das suas atitudes contraditrias e as repentinas mudanas de
desgnio poltico com que nos ltimos anos tinha espantado os seus prprios amigos e
sequazes. Ministro geral da ordem dos frades menores, era em princpio o herdeiro de
So Francisco, de fato o herdeiro dos seus intrpretes: devia competir com a santidade e
a sabedoria de um predecessor como Boaventura de Bagnoregio, devia garantir o
respeito da regra, mas ao mesmo tempo as fortunas da ordem, to poderosa e vasta,
devia dar ouvidos s cortes e s magistraturas citadinas das quais a ordem obtinha, seja
embora sob a forma de esmolas, dons e legados, motivo de prosperidade e riqueza; e
devia, ao mesmo tempo, olhar a que a necessidade de penitncia no arrastasse para
fora da ordem os espirituais mais acesos, dissolvendo aquela esplndida comunidade, de
que era o chefe, numa constelao de bandos de hereges. Devia agradar ao papa, ao
imprio, aos frades de vida pobre, a So Francisco, que decerto o vigiava do cu, ao
povo cristo, que o vigiava da terra. Quando Joo tinha condenado todos os espirituais
como hereges, Miguel no tinha hesitado em entregar-lhe cinco entre os mais obstinados
frades da Provena, deixando que o pontfice os mandasse para a fogueira. Mas
percebendo (e no devia ter sido estranha a ao de Ubertino) que muitos na ordem
simpatizavam com os sequazes da simplicidade evanglica, tinha justamente agido de
modo que o captulo de Perugia, quatro anos depois, fizesse suas as instncias dos
queimados. Naturalmente, procurando reabsorver uma necessidade, que podia ser
hertica, nos modos e nas instituies da ordem, e querendo que aquilo que a ordem
agora queria o quisesse tambm o papa. Mas, enquanto esperava convencer o papa, sem
cujo consenso no quereria prosseguir, no tinha desdenhado aceitar os favores do
imperador e dos telogos imperiais. Ainda dois anos antes do dia em que o vi tinha
intimado os seus frades, no captulo geral de Lio, a falar da pessoa do papa apenas com
moderao e respeito (e isto poucos meses depois de o papa ter falado dos menoritas
protestando contra os seus latidos, os seus erros e as suas insnias). Mas agora estava 
mesa, amicssimo, com pessoas que do papa falavam com respeito menos que nulo.
  O resto j o disse. Joo queria-o em Avinho, ele queria e no queria ir, e o encontro
do dia seguinte deveria decidir sobre os modos e sobre as garantias de uma viagem que
no deveria aparecer como um ato de submisso nem, to-pouco, como um ato de
desafio. No creio que Miguel tivesse alguma vez encontrado Joo pessoalmente, pelo
menos desde que este era papa. Em todo o caso, no o via h muito tempo, e os seus
amigos apressavam-se a pintar-lhe com tintas muito negras a figura daquele simonaco.
   - Uma coisa ters de aprender - dizia-lhe Guilherme -, a no te fiar nos seus
juramentos, que ele mantm sempre  letra, violando-os na substancia.
  - Todos sabem - dizia Ubertino - o que aconteceu no tempo da sua eleio...
   - No lhe chamaria eleio, mas sim imposio! - interveio um comensal, a quem ouvi
depois chamar Hugo de Newcastle, de inflexo afim  do meu mestre. - Entretanto, j a
morte de Clemente V nunca foi muito clara. O rei nunca lhe tinha perdoado por ter
prometido processar a memria de Bonifcio VIII, e depois ter feito tudo para no
desacreditar o seu predecessor. Como  que morreu em Carpentras, ningum sabe bem.
O fato  que, quando os cardeais confluem a Carpentras para o conclave, dele no sai o
novo papa, porque (e justamente) a disputa se desloca para a escolha entre Avinho e
Roma. No sei bem o que sucedeu naqueles dias, um massacre, dizem-me, com os
cardeais ameaados pelo sobrinho do papa morto, os seus servos trucidados, o palcio
pasto das chamas, os cardeais que apelam ao rei, este que diz que nunca quis que o papa
desertasse de Roma, que tenham pacincia, e que faam uma boa escolha... Depois
Filipe, O Belo, morre, tambm ele sabe Deus como...
  - Ou sabe-o o diabo - disse benzendo-se, imitado por todos, Ubertino.
  - Ou sabe-o o diabo - admitiu Hugo escarninho. - Em suma, sucede-lhe outro rei,
sobrevive dezoito meses, morre, morre em poucos dias tambm o seu herdeiro recm-
nascido, seu irmo, o regente, sobe ao trono...
   - E  precisamente este Filipe V que, quando ainda era conde de Poitiers, tinha
voltado a reunir os cardeais que fugiam de Carpentras - disse Miguel.
   - De fato - continuou Hugo - rene-os em conclave em Lio, no convento dos
dominicanos, jurando defender a sua incolumidade e no os manter prisioneiros. Porm,
mal aqueles se pem  sua merc, no s os manda fechar  chave (o que seria, afinal, o
justo costumes) mas diminui-lhes os alimentos dia a dia at que tomem uma deciso. E
promete a cada um apoi-lo nas suas pretenses ao slio. Quando depois sobe ao trono,
os cardeais, cansados de estarem prisioneiros h dois anos, com temor de ali
permanecerem mesmo toda a vida, comendo pessimamente, aceitam tudo, os glutes,
colocando na ctedra de Pedro aquele gnomo de mais de setenta anos...
   - Gnomo decerto, sim - riu Ubertino -, e de aspecto tsico, mas mais robusto e mais
astuto que se julgava!
  - Filho de sapateiro - resmungou um dos legados.
   - Cristo era filho de carpinteiro! - repreendeu-o Ubertino. - No  esse o fato.  um
homem culto, estudou leis em Montpellier e medicina em Paris, soube cultivar as suas
amizades dos modos mais apropriados para ter as sedes episcopais e o chapu
cardinalcio quando lhe parecia oportuno, e quando foi conselheiro de Roberto, O Sbio,
em Npoles, espantou muitos com a sua agudeza. E como bispo de Avinho deu todos os
conselhos justos (justos digo, para aquela esqulida empresa) a Filipe, O Belo, para
arruinar os Templrios. E depois da eleio conseguiu fugir a um conluio de cardeais que
queriam mat-lo... Mas no  isto que queria dizer, falava da sua habilidade em trair os
juramentos sem poder ser inculpado de perjrio. Quando foi eleito, e para ser eleito,
prometeu ao cardeal Orsini que havia de levar novamente a sede pontifcia para Roma, e
jurou sobre a hstia consagrada que, se no mantivesse a sua promessa, nunca mais
montaria um cavalo ou mulo. Pois bem, sabeis o que fez aquela raposa? Quando se fez
coroar em Lio (contra a vontade do rei, que queria que a cerimnia tivesse lugar em
Avinho), viajou depois de Lio a Avinho de barco!
  Os frades riram todos. O papa era um perjuro, mas no se lhe podia negar um certo
engenho.
  -  um despudorado - comentou Guilherme. - Hugo no disse que no tentou sequer
esconder a sua m-f! No me contaste tu, Ubertino, aquilo que disse a Orsini no dia da
sua chegada a Avinho?
  - Decerto - disse Ubertino -, disse-lhe que o cu de Frana era to belo que no via
porque devia pr os ps numa cidade de runas como Roma. E que como o papa, tal como
Pedro, tinha o poder de ligar e de desligar, ele exercia agora esse poder, e decidia
permanecer ali onde estava e onde se encontrava to bem. E como Orsini procurou
recordar-lhe que o seu dever era viver na colina vaticana, chamou-o severamente 
obedincia, e cortou a discusso. Mas no acabou a histria do juramento. Quando
desceu do barco, devia montar uma gua branca, seguido pelos cardeais em cavalos
negros, como manda a tradio. Mas, pelo contrrio, foi a p para o palcio episcopal. E
no me consta que, na verdade, tenha mais alguma vez montado a cavalo. E deste
homem tu, Miguel, esperas que se mantenha fiel s garantias que te der?
  Miguel ficou longo tempo em silncio. Depois disse:
  - Posso compreender o desejo do papa de permanecer em Avinho, e no o discuto.
Mas ele no poder discutir o nosso desejo de pobreza e a nossa interpretao do
exemplo de Cristo.
   - No sejas ingnuo, Miguel - interveio Guilherme -, o vosso, o nosso desejo faz
aparecer o seu a uma luz sinistra. Tens de te dar conta que h sculos que nunca
ascender ao trono pontifcio um homem mais vido. As meretrizes de Babilnia contra
as quais bradava em tempos o nosso Ubertino, os papas corruptos de que falavam os
poetas do teu pas, como o Alighieri, eram cordeiros mansos e sbrios em confronto com
Joo.  uma pega ladra, um usurrio hebreu, em Avinho fazem-se mais trgicos que em
Florena! Soube da ignbil transao com o sobrinho do Clemente, Bertrand de Goth, o
do massacre a Carpentras (em que, entre outras coisas, os cardeais foram aliviados de
todas as suas jias): este tinha lanado a mo ao tesouro do tio, que no era pouca
coisa, e a Joo no tinha escapado nada daquilo que tinha roubado (na Cum venerabiles
enumera com preciso as moedas, os vasos de ouro e de prata, os livros, os tapetes, as
pedras preciosas, os ornamentos...) Joo, porm, fingiu ignorar que Bertrand tinha
lanado a mo a mais de um milho e meio de florins de ouro durante o saque de
Carpentras, e discutiu outros trinta mil florins que Bertrand confessava ter recebido do
tio para um propsito pio, isto , para uma cruzada. Estabeleceu-se que Bertrand
ficaria com metade da soma para a cruzada e a outra metade iria para o solio pontifcio.
Afinal Bertrand nunca fez a cruzada, ou pelo menos ainda no a fez e o papa no viu um
florim...
  - No  afinal assim to hbil, ento - observou Miguel.
   - Foi a nica vez que se deixou enganar em matria de dinheiro - disse Ubertino. -
Deves saber bem com que raa de mercador tens de lidar. Em todos os outros casos tem
mostrado uma habilidade diablica para juntar dinheiro.  um rei Midas, aquilo em que
toca torna-se ouro que aflui s caixas de Avinho. De todas as vezes que entrei nos seus
aposentos encontrei banqueiros, cambistas de moeda, e mesas carregadas de ouro, e
clrigos que contavam e empilhavam florins uns sobre os outros... E vers que palcio
mandou construir, com riquezas que noutros tempos se atribuam apenas ao imperador
de Bizncio ou ao Grande Co dos trtaros. E agora compreendes porque emitiu todas
aquelas bulas contra a idia da pobreza? Mas sabes bem que impeliu os dominicanos,
pelo dio  nossa ordem, a esculpirem esttuas de Cristo com a coroa real, tnica de
prpura e ouro e calado suntuoso? Em Avinho foram expostos crucifixos com Jesus
pregado s por uma mo, enquanto com a outra toca numa bolsa presa  cintura, para
indicar que Ele autoriza o uso do dinheiro para fins de religio...
  - Oh, o despudorado! - exclamou Miguel. - Mas isso  pura blasfmia!
  - Acrescentou - continuou Guilherme - uma terceira coroa  tiara papal, no 
verdade, Ubertino?
   - Decerto. No incio do milnio, o papa Hildebrando tinha adotado uma, tendo escrito
Corona regni de manu Dei, o infame Bonifcio tinha-lhe acrescentado recentemente uma
segunda, escrevendo nela Diadema imperii de manu Petr, e Joo no fez mais que
aperfeioar o smbolo: trs coroas, o poder espiritual, o temporal e o eclesistico. Um
smbolo dos reis persas, um smbolo pago...
   Havia um frade que at ento tinha permanecido em silncio, ocupado com muita
devoo a engolir os bons pratos que o Abade tinha mandado levar para a mesa. Lanava
um ouvido distrado aos vrios discursos, emitindo de vez em quando um riso sarcstico
dirigido ao pontfice, ou um grunhido de aprovao s interjeies de indignao dos
comensais. Mas, quanto ao resto, cuidava em limpar do queixo os molhos e os pedaos de
carne que deixava cair da boca desdentada mas voraz, e as nicas vezes que tinha
dirigido a palavra a um dos seus vizinhos tinha sido para louvar a qualidade de alguma
guloseima. Soube depois que era monsenhor Jernimo, o bispo de Caffa, que Ubertino
dias antes julgava j defunto (e devo dizer que aquela idia de que tinha morrido h dois
anos circulou como notcia verdadeira por toda a cristandade por muito tempo, porque a
ouvi mesmo depois; e, com efeito, morreu poucos meses depois daquele nosso encontro,
e continuo a pensar que ter falecido pela grande raiva que a reunio do dia seguinte lhe
ter metido no corpo: quase julguei que rebentasse sbita e imediatamente, tanto era
frgil de corpo e bilioso de humor).
  Intrometeu-se naquele ponto no discurso, falando com a boca cheia:
   - E, depois, sabeis que o infame elaborou uma constituio sobre as taxae sacrae
paenitentiariae, onde especula sobre os pecados dos religiosos para da tirar mais
dinheiro. Se um eclesistico comete pecado carnal, com uma monja, com uma parente,
ou mesmo com uma mulher qualquer (porque tambm isto sucede!), apenas poder ser
absolvido pagando sessenta e sete libras de ouro e doze soldos. E se cometer
bestialidades sero mais de duzentas libras, mas se as cometer s com crianas ou
animais, e no com fmeas, a multa ser reduzida cem libras. E uma monja que se tenha
entregado a muitos homens, seja ao mesmo tempo seja em momentos diversos, fora ou
dentro do convento, e depois queira ser abadessa, dever pagar cento e trinta e uma
libras de ouro e quinze soldos...
  - Vamos, monsenhor Jernimo - protestou Ubertino -, sabeis que amo pouco o papa,
mas sobre isso devo defend-lo!  uma calnia posta a circular em Avinho, nunca vi essa
constituio!
  - Existe - afirmou vigorosamente Jernimo. - To-pouco eu a vi, mas existe.
   Ubertino abanou a cabea, e os outros calaram-se. Apercebi-me que estavam
habituados a no levar demasiado a srio monsenhor Jernimo, que no outro dia
Guilherme tinha definido como sendo um tolo. Guilherme em todo o caso, procurou
retomar a conversao:
   - De qualquer maneira, quer seja verdadeiro ou falso, esse rumor diz-nos qual  o
clima moral de Avinho, onde qualquer um, explorados e exploradores, sabe que vive
mais num mercado do que na corte de um representante de Cristo. Quando Joo subiu ao
trono falava-se de um tesouro de setenta mil florins de ouro, e agora h quem diga que
ter amontoado mais de dez milhes.
  -  verdade - disse Ubertino. - Miguel, Miguel, no sabes que vergonhas fui obrigado a
ver em Avinho!
   - Procuremos ser honestos - disse Miguel. - Sabemos que os nossos tambm cometeram
excessos. Tive notcias de franciscanos que atacavam com armas os conventos
dominicanos e desnudavam os frades inimigos para lhes imporem a pobreza...  por isso
que no ousei opor-me a Joo no tempo dos casos da Provena... Quero chegar a um
acordo com ele, no humilharei o seu orgulho, pedir-lhe-ei apenas que no humilhe a
nossa humildade. No lhe falarei de dinheiro, pedir-lhe-ei apenas que condescenda com
uma s interpretao das Escrituras. E  o que deveremos fazer com os seus legados,
amanh. Ao fim e ao cabo, so homens de teologia, e nem todos sero rapaces como
Joo. Quando homens sbios tiverem deliberado sobre uma interpretao das Escrituras,
ele no poder...
  - Ele? - interrompeu Ubertino. - Mas tu no conheces ainda as suas loucuras no campo
teolgico. Ele quer ligar verdadeiramente tudo pela sua mo, no cu e na terra. Na terra
vimos o que faz, Quanto ao cu.. Pois bem, ele ainda no exprimiu as idias que te digo,
no publicamente pelo menos, mas eu sei de fonte segura que murmurou com os seus
fiis. Ele est a elaborar algumas proposies loucas, se no perversas, que mudariam a
prpria substancia da doutrina e tirariam toda a fora  nossa pregao!
  - Quais? - perguntaram muitos.
  - Perguntai a Berengrio, ele sabe-o, foi ele que me falou disso.
   Ubertino tinha-se voltado para Berengrio Talloni, que tinha sido nos ltimos anos um
dos mais decididos adversrios do pontfice na sua prpria corte. Vindo de Avinho,
tinha-se reunido h dois anos ao grupo dos outros franciscanos, e com eles tinham
chegado  abadia.
   -  uma histria obscura e quase incrvel - disse Berengrio.  Pois bem, parece
portanto que Joo tem em mente defender que os justos no gozaro da viso beatfica
seno depois do Juzo. H bastante tempo que est refletindo sobre o versculo nove do
captulo sexto do Apocalipse, l onde se fala da abertura do quinto selo: onde aparecem
sob o altar aqueles que foram mortos por testemunharem a palavra de Deus e pedem
justia. A cada um  dada uma veste branca pedindo-lhes que tenham um pouco mais de
pacincia... Sinal, argumenta Joo, que eles no podero ver Deus na sua essncia seno
ao cumprir-se o Juzo Final.
  - Mas quem disse essas coisas? - perguntou Miguel aterrado.
   - At agora a poucos ntimos, mas a voz espalhou-se, dizem que est a preparar uma
interveno aberta, no de imediato, talvez dentro de alguns anos, est consultando os
seus telogos...
  - Ah! Ah! - troou Jernimo mastigando.
   - No somente, parece que quer ir mais longe e defender que o inferno tambm no
ser aberto antes daquele dia... Nem sequer para os demnios.
  - Jesus Senhor, ajuda-nos!  exclamou Jernimo. - E que contaremos ento aos
pecadores se no podemos ameaa-los com um inferno imediato, logo aps a morte?!
  - Estamos nas mos de um louco - disse Ubertino. - Mas no compreendo porque quer
defender essas coisas...
  - Desfaz-se em fumo toda a doutrina das indulgncias  lamentou Jernimo -, e nem
mesmo ele poder vender mais. Porque  que um padre que tenha pecado por
bestialidade deve pagar tantas libras de ouro para evitar um castigo remoto?
  - No to remoto como isso - disse com fora Ubertino -, os tempos esto prximos!
   - Sabe-lo tu, caro irmo, mas os simples no o sabem. Eis como esto as coisas! 
gritou Jernimo, que j no tinha o ar de se deleitar com a sua prpria comida. - Que
idia nefasta, devem ter-lha metido na cabea esses frades pregadores... Ah!  e abanou
a cabea.
  - Mas porqu? - repetiu Miguel de Cesena.
  - No creio que haja uma razo - disse Guilherme. -  uma prova que ele se concede,
um ato de orgulho. Quer ser verdadeiramente aquele que decide pelo cu e pela terra.
Sabia desses rumores, tinha-mo escrito Guilherme de Occam. Veremos no fim se levar a
melhor o papa ou se levaro a melhor os telogos, a voz de toda a Igreja, os prprios
desejos do povo de Deus, os bispos...
  - Oh, em matrias doutrinais ele poder dobrar at os telogos - disse Miguel, triste.
   - No se sabe - respondeu Guilherme. - Vivemos em tempos em que os sbios em
coisas divinas no tm receio de proclamar que o papa  um herege. Os sbios em coisas
divinas so, a seu modo, a voz do povo cristo. Contra o qual j nem o prprio papa
poder ir.
   - Pior, pior ainda - murmurou Miguel assustado. - De um lado um papa louco, do outro
o povo de Deus, que, seja embora pela boca dos seus telogos, pretender dentro em
pouco interpretar livremente as Escrituras...
  - Porqu, que fizestes vs de diferente em Perugia?  perguntou Guilherme.
  Miguel estremeceu como picado ao vivo:
  - Por isso quero encontrar-me com o papa. Nada podemos ns sobre aquilo com que
tambm ele no concordar.
  - Veremos, veremos - disse Guilherme de modo enigmtico.
  O meu mestre era na verdade muito perspicaz. Como  que conseguia prever que o
prprio Miguel havia depois de decidir apoiar-se nos telogos do imprio e no povo para
condenar o papa? Como  que conseguia prever que, quando, quatro anos depois, Joo
havia de enunciar pela primeira vez a sua incrvel doutrina, haveria sublevao por parte
de toda a cristandade? Se a viso beatfica era retardada a esse ponto, como  que
poderiam os defuntos interceder pelos vivos? E onde iria parar o culto dos santos?
Precisamente os menoritas haviam de iniciar as hostilidades condenando o papa, e
Guilherme de Occam havia de estar na primeira fila, severo e implacvel nas suas
argumentaes. A luta havia de durar trs anos, at que Joo, j prximo da morte,
faria uma parcial emenda. Ouvi descrev-lo anos depois, como apareceu no consistrio
de Dezembro de 1334, mais pequeno do que jamais tinha parecido at ento, ressequido
pela idade, monagenrio e moribundo, de rosto plido, e teria dito (a raposa, to hbil
em jogar com as palavras no s para violar os seus prprios juramentos mas tambm
para renegar as suas prprias obstinaes): Ns confessamos e cremos que as almas
separadas do corpo e completamente purificadas esto no cu, no paraso com os anjos e
com Jesus Cristo, e que elas vem Deus na sua divina essncia, claramente e face a
face..., e depois, com uma pausa, nunca ningum soube se devida  dificuldade da
respirao ou  vontade perversa de sublinhar a ltima clusula como adversativa, na
medida em que o estado e a condio da alma separada o permita. Na manh seguinte,
era domingo, fez-se instalar numa cadeira de encosto e, de costas reclinadas, acolheu o
beija-mo dos seus cardeais e morreu.
   Mas novamente divago, e conto coisas diferentes das que devia contar. Tambm
porque, no fundo, o resto daquela conversao  mesa no acrescenta muito 
compreenso das vicissitudes que narro. Os menoritas concordaram sobre a atitude a
manter no dia seguinte. Pesaram um a um os seus adversrios. Comentaram com
preocupao a notcia, dada por Guilherme, da chegada de Bernardo Gui. E ainda mais o
fato de que a presidir  delegao avinhonense estaria o cardeal Bertrando do Poggetto.
Dois inquisidores eram de mais: sinal de que se queria usar contra os menoritas o
argumento da heresia.
  - Tanto pior - disse Guilherme -, ns trat-los-emos de hereges a eles.
  - No, no - disse Miguel -, procedamos com cautela, no devemos comprometer
nenhum acordo possvel.
  - Pelo que consigo pensar - disse Guilherme -, embora tendo trabalhado para a
realizao deste encontro, e tu bem o sabes, Miguel, no creio que os avinhonenses
venham aqui para obter algum resultado positivo. Joo quer-te em Avinho sozinho e
sem garantias. Mas o encontro ter ao menos uma funo: fazer-te compreender isto.
Teria sido pior se tu tivesses ido antes de ter esta experincia.
   - Assim, tu esforaste-te, e durante muitos meses, para realizar uma coisa que crs
intil - disse amargamente Miguel.
   - Tinha-me sido pedido, por ti e pelo imperador  disse Guilherme. - E, enfim, nunca 
intil conhecer melhor os prprios inimigos.
  Naquela altura vieram avisar-nos que estava a entrar nas muralhas a segunda
delegao. Os menoritas levantaram-se e foram ao encontro dos homens do papa.
  QUARTO DIA
  NONA
  Onde chegam o cardeal do Poggetto, Bernardo Gui e os outros homens de Avinho, e
depois cada um faz coisas diversas.
   Homens que j se conheciam h bastante tempo, homens que sem se conhecerem
tinham ouvido falar uns dos outros saudavam-se no ptio com aparente benevolncia. Ao
lado do Abade, o cardeal Bertrando do Poggetto movia-se como quem tem familiaridade
com o poder, como se fosse ele prprio um segundo pontfice, e distribua a todos,
especialmente aos menoritas, cordiais sorrisos, auspiciando maravilhas de entendimento
para o encontro do dia seguinte, e transmitindo explicitamente os votos de paz e de
felicidade (usou intencionalmente esta expresso cara aos franciscanos) da parte de Joo
XXII.
  - Muito bem, muito bem - disse-me, quando Guilherme teve a bondade de me
apresentar como seu escrivo e discpulo.
   Depois perguntou-me se conhecia Bolonha, e louvou-me a sua beleza, a boa comida e
a esplndida universidade, convidando-me a visit-la, em vez de voltar um dia. disse-me,
para as minhas gentes alems, que tanto estavam fazendo sofrer o papa nosso senhor.
Depois deu-me o anel a beijar, quando j dirigia o seu sorriso para outro qualquer.
  Por outro lado, a minha ateno voltou-se logo para o personagem de que mais tinha
ouvido falar naqueles dias: Bernardo Gui, como lhe chamavam os franceses, ou Bernardo
Guidoni ou Bernardo Guido, como lhe chamavam noutros lugares.
  Era um dominicano de cerca de setenta anos, frgil mas direito de figura.
Impressionaram-me os seus olhos cinzentos, frios, capazes de fixar sem expresso, em
que muitas vezes, porm, havia de ver bailar lampejos equvocos, hbil tanto em ocultar
pensamentos e paixes como em exprimi-los de propsito.
   Na troca geral das saudaes, no foi como os outros afetuoso ou cordial, mas sempre
e apenas corts. Quando viu Ubertino, que j conhecia, foi muito diferente com ele, mas
fixou-o de modo tal que provocou em mim um estremecimento de inquietao. Quando
saudou Miguel de Cesena, teve um sorriso difcil de decifrar, e murmurou sem calor: L
em baixo esperam-vos h muito tempo, frase em que no consegui colher nem um
aceno de ansiedade, nem uma sombra de ironia, nem uma injuno, nem por outro lado,
uma rstea de interesse. Encontrou-se com Guilherme, e, logo que soube quem era,
olhou-o com educada hostilidade: mas no porque o rosto trasse os seus sentimentos
secretos, tinha a certeza (embora no tivesse a certeza se ele jamais nutria sentimento
algum), mas porque certamente queria que Guilherme o sentisse hostil. Guilherme
devolveu a sua hostilidade sorrindo-lhe de modo exageradamente cordial dizendo-lhe:
   - H bastante tempo que desejava conhecer um homem cuja fama me serviu de lio
e de aviso para muitas importantes decises que inspiraram a minha vida.
   Sentena sem dvida elogiosa e quase aduladora para quem no soubesse, como
porm Bernardo bem sabia, que uma das decises mais importantes da vida de
Guilherme tinha sido a de abandonar o ofcio de inquisidor, fiquei com a impresso de
que, se Guilherme veria de boa vontade Bernardo nalguma masmorra imperial, Bernardo
veria certamente com agrado Guilherme colhido de morte acidental e sbita; e, como
Bernardo tinha sob o seu prprio comando naqueles dias homens de armas, temi pela
vida do meu bom mestre.
  Bernardo j devia ter sido informado pelo Abade acerca dos delitos cometidos na
abadia. De fato, fingindo no captar o veneno contido na frase de Guilherme, disse-lhe:
   - Parece que nestes dias, a pedido do Abade, e para cumprir a tarefa que me foi
confiada nos termos do acordo que nos v aqui reunidos, terei de me ocupar de casos
tristssimos em que se percebe o pestfero odor do demnio. Falo-vos disso porque sei
que em tempos remotos, em que estareis mais prximo de mim, tambm vs a meu
lado... e ao lado dos que so como eu... vos batestes no campo que via travar a batalha
das fileiras do bem contra as fileiras do mal.
  - De fato - disse calmamente Guilherme -, mas depois eu passei para o outro lado.
  Bernardo agentou valentemente o golpe:
  - Podeis dizer-me alguma coisa de til sobre estas coisas delituosas?
  - Infelizmente no - respondeu urbanamente Guilherme. - No tenho a vossa
experincia em coisas delituosas.
   A partir daquele momento perdi o rasto de uns e de outros. Guilherme, depois de
outra conversa com Miguel e Ubertino, retirou-se para o scriptorium. Pediu a Malaquias
para poder examinar certos livros, e no cheguei a ouvir-lhes o ttulo. Malaquias olhou-o
de modo estranho, mas no pde negar-lhos. Caso curioso, no teve de os procurar na
biblioteca, j estavam todos na mesa de Venancio. O meu mestre mergulhou na leitura,
e decidi no o perturbar.
   Desci  cozinha. Ali vi Bernardo Gui. Talvez quisesse dar-se conta da disposio da
abadia, e andava por todo o lado. Ouvi-o interrogar os cozinheiros e outros servos,
falando de qualquer maneira a lngua vulgar do lugar (recordei-me que tinha sido
inquisidor na Itlia Setentrional). Pareceu-me que pedia informaes do trabalho no
mosteiro. Mas, mesmo fazendo as perguntas mais inocentes, olhava o seu interlocutor
com olhos penetrantes, depois fazia de repente outra pergunta, e nessa altura a sua
vtima empalidecia e gaguejava. Conclu que, de algum modo singular, ele estava
inquirindo, e valia-se de uma arma formidvel que todo o inquisidor no exerccio da sua
funo possui e manobra: o medo do outro. Porque, em geral, todo o inquirido diz ao
inquisidor, com medo de ser suspeito de alguma coisa, aquilo que pode servir para tornar
suspeito qualquer outro.
   Durante todo o resto da tarde,  medida que me movia, vi Bernardo proceder assim,
quer junto dos moinhos quer no claustro. Mas quase nunca abordou monges, nem sequer
frades laicos ou camponeses. Ao contrrio do que at ento tinha feito Guilherme.
  QUARTO DIA
  VSPERAS
  Onde Alinardo parece dar informaes preciosas e Guilherme revela o seu mtodo
para chegar a uma verdade provvel atravs de uma srie de seguros erros.
   Mais tarde, Guilherme desceu do scriptorium de bom humor. Enquanto espervamos
que chegasse a hora da ceia, encontramos Alinardo no claustro. Recordando o seu
pedido, desde o dia anterior que tinha arranjado gros-de-bico na cozinha, e ofereci-
lhos. Agradeceu-me, enfiando-os na boca desdentada e babosa.
  - Viste rapaz - disse-me -, o outro cadver tambm jazia l onde o livro o anunciava...
Espera agora a quarta trombeta!
  Perguntei-lhe porque  que pensava que a chave para a seqncia dos crimes estava
no livro da revelao. Olhou-me espantado:
   - O livro de Joo oferece a chave de tudo! - E acrescentou com um trejeito de rancor:
- Eu sabia-o, eu dizia-o h muito tempo... Fui eu, sabes, a propor ao Abade... ao de
ento, que recolhesse o maior nmero de comentrios ao Apocalipse que fosse possvel.
Eu devia vir a ser bibliotecrio... Mas depois o outro conseguiu que o mandassem a Silos,
onde encontrou os manuscritos mais belos, e voltou com uma bagagem esplndida... Oh,
ele sabia onde procurar, falava at a lngua dos infiis... E assim ele recebeu a guarda da
biblioteca, e no eu. Mas Deus puniu-o, e f-lo entrar antes do tempo no reino das
trevas. Ah, ah... - riu com maldade aquele velho que at ento me tinha parecido,
imerso na serenidade dos seus cabelos brancos, semelhante a um menino inocente.
  - Quem era esse de quem falais - perguntou Guilherme.
  Olhou para ns atnito.
   - De quem falava? No me recordo... Foi h muito tempo. Mas Deus castiga, Deus
apaga, Deus ofusca at as recordaes. Muitos atos de orgulho foram cometidos na
biblioteca. Especialmente desde que caiu na mo dos estrangeiros. Deus castiga ainda...
  No conseguimos arrancar-lhe mais palavras e abandonamo-lo ao seu quedo e
rancoroso delrio. Guilherme declarou-se muito interessado por aquele solilquio:
   - Alinardo  um homem a escutar, de cada vez que fala diz qualquer coisa de
interessante.
  - Que disse desta vez?
   - Adso - disse Guilherme -, resolver um mistrio no  a mesma coisa que deduzir de
princpios primeiros. E no equivale sequer a recolher muitos dados particulares para
depois inferir deles uma lei geral. Significa antes encontrar-se diante de um, dois ou trs
dados particulares, que aparentemente no tm nada em comum, e procurar imaginar se
podem ser outros tantos casos de uma lei geral que no conheces ainda e que talvez
nunca tenha sido enunciada. Decerto, se sabes, como diz o filsofo, que o homem, o
cavalo e o mulo so todos sem fel e todos vivem muito tempo, podes tentar enunciar o
princpio pelo qual os animais sem fel vivem muito tempo. Mas imagina o caso dos
animais com cornos. Porque  que tm cornos? Repentinamente apercebes-te de que
todos os animais com cornos no tm dentes na mandbula superior. Seria uma bela
descoberta, se no te desses conta de que, infelizmente, h animais sem dentes na
mandbula superior e que todavia no tm cornos, como o camelo. Finalmente
apercebes-te que todos os animais sem dentes na mandbula superior tm dois
estmagos. Bem, podes imaginar que quem no tem dentes suficientes mastiga mal e,
portanto, tem necessidade de dois estmagos para poder digerir melhor a comida. Mas os
cornos? Ento tentas imaginar uma causa material dos cornos, pela qual a falta de dentes
prev o animal com um excesso de matria ssea que tem de despontar em qualquer
outro sitio. Mas  uma explicao suficiente? No, porque o camelo no tem dentes
superiores, tem dois estmagos, mas no tem cornos. E ento tens de imaginar tambm
uma causa final. A matria ssea exterioriza-se em cornos apenas nos animais que no
tm outros meios de defesa. O camelo, pelo contrrio, tem uma pele durssima e no
tem necessidade de cornos. Ento, a lei poderia ser...
  - Mas que vm aqui fazer os cornos? - perguntei com impacincia -, e porque vos
ocupais de animais com cornos?
   - Eu nunca me ocupei disso, mas o bispo de Lincoln ocupou-se muito, seguindo uma
idia de Aristteles. Honestamente, eu no sei se as razes que encontrou so boas, e
nunca controlei onde  que o camelo tem os dentes e quantos estmagos tem: mas era
para te dizer que a procura das leis explicativas, nos fatos naturais, procede de modo
tortuoso. Diante de alguns fatos inexplicveis, tu deves tentar imaginar muitas leis
gerais, cuja conexo com os fatos de que te ocupas no vs ainda: e, de repente, na
conexo imprevista de um resultado, um caso e uma lei, perfila-se a teus olhos um
raciocnio que te parece mais convincente que os outros. Tentas aplic-lo a todos os
casos semelhantes, us-lo para dele extrair previses, e descobres que tinhas adivinhado.
Mas, at ao fim, nunca sabers quais os predicados a introduzir no teu raciocnio e quais
deixar cair. E assim fao eu agora. Alinho uns tantos elementos desconexos e imagino
hipteses. Mas tenho de imaginar muitas, e muitas delas so to absurdas que me
envergonharia de tas dizer. Vs, no caso do cavalo Brunello, quando vi as marcas, eu
imaginei muitas hipteses complementares e contraditrias: podia ser um cavalo em
fuga, podia ser que naquele belo cavalo o Abade tivesse descido ao longe do declive,
podia ser que um cavalo Brunello tivesse deixado os sinais sobre a neve e um outro
cavalo Favello, no dia anterior, as crinas no arbusto, e que os ramos tivessem sido
quebrados por homens. Eu no sabia qual era a hiptese certa enquanto no vi o
despenseiro e os servos, que procuravam com nsia. Ento compreendi que a hiptese de
Brunello era a nica boa, e procurei provar se era verdadeira, apostrofando os monges
como fiz. Venci, mas podia tambm ter perdido. Os outros julgaram-me sbio porque
venci, mas no conheciam os numerosos casos em que fui estulto porque perdi, e no
sabiam que, poucos segundos antes de vencer, eu no tinha a certeza de no perder.
Ora, sobre os casos da abadia, tenho muitas e belas hipteses, mas no h nenhum fato
evidente que me permita dizer qual  a melhor. E ento, para depois no parecer tolo,
renuncio a parecer astuto agora. Deixa-me ainda pensar, at amanh, ao menos.
   Compreendi naquele momento qual era o modo de raciocinar do meu mestre, e
pareceu-me bastante dissimil do do filsofo que raciocina sobre os princpios primeiros,
de modo que o seu intelecto assume quase os modos do intelecto divino. Compreendo
que, quando no tinha resposta, Guilherme se propunha muitas e muito diferentes entre
si. Fiquei perplexo.
  - Mas ento - ousei comentar - estais ainda longe da soluo...
  - Estou pertssimo - disse Guilherme -, mas no sei de qual.
  - Ento no tendes uma nica resposta s vossas perguntas?
  - Adso, se a tivesse ensinaria teologia em Paris.
  - Em Paris tm sempre a resposta verdadeira?
  - Nunca - disse Guilherme -, mas esto muito seguros dos seus erros.
  - E vs - disse com infantil impertinncia - nunca cometeis erros?
   - Freqentemente - respondeu. - Mas, em vez de conceber um s, imagino muitos,
assim no me torno escravo de nenhum.
  Tive a impresso de que Guilherme no estava de modo nenhum interessado na
verdade, que mais no  que a adequao entre a coisa e o intelecto. Ele, pelo
contrrio, divertia-se a imaginar o maior nmero de possveis que fosse possvel.
  Naquele momento, confesso, desesperei do meu mestre, e surpreendi-me a pensar:
Ainda bem que chegou a inquisio. Tomei partido pela sede de verdade que animava
Bernardo Gui.
  E com estas culpveis disposies de esprito, mais perturbado que Judas na noite de
Quinta-Feira Santa, entrei com Guilherme no refeitrio para consumir a ceia.
  QUARTO DIA
  COMPLETAS
  Onde Salvador fala de uma magia portentosa.
   A ceia para a delegao foi soberba. O Abade devia conhecer muito bem no s as
fraquezas dos homens mas tambm os usos da corte papal (que no desagradaram, devo
diz-lo, sequer aos menoritas de frei Miguel). Com os porcos mortos h pouco, devia
haver chourio de sangue  moda de Montecassino, disse-nos o cozinheiro. Mas o
desgraado fim de Venancio tinha obrigado a deitar fora todo o sangue dos porcos,
enquanto no se procedesse a degolar mais. Alm disso, creio que naqueles dias
repugnava a todos matar criaturas do Senhor. Mas tivemos estufado de borrachinhos,
marinados no vinho daquelas terras, e coelho assado, pezinhos de Santa Clara, arroz
com amndoas daqueles montes, ou seja, o manjar-branco das viglias, folhas tostadas
de borragem, azeitonas recheadas, queijo frito, carne de ovelha com molho cru de
pimentas, favas brancas, e doarias requintadas, doce de So Bernardo, pastis de So
Nicolau, olhinhos de Santa Luzia, e vinhos, e licores de ervas que puseram de bom humor
o prprio Bernardo Gui, habitualmente to austero: licor de citronela, miolo de noz,
vinho contra a gota e vinho de genciana. Parecia uma reunio de glutes, se cada gole ou
cada bocado no fosse acompanhado de devotas leituras.
  No fim, todos se levantaram muito alegres, alguns alegando vagos mal-estares para
no descerem a completas. Mas o Abade no se ofendeu. Nem todos tm o privilgio e as
obrigaes que resultam de se ter consagrado  nossa ordem.
  Enquanto os monges se encaminhavam, demorei-me, curioso, pela
  cozinha, onde estavam a preparar-se para o fecho noturno. Vi Salvador, que se
escapulia para o horto com um embrulho no brao. Intrigado, segui-o e chamei-o. Ele
procurou esquivar-se, depois, s minhas perguntas, respondeu que levava no embrulho
(que se movia como habitado por coisa viva) um basilisco.
   - Cave basilischium! Est lo reys das serpentes, tant pleno de veneno que lhe reluz todo
por fora! Que dictam, o veneno, o fedor vem-lhe para fora que te mata! Intoxica-te... Et
tem manchas brancas no dorso, et caput como galo, et metade vai direita sopre a terra
et metade vai por terra como as outras serpentes. E mata-o a bellula...
  - A bellula?
  - Oc! Bestiola parvissima est, mais comprida alguma coisa que o rato, et odeia-a o rato
muchissimo. E assim a serpente et o sapo. Et quando eles a mordem, a bellula corre 
fencula ou  circerbita et a mordisca, et redet ad bellum. Et dicunt que engendra pelos
oculi, mas os mais dizem que eles dizem falso.
   Perguntei-lhe que fazia com um basilisco, e disse que eram assuntos seus. Disse-lhe, j
picado pela curiosidade, que naqueles dias, com todos aqueles mortos, j no havia
assuntos secretos, e que falaria nisso a Guilherme. Ento Salvador implorou-me
ardentemente que me calasse, abriu o embrulho e mostrou-me um gato de plo negro.
Puxou-o para o p de si e disse-me com um sorriso obsceno que no queria mais que o
despenseiro ou eu, porque ramos um poderoso e o outro jovem e belo, pudssemos ter
o amor das raparigas da aldeia e ele no, porque era feio e pobretana. Que conhecia
uma magia absolutamente portentosa para fazer cair qualquer mulher nas malhas do
amor. Era preciso matar um gato preto e arrancar-lhe os olhos, depois met-los dentro
de dois ovos de galinha preta, um olho num ovo, um olho no outro (e mostrou-me dois
ovos que me assegurou ter tirado das galinhas certas). Depois era necessrio pr os ovos
a apodrecer dentro de um monto de esterco de cavalo (e tinha apontado um
precisamente num cantinho do horto onde nunca passava ningum), e dali nasceria por
cada ovo, um diabinho, que depois se poria ao seu servio proporcionando-lhe todas as
delcias deste mundo. Mas, infelizmente, disse-me, para que a magia resultasse era
necessrio que a mulher cujo amor queria cuspisse nos ovos antes de serem enterrados
no esterco, e aquele problema angustiava-o, porque era preciso ter ao lado, naquela
noite, a mulher em questo, e fazer-lhe fazer o seu ofcio sem ela saber para que servia.
   Fui tomado por um sbito ardor na cara, ou nas vsceras, ou em todo o corpo, e
perguntei com um fio de voz se naquela noite tinha levado para a cerca a rapariga da
noite anterior. Ele riu, troando de mim, e disse que eu estava mesmo preso por um
grande cio (eu disse que no, perguntava por pura curiosidade), e depois disse-me que
na aldeia mulheres havia muitas, e que tinha levado uma outra, ainda mais bela que
aquela de que eu gostava. Eu supus que me mentia para me afastar dele. E por outro
lado, que podia eu fazer? Segui-lo durante toda a noite quando Guilherme me esperava
para empresas bem diversas? E voltar a ver aquela (se acaso dela se tratava) para quem
os meus apetites me impeliam enquanto a minha razo dela me desviava - e que no
devia ver nunca mais ainda que desejasse sempre v-la outra vez? Decerto no. E, assim,
convenci-me a mim mesmo que Salvador dizia a verdade, naquilo que dizia respeito 
mulher. Ou que mentia talvez sobre tudo, que a magia de que falava era uma fantasia da
sua mente ingnua e supersticiosa, e que no faria nada disso.
   Irritei-me com ele, tratei-o rudemente, disse-lhe que naquela noite teria feito melhor
em ir dormir, porque os archeiros circulavam na cerca. Ele respondeu que conhecia a
abadia melhor que os archeiros, e que, com aquele nevoeiro, ningum veria ningum.
Mais, disse-me, agora eu escapo-me, e nem sequer tu me vers mais, ainda que estivesse
ali a dois passos a divertir-me com a rapariga que desejas. Ele exprimiu-se com outras
palavras, bastante mais ignbeis, mas este era o sentido daquilo que dizia. Afastei-me
indignado, porque no era prprio de um ser como eu, nobre e novio, meter-me em
despique com aquela canalha.
  Fui ter com Guilherme, e fizemos aquilo que se devia. Isto , dispusemo-nos a seguir
completas, ao fundo da nave, de modo que quando o ofcio acabou estvamos prontos
para empreender a nossa segunda viagem (terceira para mim) nas vsceras do labirinto.
  QUARTO DIA
  DEPOIS DE COMPLETAS
   Onde se visita de novo o labirinto, se chega ao limiar do finis Africae mas no se pode
a entrar porque no se sabe o que so o primeiro e o stimo dos quatro e por fim Adso
tem uma recada, alis bastante douta, no seu mal de amor.
   A visita  biblioteca levou-nos longas horas de trabalho. A falar, o controle que
devamos fazer era fcil, mas caminhar  luz da candeia, ler as inscries, assinalar no
mapa as passagens e as paredes plenas, registrar as iniciais, perfazer os vrios percursos
que o jogo das aberturas e das barreiras nos permitia foi coisa bastante longa. E
fastidiosa.
   Estava muito frio. A noite no era ventosa, e no se ouvia aqueles silvos sutis que nos
tinham impressionado na primeira noite, mas pelas seteiras penetrava um ar mido e
glido. Tnhamos calado luvas de l para poder tocar nos volumes sem que as mos se
entorpecessem. Mas eram precisamente daquelas que se usavam para escrever no
Inverno com a ponta dos dedos descobertos, e por vezes tnhamos de aproximar as mos
da chama, ou met-las no peito, ou bat-las uma contra a outra, saltitando transidos.
   Por isso, no completamos toda a obra de seguida. Parvamos a vasculhar nos
armrios, e agora que Guilherme - com os seus novos vidros no nariz - podia demorar-se
a ler os livros, a cada ttulo que descobria irrompia em exclamaes de alegria, ou
porque conhecia a obra, ou porque h muito tempo a procurava, ou, enfim, porque
nunca a tinha ouvido mencionar e estava sobremodo excitado e intrigado. Em suma cada
livro era para ele como um animal fabuloso que encontrasse numa terra desconhecida. E
enquanto ele folheava um manuscrito, incumbia-me de procurar outros.
  - V o que h naquele armrio!
  E eu, soletrando e deslocando volumes:
   - Historia anglorum, de Beda... E, sempre de Beda, De aedificatione templi, De
tabernculo, De temporibus et computo et chronica et circuli Dionysi, Onographia, De
ratione metrorum, Vita Sancfi Cuthberti, Ars mtrica...
   -  natural, todas as obras do Venervel... E olha estes! De rhetorica cognatione,
Locorum rhetoricomm distinctio, e aqui tantos gramticos, Prisciano, Honorato, Donato,
Maxmio, Vitorino, Metrrio, Eutiques, Srvio, Focas, Asperus... Estranho, pensava 
primeira vista que aqui houvesse autores da Anglia... Olhemos mais abaixo...
  - Hisperica... famina, o que ?
  - Um poema hibrnico. Escuta:
  Hoc spumans mundanas obvallat Pelagus oras terrestres amniosis fluctibus cudit
margines. Sxeas undosis molibus irruit avionias. nfima bomboso vrtice miscet glareas
asprifero spergit spumas sulco, sonoreis frequenter quatitur flabris...
   Eu no compreendia o sentido, mas Guilherme lia fazendo rolar as palavras na boca de
tal modo que parecia ouvir o som das ondas e da espuma marinha.
  - E este?  Adhelm de Malmesbury, ouvi esta pgina: Primitus pantomm procerum
poematorum pi potissimum paterno-que presertim privilegio panegiricum poemataque
passim prosatori sub polo promlgalas... As palavras comeam todas pela mesma letra!
  - Os homens das minhas ilhas so todos um pouco loucos  dizia Guilherme com
orgulho. - Vejamos no outro armrio.
  - Virglio.
  - Que faz aqui? O qu de Virglio? As Gergicas?
  - No. Eptomes. Nunca tinha ouvido falar.
  - Mas no  o Maro!  Virglio de Toulouse, o retrico, seis sculos depois do
nascimento de Nosso Senhor. Foi reputado como um grande sbio...
  - Aqui diz que as artes so poema, rethoria, grama, leporia, dialecta, geometria... Mas
que lngua fala?
   - Latim, mas um latim de sua inveno, que ele reputava bastante mais belo. L aqui:
diz que a astronomia estuda os signos do zodaco, que so: mon, man, tonte, pirn,
dameth, perfellea, belgalic, margaleth, lutamiron, taminon e raphalut.
  - Era louco?
   - No sei, no era das minhas ilhas. Ouve ainda, diz que existem doze modos de
designar o fogo: ignis, coquihabin (quia in-cocta coquendi habet dictionem), ardo, calax
ex calore, fragon ex fragore flammae, rusin de rubore, fumaton, ustrax de uren-do,
vitius quia pene mortua membra suo vivificat, siluleus, quod de slice siliat, unde et silex
non recte dicitur, nisi ex qua scinti-lla silit. Y aeneon, de Aenea deo, qui in eo habitat,
sive a, quo elementis flatus fertur.
  - Mas no h ningum que fale assim!
   - Felizmente. Mas eram tempos em que, para esquecer um mundo mau, os gramticos
se deleitavam com abstrusas questes. Disseram-me que nessa poca, durante quinze
dias e quinze noites, os retricos Gabundus e Terentius discutiram sobre o vocativo de
ego, e por fim pegaram em armas.
  - Mas tambm isto, ouvi... - Tinha agarrado num livro maravilhosamente iluminado
com labirintos vegetais de cujas gavinhas assomavam macacos e serpentes. - Ouvi que
palavras: cantamen, collamen, gongelamen, stemiamen, plasmamen, sonerus, alboreus,
gaudifluus, glaucicomus...
   - As minhas ilhas - disse de novo com ternura Guilherme. - No sejas severo para com
esses monges da longnqua Hibrnia, se existe esta abadia, e se ainda falamos de sacro
Imprio Romano, devemo-lo talvez a eles. Naquele tempo, o resto da Europa estava
reduzido a um amontoado de runas, um dia declararam invlidos os batismos ministrados
por alguns padres nas Glias, porque a se batizava in nomine patris et filiae, e no
porque praticassem uma nova heresia e considerassem Jesus uma mulher, mas porque j
no sabiam o latim.
  - Como Salvador?
   - Mais ou menos. Os piratas do extremo norte chegavam ao longo dos rios para
saquearem Roma. Os templos pagos caam em runas e os dos cristos no existiam
ainda. E foram apenas os monges da Hibrnia que nos seus mosteiros escreveram e
leram, leram e escreveram, e iluminaram, e depois se lanaram em navicelas feitas de
pele de animais e navegaram at estas terras e as evangelizaram como se fossem infiis,
compreendes? Estiveste em Bobbio, foi fundado por So Columbano, um deles. E,
portanto, deixa-os l se inventavam um latim novo, visto que na Europa j no se sabia o
velho. Foram grandes homens. So Brando chegou at s ilhas Afortunadas e costeou as
costas do inferno, onde viu Judas acorrentado num rochedo, e um dia aportou a uma ilha
e a desceu, e era um monstro marinho. Naturalmente eram loucos - repetiu com
satisfao.
  - As suas imagens so... de no acreditar nos meus olhos! E quantas cores! - disse,
extasiado.
   - Numa terra que cores tem poucas, um pouco de azul e muito verde. Mas no estamos
a discutir sobre os monges hibrnicos. Aquilo que quero saber  porque esto aqui com os
anglos e com gramticos de outros pases. V no teu mapa, onde deveramos estar?
   - Nas salas do torreo ocidental. Tambm transcrevi as inscries. Portanto, saindo da
sala cega, entra-se na sala hepragonal, e h uma nica passagem a uma nica sala do
torreo, a letra a vermelho  H. Depois passa-se de sala em sala dando a volta ao torreo
e volta-se  sala cega. A seqncia das letras d... tendes razo! HIBERNI!
   - HIBERNIA, se das ala cega tornas  heptagonal, que tem como as outras trs o Ade
Apocalypsis. Por isso, a esto as obras de autores da ltima Thule, e ainda os gramticos
e os retricos, porque os ordenadores da biblioteca pensaram que um gramtico deve
estar com os gramticos hibrnios, mesmo que seja de Toulouse.  um critrio. Vs que
comeamos a compreender alguma coisa?
  - Mas nas salas do torreo oriental por onde entramos lemos FONS... Que significa?
  - L bem o teu mapa, continua a ler as letras das salas que se seguem pela ordem de
acesso.
  - FONS ADAEU...
   - No, FONS ADAE, o U  a segunda sala cega oriental, recordo-me, talvez se insira
numa outra seqncia. E que encontramos no Fons Adae, isto , no paraso terrestre
(recorda-te que a fica a sala com o altar que d para o nascer do Sol)?
  - Havia muitas Bblias, e comentrios  Bblia, s livros de escrituras sagradas.
  - E, ento, vs a palavra de Deus em correspondncia com o paraso terrestre, que,
como todos dizem, fica longe para oriente. E aqui a ocidente a Hibrnia.
  - Ento o traado da biblioteca reproduz o mapa do mundo universal?
  -  provvel. E os livros so a colocados segundo os pases de provenincia, ou o lugar
onde nasceram os seus autores, ou, como neste caso, o lugar onde deveriam ter nascido.
Os bibliotecrios disseram para consigo que Virglio, o gramtico, nasceu por engano em
Toulouse e deveria ter nascido nas ilhas ocidentais. Repararam os erros da natureza.
   Prosseguimos o nosso caminho. Passamos por uma seqncia de salas ricas de
esplndidos Apocalipses, e uma destas era a sala onde tinha tido as vises. Assim de
longe vimos de novo a candeia, Guilherme tapou o nariz e correu a apag-la, cuspindo
sobre as cinzas. E pelo sim pelo no, atravessamos a sala  pressa, mas recordava que
tinha a visto o belssimo Apocalipse multicolor com a mulier amicta sole e o drago.
Reconstrumos a seqncia destas salas a partir da ltima a que acedemos e que tinha
como inicial a vermelho um Y. A leitura ao invs deu a palavra YSPANIA, mas o ltimo A
era o mesmo com que terminava HIBERNIA. Sinal, disse Guilherme, que restavam salas
em que se recolhiam obras de carter misto.
   Em todo o caso, a zona denominada YSPANIA pareceu-nos povoada por muitos cdices
do Apocalipse, todos de belssima feitura, que Guilherme reconheceu como arte
hispnica. Reparamos que a biblioteca tinha talvez a mais ampla coleo de cpias do
livro do apstolo que existia na cristandade, e uma quantidade imensa de comentrios
sobre aquele texto. Volumes enormes eram dedicados ao comentrio sobre o Apocalipse
de Beato de Libana, e o texto era mais ou menos sempre o mesmo, mas encontramos
uma fantstica variedade de variaes nas imagens, e Guilherme reconheceu a meno
de alguns entre aqueles que ele considerava entre os maiores miniaturistas do reino das
Astrias, Magius, Facundus e outros.
   Fazendo estas e outras observaes, chegamos ao torreo meridional, em cujas
proximidades j tnhamos passado na noite precedente. A sala S de YSPANIA - sem
janelas  introduzia numa sala E, e girando sucessivamente pelas cinco salas do torreo
chegamos  ltima, sem outras passagens, que apresentava um L a vermelho. Relemos ao
contrrio e encontramos LEONES.
  - Leones, meridio, no nosso mapa estamos em frica, hic sunt leones. E isto explica
porque encontramos aqui tantos textos de autores infiis.
  - E h mais - disse rebuscando nos armrios. - Canon de Avicena, e este belssimo
cdice em caligrafia que no conheo...
  - A julgar pelas decoraes, deve ser um Coro, mas infelizmente no conheo o
rabe.
  - O Coro, a Bblia dos infiis, um livro perverso...
  - Um livro que contm uma sabedoria diversa da nossa. Mas compreendes porque o
puseram aqui, onde esto os lees, os monstros. Eis porque vimos a aquele livro sobre os
animais monstruosos onde encontraste tambm o unicrnio. Esta zona chamada LEONES
contm aqueles que para os construtores da biblioteca eram os livros da mentira. Que h
alm?
   - So em latim, mas do rabe. Ayyub al Ruhawi, um tratado sobre a hidrofobia canina.
E este  um livro dos tesouros. E este o De aspectibus, de Alhazen...
   - Vs, puseram entre os monstros e as mentiras tambm obras de cincia das quais os
cristos tanto tm a aprender. Assim se pensava no tempo em que a biblioteca foi
constituda...
  - Mas porque puseram entre as falsidades tambm um livro com o unicrnio? -
perguntei.
   - Evidentemente, os fundadores da biblioteca tinham estranhas idias. Tero
considerado que este livro, que fala de animais fantsticos e que vivem em pases
longnquos, fazia parte do repertrio de mentiras difundido pelos infiis...
   - Mas o unicrnio  uma mentira?  um animal de uma grande doura e altamente
simblico. Figura de Cristo e da castidade, ele s pode ser capturado pondo uma virgem
no bosque, de modo que o animal sentindo-lhe o odor castssimo v pousar a cabea no
seu colo, oferecendo-se como presa aos laos dos caadores.
  - Assim se diz, Adso. Mas muitos inclinam-se a pensar que  uma inveno fabulosa dos
pagos.
  - Que desiluso - disse. - Gostaria de encontrar um atravessando um bosque. Seno,
qual  o prazer de atravessar um bosque?
   - No quer dizer que no exista. Talvez seja diferente de como o representam estes
livros. Um viajante veneziano andou por terras muito distantes, bastante prximas do
fons paradisi de que falam os mapas, e viu unicrnios. Mas achou-os rudes e sem graa, e
fessimos e negros. Creio que ter visto animais verdadeiros com um corno  frente.
Foram provavelmente os mesmos que os mestres da sabedoria antiga, nunca de todo
errnea, que receberam de Deus a oportunidade de ver coisas que ns no vimos, nos
transmitiram com uma primeira descrio fiel. Depois, esta descrio, viajando de
autorictas em autorictas, transformou-se por sucessivas composies da fantasia, e os
unicrnios tornaram-se animais graciosos e brancos e mansos. Por isso, se souberes que
num bosque vive um unicrnio, no vs l com uma virgem, porque o animal pode ser
mais parecido ao testemunho veneziano que ao deste livro.
  - Mas como acontece que os mestres da sabedoria antiga tiveram de Deus a revelao
sobre a verdadeira natureza do unicrnio?
   - No a revelao, mas a experincia. Tiveram a ventura de nascer em terras em que
viviam unicrnios ou em tempos em que os unicrnios viviam nessas mesmas terras.
   - Mas, ento, como podemos confiar na sabedoria antiga, cujo rastro vs procurais
sempre, se ela nos  transmitida por livros mentirosos que a interpretaram com tanta
licena?
   - Os livros no so feitos para se crer neles, mas para serem submetidos a
investigao. Diante de um livro no devemos perguntar-nos que coisa diz, mas que coisa
quer dizer, idia que foi muito clara para os velhos comentadores dos livros sagrados. O
unicrnio, tal como dele falam estes livros, encerra uma verdade moral, ou alegrica, ou
analgica, que permanece verdadeira, como permanece verdadeira a idia de que a
castidade  uma nobre virtude. Mas, quanto  verdade literal que sustenta as outras trs,
resta ver de que dado de experincia originria nasceu a letra. A letra deve ser
discutida, ainda que o sentido principal permanea certo. Num livro est escrito que o
diamante se corta s com o sangue do bode. O meu grande mestre Roger Bacon disse que
no era verdade, simplesmente porque ele tinha experimentado, e no tinha conseguido.
Mas se a relao entre diamante e sangue caprino tivesse um sentido superior, este
permaneceria intacto.
  - Ento, podem dizer-se verdades superiores mentindo quando  letra - disse. - E, no
entanto, ainda lamento que o unicrnio, tal como , no exista, ou no tenha existido,
ou no possa existir um dia.
   - No nos  lcito pr limites  onipotncia divina, e, se Deus quisesse, poderiam
existir mesmo os unicrnios. Mas consola-te, eles existem nestes livros, os quais, se no
falam do ser real, falam do ser possvel.
  - Mas  preciso, ento, ler os livros sem recorrer  f, que  virtude teologal?
  - Restam mais duas virtudes teologais. A esperana que o possvel seja. E a caridade,
para quem acreditou de boa-f que o possvel era.
  - Mas de que vos serve o unicrnio se o vosso intelecto no cr nele?
  - Serve como me serviu o rasto dos ps de Venancio sobre a neve, arrastado  cuba dos
porcos. O unicrnio dos livros  como uma marca. Se h a marca, deve ter havido alguma
coisa que deixou essa marca.
  - Mas diferente da marca, dizeis-me.
  - Decerto. Nem sempre uma marca tem a mesma forma do corpo que a imprimiu e
nem sempre nasce da presso de um corpo. Por vezes reproduz a impresso que um
corpo deixou na nossa mente,  marca de uma idia. A idia  sinal das coisas, e a
imagem  sinal da idia, sinal de um sinal. Mas, pela imagem, reconstruo, se no o
corpo, a idia que outros tinham dele.
  - E isso basta-vos?
   - No, porque a verdadeira cincia no deve contentar-se com as idias, que so
precisamente sinais, mas deve encontrar as coisas na sua verdade singular. E, portanto,
gostaria de remontar desta marca de uma marca ao unicrnio indivduo que est no
incio da cadeia. Tal como gostaria de remontar dos sinais vagos deixados pelo assassino
de Venancio (sinais que poderiam referir-se a muitos) a um indivduo nico, o prprio
assassino. Mas nem sempre  possvel em breve tempo e sem a mediao de outros
sinais.
   - Mas, ento, posso sempre e s falar de alguma coisa que me fala de algo distinto, e
assim sucessivamente, sem que exista algo final e verdadeiro?
  - Mas existe, e  o indivduo unicrnio. No temas, passe o tempo e o encontrar,
mesmo que seja negro e feio.
   - Unicrnios, lees, autores rabes e mouros em geral  disse.  Sem dvida, estou na
frica de que falam os monges.
  - Sem dvida,est. E se estamos, deveramos encontrar os poetas africanos que
Pacifico de Tivole aludiu.
   Assim retrocedemos a sala L, encontramos um armrio onde havia uma coleo de
livros de Floro, Frontn, Apuleyo, Marciano Capella y Fulgencio.
  - Acho que  aqui que Berengrio dizia que deveria estar a explicao de certo
segredo  disse.
   - Quase aqui. Usou a expresso finis Africae,e ao escutar essas palavras foi quando
Malaquias se enfadou tanto. E finalmente poderia ser esta a ltima sala, ou bem... 
lanou um grito: - Pelas sete igrejas de Clonmacnois! No notou nada?
  - Qu?
  - Regressemos a sala S,  de l que temos que partir!
  Regressamos a primeira sala cega cuja inscrio dizia: Super thronos viginti quatuor.
Tinha quatro aberturas. Uma comunicava-se com a sala. E tinha uma janela aberta no
octgono. A outra se comunicava com a sala P, que, seguindo a parede externa, se
insertava na seqncia YSPA-NIA. A que dava para o Torreo comunicava-se com a sala E,
que acabvamos de atravessar. Depois havia uma parede sem aberturas, e por ltimo um
pao que se comunicava com a segunda sala cega cuja inicial era U. A sala S era de
espelho, e por sorte este se encontrava na parede situada imediatamente a minha
direita, porque se no, teria novamente levado um bom susto. Olhando bem o mapa,
descobri que aquela sala tinha algo especial. Como as demais salas cegas dos outros trs
torrees, tinha que se comunicar com a sala heptagonal central. Mas no era assim, a
entrada ao heptgono deveria estar na sala cega ao lado, na U. Porem no era assim:
esta ltima, que comunicava com uma sala T com janela no octgono interno, e com a
sala S, era conhecida, tinha as restantes, trs paredes cheias de armrios, ou seja, sem
aberturas. Olhando ao nosso redor descobrimos algo que antes no parecia evidente,
tambm raciocinando com o mapa: por razoes no s de estrita simetria, mas tambm de
lgica, aquele torreo devia ter uma sala heptagonal, e, era esta sala que faltava.
  - No existe  disse.
  - No  que no exista. Se no existisse, as outras salas seriam maiores, enquanto so
mais ou menos do formato das dos outros lados. Existe, mas no se chega l.
  - murada?
   - Provavelmente. E eis o finis Africae, eis o lugar em torno do qual giravam aqueles
curiosos que esto mortos.  murada, mas no quer dizer que no exista uma passagem.
Mais, existe seguramente, e Venancio tinha-a encontrado, ou tinha sabido a sua
descrio atravs de Adelmo, e este de Berengrio. Voltemos a ler os seus
apontamentos. - Tirou do saio o papel de Venancio e releu: - A mo sobre o dolo opera
sobre o primeiro e sobre o stimo dos quatro. - Olhou em torno: - Mas decerto! O idolum
 a imagem do espelho! Venancio pensava em grego, e naquela lngua, mais ainda que na
nossa, eidolon  tanto imagem como espectro, e o espelho devolve-nos a nossa imagem
deformada, que ns mesmos, na noite passada, confundimos com um espectro! Mas que
sero ento as quatro supra speculum? Algo sobre a superfcie refletora? Mas ento
deveramos pr-nos de um certo ponto de vista de modo a poder distinguir algo que se
reflete no espelho e que corresponde  descrio dada por Venancio...
  Movemo-nos em todas as direes, mas sem resultado. Para alm das nossas imagens,
o espelho devolvia confusos contornos do resto da sala, dificilmente iluminada pela
lmpada.
  - Ento - meditava Guilherme -, por supra speculum poderia querer dizer para alm do
espelho... O que imporia que primeiro fssemos para alm, porque certamente este
espelho  uma porta...
   O espelho era mais alto que um homem normal, encaixado na parede por uma robusta
moldura de carvalho. Tocamo-lo de todas as maneiras, procuramos introduzir os dedos,
as unhas entre a moldura e a parede, mas o espelho estava seguro como se fizesse parte
da parede, pedra na pedra.
   - E, se no  para alm, poderia ser super speculum  murmurava Guilherme, e
entretanto levantava o brao e erguia-se na ponta dos ps, e deixava escorregar a mo
pelo bordo superior da moldura, sem encontrar mais que p. - Por outro lado  refletia
melancolicamente Guilherme -, se mesmo ali atrs houvesse uma sala, o livro que
procuramos, e que outros procuraram, naquela sala j no est, porque o levaram,
primeiro Venancio e depois, quem sabe para onde, Berengrio.
  - Mas talvez Berengrio o tenha voltado a trazer para aqui.
   - No, naquela noite ns estvamos na biblioteca, e tudo nos leva a crer que ele tenha
morrido no muito tempo depois do furto, naquela mesma noite, nos balnea. Seno
teramos voltado a v-lo na manh seguinte. No importa... Por agora apuramos onde
fica o finis Africae, e temos quase todos os elementos para aperfeioar melhor o mapa
da biblioteca. Tens de admitir que muitos dos mistrios do labirinto j esto
esclarecidos. Todos, diria, menos um. Creio que tirarei maior partido de uma releitura
atenta do manuscrito de Venancio que de outras inspees. Viste que o mistrio do
labirinto o descobrimos melhor de fora que de dentro. Esta noite, diante das nossas
imagens deformadas, no chegaremos ao cabo do problema. E, por fim, a candeia est a
enfraquecer. Anda, vamos pr em ordem as outras indicaes que nos servem para
definir o mapa.
   Percorremos outras salas, registrando sempre as nossas descobertas no meu mapa.
Encontramos salas dedicadas somente a escritos de matemtica e astronomia, outras
com obras em caracteres aramaicos que nenhum de ns dois conhecia, outras em
caracteres mais desconhecidos ainda, talvez textos da ndia. Movamo-nos entre duas
seqncias imbricadas que diziam IUDAEA e AEGYPTUS. Em suma, para no enfadar o
leitor com a crnica da nossa decifrao, quando mais tarde pusemos definitivamente
em ordem o mapa, convencemo-nos que a biblioteca era na verdade constituda e
distribuda segundo a imagem do globo terrqueo. A setentrio encontramos ANGLIA e
GERMANI, que ao longo da parede ocidental se ligavam a GALLIA, para depois gerar no
extremo ocidente HIBERNIA e para meridional ROMA (paraso de clssico latinos!) e
YSPANIA. Vinham depois a meridiano os LEONES, o AEGYPTUS, que para oriente se
tornavam IUDAEA e FONS ADAE. Entre oriente e setentrio, ao longo da parede, ACAIA,
uma boa sindoque, como se exprimiu Guilherme, para indicar a Grcia, e de fato
naquelas quatro salas havia grande abundncia de poetas e filsofos da antigidade
pag.
   O modo de leitura era bizarro, por vezes procedia-se numa nica direo, outras vezes
andava-se ao contrrio, outras vezes ainda em crculo, freqentemente, como disse,
uma letra servia para compor duas palavras diversas (e nestes casos a sala tinha um
armrio dedicado a um assunto e um outro a outro). Mas no havia que procurar uma
regra urea naquela disposio. Tratava-se de mero artifcio mnemotcnico para
permitir ao bibliotecrio encontrar as obras. Dizer de um livro que se encontrava em
quarta Acaiae significava que estava na quarta sala a contar daquela em que aparecia o
A inicial, e quanto ao modo de a identificar supunha-se que o bibliotecrio sabia de cor o
percurso, ou reto ou circular, a fazer. Por exemplo, ACAIA estava distribudo por quatro
salas dispostas em quadrado, o que quer dizer que o primeiro A era tambm o ltimo,
coisa que, alis, tambm ns tnhamos apreendido em pouco tempo. Tal como logo
tnhamos apreendido o jogo das barreiras. Por exemplo, vindo de oriente, nenhuma das
salas de ACA1A introduzia nas salas seguintes: o labirinto terminava naquele ponto, e
para chegar ao torreo setentrional era necessrio passar pelos outros trs. Mas,
naturalmente, os bibliotecrios, entrando pelo FONS, sabiam bem que para ir,
supnhamos, a ANGLIA, deviam atravessar AEGYPTUS, YSPANIA, GALLIA e GERMANI.
   Com estas e outras belas descobertas terminou a nossa frutuosa explorao 
biblioteca. Mas antes de dizer que, satisfeitos, nos dispusemos a sair dela (para tomar
parte em outros eventos que daqui a pouco contarei), devo fazer uma confisso ao meu
leitor. Disse que a nossa explorao foi conduzida, por um lado, procurando a chave do
misterioso lugar e, por outro, demorando-nos de vez em quando nas salas que
identificvamos quanto a colocao e assunto a folhear livros de vrio gnero, como se
explorssemos um continente misterioso ou uma terra incgnita. E, de costume, esta
explorao fez-se de comum acordo, eu e Guilherme demorando-nos sobre os mesmos
livros, eu indicando-lhe os mais curiosos, ele explicando-me muitas coisas que no
conseguia compreender.
   Mas, a certa altura, e precisamente enquanto vaguevamos pelas salas do torreo
meridional, chamadas LEONES, aconteceu que o meu mestre se deteve numa sala rica de
obras rabes com curiosos desenhos de ptica; e, visto que naquela noite no
dispnhamos de uma mas de duas candeias, eu afastei-me por curiosidade para a sala ao
lado, apercebendo-me que a sagacidade e a prudncia dos legisladores da biblioteca
tinham reunido ao longo de uma das suas paredes livros que, decerto, no podiam ser
dados a ler a qualquer um, porque, de modos diversos, tratavam de variadas doenas do
corpo e do esprito, quase sempre obras de sbios infiis. E caram-me os olhos num livro
que no era grande, adornado de miniaturas muito diferentes (felizmente!) do tema,
flores, gavinhas, animais aos pares, alguma erva medicinal: o ttulo era Specu-lum
amoris, de frei Mximo de Bolonha, e reproduzia citaes de muitas outras obras, todas
sobre o mal de amor. Como o leitor compreender, no era preciso mais para despertar a
minha curiosidade doente. Assim, o prprio ttulo bastou para reacender a minha mente,
que desde manh se tinha aquietado, excitando-a de noco com a imagem da rapariga.
   Como durante todo o dia tinha rechaado de mim os pensamentos matinais, dizendo-
me que no eram de um novio so e equilibrado, e como, por outro lado, os eventos do
dia tinham sido bastante ricos e intensos para me distrarem, os meus apetites tinham-se
aquietado, de modo que julgava ento ter-me libertado daquilo que no tinha sido mais
que uma inquietao passageira. Bastou, porm, a vista daquele livro para me fazer
dizer de te fbula narratur e para me descobrir mais doente de amor do que eu
julgava. Aprendi depois que, ao ler livros de medicina, convencemo-nos sempre que
sentimos as dores de que eles falam. Foi assim que, justamente, a leitura daquelas
pginas, que espreitei  pressa com receio que Guilherme entrasse na sala e me
perguntasse com que estava doutamente entretido, me fez convencer que eu sofria
realmente daquela doena, cujos sintomas eram to esplendidamente descritos que, se
por um lado me preocupava achar-me doente (e na escolta infalvel de tantas
auctoritates), por outro alegrava-me ver pintada com tanta vivacidade a minha situao;
fui-me convencendo de que, se acaso estava doente, a minha doena era, por assim
dizer, normal, dado que tantos outros dela tinham sofrido do mesmo modo, e os autores
citados pareciam ter-me tomado precisamente a mim como modelo das suas descries.
   Assim me comovi sobre as pginas de Ibn Hazm, que define o amor como uma doena
rebelde, cuja cura reside em si prpria, de modo que quem est doente no quer curar-
se dela e quem est enfermo no deseja melhorar (e Deus sabe se no era verdade!).
Dei-me conta porque de manh era to excitado por tudo o que via, porque parece que o
amor entra atravs dos olhos, como tambm diz Baslio d'Ancira, e  sintoma
inconfundvel - quem est atacado por um tal mal manifesta uma excessiva alegria,
enquanto deseja ao mesmo tempo ficar  parte e privilegia a solido (como eu tinha
feito naquela manh), enquanto outros fenmenos que o acompanham so a inquietao
violenta e o aturdimento que tolhe as palavras... Assustei-me lendo que ao sincero
amante, a quem se impede a vista do objeto amado, no pode seno sobrevir um estado
de consumpo que muitas vezes chega a obrig-lo a recolher ao leito, e por vezes o mal
ataca o crebro, perde-se o tino e delira-se (evidentemente no tinha atingido ainda
aquele estado, porque tinha trabalhado bastante bem na explorao da biblioteca). Mas
li com apreenso que, se o mal piorar, pode sobrevir a morte, e perguntei-me se a
alegria que a rapariga me dava ao pensar nela valia este sacrifcio supremo do corpo, 
parte qualquer justa considerao sobre a sade da alma.
   At porque encontrei outra citao de Baslio, segundo o qual qui animam corpori per
vitia conturbationesque commiscent, utrinque quod habet utile ad vitam necessarium
demoliuntur, animamque lucidam ac nitidam carnalium voluptatum limo per-turbant, et
corporis munditiam atque nitorem hac ratione mis-centes, inutile hoc ad vitae officia
ostendunt. Situao extrema em que realmente no queria encontrar-me.
  Vim a saber tambm por uma frase de Santa Hildegarda que aquele humor melanclico
que durante o dia tinha experimentado, e que atribua a um doce sentimento de pena
pela ausncia da rapariga, se assemelha perigosamente ao sentimento que experimenta
quem se desvia do estado harmnico e perfeito que o homem sente no paraso, e que
esta melancolia nigra et amara  produzida pelo sopro da serpente e pela sugesto do
diabo. Idia tambm partilhada por infiis de igual sabedoria, porque me caram debaixo
dos olhos as linhas atribudas a Abu Bakr-Muhammad Ibn Zaka-riyya ar-Razi, que num
Lber continents identifica a melancolia amorosa com a licantropia, que leva quem dela
 atingido a comportar-se como um lobo. A sua descrio apertou-me a garganta:
primeiro os amantes aparecem mudados no seu aspecto exterior, a vista enfraquece-
lhes, os olhos tornam-se cavos e sem lgrimas, a lngua seca lentamente e aparece
coberta de pstulas, todo o corpo fica seco, e sofrem continuadamente de sede: ento
passam o dia estendidos com a face por terra, no rosto e nas tbias aparecem sinais
semelhantes a mordeduras de co, e por fim vagueiam de noite pelos cemitrios como
lobos.
   No tive enfim mais dvidas sobre a gravidade do meu estado quando li citaes do
grande Avicena, onde o amor  definido como um pensamento assduo, de natureza
melanclica, que nasce por fora de pensar e repensar nas feies, nos gestos ou nos
hbitos de uma pessoa de sexo oposto (como Avicena tinha representado com fiel
vivacidade o meu caso!): ele no nasce como doena mas em doena se transforma
quando, no sendo satisfeito, se torna obsessivo (e porque  que me sentia obcecado, eu
que, afinal, Deus me perdoe, me tinha satisfeito to bem?, ou ser que aquilo que tinha
acontecido na noite precedente no era satisfao de amor?, mas como se satisfaz ento
este mal?), e como conseqncia tem-se um movimento continuo das plpebras, uma
respirao irregular, ora se ri ora se chora, e o pulso bate (e, na verdade, o meu batia, e
a respirao quebrava-se enquanto lia aquelas linhas!). Avicena aconselhava um mtodo
infalvel ali proposto por Galeno para descobrir de quem uma pessoa est enamorada:
segurar o pulso do doente e ir pronunciando muitos nomes de pessoas de outro sexo, at
se perceber a que nome o ritmo do pulso se acelera: e eu temia que de repente entrasse
o meu mestre e me agarrasse o brao e espiasse na pulsao das minhas veias o meu
segredo, do que muito me teria envergonhado... Ai de mim, Avicena sugeria, como
remdio, unir os dois amantes no matrimnio, e o mal seria curado. Era bem verdade
que era um infiel, embora avisado, porque no tinha em conta a condio de um novio
beneditino, condenado portanto a jamais curar - ou melhor, consagrado, por sua
escolha, ou por prudente escolha dos seus pais, a jamais adoecer. Felizmente, Avicena,
embora no pensando na ordem clunicense, considerava o caso dos amantes que no se
podem unir, e aconselhava como cura radical os banhos quentes (que Berengrio quisesse
curar do seu mal de amor pelo desaparecido Adelmo?, mas podia algum sofrer de mal de
amor por um ser do mesmo sexo, ou aquilo no era seno bestial luxria?, e no era
acaso bestial a luxria da minha noite passada?, no, decerto, dizia-me imediatamente,
era dulcssima - e logo depois: enganas-te, Adso, aquilo foi iluso do diabo, era
bestialssima, e se pecaste sendo um animal pecas ainda mais agora no querendo dar-te
conta disso!). Mas depois li tambm que, sempre segundo Avicena, havia ainda outros
meios: por exemplo, recorrer  assistncia de mulheres velhas e experientes que passam
o tempo a denegrir a amada - e parece que as mulheres velhas so mais experientes que
os homens nesta tarefa. Talvez esta fosse a soluo, mas mulheres velhas na abadia no
as podia encontrar (nem jovens, na verdade), e, portanto, deveria pedir a algum monge
que me falasse mal da rapariga, mas a quem? E, depois, podia um monge conhecer bem
as mulheres como as conhecia uma mulher velha e bisbilhoteira? A ltima soluo
sugerida pelo sarraceno era francamente impudica, porque postulava que se fizesse unir
o amante infeliz com muitas escravas, coisa bastante inconveniente para um monge.
Enfim, dizia para comigo, como pode curar de mal de amor um jovem monge, no h
realmente salvao para ele? Devia talvez recorrer a Severino e s suas ervas? De fato
encontrei um excerto de Arnaldo de Villanova, autor que j tinha ouvido citar com muita
considerao a Guilherme, o qual fazia nascer o mal de amor de uma abundncia de
humores e de pneuma, isto , quando o organismo humano se encontra em excesso de
umidade e de calor, dado que o sangue (que produz o smen gerador), crescendo por
excesso, provoca excesso de smen, uma complexio venerea, e um desejo intenso de
unio entre homem e mulher. H uma virtude estimativa situada na parte dorsal do
ventrculo mdio do encfalo (o que ?, perguntei-me) cuja funo  apreender as
intentiones no sensveis que esto nos objetos sensveis captados pelos sentidos, e
quando o desejo pelo objeto apreendido pelos sentidos se torna demasiado forte, eis que
a sua faculdade estimativa  perturbada, e nutre-se apenas do fantasma da pessoa
amada; ento verifica-se uma inflamao de toda a alma e o corpo, com a tristeza
alternando com a alegria, porque o calor (que nos momentos de desespero desce s
partes mais profundas do corpo e enregela a ctis) nos momentos de alegria sobe 
superfcie inflamando o rosto. A cura sugerida por Arnaldo consistia em procurar perder a
confiana e a esperana de alcanar o objeto amado, de modo que o pensamento se
afastasse dele.
   Mas ento estou curado, ou em vias de cura, disse para comigo, porque tenho pouca
ou nenhuma esperana de voltar a ver o objeto dos meus pensamentos, e, se o visse, de
o alcanar, e, se o alcanasse, de possu-lo de novo, e, se o voltasse a possuir, de o
conservar junto de mim, tanto por cause do meu estado monacal como dos deveres que
me so impostos pela categoria da minha famlia... Estou salvo, disse para comigo,
fechei o fascculo e recompus-me, precisamente no momento em que Guilherme entrava
na sala. Continuei com ele a viagem atravs do labirinto j desvendado (como j contei)
e de momento esqueci a minha obsesso.
  Como se ver, voltaria a encontr-la dentro em breve, mas em circunstncias (se de
mim!) bem diversas.
  QUARTO DIA
  NOITE
  Onde Salvador se deixa miseravelmente descobrir por Bernardo Gui, a rapariga amada
por Adso  presa e acusada de bruxaria, e todos vo para a cama mais infelizes e
preocupados que antes.
   amos de fato a descer de novo para o refeitrio quando ouvimos uns clamores, e umas
luzes dbeis cintilarem do lado da cozinha. Guilherme apagou de repente a candeia.
Seguindo as paredes, aproximamo-nos da porta que dava para a cozinha, e sentimos que
o rumor provinha do exterior mas que a porta estava aberta. Depois as vozes e as luzes
afastaram-se, e algum fechou a porta com violncia. Era um grande tumulto que
preludiava a qualquer coisa de desagradvel. Velozmente, passamos de novo pelo
ossrio, reaparecemos na igreja, deserta, samos pelo portal meridional e distinguimos
um reluzir de archotes no claustro.
  Aproximamo-nos, e na confuso parecia que tambm ns tnhamos acorrido
juntamente com os muitos que j estavam no lugar, saindo quer do dormitrio quer da
casa dos peregrinos. Vimos que os archeiros estavam segurando Salvador, branco como o
branco dos seus olhos, e uma mulher que chorava. Senti um aperto no corao: era ela, a
rapariga dos meus pensamentos. Logo que me viu, reconheceu-me e lanou-me um olhar
implorante e desesperado. Tive o impulso de me lanar a libert-la, mas Guilherme
deteve-me sussurrando-me alguns improprios nada afetuosos. Os monges e os hspedes
acorriam agora de todas as partes.
   Chegou o Abade, chegou Bernardo Gui, a quem o capito dos archeiros fez um breve
relatrio. Eis o que tinha acontecido.
   Por ordem do inquisidor, eles patrulhavam de noite toda a esplanada, com particular
ateno pela avenida que ia do portal de entrada  igreja, a zona do horto e a fachada
do Edifcio (porqu?, perguntei-me e compreendi: evidentemente porque Bernardo tinha
ouvido aos servos ou aos cozinheiros rumores sobre alguns trficos noturnos, talvez sem
saber quem eram exatamente os seus responsveis, que tinham lugar entre o exterior da
cerca e as cozinhas, e quem sabe se o estpido Salvador, como me tinha dito a mim os
seus propsitos, no teria j falado na cozinha ou nos estbulos a algum desgraado que,
atemorizado pelo interrogatrio da tarde, tinha lanado  curiosidade de Bernardo esta
murmurao). Girando circunspectos e no escuro no meio do nevoeiro, os archeiros
tinham finalmente surpreendido Salvador, em companhia da mulher, enquanto
manobrava diante da porta da cozinha.
   - Uma mulher neste lugar santo! E com um monge!  disse severamente Bernardo
dirigindo-se ao Abade.  Magnificentissimo senhor  prosseguiu -, se se tratasse s da
violao do voto de castidade, a punio deste homem seria coisa da vossa jurisdio.
Mas, uma vez que no sabemos ainda se as manobras destes dois desgraados tm alguma
coisa a ver com a sade de todos os hspedes, devemos primeiro fazer luz sobre este
mistrio. Vamos, falo contigo, miservel - e arrancava do peito de Salvador o evidente
embrulho que ele julgava ocultar -, que tens a dentro?
  Eu j o sabia: uma faca, um gato preto, que mal foi aberto o embrulho fugiu, miando
enfurecido e dois ovos, j quebrados e viscosos, que a todos pareceram sangue, ou bilis
amarela, ou outra substancia imunda. Salvador estava para entrar na cozinha, matar o
gato arrancar-lhe os olhos, e, sabe-se l com que promessas, tinha convencido a rapariga
a segui-lo. Com que promessas, soube-o logo. Os archeiros revistaram a rapariga, entre
risadas maliciosas e meias palavras lascivas, e encontraram-lhe um galito morto, ainda
por depenar. A desgraa quis que  noite, em que todos os gatos so pardos, o galo
parecesse preto tambm, como o gato. Eu pensei, pelo contrrio, que no era preciso
mais nada para a atrair, a pobre esfomeada que j na noite passada tinha abandonado (e
por amor de mim!) o seu precioso corao de boi...
   - Ah! Ah! - exclamou Bernardo com tom de grande preocupao. Gato e galo pretos...
Mas eu conheo-os, estes parafernais... - Avistou Guilherme entre os circunstantes: - No
os conheceis tambm vs frade Guilherme? No fostes inquisidor em Kilkenny, h trs
anos, onde uma rapariga tinha comrcio com um demnio que lhe aparecia sob a forma
de um gato preto?
   Pareceu-me que o meu mestre se calava por covardia. Agarrei-o pela manga, sacudi-o,
sussurrei-lhe desesperado:
  - Mas dizei-lhe que era para comer...
  Ele libertou-se da minha mo e dirigiu-se educadamente a Bernardo:
  - No creio que vs tenhais necessidade das minhas antigas experincias para
chegardes s vossas concluses - disse.
   - Oh, no, existem testemunhas bem mais autorizadas - sorri Bernardo. - Estevo de
Bourbon conta no seu tratado sobre os sete dons do Esprito Santo como So Domingos,
depois de ter pregado em Fanjeaux contra os hereges, anunciou a certas mulheres que
elas veriam quem tinham servido at ento. E de repente saltou no meio delas um gato
medonho com as dimenses de um grande co, com os olhos grandes e chamejantes, a
lngua sanguinolenta que lhe chegava ao umbigo, a cauda curta e espetada no ar de
modo que, de qualquer lado que o animal se voltasse, mostrava a torpeza do seu
traseiro, ftido como nenhum, como convm quele anus que muitos devotos de Satans,
e os cavaleiros templrios esto longe de ser os ltimos, costumavam beijar sempre no
curso das suas reunies. E depois de ter girado em volta das mulheres durante uma hora,
o gato saltou para a corda do sino e ai trepou, deixando para trs os seus restos
fedorentos. E no  o gato o animal amado pelos ctaros, que, segundo Alano das Ilhas,
se chamam assim precisamente de catus, porque beijam o posterior deste animal,
considerando-o encarnao de Lcifer? E no confirma tambm esta repugnante prtica
Guilherme de Alvernia no De legibus? E no diz Albelto Magno que os gatos so demnios
em potncia? E no refere o meu venervel irmo Jacques Fournier que no leito de
morte do inquisidor Godofredo de Carcassonne apareceram dois gatos pretos, que mais
no eram que demnios que queriam escarnecer daqueles despojos mortais?
  Um murmrio de horror percorreu o grupo dos monges, muitos dos quais fizeram o
santo sinal da cruz.
   - Senhor Abade, senhor Abade - dizia entretanto Bernardo com ar virtuoso -, talvez a
Vossa Magnificncia no saiba o que costumam fazer os pecadores com estes
instrumentos! Mas eu sei-o bem, no quisesse Deus! Vi mulheres de grande perversidade,
nas horas mais escuras da noite, juntamente com outras da mesma laia, usarem gatos
pretos para obterem prodgios que nunca puderam negar: tal como andarem a cavalo de
certos animais e percorrerem com o favor noturno espaos imensos, arrastando os seus
escravos, transformados em incubos de desejos loucos. E o prprio diabo se lhes mostra,
ou pelo menos eles acreditam nisso firmemente, sob a forma de um galo, ou de outro
animal todo negro, e com ele chegam, no me pergunteis como, a deitar-se. E sei de
fonte segura que com necromancias deste gnero, no h muito, precisamente em
Avinho, se prepararam filtros e ungentos para atentar contra a vida do prprio senhor
papa, envenenando-lhe a comida. O papa pde defender-se e identificar o txico apenas
porque estava munido de prodigiosas jias em forma de lngua de serpente, fortificadas
por admirveis esmeraldas e rubis que, por virtude divina, serviam para revelar a
presena de veneno na comida! Onze tinha-lhas oferecido o rei de Frana, dessas lnguas
preciosssimas, graas ao cu, e s assim o nosso senhor papa pde escapar  morte! 
verdade que os inimigos do pontfice fizeram ainda mais, e todos sabem o que se
descobriu do herege Bernard Dlicieux, preso h dez anos: foram-lhe encontrados em
casa livros de magia negra anotados precisamente nas pginas mais perversas, com todas
as instrues para construir figuras de cera atravs das quais causar dano aos prprios
inimigos. E, acredit-lo-eis?, em casa tambm lhe foram encontradas figuras que
reproduziam, com arte decerto admirvel, a prpria imagem do papa, com pequenos
crculos vermelhos nas partes vitais do corpo: e todos sabem que tais figuras, mantidas
suspensas por uma corda, se pem diante de um espelho, e depois atingem-se os crculos
vitais com alfinetes e... Oh, mas porque me demoro com estas misrias repugnantes? O
prprio papa falou delas e descreveu-as, condenando-as, precisamente o ano passado, na
sua constituio Super illius specula! E espero bem que tenhais um exemplar nesta vossa
rica biblioteca, para meditar nela como se deve...
  - Temos um, temos um - confirmou fervorosamente o Abade, muito perturbado.
  - Est bem - concluiu Bernardo. - Agora o fato parece-me claro. Um monge seduzido,
uma bruxa, e algum rito que felizmente no teve lugar. Com que fins? E o que
saberemos, e quero tirar algumas horas ao sono para saber. Queira a Vossa Magnificncia
pr  minha disposio um lugar onde este homem possa ser vigiado...
   - Temos umas celas no subsolo do laboratrio dos ferreiros - disse o Abade - que
felizmente se usam bastante pouco e esto vazias h anos...
  - Felizmente ou infelizmente - observou Bernardo.
   E ordenou aos archeiros que pedissem para lhes indicarem o caminho e conduzissem a
duas celas diferentes os cativos, e que prendessem bem o homem a algum anel fixo na
parece, de modo que ele pudesse em breve descer a interrog-lo olhando-o bem na cara.
Quanto  rapariga, acrescentou, era claro o que era, e no valia a pena interrog-la
naquela noite. Outras provas a esperariam antes de ser queimada como bruxa. E, se
bruxa era, no falaria facilmente. Mas o monge podia talvez ainda arrepender-se (e
fixava Salvador, que tremia, como a dar-lhe a entender que lhe oferecia ainda uma
possibilidade), contando a verdade e, acrescentou, denunciando os seus cmplices.
   Os dois foram arrastados para fora: um silencioso e desfeito, quase num estado febril,
a outra que chorava, e dava pontaps, e gritava como um animal no matadouro. Mas nem
Bernardo, nem os archeiros, nem eu mesmo entendamos o que dizia na sua lngua de
camponesa. Por mais que falasse, era como se fosse muda. H palavras que do poder,
outras que tornam uma pessoa ainda mais desamparada, e desta espcie so as palavras
vulgares dos simples, a quem o Senhor no concedeu saberem exprimir-se na lngua
universal da sabedoria e do poder.
  Mais uma vez fui tentado a segui-la, mais uma vez Guilherme, de rosto extremamente
sombrio, me reteve.
  - Est quieto, tolo - disse -, a rapariga est perdida,  carne queimada.
   Enquanto observava aterrado a cena, num turbilho de pensamentos contraditrios,
fixando a rapariga, senti que me tocavam no ombro. No sei porqu, mas, ainda antes de
me voltar, reconheci pelo toque Ubertino.
  - Tu olhas para a bruxa, no ? - perguntou-me.
  E eu sabia que ele no podia saber da minha aventura, e portanto falava assim apenas
porque tinha captado, com a sua terrvel penetrao das paixes humanas, a intensidade
do meu olhar.
  - No... - esquivei-me - no olho para ela... isto , talvez olhe para ela, mas no 
uma bruxa... no sabemos, talvez esteja inocente...
   - Tu olhas para ela porque  bela.  bela, no ? - perguntou-me com extraordinrio
calor, apertando-me o brao. - Se olhas para ela porque  bela, e ficas perturbado (mas
sei que ficas perturbado, porque o pecado de que  suspeita torna-ta ainda mais
fascinante), se olhas para ela e sentes desejo, por isso mesmo ela  uma bruxa. Toma
cuidado, meu filho...A beleza do corpo limita-se  pele. Se os homens vissem o que est
debaixo da pele, tal como acontece com o lince da Becia, estremeceriam de horror 
viso da mulher. Toda aquela graa se compe de mucosidades e de sangue, de humores
e de blis. Se se pensa naquilo que se esconde nas narinas, na garganta e no ventre, no
se achar seno imundcie. E se te repugna tocar no muco ou no esterco com a ponta do
dedo, como  que poderemos desejar abraar o prprio saco que contm o esterco?
  Tive um acesso de vmito. No queria escutar mais aquelas palavras. Veio em meu
socorro o meu mestre, que tinha ouvido. Aproximou-se bruscamente de Ubertino,
agarrou-lhe o brao e arrancou-o do meu.
   - J chega, Ubertino - disse. - Aquela rapariga estar daqui a pouco sob tortura, e
depois na fogueira. Tornar-se- exatamente como tu dizes, muco, sangue, humores e
blis. Mas sero os nossos semelhantes que arrancaro de baixo da sua pele aquilo que o
Senhor quis que fosse protegido e adornado por aquela pele. E, do ponto de vista da
matria-prima, tu no s melhor que ela. Deixa o moo em paz.
  Ubertino perturbou-se:
  - Talvez tenha pecado - murmurou. - Sem dvida que pequei. Que mais pode fazer um
pecador.
  J todos estavam entrando de novo, comentando o acontecido, Guilherme demorou-se
um pouco com Miguel e com os outros menoritas, que lhe perguntavam as suas
impresses.
   - Bernardo tem agora um argumento na mo, embora equvoco. Pela abadia vagueiam
necromantes, que fazem as mesmas coisas que foram feitas contra o papa em Avinho.
No  decerto uma prova, e em primeira instncia no pode ser usada para perturbar o
encontro de amanh. Esta noite procurar arrancar quele desgraado qualquer outra
indicao, da qual, tenho a certeza, no far uso logo amanh de manh. T-la- de
reserva, servir-lhe- mais adiante para perturbar o andamento das discusses, se acaso
tomarem um caminho que lhe desagrade.
  - Poderia obrig-lo a dizer qualquer coisa a usar contra ns? - perguntou Miguel de
Cesena.
  Guilherme ficou na dvida:
  - Esperemos que no - disse.
  Dei-me conta de que, se Salvador dizia a Bernardo aquilo que nos tinha dito a ns
sobre o seu passado e o do despenseiro, e se fazia a menor aluso  relao de ambos
com Ubertino, por mais fugaz que tivesse sido, criar-se-ia uma situao bastante
embaraosa.
   - Em todo o caso, esperemos os eventos - disse Guilherme com serenidade. - Por outro
lado, Miguel,
   j tudo foi decidido antes. Mas tu queres provar.
  - Pois quero - disse Miguel -, e o Senhor me ajudar. Que So Francisco interceda por
todos ns.
  - Amm - responderam todos.
   - Mas no se sabe - foi o irreverente comentrio de Guilherme. - So Francisco poderia
estar em qualquer parte,  espera do juzo, sem ver o Senhor face a face.
  - Maldito seja o hertico Joo! - ouvi resmungar monsenhor Jernimo enquanto cada
um voltava a ir dormir.  Se agora nos tira tambm a assistncia aos santos, onde iremos
ns, pobres pecadores?
  QUINTO DIA
  PRIMA
  Onde tem lugar uma fraterna discusso sobre a pobreza de Jesus.
   Com o corao agitado por mil angstias, depois da cena da noite, levantei-me na
manh do quinto dia: j soava a hora prima, quando Guilherme me sacudiu rudemente
avisando-me que dentro em pouco se iam reunir as duas delegaes. Olhei para fora da
janela da cela e no vi nada. O nevoeiro do dia anterior tinha-se tornado um manto
leitoso que dominava manifestamente o planalto.
  Mal sa, vi a abadia como ainda a no vira at ento; apenas algumas construes
maiores, a igreja, o Edifcio, a sala capitular se destacavam mesmo  distncia, embora
de forma imprecisa, sombras entre as sombras, mas o resto do casario s era visvel a
poucos passos. Parecia que as formas, das coisas e dos animais, surgiam, de improviso do
nada; as pessoas pareciam emergir da bruma primeiro cinzentas como fantasmas, depois
pouco a pouco e dificilmente reconhecveis.
   Nascido nos pases nrdicos no era novo para mim aquele elemento, que noutros
momentos me teria recordado com alguma doura a plancie e o castelo do meu
nascimento. Mas naquela manh as condies do ar pareceram-me dolorosamente afins
s condies da minha alma, e a impresso de tristeza com que tinha acordado cresceu 
medida que me aproximava da sala capitular.
  A poucos passos da construo vi Bernardo Gui, que se despedia de outra pessoa que 
primeira no reconheci. Como depois passou a meu lado, apercebi-me que era
Malaquias. Olhava em seu redor como quem no quer ser avistado enquanto comete um
delito: mas j disse que a expresso deste homem era por natureza de quem esconde, ou
tenta esconder, um inconfessvel segredo.
   No me reconheceu, e afastou-se. Eu, movido pela curiosidade, segui Bernardo e vi
que estava percorrendo com o olhar uns papis, que talvez Malaquias lhe tivesse
entregado. No limiar do captulo chamou com um gesto o chefe dos archeiros, que estava
ali perto, e murmurou-lhe algumas palavras. Depois entrou. Eu fui atrs dele.
  Era a primeira vez que punha os ps naquele lugar, que por fora era de modestas
dimenses e de formas sbrias; apercebi-me que tinha sido reconstrudo em tempos
recentes sobre os restos de uma primitiva igreja abacial, talvez destruda em parte por
um incndio.
   Entretanto de fora passava-se sob um portal  moda nova, de arco em ogiva, sem
decoraes e encimado por uma roscea. Mas, no interior, encontrvamo-nos num trio,
refeito sobre os vestgios de um velho nrtex. Defronte apresentava-se outro portal, com
o arco  moda antiga, o tmpano em meia-lua admiravelmente esculpido. Devia ser o
portal da igreja desaparecida.
   As esculturas do tmpano eram igualmente belas mas menos inquietantes que as da
igreja atual. Tambm aqui o tmpano era dominado por um Cristo no trono; mas a seu
lado, em vrias poses e com vrios objetos nas mos, estavam os doze apstolos, que
dele tinham recebido o mandato de irem pelo mundo a evangelizar os gentios. Sobre a
cabea de Cristo, num arco dividido em doze painis, e aos ps de Cristo, numa procisso
ininterrupta de figuras, estavam representados os povos do mundo, destinados a receber
a boa nova. Reconheci pelos seus trajes os hebreus, os capadcios, os rabes, os
indianos, os frgios, os bizantinos, os armnios, os citas, os romanos. Mas, misturados
com eles, em trinta medalhes que se dispunham em arco sobre o arco dos doze painis,
estavam os habitantes dos mundos desconhecidos, de que apenas nos falam o Fisilogo e
os discursos incertos dos viajantes. Muitos deles ignorava-os, outros reconheci-os: por
exemplo, os brutos com seis dedos em cada mo, os faunos que nascem dos vermes que
se formam entre a casca e o tronco das rvores, as sereias com a cauda escamosa, que
seduzem os marinheiros, os etopes de corpo todo negro, que se defendem do ardor do
Sol escavando cavernas subterrneas, os onocentauros, homens at ao umbigo e burros
para baixo, os ciclopes com um nico olho do tamanho de um escudo, Escila com cabea
e peito de rapariga, ventre de loba e cauda de golfinho, os homens peludos da ndia que
vivem nos pauis e no rio Epigmride, os cinocfalos, que no podem dizer palavra sem se
interromperem e ladrar, os chpodos, que correm velozmente com a sua nica perna e,
quando se querem abrigar do Sol , estendem-se e erguem o grande p como um
sombreiro,
   os astmatos da Grcia, privados de boca, que respiram pelas narinas e vivem s de
ar, as mulheres barbudas da Armnia, os pigmeus, os epistigios, a que alguns tambm
chamam blmios, que nascem sem cabea, tm a boca no ventre e os olhos nos ombros,
as mulheres monstruosas do mar Vermelho, de doze ps de altura, com cabelos que lhes
chegam aos calcanhares, uma cauda bovine no fundo das costas e cascos de camelo, e
aqueles que tm a planta dos ps voltada pare trs, de modo que quem os seguir olhando
pare as suas pegadas chega sempre a donde eles vm e nunca a onde vo, e ainda os
homens com trs cabeas, os olhos cintilantes como lmpadas e os monstros da ilha de
Circe, corpos humanos e cerviz dos animais mais variados...
   Estes e outros prodgios estavam esculpidos naquele portal. Mas nenhum deles
provocava inquietao, porque eles no queriam significar os males desta terra ou os
tormentos do inferno, mas eram, pelo contrrio, testemunhos do fato de que a boa nova
tinha chegado a toda a terra conhecida e se estava estendendo  desconhecida, pelo que
o portal era jubilosa promessa de concrdia, de conseguida unidade na palavra de Cristo,
de esplndida ecumene.
   Bom auspicio, disse comigo, pare o encontro que se desenrolar para l deste umbral,
em que homens tornados inimigos uns dos outros por opostas interpretaes do
evangelho talvez hoje se reencontrem pare conciliarem as suas querelas. E disse para
comigo que era um pobre pecador a padecer pelo meu cave pessoal quando iam
verificar-se eventos de tanta importncia para a histria da cristandade. Confrontei a
pequenez das minhas penas com a grandiosa promessa de paz e de serenidade encerrada
na pedra do tmpano. Pedi perdo a Deus pela minha fragilidade e, mais sereno, transpus
o umbral.
  Mal entrei vi os membros das duas delegaes completas, que estavam frente a frente
numa srie de cadeires dispostos em semicrculo, divididas as duas frentes por uma
mesa a que estavam sentados o Abade e o cardeal Bertrando.
   Guilherme, que eu segui para tomar notas, ps-me do lado dos menoritas, onde
estavam Miguel com os seus e outros franciscanos da corte de Avinho: porque o
encontro no devia parecer um duelo entre os italianos e franceses, mas um dispute
entre defensores da regra franciscana e os seus crticos, todos unidos por uma s e
catlica fidelidade  corte pontifcia.
   Com Miguel de Cesena estavam frade Arnaldo da Aquitania, frade Hugo de Newcastle e
frade Guilherme Alnwick, que tinham tomado parte no captulo de Perugia, e depois o
bispo de Caffa e Berengrio Talloni, Bonagrazia de Brgamo e outros menoritas da corte
avinhonense. Do lado oposto estavam sentados Loureno Decoalcone, bacharel de
Avinho, o bispo de Pdua e Jean d'Anneaux, doutor de teologia em Paris. Ao lado de
Bernardo Gui, silencioso e absorto, estava o dominicano Jean de Baune, a quem na Itlia
chamavam Giovanni Dalbena. Este, disse-me Guilherme, tinha sido anos antes inquisidor
em Narbona, onde tinha processado muitos beguinos e santanrios; mas como tinha
imputado de heresia precisamente uma proposio respeitante  pobreza de Cristo,
tinha-se levantado contra ele Berengrio Talloni, leitor no convento daquela cidade,
apelando ao papa. Ento, Joo estava ainda inseguro sobre esta matria, e tinha
convocado ambos  corte para discutirem, sem se chegar a uma concluso. Tanto que,
pouco depois, os franciscanos tinham tomado a posio, de que j falei, no captulo de
Perugia. Enfim, do lado dos avinhonenses, estavam outros ainda, entre os quais o bispo
de Alborea.
   A sesso foi aberta por Abbone, que considerou oportuno resumir os fatos mais
recentes. Recordou que no ano do Senhor de 1322 o captulo geral dos frades menores,
reunido em Perugia sob a direo de Miguel de Cesena, tinha estabelecido com madura e
diligente deliberao que Cristo, para dar exemplo de vida perfeita, e os apstolos, para
se adequarem ao seu ensinamento, nunca tinham tido em comum coisa alguma, tanto
por razes de propriedade como de senhorio, e que esta verdade era matria de f s e
catlica, como se deduzia de vrias citaes dos livros cannicos. Por isso era meritria e
santa a renncia  propriedade de todas as coisas, e que a esta regra de santidade se
tinham conformado os primeiros fundadores da igreja militante. Que a esta verdade se
tinha conformado em 1312 o conclio de Vienne, e que o prprio papa Joo, em 1317, na
constituio sobre o estado dos frades menores que se inicia com Quorundam exigit,
tinha comentado as deliberaes daquele concilio como santamente compostas, lcidas,
slidas e maduras. E dai o captulo de Perugia, considerando que aquilo que por s
doutrina a sede apostlica tinha sempre aprovado sempre se devia ter por aceite, e que
de modo nenhum se devia apartar dele, no tinha feito mais que selar de novo tal
deciso conciliar, pelo nome de mestres em sagrada teologia, como frade Guilherme de
Inglaterra, frade Henrique da Alemanha, frade Arnaldo de Aquitania, provinciais e
ministros; assim como com o selo de frade Nicolau, ministro de Frana, frade Guilherme
Bloc, bacharel, do ministro geral e de quatro ministros provinciais, frade Toms de
Bolonha, frade Pedro da provncia de So Francisco, frade Fernando de Castello e frade
Simo de Turnia. Porm, acrescentou Abbone, no ano seguinte o papa emitia a decretal
Ad conditorem canonum, contra a qual apelava frade Bonagrazia de Brgamo,
considerando-a contrria aos interesses da sua ordem. O papa tinha ento arrancado
aquela decretal das portas da igreja maior de Avinho, onde tinha sido pregada, e tinha-
a emendado em vrios pontos. Mas, na realidade, tinha-a tornado ainda mais spera, e
prova disso era que, como conseqncia imediata, frade Bonagrazia tinha sido mantido
um ano na priso. E no se podia ter dvidas sobre a severidade do pontfice, porque no
mesmo ano emitia a j conhecidssima Cum nter nonnullos, em que definitivamente se
condenavam as teses do captulo de Perugia.
   Falou neste ponto, interrompendo cortesmente Abbone, o cardeal Bertrando, e disse
que era necessrio recordar como, a complicar as coisas e a irritar o pontfice, tinha
intervindo em 1324 Lus, o Bvaro, com a declarao de Sachsenhausen, onde se
assumiam sem qualquer razo vlida as teses de Perugia (e no se compreendia, notou
Bertrando com um fino sorriso, porque  que o imperador aclamava to
entusiasticamente uma pobreza que ele estava longe de praticar), pondo-se contra o
senhor papa, chamando-lhe inimicus pacis e dizendo que ele pretendia suscitar
escndalos e discrdias, tratando-o por fim de herege, melhor, de heresiarca.
  - No exatamente - tentou mediar Abbone.
  - Em substancia, sim - disse secamente Bertrando.
   E acrescentava que tinha sido precisamente para rebater a importuna interveno do
imperador que o senhor papa tinha sido obrigado a emitir a decretal Quia quorundam, e
que tinha enfim severamente convidado Miguel de Cesena a apresentar-se perante ele.
Miguel tinha mandado cartas de desculpa dizendo-se doente, coisa de que ningum
duvidava, enviando em seu lugar frade Joo Fidanza e frade Modesto Custdio de
Perugia. Mas dava-se o caso, disse o cardeal, que os guelfos de Perugia tinham informado
o papa que, longe de estar doente, frei Miguel estava mantendo contatos com Lus da
Baviera. E em todo o caso, tendo sido aquilo que tinha sido, agora frei Miguel parecia de
belo e sereno aspecto, e esperavam-no portanto em Avinho. Era, alis, melhor, admitia
o cardeal, ponderar antes, como se estava fazendo agora, na presena de homens
prudentes de ambas as partes, o que Miguel diria depois ao papa, dado que o fim de
todos sempre era, afinal, o de no agravar as coisas e compor fraternalmente uma
diatribe que no tinha razo de ser entre um pai amorvel e os seus filhos dedicados e
que at ento se tinha reacendido apenas pelas intervenes de homens do sculo,
fossem imperadores ou vigrios, os quais nada tinham a ver com as questes da Santa
Madre Igreja.
   Interveio ento Abbone e disse que, embora sendo homem da Igreja e abade de uma
ordem a que a Igreja tanto devia (um murmrio de respeito e deferncia correu de
ambos os lados do semicrculo), no considerava todavia que o imperador devesse
permanecer estranho a tais questes, pelas inmeras razes que frade Guilherme de
Baskerville depois diria. Mas, continuava a dizer Abbone, era todavia justo que a
primeira parte do debate se desenrolasse entre os enviados pontifcios e os
representantes daqueles filhos de So Francisco que, pelo prprio fato de terem
intervindo neste encontro, se demonstravam filhos dedicadssimos do pontfice. E, assim,
convidava frade Miguel, ou algum por ele, a dizer o que entendia defender em Avinho.
  Miguel disse que, com sua grande alegria e comoo, se encontrava entre eles naquela
manh Ubertino de Casale, a quem o mesmo pontfice, em 1322, tinha pedido uma
fundada relao sobre a questo da pobreza. E precisamente Ubertino poderia resumir,
com a lucidez, a erudio e a f apaixonada que todos lhe reconhecamos, os pontos
capitais daquelas que j eram, e indefectivelmente, as idias da ordem franciscana.
   Levantou-se Ubertino, e mal comeou a falar compreendi porque  que tinha
suscitado tanto entusiasmo como pregador e como homem de corte. Apaixonado no
gesto, persuasivo na voz, fascinante no sorriso, claro e conseqente no raciocnio, ele
prendeu a si os ouvintes durante todo o tempo em que teve a palavra. Ele iniciou uma
disquisio muito douta sobre as razes que confortavam as teses de Perugia. Disse que,
antes de mais, se devia reconhecer que Cristo e os seus apstolos tiveram um duplo
estado, porque foram prelados da Igreja do novo testamento e deste modo possuram,
quanto a autoridade de dispensa e de distribuio, para darem aos pobres e aos ministros
da Igreja, como est escrito no quarto captulo dos Atos dos apstolos, e sobre isto
ningum discute. Mas, secundariamente, Cristo e os apstolos devem ser considerados
como pessoas singulares, fundamento de toda a perfeio religiosa, e perfeitos
desprezadores do mundo. E a este propsito propem-se dois modos de ter, um dos quais
 civil e mundano, que as leis imperiais definem com as palavras in bonis nostris, porque
nossos so chamados os bens que esto  nossa guarda e que, sendo-nos tirados, temos o
direito de reclamar. Por isso, uma coisa  defender civil e mundanamente o bem prprio
daquele que no-lo quer tirar, apelando ao juiz imperial (e dizer que Cristo e os apstolos
tiveram coisas desta maneira  afirmao hertica, porque, como diz Mateus no V
captulo, quele que quer contender contido em juzo e tirar-te a tnica deixa tambm o
manto, e Lucas no diz diversamente no VI capitulo, com cujas palavras Cristo remove de
si todo o domnio e senhorio e isto mesmo impe aos seus apstolos, veja-se ainda
Mateus, captulo XXIV, onde Pedro diz ao Senhor que para o seguir deixaram todas as
coisas); mas de outro modo podem todavia ter-se as coisas temporais, em razo da
caridade fraterna comum, e deste modo Cristo e os seus tiveram bens por razo natural,
a qual razo  por alguns chamada jus poli, isto , razo do cu, para sustentar a
natureza que sem ordenao humana  consoante  reta razo; enquanto o jus fori 
poder que depende de humana estipulao. Anteriormente  primeira diviso das coisas,
estas, quanto ao domnio, foram como agora so as coisas que no resultam entre os
bens de algum e se concedem a quem as ocupa e foram, num certo sentido, comuns a
todos os homens, enquanto s depois do pecado os nossos progenitores comearam a
dividir entre si a propriedade das coisas, e desde ento comearam os domnios
mundanos como so conhecidos hoje. Mas Cristo e os apstolos tiveram as coisas do
primeiro modo, e assim tiveram o vesturio e os pes e os peixes, e, como diz Paulo na
primeira a Timteo, temos os alimentos, e com que nos cobrirmos, e estamos contentes.
Por isso, Cristo e os seus tiveram estas coisas no em posse, mas em uso, permanecendo
salva a sua absoluta pobreza. O que j tinha sido reconhecido pelo Papa Nicolau II pelo
decretal Exiit qui seminat.
   Mas levantou-se do lado oposto Jean d'Anneaux e disse que as posies de Ubertino
lhe pareciam contrrias no s  reta razo mas  reta interpretao das escrituras. Pois
que, nos bens perecveis com o uso, como o po e os peixes, no se pode falar de simples
direito de uso, nem se pode haver uso, sem abuso. Todos os que acreditam em comum na
Igreja primitiva, como se deduz dos Atos segundo e terceiro, tinham-no como base no
mesmo tipo de domnio que detinham antes da conversao; os apstolos, depois da
descida do Esprito Santo, possuram propriedades na Judia; o voto de viver sem
propriedade no se estende quilo de que o homem precisa necessariamente para viver,
e quando Pedro disse que tinha deixado todas as coisas no queria dizer que tivesse
renunciado  propriedade; Ado teve domnio e propriedade das coisas; o servo que
recebe dinheiro do seu patro decerto no faz dele nem uso nem abuso; as palavras da
Ext qui seminal a que os menoritas se referem sempre e que estabelecem que os frades
menores tm s o uso daquilo de que se servem, sem dele terem o domnio e a
propriedade, devem referir-se somente aos bens que no se esgotam com o uso, e, de
fato, se a Ext compreendesse os bens perecveis, defenderia uma coisa impossvel; o
uso de fato no se pode distinguir do domnio jurdico; todo o direito humano, em cuja
base se possuem bens materiais, est contido nas leis dos reis; Cristo, como homem
mortal, desde o instante da sua concepo, foi proprietrio de todos os bens terrenos e,
como Deus, teve do pai o domnio universal de tudo; foi proprietrio de vestes,
alimentos, dinheiro por contributos e ofertas dos fiis, e, se foi pobre no foi porque no
teve propriedade, mas porque no lhe recebia os frutos, pois que o simples domnio
jurdico, separado da cobrana dos interesses. no torna rico quem o detm; e
finalmente, se acaso a Ext tivesse dito coisas diversas, o pontfice romano, pelo que se
refere  f e s questes morais, pode revogar as determinaes dos seus predecessores
e fazer mesmo asseres contrrias.
  Foi naquele ponto que se levantou com veemncia frade Jernimo, bispo de Caffa,
com a barba que lhe tremia de ira, embora as suas palavras procurassem parecer
conciliadoras. E iniciou uma argumentao que me pareceu um tanto confusa.
   - Aquilo que quero dizer ao santo padre, e eu mesmo lho direi, ponho desde j sob a
sua correo, porque creio verdadeiramente que Joo  vigrio de Cristo, e por esta
confisso fui preso pelos sarracenos. E comearei citando um fato referido por um
grande doutor, sobre a disputa que surgiu um dia entre monges sobre quem era o pai de
Melquisedeque. E ento o abade Copes, interrogado sobre isto, sacudiu a cabea e disse:
cuidado, Copes, porque procuras apenas as coisas que Deus no te manda procurar e s
negligente naquelas que ele te manda. Pronto, como limpidamente se deduz do meu
exemplo,  to claro que Cristo e a bem-aventurada Virgem e os apstolos no tiveram
nada nem em especial nem em comum, que menos claro seria reconhecer que Jesus foi
homem e Deus ao mesmo tempo, e, porm, parece-me claro que quem negasse a
primeira evidncia deveria depois negar a segunda!
   Disse triunfante, e vi Guilherme que levantava os olhos ao cu. Suspeito que reputava
o silogismo de Jernimo um tanto defeituoso, e no posso dizer que no tinha razo, mas
mais defeituosa ainda me pareceu a irritadssima e contrria argumentao de Joo
Dalbena, o qual disse que quem afirma alguma coisa sobre a pobreza de Cristo afirma
aquilo que se v (ou no se v) com os olhos, enquanto para definir a sua humanidade e
divindade intervm a f, pelo que as duas proposies no podem ser igualadas. Na
resposta, Jernimo foi mais sutil que o adversrio:
  - Oh, no, meu caro irmo - disse -, parece-me verdade precisamente o contrrio,
porque todos os evangelhos declaram que Cristo era homem e comia e bebia e, por fora
dos seus evidentssimos milagres, era tambm Deus, e tudo isto salta mesmo aos olhos!
  - Tambm os magos e os adivinhos fizeram milagres  disse Dalbena com insuficincia.
   - Sim - rebateu Jernimo -, mas por operao de arte mgica. E tu queres igualar os
milagres de Cristo  arte mgica? - A assemblia murmurou indignada que no queria tal.
- E, enfim - continuou Jernimo, que j se sentia prximo da vitria -, o senhor cardeal
do Poggetto quereria considerar hertica a crena na pobreza de Cristo quando sobre
esta proposio assenta a regra de uma ordem como a franciscana, de modo que no h
reino onde os seus filhos no tenham andado pregando e espalhando o seu sangue desde
Marrocos at  ndia?
  - Santa alma de Pedro Hispano - murmurou Guilherme -, protege-nos tu.
  - Irmo diletssimo - vociferou ento Dalbena, dando um passo em frente -, fala
embora do sangue dos teus frades, mas no te esqueas que esse tributo foi pago
tambm por religiosos de outras ordens...
   - Salva a devida reverncia ao senhor cardeal - gritou Jernimo -, nunca dominicano
algum morreu entre os infiis, enquanto, s no meu tempo nove menoritas foram
martirizados!
  De rosto vermelho, levantou-se ento o dominicano, bispo de Alborea:
  - Ento, eu posso demonstrar que, antes de os frades menores irem para a Tartria, o
papa Inocncio mandou para l trs dominicanos!
   - Ah, sim? - troou Jernimo. - Pois bem, eu sei que h oitenta anos que os menoritas
esto na Tartria e tm quarenta igrejas por todo o pas, enquanto os dominicanos tm
apenas cinco postos na costa e ao todo sero quinze frades! E isto resolve a questo!
  - No resolve questo nenhuma - gritou Alborea -, porque esses menoritas, que parem
santanrios como as cadelas parem cachorrinhos, atribuem tudo a si, gabam-se de
mrtires e depois tm belas igrejas, paramentos sumptuosos e compram e vendem como
todos os outros religiosos!
  - No, meu senhor, no  interveio Jernimo -, eles no compram e vendem eles
prprios, mas atravs dos procuradores da sede apostlica, e os procuradores detm a
posse, enquanto os menoritas tm apenas o uso!
   - Deveras? - escarneceu Alborea -, quantas vezes ento tu vendeste sem procuradores?
Sei a histria de algumas propriedades que...
  - Se o fiz, errei - interrompeu precipitadamente Jernimo -, no atires para cima da
ordem aquilo que pode ter sido uma fraqueza minha!
  - Mas, venerveis irmos - interveio ento Abbone -, o nosso problema no  se so
pobres os menoritas mas se era pobre o Nosso Senhor...
   - Pois bem - fez-se neste ponto ouvir ainda Jernimo -, tenho sobre tal questo um
argumento que corta como a espada...
  - So Francisco, protege os teus filhos...  disse desanimadamente Guilherme.
   - O argumento  - continuou Jernimo - que os orientais e os gregos, bem mais
familiarizados que ns com a doutrina dos santos padres, tm por certa a pobreza de
Cristo. E se aqueles herticos e cismticos defendem to limpidamente uma to lmpida
verdade, quereremos ns ser mais herticos e cismticos que eles e neg-la? Esses
orientais, se ouvissem alguns de ns pregar contra esta verdade lapid-los-iam!
  - Que me estas dizendo? - zombou Alborea -, e porque  que ento no lapidam os
dominicanos que pregam precisamente contra isso?
  - Os dominicanos? Mas se nunca os vi por l!
   Alborea, de rosto violceo, observou que este frade Jernimo tinha estado na Grcia
talvez quinze anos, enquanto ele l tinha estado desde a infncia. Jernimo rebateu que
ele, o dominicano Alborea talvez tambm tivesse estado na Grcia, mas a fazer vida de
sociedade em belos palcios episcopais, enquanto ele, franciscano, l tinha estado no
quinze mas vinte e dois anos e tinha pregado diante do imperado: em Constantinopla.
Ento Alborea,  falta de argumentos, tentou atravessar o espao que o separava dos
menoritas, manifestando em voz alta, e com palavras que no ouso referir, a sua firme
inteno de arrancar a barba ao bispo de Caffa, cuja virilidade punha em dvida, e que
precisamente segundo a lgica de talio queria punir, usando aquela barba como flagelo.
   Os outros menoritas correram a fazer barreira em defesa do seu irmo, os
avinhonenses consideraram til dar mo forte ao dominicano, e seguiu-se (Senhor, tem
misericrdia dos melhores entre os teus filhos!) uma rixa que o Abade e o cardeal
tentaram em vo aplacar. No tumulto que se seguiu, menoritas e dominicanos disseram-
se reciprocamente coisas muito graves, como se cada um fosse um cristo em luta com
os sarracenos. Os nicos que permaneceram nos seus lugares foram de um lado
Guilherme, do outro Bernardo Gui. Guilherme parecia triste e Bernardo alegre, se de
alegria se podia falar pelo plido sorriso que enrugava o lbio do inquisidor.
  - No h argumentos melhores - perguntei ao meu mestre, enquanto Alborea se
encarniava sobre a barba do bispo de Caffa - para demonstrar ou negar a pobreza de
Cristo?
   - Mas tu podes afirmar ambas as coisas, meu bom Adso - disse Guilherme -, e jamais
poders estabelecer com base nos evangelhos se Cristo considerava de sua propriedade,
e at que ponto, a tnica que usava e que depois provavelmente deitava fora quando
estava gasta. E, se queres, a doutrina de Toms de Aquino sobre a propriedade  mais
ousada que a defendida por ns, menoritas. Ns dizemos: no possumos nada e tudo
temos em uso. Ele dizia: considerai-vos tambm possuidores, contanto que, se a algum
falta aquilo que vs possus, lhe concedais o uso, e por obrigao, no por caridade. Mas
a questo no  se Cristo era pobre,  se deve ser pobre a Igreja. E pobre no significa
tanto possuir ou no um palcio, mas ter ou abandonar o direito de legislar sobre as
coisas terrenas.
  - Eis ento - disse - porque o imperador se interessa tanto pelos discursos dos
menoritas sobre a pobreza.
   - De fato. Os menoritas fazem o jogo imperial contra o papa. Mas, para Marslio ou
para mim, o jogo  duplo, e quereramos que o jogo do imprio fizesse o nosso jogo e
servisse a nossa idia do humano governo.
  - E isso di-lo-eis quando tiverdes de falar?
  - Se o disser, cumpro a minha misso, que era manifestar a opinio dos telogos
imperiais. Mas, se o disser, a minha misso falha, porque eu deveria facilitar um segundo
encontro em Avinho, e no creio que Joo aceite que eu v ali dizer estas coisas.
  - E ento?
   - E ento estou preso entre duas foras contrrias, como um burro que no sabe de
qual de dois sacos de feno comer.  que os tempos no esto maduros. Marslio fantasia
uma transformao impossvel, agora, e Luis no  melhor que os seus predecessores,
ainda que por agora permanea o nico baluarte contra um miservel como Joo. Talvez
deva falar, a menos que estes no acabem antes por se matarem uns aos outros. Em todo
o caso escreve, Adso, que ao menos fiquem vestgios do que est hoje acontecendo.
  - E Miguel?
   - Temo que perca o seu tempo. O cardeal sabe que o papa no procura uma mediao,
Bernardo Gui sabe que deve fazer falhar o encontro; e Miguel sabe que ir a Avinho em
qualquer caso, porque no quer que a ordem quebre todos os vnculos com o papa. E
arriscar a vida.
   Enquanto assim falvamos - e na verdade no sei como podamos ouvir-nos um ao
outro -, a disputa tinha atingido o auge. Tinham intervindo os archeiros, a um sinal de
Bernardo Gui, para impedir que as duas fileiras se encontrassem de vez. Mas, como
assediantes e assediados de ambos os lados das muralhas de uma fortaleza, eles
lanavam-se contestaes e improprios, que aqui refiro ao acaso, j sem conseguir
atribuir-lhes a paternidade e ficando assente que as frases no foram pronunciadas cada
uma por sua vez como sucederia numa disputa na minha terra, mas  moda
mediterrnica, umas cavalgando as outras, como as ondas de um mar raivoso.
  - O evangelho diz que Cristo tinha uma bolsa!
  - Cala-te com essa bolsa que pintais at nos crucifixos! Que dizes ento do fato de
Nosso Senhor, quando estava em Jerusalm, voltar todas as noites a Betania?
  - E, se Nosso Senhor queria ir dormir a Betania, quem s tu para criticar a sua deciso?
  - No, velho, cabro, Nosso Senhor voltava a Betania porque no tinha dinheiro para
pagar um albergue em Jerusalm!
  - Bonagrazia, cabro s tu! E que comia Nosso Senhor em Jerusalm?
  - E tu dirias que o cavalo que recebe aveia do dono para sobreviver tem a propriedade
da aveia?
  - Olha que comparas Cristo a um cavalo...
   - No, s tu que comparas Cristo a um prelado simonaco da tua corte, reservatrio de
esterco!
  - Sim? E quantas vezes a Santa S teve de se meter em processos para defender os
vossos bens?
  - Os bens da Igreja, no os nossos! Ns tnhamos o seu uso!
   - O seu uso para comer, para fazer belas igrejas com esttuas de ouro, hipcritas,
baixis de iniqidade, sepulcros caiados, sentinas de vcio! Sabeis bem que  a caridade,
e no a pobreza, o princpio da vida perfeita!
  - Isso disse-o aquele gluto do vosso Toms?
  - Tem cuidado mpio! Aquele a quem chamas gluto  um santo da Santa Igreja
romana!
  - Santo das minhas sandlias, canonizado por Joo para fazer arreliar os franciscanos!
O vosso papa no pode fazer santos, porque  um herege! Melhor,  um heresiarca.
  - Essa bela proposio j a conhecemos!  a declarao do fantoche da Baviera em
Sachsenhausen, preparada pelo vosso Ubertino!
  - V l como falas, porco, filho da prostituta de Babilnia e de outras galdrias ainda!
Tu sabes que nesse ano Ubertino no estava com o imperador mas estava precisamente
em Avinho, ao servio do cardeal Orsini, e o papa ia envi-lo como mensageiro a
Arago!
  - Eu sei, eu sei que fazia voto de pobreza  mesa do cardeal, como o faz agora na
abadia mais rica da pennsula! Ubertino, se no estavas l tu, quem sugeriu a Lus o uso
dos teus escritos?
  - Que culpa tenho eu se Lus l os meus escritos? Decerto no pode ler os teus, que s
um iletrado!
  - Eu um iletrado? Era letrado o vosso Francisco, que falava com os patos?
  - Blasfemaste! - s tu que blasfemas, fraticello de barrica!
  - Eu nunca fiz de barrica, e tu bem sabes!!!
  - Fazias sim, com os teus fraticelli, quando te enfiavas na cama com Clara de
Montefalco!
  - Que Deus te fulmine! Eu era inquisidor nesse tempo, e Clara j tinha expirado em
odor de santidade!
  - Clara expirava odor de santidade, mas tu aspiravas outro odor quando cantavas
matinas s monjas!
  - Continua, continua, a ira de Deus atingir-te-, como atingir o teu senhor, que deu
abrigo a dois hereges como aquele ostrogodo do Eckhart e aquele necromante ingls que
chamais Branucerton!
  - Venerveis irmos, venerveis irmos! - gritavam o cardeal Bertrando e o Abade.
  QUINTO DIA
  TERA
  Onde Severino fala a Guilherme de um estranho livro e Guilherme fala aos legados de
uma estranha concepo do governo temporal.
   A querela continuava ainda furiosa, quando um dos novios de guarda  porta entrou,
passando por aquela confuso como quem atravessa um campo batido pelo granizo, e
veio sussurrar a Guilherme que Severino lhe queria falar com urgncia. Samos para o
nrtex, apinhado de monges curiosos que procuravam apanhar atravs dos gritos e dos
rumores algo do que se passava no interior. Na primeira fila vimos Aymaro de Alexandria,
que nos acolheu com o seu habitual esgar de comiserao pela estultcia do mundo
universal:
  -  certo que, desde que surgiram as ordens mendicantes, a cristandade se tornou
mais virtuosa - disse.
   Guilherme afastou-o, no sem alguma rudeza, e dirigiu-se para Severino, que nos
esperava num canto. Estava ansioso, queria falar-nos de parte, mas no se conseguia
encontrar um lugar tranqilo naquela confuso. Queramos sair para o ar livre, mas da
soleira da sala capitular aparecia Miguel de Cesena, que incitava Guilherme a entrar de
novo, porque, dizia, a querela estava a recompor-se, e devia continuar-se a srie das
intervenes.
  Guilherme, dividido entre estes dois sacos de feno, incitou Severino a falar, e o
ervanrio procurou no se fazer ouvir pelos circunstantes.
  - Berengrio esteve certamente no hospital antes de ir para os balnea - disse.
  - Como sabes?
   Alguns monges aproximaram-se, intrigados pela nossa conversa. Severino falou em voz
ainda mais baixa, olhando  sua volta.
  - Tu tinhas-me dito que aquele homem... devia ter alguma coisa consigo... Bem,
encontrei alguma coisa no meu laboratrio, confundido com os outros livros... um livro
que no  meu, um estranho livro...
  - Deve ser esse - disse Guilherme triunfante -, traz-mo imediatamente.
   - No posso - disse Severino -, depois explico-te, descobri... creio que descobri algo de
interessante... Tens de vir tu, tenho de te mostrar o livro... com cautela...
   No continuou. Apercebemo-nos que, silencioso como era seu costume, Jorge tinha
surgido quase de improviso a nosso lado. Estendia as mos para a frente como se, no
habituado a mover-se naquele lugar, procurasse compreender para onde ia. Uma pessoa
normal no teria podido entender os sussurros de Severino, mas tnhamos aprendido h
muito tempo que o ouvido de Jorge, como o de todos os cegos, era particularmente
agudo.
  O velho pareceu, todavia, no ter ouvido nada. Moveu-se antes numa direo oposta 
nossa, tocou num dos monges e perguntou qualquer coisa. Aquele pegou-lhe com
delicadeza no brao e conduziu-o para fora. Naquele momento reapareceu Miguel, que
de novo solicitou Guilherme, e o meu mestre tomou uma resoluo:
   - Peco-te - disse a Severino -, volta depressa para de onde vens. Fecha-te por dentro e
espera por mim. Tu - disse-me a mim -, segue Jorge. Mesmo que tenha entendido alguma
coisa, no creio que se faa conduzir ao hospital. Em todo o caso, v se me dizes onde
vai.
  Fez por entrar de novo na sala, e distinguiu (como distingui tambm eu Aymaro, que
abria caminho entre a multido dos presentes para seguir Jorge, que saa. Aqui,
Guilherme cometeu uma imprudncia, porque, desta vez em voz alta, de um lado ao
outro do nrtex, disse a Severino, j na soleira externa:
  - Toma cuidado. No consintas a ningum que... aqueles papis... voltem para de
onde saram!
   Eu, que me estava preparando para seguir Jorge, vi naquele instante, encostado 
grade da porta exterior, o despenseiro, que tinha ouvido as palavras de Guilherme e
olhava alternadamente para o meu mestre e para o ervanrio, com o rosto contrado de
medo. Distingui Severino, que saa para o ar livre, e seguiu-o. Eu, na soleira, temia
perder de vista Jorge, que j ia a ser engolido pelo nevoeiro: mas tambm os outros dois,
na direo oposta, iam a desaparecer na caligem. Calculei rapidamente o que devia
fazer. Tinham-me ordenado que seguisse o cego, mas porque se temia que fosse para o
hospital. Porm, a direo que estava tomando, com o seu acompanhante, era outra,
porque estava a atravessar o claustro, direito  igreja, ou ao Edifcio. Ao contrrio, o
despenseiro estava certamente seguindo o ervanrio, e Guilherme estava preocupado
com o que poderia acontecer no laboratrio. Por isso, foi aqueles dois que me pus a
seguir, perguntando-me entre outras coisas onde teria ido Aymaro, se acaso no tinha
sado por razes bastante diversas das nossas.
   Mantendo-me a uma distncia razovel, no perdia de vista o despenseiro, o qual
estava a abrandar o passo, porque se tinha apercebido que eu o estava seguindo. No
podia compreender se a sombra que lhe ia no encalo era eu, como eu no podia
compreender se a sombra cujo encalo ia era ele, mas, como eu no tinha dvidas sobre
ele, ele no tinha dvidas sobre mim.
  Obrigando-o a controlar-me, impedi-o de apertar de perto Severino. Assim, quando a
porta do hospital apareceu no nevoeiro, ela j estava fechada. Severino j tinha
entrado, fossem dadas graas ao cu. O despenseiro voltou-se mais uma vez para olhar
para mim, que estava agora quedo como uma rvore do horto, depois pareceu tomar
uma deciso e meteu para a cozinha. Pareceu-me ter cumprido a minha misso, Severino
era um homem de bom senso, proteger-se-ia sozinho sem abrir a ningum. No tinha
mais nada a fazer e sobretudo ardia de curiosidade para ver aquilo que acontecia na sala
capitular. Por isso, decidi voltar para apresentar o meu relatrio. Talvez tenha feito mal,
devia ter continuado de guarda, e teramos poupado muitas outras desventuras. Mas isso
sei-o agora, no o sabia ento.
  Quando voltava a entrar, quase esbarrei com Bncio, que sorria com ar cmplice:
  - Severino encontrou qualquer coisa deixada por Berengrio, no foi?
  - Que sabes tu disso? - respondi-lhe rudemente, tratando-o como a um coetneo, em
parte pela ira e em parte por causa do seu rosto jovem agora com uma atitude de
malcia quase infantil.
  - No sou tolo - respondeu Bncio. - Severino corre a dizer qualquer coisa a
Guilherme, tu controlas que ningum o siga...
  - E tu observas-nos demasiado a ns, e a Severino  disse irritado.
  - Eu? Decerto que vos observo. Desde anteontem que no perco de vista nem os balnea
nem o hospital. Se pudesse, j l teria entrado. Daria os olhos da cara para saber que
coisa encontrou Berengrio na biblioteca.
  - Tu queres saber coisas de mais sem ter esse direito!
  - Eu sou um estudante e tenho o direito de saber, eu vim dos confins do mundo para
conhecer a biblioteca e a biblioteca permanece fechada como se contivesse coisas ms e
eu...
  - Deixa-me ir - disse em tom brusco.
  - Deixo-te ir, de qualquer maneira disseste-me aquilo que eu queria.
  - Eu?
  - Tambm calando se fala.
  - Aconselho-te a no entrares no hospital - disse-lhe.
  - No entro, no entro, est tranqilo. Mas ningum me probe de olhar de fora.
   No o ouvi mais e voltei a entrar. Aquele curioso, pareceu-me Que no representava
um grande perigo. Voltei a encostar-me a Guilherme pu-lo brevemente ao corrente dos
fatos. Ele anulou em sinal de aprovao, depois fez-me sinal para me calar. A confuso
j estava diminuindo. Os legados de ambas as partes j estavam trocando o beijo da paz.
Alborea louvava a f dos menoritas, Jernimo exaltava a caridade dos pregadores todos
cantavam hinos  esperana de uma Igreja no mais agitada por lutas intestinas. Uns
celebrando a fortaleza dos outros, e estes a temperana daqueles, todos invocavam a
justia e apelavam  prudncia. Nunca vi tantos homens to sinceramente empenhados
no triunfo das virtudes teologais e cardinais.
   Mas j Bertrando do Poggetto estava convidando Guilherme a exprimir as teses dos
telogos imperiais. Guilherme levantou-se, de m vontade: por um lado estava a ver que
o encontro no tinha utilidade nenhuma, por outro tinha pressa de se ir embora, e o livro
misterioso importava-lhe mais, naquela altura, que a sorte do encontro. Mas era claro
que no podia subtrair-se ao seu dever.
  Comeou, pois, a falar entre muitos eh e oh, talvez mais que de costume e mais
do que devia, como para fazer compreender que estava absolutamente inseguro sobre as
coisas que ia dizer, e exordiou afirmando que compreendia muito bem o ponto de vista
daqueles que tinham falado antes dele, e que, por outro lado, aquela a que outros
chamavam a doutrina dos telogos imperiais no passava de um certo nmero de
observaes dispersas que no pretendiam impor-se como verdade de f.
   Disse ento que, dada a imensa bondade que Deus tinha manifestado em criar o povo
dos seus filhos, amando-os todos sem distines, desde aquelas pginas do Gnesis em
que no se fazia ainda meno de sacerdotes e de reis, considerando ainda que o Senhor
tinha dado a Ado e aos seus descendentes o poder sobre as coisas desta terra, contando
que obedecessem s leis divinas, era de suspeitar que ao prprio Senhor no era estranha
a idia que nas coisas terrenas o povo seja legislador e primeira causa efetiva da lei. Por
povo, disse, seria bom entender a universalidade dos cidados, mas, visto que entre os
cidados se devem considerar tambm as crianas, os obtusos, os malfeitores e as
mulheres, talvez se pudesse aceder de modo razovel a uma definio de povo como a
parte melhor dos cidados embora ele, de momento, no considerasse oportuno
pronunciar-se sobre quem efetivamente pertencia a essa parte.
   Tossicou, desculpou-se perante os presentes sugerindo que naquele dia a atmosfera
estava indubitavelmente muito mida, e ps a hiptese de que a maneira como o povo
poderia exprimir a sua vontade podia coincidir com uma assemblia geral eletiva. Disse
que lhe parecia sensato que uma tal assemblia pudesse interpretar, mudar ou suspender
a lei, porque, se  s um que faz a lei, ele poderia agir mal por ignorncia ou por
malcia, e acrescentou que no era necessrio recordar aos presentes quantos desses
casos se tinham dado recentemente. Apercebi-me que os presentes, bastante perplexos
perante as suas palavras precedentes, no podiam seno concordar com estas ltimas.
Pois que cada um estava evidentemente a pensar numa pessoa diversa, e cada um
considerava pssima a pessoa em que pensava.
   Bem, continuou Guilherme, se um s pode fazer mal as leis, no ser melhor a
maioria? Naturalmente, sublinhou, estava a falar-se de leis terrenas, respeitantes ao bom
andamento das coisas civis. Deus tinha dito a Ado que no comesse da rvore do bem e
do mal, e essa era a lei divina; mas depois tinha-o autorizado, que digo?, encorajado a
dar nomes s coisas, e sobre isso tinha deixado livre o seu sdito terrestre. De fato, se
bem que alguns, nos nossos dias, digam que nomina sunt consequentia rerum, o livro do
Gnesis , alis, bastante claro sobre este ponto: Deus conduziu ao homem todos os
animais para ver como lhes chamaria, e, fosse qual fosse a maneira como o homem
tivesse chamado cada ser vivo, esse devia ser o seu nome. E, se bem que o primeiro
homem tenha sido certamente to avisado que chamou, na sua lngua ednica, cada
coisa e cada animal segundo a sua natureza, isso no impede que ele no exercesse uma
espcie de direito soberano ao imaginar o nome que, segundo ele, melhor correspondia
quela natureza. Porque, de fato, sabe-se hoje em dia como so diversos os nomes, que
os homens impem para designar os conceitos, e iguais para todos so s os conceitos,
sinais das coisas. De modo que certamente a palavra nomen vem de nomos, ou melhor,
lei, dado que precisamente os nomina so dados pelos homens ad placitum, isto , por
livre e coletiva conveno.
   Os presentes no ousaram contestar esta douta demonstrao. Por isso, dai concluiu
Guilherme, v-se bem como a legislao sobre as coisas desta terra, e portanto sobre as
coisas das cidades e dos reinos, nada tem a ver com a guarda e a administrao da
palavra divina, privilgio inalienvel da hierarquia eclesistica. Infelizes, pois, disse
Guilherme, os infiis, que no tm semelhante autoridade que interprete para eles a
palavra Divina (e todos tiveram d dos infiis). Maspodemos por isto dizer, talvez, que os
infiis no tm tendncia para fazer leis e para administrar as suas coisas mediante
governos sejam eles, reis, imperadores ou sultes e califas? E podia negar-se que muitos
imperadores romanos tinham exercido o poder temporal com sabedoria, que se pensasse
em Trajano? E quem deu, a pagos e a infiis, essa capacidade natural de legislar e de
viver em comunidades polticas? Talvez as suas divindades mentirosas que
necessariamente no existem (ou no existem necessariamente, seja como for que se
queira entender a negao desta modalidade)? Decerto que no. No podia seno ter-lhe
conferido o Deus dos exrcitos, o Deus de Israel, pai de Nosso Senhor Jesus Cristo...
Admirvel prova da bondade divina, que conferiu a capacidade de julgar sobre as coisas
polticas mesmo a quem desconhece a autoridade do pontfice romano e no professa os
mesmos sagrados, doces e terrveis mistrios do povo cristo! Mas que mais bela
demonstrao, se no esta, do fato que o domnio temporal e a jurisdio secular nada
tm a ver com a Igreja e com a lei de Jesus Cristo, e foram ordenados por Deus fora de
qualquer confirmao eclesistica e at antes que surgisse a nossa santa religio?
   Tossiu de novo, mas no sozinho desta vez. Muitos dos circunstantes agitavam-se nos
seus cadeires e pigarreavam. Vi o cardeal passar a lngua pelos lbios e fazer um gesto
ansioso mas corts, para convidar Guilherme a ir ao mago da questo. E Guilherme
afrontou aquelas que ento pareciam a todos, mesmo a quem no as partilhava, as
concluses talvez desagradveis daquele irrefutvel discurso. Disse ento Guilherme que
as suas dedues lhe pareciam sustentadas pelo prprio exemplo de Cristo, o qual no
veio a este mundo para mandar mas para se submeter segundo as condies que no
mundo encontrava, pelo menos naquilo que se referia s leis de Csar. Ele no quis que
os apstolos tivessem mando e domnio, e por isso parecia coisa sbia que os sucessores
dos apstolos devessem ser aliviados de qualquer poder mundano e coativo.
   Se o pontfice, os bispos e os padres no estivessem submetidos ao poder mundano e
coativo do prncipe, a autoridade do prncipe ver-se-ia invalidada, e invalidar-se-ia com
isto uma ordem que, como se tinha demonstrado antes, tinha sido disposta por Deus.
Devem decerto considerar-se alguns casos muito delicados, disse Guilherme, como o dos
hereges, sobre cuja heresia s a Igreja, guardi da verdade, pode pronunciar-se, e
todavia s o brao secular pode agir. Quando a Igreja detecta hereges dever decerto
assinal-los ao prncipe, que  bom que seja informado das condies dos seus cidados.
Mas que dever fazer o prncipe com um herege? Conden-lo em nome da verdade divina
de que no  o guarda? O prncipe pode e deve condenar o herege se a sua ao
prejudica a convivncia de todos, isto , se o herege afirma a sua heresia matando ou
impedindo aqueles que no a partilham. Mas nesse ponto se detm o poder do prncipe,
porque ningum sobre esta terra pode ser obrigado com suplcios a seguir os preceitos do
evangelho, seno onde iria parar aquela livre vontade por cujo exerccio cada um ser
depois julgado no outro mundo? A Igreja pode e deve avisar o herege que ele est saindo
da comunidade dos fiis, mas no pode julg-lo na terra e obrig-lo contra a sua
vontade. Se Cristo quisesse que os seus sacerdotes obtivessem poder coativo, teria
estabelecido preceitos precisos, como fez Moiss com a lei antiga. No o fez. Portanto
no o quis. Ou pretende-se sugerir a idia que ele o queria mas que lhe faltara o tempo
ou a capacidade de o dizer, em trs anos de pregao? Mas era justo que no o quisesse,
porque, se o tivesse querido, ento o papa poderia impor a sua vontade ao rei, e o
cristianismo j no seria lei de liberdade, mas intolervel escravido.
   Tudo isto, acrescentou Guilherme de rosto risonho, no  uma limitao aos poderes
do sumo pontfice mas sim uma exaltao da sua misso: porque o servo dos servos de
Deus est sobre esta terra para servir e no para ser servido. E, enfim, seria pelo menos
bizarro se o papa tivesse jurisdio sobre as coisas do imprio e no sobre os outros
reinos da terra. Como  sabido, aquilo que o papa diz sobre as coisas divinas vale para os
sditos do rei de Frana como para os do rei de Inglaterra, mas deve valer tambm para
os sditos do Grande Co ou do sulto dos infiis, que infiis so precisamente porque
no so fiis a esta bela verdade. E portanto, se o papa se atribusse a jurisdio
temporal - enquanto papa - apenas sobre as coisas do imprio, poderia deixar suspeitar
que, identificada a jurisdio temporal com a espiritual, por isso mesmo ele no s no
teria jurisdio espiritual sobre os sarracenos ou sobre os trtaros mas nem sequer sobre
os franceses ou os ingleses - o que seria uma delituosa blasfmia. Eis a razo, conclua o
meu mestre, por que lhe parecia justo sugerir que a Igreja de Avinho fazia injria 
humanidade inteira afirmando que lhe competia aprovar ou suspender aquele que tinha
sido eleito imperador dos romanos. O papa no tem sobre o imprio maiores direitos que
sobre os outros reinos, e, como no esto sujeitos  aprovao do papa nem o rei de
Frana nem o sulto, no se v uma boa razo para que deva estar-lhe sujeito o
imperador dos alemes e dos italianos. Tal sujeio no  de direito divino, porque as
escrituras no falam dela. No  sancionada pelo direito dos gentios, em virtude das
razes acima aduzidas. Quanto s relaes com a disputa da pobreza, disse por fim
Guilherme, as suas modestas opinies, elaboradas em forma de afveis sugestes por ele
e por alguns como Marslio de Pdua e Joo de Gianduno, levavam s seguintes
concluses: se os franciscanos Queriam permanecer pobres, o imperador no podia nem
devia opor-se a um desejo to virtuoso. Decerto que, se a hiptese da pobreza de Cristo
tivesse sido provada, isso no s teria ajudado os menoritas mas teria reforado a idia
de que Jesus no teria querido para si nenhuma jurisdio terrena. Mas tinha ouvido
naquela manh pessoas bastante sbias afirmar que no se podia provar que Jesus tinha
sido pobre. E, da, parecia-lhe mais conveniente inverter a demonstrao. Visto que
ningum tinha afirmado, e teria podido afirmar, que Jesus tinha requerido para si e para
os seus alguma jurisdio terrena, este afastamento de Jesus das coisas temporais
parecia-lhe um indcio suficiente para convidar a pensar sem pecar que Jesus tinha
igualmente preferido a pobreza.
   Guilherme tinha falado num tom modesto, tinha exprimido as suas certezas de modo
to dubitativo que nenhum dos presentes tinha podido levantar-se para o refutar. Isto
no quer dizer que todos estivessem convencidos daquilo que tinha dito. No s os
avinhonenses se agitavam agora de rostos carregados e sussurrando comentrios entre si,
mas o prprio Abade parecia muito desfavoravelmente impressionado por aquelas
palavras, como se pensasse que no era aquele o modo como tinha imaginado as relaes
entre a sua ordem e o imprio. E, quanto aos menoritas, Miguel de Cesena estava
perplexo, Jernimo aterrado, Ubertino pensativo.
  O silncio foi quebrado pelo cardeal do Poggetto, sempre sorridente e descontrado,
que perguntou com gentileza a Guilherme se iria a Avinho para dizer aquelas mesmas
coisas ao senhor papa. Guilherme perguntou o parecer do cardeal, este disse que o
senhor papa tinha ouvido pronunciar muitas opinies discutveis ao longo da sua vida, e
era um homem amantssimo para com todos os seus filhos, mas que, seguramente,
aquelas proposies o teriam atormentado muito.
  Interveio Bernardo Gui, que at ento no tinha aberto a boca:
   - Eu ficaria muito contente se frade Guilherme, to hbil e eloqente a expor as suas
idias, viesse a submet-las ao juzo do pontfice...
   - Acabais de me convencer, senhor Bernardo - disse Guilherme. - No irei. - Depois,
dirigindo-se ao cardeal, em tom de desculpa: - Sabeis, esta fluxo que me est tomando
o peito desaconselha-me a empreender uma viagem to longa nesta estao...
  - Mas ento porque falastes to longamente? - perguntou o cardeal.
  - Para testemunhar a verdade - disse Guilherme humildemente.  A verdade tornar-
nos- livres.
  - Isso no! - explodiu nessa altura Joo Dalbena. - Aqui no se trata da verdade que
nos far livres, mas da excessiva liberdade que quer tornar-se verdadeira!
  - Tambm isso  possvel - admitiu Guilherme com doura.
   Senti por uma sbita intuio que estava para rebentar uma tempestade de coraes e
de lnguas bem mais furiosas que a primeira. Mas nada aconteceu. Enquanto Dalbena
falava ainda, o capito dos archeiros tinha entrado e tinha ido sussurrar qualquer coisa
ao ouvido de Bernardo, o qual se levantou de repente e com a mo pediu audincia.
   - Irmos - disse -, pode ser que esta proveitosa discusso possa ser retomada, mas
agora um acontecimento de enorme gravidade obriga-nos a suspender os nossos
trabalhos, com autorizao do Abade. Talvez tenha superado, sem querer, as
expectativas do prprio Abade, que esperava descobrir o culpado dos vrios delitos dos
ltimos dias. Esse homem est agora nas minhas mos. Mas, infelizmente, foi apanhado
demasiado tarde, mais uma vez... Alguma coisa sucedeu alm... - e indicava vagamente
o exterior.
   Atravessou rapidamente a sala e saiu, seguido por muitos, Guilherme entre os
primeiros e eu com ele.
  O meu mestre olhou para mim e disse-me:
  - Temo que tenha acontecido alguma coisa a Severino.
  QUINTO DIA
  SEXTA
  Onde se encontra Severino assassinado e j no se encontra o livro que ele tinha
encontrado.
  Atravessamos a esplanada a passo rpido e cheios de angstia. O capito dos archeiros
conduzia-nos em direo ao hospital, e logo que ali chegamos entrevimos na densa
penumbra umas sombras que se agitavam: eram monges e servos que acorriam, eram
archeiros que estavam diante da porta e impediam o acesso.
  - Aqueles homens armados foram enviados por mim para procurarem um homem que
podia fazer luz sobre tantos mistrios  disse Bernardo.
  - O irmo ervanrio? - perguntou o Abade estupefato.
  - No, agora vereis - disse Bernardo, abrindo caminho no interior.
   Penetramos no laboratrio de Severino, e aqui um penoso espetculo se ofereceu aos
nossos olhos. O desventurado ervanrio jazia morto num lago de sangue, com a cabea
partida. Em torno, as estantes pareciam ter sido devastadas pela tempestade: ampolas,
garrafas, livros, documentos estavam espalhados por todo o lado em grande desordem e
runa. Ao lado do corpo estava uma esfera armilar, pelo menos duas vezes maior que a
cabea de um homem, de metal finamente trabalhado, encimada por uma cruz de ouro e
fixada sobre um pequeno trip decorado. J outras vezes a tinha notado sobre a mesa 
esquerda da entrada.
   No outro extremo da sala, dois archeiros seguravam firmemente o despenseiro, que se
debatia protestando a sua inocncia e que aumentou os seus clamores quando viu entrar
o Abade.
  - Senhor - gritava -, as aparncias so contra mim! Entrei quando Severino j estava
morto e encontraram-me quando estava observando sem palavras este massacre!
   O chefe dos archeiros aproximou-se de Bernardo, e com sua licena fez-lhe um
relatrio, diante de todos. Os archeiros tinham recebido ordem para encontrarem o
despenseiro e para o prenderem, e h mais de duas horas que o procuravam pela abadia.
Devia tratar-se, pensei, da disposio dada por Bernardo antes de entrar no captulo, e
os soldados, estranhos ao lugar, tinham provavelmente conduzido as buscas nos lugares
errados, sem se aperceberem que o despenseiro, ignorando ainda o seu destino, estava
com outros no nrtex; e por outro lado o nevoeiro tinha tornado mais rdua a sua caa.
Em todo o caso, pelas palavras do capito, deduzia-se que, quando Remgio, depois de
eu o ter deixado, tinha ido em direo s cozinhas, algum o tinha visto e tinha avisado
os archeiros, os quais tinham chegado ao Edfico quando Remgio se tinha afastado de
novo, e h muito pouco, porque estava na cozinha Jorge, que afirmava ter acabado de
lhe falar. Os archeiros tinham ento explorado o planalto na direo do horto, e aqui,
emergindo do nevoeiro como um fantasma, tinham encontrado o velho Alinardo, que
quase se tinha perdido. Precisamente Alinardo tinha dito que tinha visto o despenseiro,
pouco antes, entrar no hospital. Os archeiros tinham ido at l, encontrando a porta
aberta. L dentro, tinham encontrado Severino inanimado e o despenseiro, que,
freneticamente, estava revistando no meio das estantes, deitando tudo ao cho, como se
estivesse procurando qualquer coisa. Era fcil compreender o que tinha sucedido,
conclua o capito. Remgio tinha entrado, tinha-se atirado ao ervanrio, tinha-o morto,
e estava depois procurando aquilo por que tinha matado.
   Um archeiro levantou do cho a esfera armilar e estendeu-a a Bernardo. A elegante
arquitetura de crculos de cobre e prata, sustentada por uma armao mais robusta de
anis de bronze, empunhada pela haste do trip, tinha sido vibrada com fora sobre o
crnio da vtima, de forma que, no impacto, muitos dos crculos mais finos tinham-se
quebrado ou esmagado de um lado. E que aquele era o lado que se tinha abatido sobre a
cabea de Severino revelavam-no as marcas de sangue e at os grumos de cabelo e as
imundas salpicaduras de matria cerebral.
   Guilherme inclinou-se sobre Severino para verificar a sua morte. Os olhos do infeliz,
velados pelo sangue que tinha corrido a jorros da cabea, estavam arregalados, e
perguntei-me se era acaso possvel ler na pupila imobilizada, como se consta que
aconteceu em outros casos, a imagem do assassino, ltimo vestgio das percepes da
vtima. Vi que Guilherme procurava as mos do morto, para verificar se tinha manchas
negras nos dedos, embora naquele caso a causa da morte fosse mais que evidente: mas
Severino usava as mesmas luvas de pele com que algumas vezes o tinha visto manipular
ervas perigosas, lagartos, insetos desconhecidos.
  Entretanto, Bernardo Gui dirigia-se ao despenseiro:
   - Remgio de Varagine,  este o teu nome, no  verdade?
   Tinha-te mandado procurar pelos meus homens com base noutras acusaes e para
confirmar outras suspeitas. Agora vejo que tinha agido retamente, se bem que, e por isso
me censuro, demasiado tarde. Senhor - disse ao Abade -, considero-me quase
responsvel por este ltimo crime, porque desde esta manh sabia que era necessrio
entregar este homem  justia, depois de ter escutado as revelaes do outro miservel
preso esta noite. Mas, como tambm vs vistes, durante a manh estive ocupado com
outros deveres, e os meus homens fizeram o melhor que puderam...
   Enquanto falava, em voz alta para que todos os circunstantes ouvissem (e a sala tinha-
se entretanto apinhado, com gente que se enfiava em todos os cantos, olhando para as
coisas espalhadas e destrudas, apontando para o cadver e comentando a meia-voz o
grande crime), descobri no meio da pequena multido Malaquias, que observava
sombriamente a cena. Tambm o descobriu o despenseiro, que precisamente naquele
momento ia ser arrastado para fora. Arrancou-se das mos dos archeiros que o prendiam
e atirou-se ao irmo, agarrando-o pelo hbito e falando-lhe breve e desesperadamente
cara a cara, enquanto os archeiros no voltaram a prend-lo. Mas, quando j o levavam
com brutalidade, voltou-se ainda para Malaquias gritando-lhe:
  - Jura, e eu juro!
  Malaquias no respondeu logo, como se procurasse as palavras adequadas. Depois,
quando o despenseiro j estava ultrapassando  fora o umbral, disse-lhe:
  - No farei nada contra ti.
   Guilherme e eu olhamo-nos, perguntando-nos o que significava esta cena. Bernardo
tambm a tinha observado, mas no pareceu perturbado, antes sorriu a Malaquias como
para aprovar as suas palavras e selar com ele uma sinistra cumplicidade. Depois anunciou
que logo depois da refeio se reuniria no captulo um primeiro tribunal para instruir
publicamente aquele inqurito. E saiu ordenando que conduzissem o despenseiro s
forjas, sem o deixar falar com Salvador.
  Naquele momento sentimos que Bncio nos chamava atrs de ns:
  - Eu entrei logo depois de vs - disse num sussurro -, quando a sala estava ainda meio
vazia, e Malaquias no estava.
  - Ter entrado depois - disse Guilherme.
  - No - assegurou Bncio -, eu estava ao p da porta, vi quem entrava. Digo-vos,
Malaquias j estava dentro... antes.
  - Antes de qu?
   - Antes de entrar o despenseiro. No posso jur-lo, mas creio que saiu daquela
cortina, quando j aqui estvamos muitos  e apontou para um amplo cortinado que
protegia um leito onde habitualmente Severino punha a repousar quem tinha acabado de
sofrer um tratamento.
  - Queres insinuar que foi ele quem matou Severino e que se retirou ali atrs quando o
despenseiro entrou? - perguntou Guilherme.
   - Ou ento que ali de trs tenha assistido a quanto aconteceu aqui. Seno, porque 
que o despenseiro lhe teria implorado que no o prejudicasse prometendo em troca no
o prejudicar a ele?
   -  possvel - disse Guilherme. - Em todo o caso estava aqui um livro, e deveria ainda
estar, porque tanto o despenseiro como Malaquias saram de mos vazias.
  Guilherme sabia pelo meu relatrio que Bncio sabia: e naquele momento tinha
necessidade de ajuda. Aproximou-se do Abade, que observava tristemente o cadver de
Severino, e pediu-lhe que os mandasse sair a todos, porque queria examinar melhor o
lugar. O Abade consentiu e saiu ele tambm no sem lanar a Guilherme um olhar de
cepticismo, como se o censurasse por chegar sempre tarde. Malaquias procurou ficar
aduzindo vrias razes, de todo vagas: Guilherme fez-lhe observar que ali no era a
biblioteca e que naquele lugar no podia alegar direitos. Foi corts mas inflexvel, e
vingou-se de quando Malaquias no lhe tinha consentido examinar a mesa de Venancio.
   Quando ficamos os trs, Guilherme libertou uma das mesas dos cacos e dos papis que
a ocupavam e disse-me que lhe passasse, uns a seguir aos outros, os livros da coleo de
Severino. Pequena coleo, comparada  imensa do labirinto, mas tratava-se mesmo
assim de dezenas e dezenas de volumes, de vrios tamanhos, que primeiro estavam em
boa ordem nas estantes e agora jaziam por terra em desordem, entre vrios outros
objetos, e j baralhados pelas mos febris do despenseiro, alguns at rasgados, como se
ele no procurasse um livro mas algo que devia estar entre as pginas de um livro. Alguns
tinham sido despedaados com violncia, separados da sua encadernao. Apanh-los,
examinar rapidamente a sua natureza e rep-los numa pilha sobre a mesa no foi
empresa fcil, e feita  pressa, porque o Abade tinha-nos concedido pouco tempo, dado
que, depois, deviam entrar os monges para recomporem o corpo martirizado de Severino
e para o prepararem para a sepultura. E tratava-se ainda de andar  procura por todo o
lado debaixo das mesas, atrs das estantes e dos armrios, se alguma coisa tivesse
escapado a uma primeira inspeo. Guilherme no quis que Bncio me ajudasse e
consentiu-lhe apenas que ficasse de guarda  porta. Malgrado as ordens do Abade,
muitos insistiam em entrar, servos aterrados pela notcia, monges chorando o seu irmo,
novios que chegavam com lenis brancos e bacias de gua para lavar e envolver o
cadver...
   Devia, pois, proceder-se depressa. Eu agarrava nos livros, estendia-os a Guilherme,
que os examinava e os punha sobre a mesa. Depois demo-nos conta que o trabalho era
longo e procedemos em conjunto, isto , eu apanhava um livro, recompunha-o se estava
descomposto, lia-lhe o ttulo, pousava-o. E em muitos casos tratava-se de folhas
dispersas.
  - De plantis libri tres, maldio, no  este - dizia Guilherme, e atirava o livro para a
mesa.
  - Thesaurus herbarum - dizia eu.
  E Guilherme:
  - Deixa l esse, procuramos um livro grego!
  - Este? - perguntava eu, mostrando-lhe uma obra de pginas cobertas de caracteres
abstrusos.
  E Guilherme:
  - No, este  rabe, tolo! Tinha razo Bacon quando dizia que o primeiro dever do
sbio  estudar as lnguas!
  - Mas rabe, nem sequer vs sabeis1 - rebatia eu, picado.
  Ao que Guilherme respondia:
  - Mas ao menos compreendo quando  rabe!
  E eu corava, porque ouvia Bncio a rir atrs de mim.
   Os livros eram muitos, e muitos mais os apontamentos, os rolos com desenhos da
esfera celeste, os catlogos de plantas estranhas, manuscritos provavelmente pelo
defunto em folhas soltas. Trabalhamos muito tempo, exploramos o laboratrio por todo o
lado, Guilherme chegou at, com grande frieza, a desviar o cadver, para ver se no
havia qualquer coisa debaixo, e revistou-lhe o hbito. Nada.
  -  indispensvel - disse Guilherme. - Severino fechou-se aqui dentro com um livro. O
despenseiro no o tinha...
  - No o ter acaso escondido no hbito? - perguntei.
   - No, o livro que vi na manh passada debaixo da mesa de Venancio era grande,
teramos dado conta.
  - Como estava encadernado? - perguntei.
   - No sei. Estava aberto e vi-o s por poucos segundos, o suficiente para me dar conta
que era em grego, mas no me recordo de mais nada. Continuemos: o despenseiro no o
levou, e Malaquias tambm no, creio.
  - Evidentemente que no - confirmou Bncio -, quando o despenseiro o agarrou pelo
peito viu-se que no podia t-lo debaixo do escapulrio.
  - Bem. Isto , mal. Se o livro no est nesta sala,  evidente que mais algum, alm
de Malaquias e do despenseiro, tinha entrado antes.
  - Isto , uma terceira pessoa que matou Severino?
  - Gente de mais - disse Guilherme.
  - Por outro lado  disse -, quem podia saber que o livro estava aqui?
  - Jorge, por exemplo, se nos ouviu.
  - Sim - disse -, mas Jorge no poderia ter morto um homem robusto como Severino, e
com tanta violncia.
   - Certamente que no. Alm disso, tu viste-o dirigir-se para o Edifcio, e os archeiros
encontraram-no na cozinha pouco antes de encontrarem o despenseiro. Portanto, no
teria tido tempo de vir para aqui e depois de voltar para a cozinha. Calcula que, embora
se mova com desenvoltura, tem todavia de avanar costeando as paredes, e no teria
podido atravessar o horto e a correr...
  - Deixai-me raciocinar com a minha cabea - disse, eu que j tinha a ambio de
emular o meu mestre. - Portanto, no pode ter sido Jorge. Alinardo andava nas
proximidades, mas tambm ele se segura com dificuldade nas pernas, e no pode ter
dominado Severino. O despenseiro esteve aqui, mas o tempo decorrido entre a sua sada
das cozinhas e a chegada dos archeiros foi to breve que me parece difcil que tenha
podido conseguir que Severino lhe abrisse a porta, enfrent-lo, mat-lo e depois arranjar
todo este pandemnio. Malaquias podia ter precedido todos os outros: Jorge ouviu-nos no
nrtex, foi ao scriptorium informar Malaquias que um livro da biblioteca estava com
Severino. Malaquias vem para aqui, convence Severino a abri-lhe a porta, mata-o, sabe
Deus porqu. Mas, se procurava o livro, deveria t-lo reconhecido sem revistar desta
maneira porque  ele o bibliotecrio! Ento, quem resta?
  - Bncio - disse Guilherme.
  Bncio negou vigorosamente sacudindo a cabea:
  - No, frade Guilherme, vs sabeis que ardia de curiosidade. Mas se tivesse entrado
aqui e tivesse podido sair com o livro, agora no estaria a fazer-vos companhia, mas em
qualquer outro lado a examinar o meu tesouro...
  - Uma prova quase convincente - sorriu Guilherme. - Porm, tambm tu no sabes
como  o livro. Poderias ter matado e agora estarias aqui a procurar identific-lo.
  Bncio corou violentamente:
  - Eu no sou um assassino! - protestou.
  - Ningum o , antes de cometer o primeiro delito - disse filosoficamente Guilherme. -
Em todo o caso o livro no est aqui, e esta  uma prova suficiente do fato de que tu no
o deixaste aqui. E parece-me razovel que, se o tivesses apanhado antes, te terias
escapulido para fora durante a confuso. - Depois voltou-se para considerar o cadver.
Pareceu que s ento se dava conta da morte do seu amigo. - Pobre Severino - disse -,
tambm tinha suspeitado de ti e dos teus venenos. E tu esperavas a insdia de um
veneno, seno no terias calado estas luvas. Temias um perigo da terra e afinal chegou-
te da esfera celeste... - Voltou a pegar na esfera, observando-a com ateno. - Quem
sabe porque usaram precisamente esta arma...
  - Estava ao alcance da mo.
   - Pode ser. Tambm havia outras coisas, vasos, instrumentos de jardineiro...  um
belo exemplar de arte dos metais e de cincia astronmica. Estragou-se e... Santo Deus!
- exclamou.
  - O que ?
   - E foi atingida a tera parte do Sol e a tera parte da Lua e a tera parte das
estrelas... - recitou.
  Eu conhecia bem de mais o texto do apstolo Joo:
  - A quarta trombeta! - exclamei.
   - De fato. Primeiro o granizo, depois o sangue, depois a gua, e agora as estrelas... Se
 assim, tudo tem de ser revisto, o assassino no agiu ao acaso, seguiu um plano... Mas
ser acaso possvel imaginar uma mente to malvada que mata s quando pode faz-lo
seguindo os ditames do livro do Apocalipse?
   - Que acontecer com a quinta trombeta? - perguntei aterrado. Procurei recordar-me:
- E viu um astro cado do cu sobre a terra e a ele foi dada a chave do poo do abismo...
Morrer algum afogado no poo?
   - A quinta trombeta promete-nos muitas outras coisas - disse Guilherme. - Do poo
sair o fumo de uma fornalha, depois sairo gafanhotos que atormentaro os homens
com um aguilho semelhante ao dos escorpies. E a forma dos gafanhotos ser
semelhante  dos cavalos com coroas de ouro na cabea e dentes de leo... O nosso
homem teria  disposio vrios meios para realizar as palavras do livro... Mas no
corramos atrs de fantasias. Procuremos antes recordar o que nos disse Severino quando
nos anunciou que tinha encontrado o livro...
  - Vs disseste-lhes que vo-lo trouxesse, e ele disse que no podia...
   - De fato, depois fomos interrompidos. Porque  que no podia? Um livro pode
transportar-se. E porque  que ps as luvas? H qualquer coisa na encadernao do livro
relacionada com o veneno que matou Berengrio e Venancio? Uma insdia misteriosa,
uma ponta infectada...
  - Uma serpente! - disse.
   - Porque no uma baleia? No, estamos ainda a fantasiar. O veneno vimo-lo, deveria
passar pela boca. Depois, no  que Severino tenha dito que no podia transportar o
livro, disse que preferia mostrar-mo aqui. E ps as luvas... De momento, sabemos que
naquele livro se toca com luvas. E isto  vlido tambm para ti Bncio, se o encontrares
como esperas. E, visto que s to servial, podes ajudar-me. Volta para o scriptorium e
mantm Malaquias debaixo de olho. No o percas de vista.
  - Assim se far! - disse Bncio, e saiu, contente pareceu-nos, com a misso.
   No pudemos reter mais tempo os outros monges, e a sala foi invadida de gente. J
tinha passado a hora do almoo e, provavelmente, Bernardo j estava reunindo no
captulo a sua corte.
  - Aqui no h mais nada a fazer - disse Guilherme.
  Uma idia atravessou-me a mente:
   - O assassino - disse no podia ter lanado o livro pela janela para depois ir busc-lo
atrs do hospital?
  Guilherme olhou com cepticismo para as grandes janelas do laboratrio, que pareciam
hermeticamente fechadas.
  - Tentaremos verificar - disse ele.
   Samos e inspecionamos o lado posterior da construo, que estava quase encostado
ao muro da cerca, deixando apenas uma estreita passagem. Guilherme avanou com
cautela, porque naquele espao a neve dos ltimos dias tinha-se conservado intacta. Os
nossos passos imprimiam sobre a crosta gelada, mas frgil, sinais evidentes, e, portando
se algum tivesse passado antes de ns, a neve ter-no-lo-ia assinalado. No vimos nada.
  Abandonamos com o hospital a minha pobre hiptese, e, enquanto atravessvamos o
horto, perguntei a Guilherme se confiava verdadeiramente em Bncio.
  - No completamente - disse Guilherme -, mas em todo o caso no lhe dissemos nada
que ele no soubesse j, e inspiramos-lhe medo do livro. Finalmente, fazendo-o vigiar
Malaquias fazemos com que o vigie tambm a ele Malaquias, o qual est evidentemente
procurando o livro por sua conta.
  - E o despenseiro que queria?
   - Em breve o saberemos. Decerto queria qualquer coisa, e queria-a imediatamente,
para evitar um perigo que o aterrorizava. Essa qualquer coisa deve ser do conhecimento
de Malaquias, seno no explicaramos a invocao desesperada que Remgio lhe
dirigiu...
  - De qualquer modo, o livro desapareceu...
  - Esta  a coisa mais inverossmil - disse Guilherme quando j estvamos a chegar ao
captulo. - Se l estava, e Severino disse que estava, ou o levaram ou ainda l est.
  - E como l no est, algum o levou - conclui.
  - No quer dizer que o raciocnio no seja feito partindo de outra premissa menor.
Como tudo confirma que ningum pode t-lo levado...
  - Ento devia ainda l estar. Mas no est.
  - Um momento. Ns dizemos que no estava porque no o encontramos. Mas talvez
no o tenhamos encontrado porque no o vimos onde ele estava.
  - Mas olhamos por toda a parte!
  - Olhamos e no vimos. Ou, ento, vimos mas no reconhecemos... Adso, como  que
Severino nos descreveu aquele livro, que palavras usou?
  - Disse que tinha encontrado um livro que no era dos seus, em grego...
   - No. Agora me recordo. Disse um estranho livro. Severino era uma pessoa culta, e
para pessoa culta um livro em grego no  estranho, ainda que essa pessoa no saiba
grego, porque, pelo menos, reconheceria o alfabeto. E uma pessoa culta no definiria
como estranho nem sequer um livro rabe, ainda que no conhea o alfabeto... -
Interrompeu-se. - E que fazia um livro rabe no laboratrio de Severino?
  - Mas porque  que havia de definir como estranho um livro rabe?
   - Esse  o problema. Se o definiu como estranho  porque tinha um aspecto inslito,
inslito pelo menos para ele, que era ervanrio e no bibliotecrio... E nas bibliotecas
acontece que muitos manuscritos antigos so por vezes encadernados em conjunto,
reunindo num volume textos diversos e curiosos, um em grego, outro em aramaico...
  - ... e outro em rabe! - gritei, fulminado por aquela iluminao.
  Guilherme arrastou-me brutalmente para fora do nrtex, fazendo-me correr para o
hospital:
   - Besta de teuto, nabo, ignorante, olhaste s para as primeiras pginas e no para o
resto!
   -Mas, mestre - ofegava -, fostes vs que olhastes para as pginas que vos mostrei e
dissestes que era rabe e no grego!
  -  verdade, Adso,  verdade, sou eu a besta, corre depressa!
   Voltamos ao laboratrio e tivemos dificuldade em l entrar, porque os novios
estavam j transportando para fora o cadver. Outros curiosos andavam pela sala.
Guilherme precipitou-se sobre a mesa, levantou os volumes procurando o fatdico, ia-os
atirando para o cho sob os olhos espantados dos circunstantes, depois abriu-os e
reabriu-os todos duas vezes. Infelizmente, o manuscrito rabe j l no estava.
Recordava-me vagamente da velha capa, que no era robusta, bastante gasta, com finas
bandas metlicas.
  - Quem  que entrou aqui depois de eu ter sado? - perguntou Guilherme a um monge.
  Este encolheu os ombros, era claro que tinham entrado todos e ningum.
   Procuramos considerar as possibilidades. Malaquias? Era verossmil, sabia o que queria,
tinha-nos talvez vigiado, tinha-nos visto sair sem nada na mo, havia voltado com toda a
segurana. Bncio? Recordei que, quando se dera a altercao sobre o texto rabe, ele
se tinha rido. Ento, tinha julgado que se ria da minha ignorncia, mas talvez se risse da
ingenuidade de Guilherme, ele sabia bem de quantas maneiras se pode apresentar um
velho manuscrito, talvez tivesse pensado naquilo que ns no tnhamos pensado logo, e
que deveramos ter pensado, isto , que Severino no sabia rabe e que, portanto, era
singular que conservasse entre os seus um livro que no podia ler. Ou, ento, havia um
terceiro personagem?
   Guilherme estava profundamente humilhado. Procurava consol-lo, dizia-lhe que ele
estava procurando h trs dias um texto em grego e que era natural que tivesse apartado
no curso do seu exame todos os livros que no apareciam em grego. E ele respondia que
 certamente humano cometer erros, porm existem seres humanos que cometem mais
que os outros, e so chamados estultos, e ele estava entre esses, e perguntava-se se
tinha valido a pena estudar em Paris e em Oxford para ser incapaz de pensar que os
manuscritos tambm se encadernam em grupos, coisa que at os novios sabem, mesmo
os estpidos como eu, e um par de estpidos como ns dois teria um rico xito nas
feiras, e era isso que devamos fazer e no procurar resolver os mistrios, especialmente
quando tnhamos diante gente muito mais astuta que ns.
   - Mas  intil chorar - concluiu depois. - Se o levou Malaquias, j o voltou a pr na
biblioteca. E s o encontraramos se soubssemos entrar no finis Africae. Se o levou
Bncio, ter imaginado que, mais tarde ou mais cedo, eu teria a suspeita que tive e
voltaria ao laboratrio, seno no teria agido to depressa. E portanto ter-se-
escondido, e o nico ponto onde decerto no se escondeu  aquele em que ns o
procuraramos imediatamente, isto , a sua cela. Por isso voltemos ao captulo e vejamos
se durante a instruo o despenseiro dir alguma coisa de til. Porque, no fim de contas,
no tenho ainda muito claro o plano de Bernardo, ele que procurava o seu homem antes
da morte de Severino, e com outros fins.
  Voltamos ao captulo. Teramos feito bem em ir  cela de Bncio, porque como depois
soubemos, o nosso jovem amigo no tinha realmente em to grande estima Guilherme e
no tinha pensado que voltasse to depressa ao laboratrio; por isso, julgando no ser
procurado daquele lado, tinha precisamente ido esconder o livro na sua cela.
   Mas sobre isto falarei depois. Entretanto aconteceram fatos to dramticos e
inquietantes que nos fizeram esquecer o livro misterioso. E, se todavia o no
esquecemos, fomos tomados por outras tarefas urgentes, relacionadas com a misso de
que Guilherme continuava, apesar de tudo, encarregado.
  QUINTO DIA
  NONA
   Onde se administra a justia e se tem a estranha impresso de que todosr esto
errados.
  Bernardo Gui colocou-se ao centro da grande mesa de nogueira na sala do captulo.
Junto dela, um dominicano desempenhava as funes de tabelio, e dois prelados da
delegao pontifcia estavam a seu lado como juzes. O despenseiro estava de p diante
da mesa, entre dois archeiros.
  O Abade dirigiu-se a Guilherme, sussurrando-lhe:
   - No sei se o processo  legtimo. O conclio de Latro de mil duzentos e quinze
sancionou no seu canone trinta e sete que no se pode citar ningum a comparecer
diante de juzes que exeram a mais de dois dias de marcha do seu domiclio. Aqui, a
situao  talvez diversa,  o juiz que vem de longe, mas...
  - O inquisidor est isento de qualquer jurisdio regular - disse Guilherme - e no tem
de sentir as normas do direito comum. Goza de privilgio especial e no  sequer
obrigado a escutar os advogados.
   Olhei para o despenseiro. Remgio estava reduzido a um estado miservel. Olhava 
sua volta como um animal amedrontado, como se reconhecesse os movimentos e os
gestos de uma temida liturgia. Agora sei que temia por duas razes, igualmente
medonhas: uma porque tinha sido apanhado, como tudo parecia indicar, em flagrante
delito, outra porque, desde o dia anterior, quando Bernardo tinha iniciado o seu
inqurito, recolhendo murmrios e insinuaes, ele temia que viessem  luz os seus erros
passados; e havia comeado a agitar-se ainda mais quando tinha visto prender Salvador.
   Se o desventurado Remgio era presa dos seus prprios terrores, Bernardo Gui
conhecia por seu lado os modos de transformar em pnico o medo das suas vtimas. Ele
no falava. Enquanto j todos esperavam que desse incio ao interrogatrio, mantinha as
mos sobre os papis que tinha diante, fingindo orden-los, mas distraidamente. O seu
olhar estava na verdade postado sobre o acusado, e era um olhar misto de hipcrita
indulgncia (como a dizer: No temas, ests nas mos de uma assemblia fraterna, que
s pode querer o teu bem.), de glida ironia (como a dizer: No sabeis ainda qual  o
teu bem, e eu daqui a pouco to direi.), de impiedosa severidade (como a dizer: Mas,
em todo o caso, o teu nico juiz aqui sou eu, e tu s coisa minha.) Tudo coisas que o
despenseiro j sabia, mas o silncio e a demora do juiz serviam para lho fazer recordar,
quase saborear melhor, a fim de que - em vez de se esquecer - ele cada vez mais da
tirasse motivo de humilhao, a sua inquietao se transformasse em desespero e do juiz
se tornasse coisa exclusiva, cera mole entre as suas mos.
  Finalmente, Bernardo rompeu o silncio. Pronunciou algumas frmulas rituais, e disse
aos juizes que se procederia ao interrogatrio do imputado por dois delitos igualmente
odiosos, dos quais um era a todos evidente, mas no menos desprezvel que o outro,
porque, com efeito, o imputado tinha sido surpreendido a cometer o homicdio quando
era procurado por delito de heresia.
   Tinha-o dito. O despenseiro escondeu o rosto entre as mos, que movia com
dificuldade porque estavam apertadas em correntes. Bernardo deu incio ao
interrogatrio.
  - Quem s tu? - perguntou.
  - Remgio de Varagine. Nasci h cinqenta e dois anos e entrei ainda criana no
convento dos menoritas de Varagine.
  - E como  que acontece que te encontres hoje na ordem de So Bento?
  - H anos, quando o pontfice emitiu a bula Sancta Romana, como temia ser
contagiado pela heresia dos fraticelli... embora nunca tenha aderido s suas
proposies... pensei que era mais til  minha alma pecadora subtrair-me a um
ambiente carregado de sedues e consegui ser admitido entre os monges desta abadia,
onde h mais de oito anos sirvo como despenseiro.
   - Subtraste-te s sedues da heresia - ironizou Bernardo  ou melhor, subtraste-te
ao inqurito de quem estava designado para descobrir a heresia e arrancar-lhe a planta
m, e os bons monges clunicenses julgaram cumprir um ato de caridade acolhendo-te a ti
e a outros como tu. Mas no basta mudar de saio para apagar da alma a torpeza da
depravao hertica, e por isso ns estamos agora aqui para investigar o que se move
pelos recessos da tua alma impenitente e o que fizeste antes de chegar a este santo
lugar.
  - A minha alma est inocente e no sei que coisa entendeis quando falais de
depravao hertica - disse cautelosamente o despenseiro.
   - Vedes? - exclamou Bernardo, dirigindo-se aos outros juzes. - So todos assim!
Quando um deles  preso, apresenta-se a juzo como se a sua conscincia estivesse
tranqila e sem remorsos. E no sabem que este  o sinal mais evidente da sua culpa,
porque o justo, no processo, apresenta-se inquieto! Perguntai-lhe se conhece a causa
pela qual eu tinha predisposto a sua priso. Conhece-la, Remgio?
  - Senhor - respondeu o despenseiro -, ficaria contente em ouvi-la da vossa boca.
   Fiquei surpreendido, porque me pareceu que o despenseiro respondia s perguntas de
rito com palavras igualmente rituais, como se conhecesse bem as regras da instruo e as
suas armadilhas e h muito tempo tivesse sido instrudo para enfrentar um evento
semelhante.
   - A est - exclamava entretanto Bernardo -, a tpica resposta do herege impenitente!
Percorrem veredas de raposas e  muito difcil apanh-los em falta, porque a sua
comunidade admite o seu direito a mentir para evitarem a devida punio. Eles recorrem
a respostas tortuosas tentando fazer cair em engano o inquisidor, que j tem de suportar
o contato com gente to desprezvel. Portanto, frei Remgio, tu nunca tiveste nada a ver
com os chamados fraticelli, ou frades da pobre vida, ou beguinos?
  - Eu vivi as vicissitudes dos frades menores, quando longamente se discutiu sobre a
pobreza, mas nunca pertenci  seita dos beguinos.
   - Vedes? - disse Bernardo. - Nega que foi beguino, porque os beguinos, embora
participando da mesma heresia que os fraticelli, consideram estes ltimos um ramo seco
da ordem franciscana e julgam-se mais puros e perfeitos que eles. Mas muitos dos
comportamentos de uns so comuns aos outros. Podes negar, Remgio, ter sido visto na
igreja encolhido com o rosto voltado para a parede, ou prostrado com a cabea coberta
pelo capucho, em vez de ajoelhado de mos postas como os outros homens?
  - Tambm na ordem de So Bento nos prostramos por terra, nos momentos devidos...
   - Eu no te pergunto o que fizeste nos momentos devidos, mas nos no devidos!
Portanto, no negas ter adotado uma ou outra posio, tpica dos beguinos! Mas tu no
s beguino, disseste... E ento diz-me: em que crs?
  - Senhor, creio em tudo aquilo em que cr um bom cristo...
  - Que santa resposta! E em que cr um bom cristo?
  - Naquilo que ensina a Santa Igreja.
  - E qual Santa Igreja? Aquela que  considerada como tal pelos crentes que se definem
perfeitos, os pseudo-apstolos, os fraticelli herticos, ou a Igreja que eles comparam 
meretriz de Babilnia e em que todos ns, pelo contrrio, firmemente acreditamos?
  - Senhor - disse, perdido, o despenseiro -, dizei-me vs qual acreditais que  a
verdadeira Igreja...
  - Eu creio que  a Igreja romana, una, santa e apostlica, dirigida pelo papa e pelos
seus bispos.
  - Assim eu o creio - disse o despenseiro.
   - Admirvel astcia! - gritou o inquisidor. - Admirvel argcia de dicto! Ouviste-lo: ele
quer dizer que ele cr que eu creio nesta Igreja e subtrai-se ao dever de dizer em que 
que cr ele! Mas conhecemos bem estas artes de fuinha! Vamos  questo. Crs tu que os
sacramentos foram institudos por Nosso Senhor, que para fazer uma reta penitncia 
necessrio confessar-se aos servos de Deus, que a Igreja romana tem o poder de desligar
e ligar sobre esta terra aquilo que ser ligado e desligado no cu?
  - No deveria acaso crer nisso?
  - No te pergunto em que deverias crer, mas em que crs!
  - Eu creio em tudo o que vs e os outros bons doutores me ordenais que creia - disse o
despenseiro, assustado.
  - Ah! Mas os bons doutores a que fazes aluso no so acaso aqueles que comandam a
tua seita?  isto que querias dizer quando falavas dos bons doutores?  a estes perversos
mentirosos que se consideram os nicos sucessores dos apstolos que te referes para
reconhecer os teus artigos de f? Tu insinuas que, se eu creio naquilo em que eles
crem, ento acreditars em mim, seno acreditars s neles?
   - Eu no disse isso, senhor - balbuciou o despenseiro -, sois vs que mo fazeis dizer. Eu
creio em vs, se vs me ensinais aquilo que  bem.
   - Oh, arrogncia! - gritou Bernardo, batendo com o punho na mesa. - Repetes de cor
com torva determinao o formulrio que se ensina na tua seita. Tu dizes que
acreditars em mim s se pregar aquilo que a tua seita considera o que  o bem. Assim
respondes tu agora, talvez sem te aperceberes, porque reafloram aos teus lbios as
frases que um dia reensinaram para enganar os inquisidores. E  assim que te ests
acusando com as tuas prprias palavras, e eu s cairia na tua armadilha se no tivesse
uma longa experincia de inquisio... Mas vamos  verdadeira questo, homem
perverso. Alguma vez ouvistes falar de Geraldo Segalelli de Parma?
  - Ouvi falar dele - disse o despenseiro, empalidecendo, se acaso se pudesse ainda falar
de palidez para aquele rosto desfeito.
  - Alguma vez ouviste falar de frei Dolcino de Novara?
  - Ouvi falar dele.
  - Alguma vez o viste pessoalmente, conversaste com ele?
  O despenseiro ficou uns instantes em silncio, como para avaliar at que ponto lhe
convinha dizer uma parte da verdade. Depois decidiu-se, e com um fio de voz:
  - Vi-o e falei com ele.
   -Mais alto! - gritou Bernardo -, que finalmente se possa ouvir uma palavra verdadeira
sair dos teus lbios! Quando  que falaste com ele?
  - Senhor - disse o despenseiro -, eu era frade num convento de provncia de Novara
quando as gentes de Dolcino se juntaram naquelas paragens, e passaram tambm perto
do meu convento, e a princpio no se sabia quem eram...
  - Tu mentes! Como podia um franciscano de Varagine estar num convento da provncia
de Novara? Tu no estavas no convento, tu j fazias parte de um bando de fraticelli que
percorria aquelas terras vivendo de esmolas e juntaste-te aos dolcinianos!
  - Como podeis afirmar isso, senhor? - disse, tremendo, o despenseiro.
  - Dir-te-ei como posso, melhor, devo afirma-lo - disse Bernardo, e ordenou que
fizessem entrar Salvador.
   A vista do desgraado, que certamente tinha passado a noite num interrogatrio no
pblico e mais severo, encheu-me de piedade. O rosto de Salvador, j o disse, era
habitual ente horrvel. Mas naquela manh parecia ainda mais semelhante ao de um
animal. No apresentava sinais de violncia, mas o modo como o corpo se movia,
acorrentado, com os membros deslocados, quase incapaz de se mover, arrastado pelos
archeiros como um macaco atado  corda, patenteavam muito bem o modo como devia
ter-se desenrolado o seu atroz responso.
  - Bernardo torturou-o... - sussurrei a Guilherme.
  - Que idia - respondeu - Um inquisidor nunca tortura. O cuidado do corpo do
imputado  confiado sempre ao brao secular.
  - Mas  a mesma coisa! - disse eu.
   - De modo nenhum. No o  para o inquisidor, querem as mos limpas, e no o  para
o inquirido, que, quando vem o inquisidor, acha nele um inesperado apoio, um lenitivo
para as suas penas, e abre-lhe o corao.
  Olhei para o meu mestre:
  - Vs estais brincando - disse assombrado.
  - Parecem-te coisas sobre as quais se brinque?  respondeu Guilherme.
   Bernardo estava agora interrogando Salvador, e a minha pena no consegue
transcrever as palavras entrecortadas e, se acaso fosse possvel, ainda mais bablicas
com que aquele homem j diminudo, agora reduzido  categoria de um babuno,
respondia, compreendido com dificuldade por todos, ajudado por Bernardo, que lhe
punha os quesitos de modo que ele no pudesse responder seno que sim ou no, incapaz
de qualquer mentira. E o que disse Salvador pode bem o meu leitor imaginar. Contou, ou
admitiu ter contado durante a noite, uma parte daquela histria que eu j tinha
reconstrudo: as suas vagabundagens como fraticello, pastorello ou pseudo-apstolo; e
como nos tempos de frei Dolcino, ele tinha encontrado Remgio entre os dolcinianos e
com ele se tinha salvado aps a batalha de monte Rebello, refugiando-se depois de vrias
vicissitudes no convento de Casale. Alm disso, acrescentou que o heresiarca Dolcino,
prximo da derrota e da captura, tinha confiado a Remgio algumas cartas, para levar
no sabia ele onde ou a quem. E Remgio tinha sempre trazido consigo aquelas cartas,
sem ousar expedi-las, e  sua chegada  abadia, temeroso de as conservar ainda consigo
mas no querendo destru-las, tinha-as entregado ao bibliotecrio, sim, a Malaquias
precisamente, para que as escondesse em qualquer parte nos recessos do Edifcio.
  Enquanto Salvador falava, o despenseiro olhava-o com dio, e a certa altura no pde
conter-se que no lhe gritasse:
  -Serpente, macaco lascivo, fui teu pai, amigo, escudo, assim me pagas.
  Salvador olhou para o seu protetor, agora necessitado de proteo, e respondeu a
custo:
  - Senhor Remgio, pudesse eu e seria teu. E eras-me diletssimo. Mas tu conheces a
famlia do alcaide. Qui non habet caballum vadat cum pede...
  - Louco! -gritou-lhe ainda Remgio. - Esperas salvar-te? No sabes que morrers como
um herege tu tambm? Diz que falaste sob tortura, diz que inventaste tudo!
   - Que sei eu, senhor, que nome tm todas estas risias... Paterinos, gazesos, leonistas,
arnaldistas, esperonistos, circuncisos... Eu no sou homo literatus, peccavi sine malitia,
e o senhor Bernardo magnificentssimo el sabe, et ispero na indulgentia sua indulgncia
suya in nomine patre et filio et spiritis sanctis...
   - Seremos indulgentes quanto nos for concedido pelo nosso ofcio - disse o inquisidor -
e apreciaremos com paternal benevolncia a boa vontade com que nos abristes o teu
esprito. Vai, vai, volta para a tua cela a meditar e espera na misericrdia do Senhor.
Agora temos de debater uma questo de alcance bem diverso. Portanto, Remgio, tu
trazias contigo cartas de Dolcino e deste-as ao teu irmo que cuida da biblioteca.
   - No  verdade, no  verdade! - gritou o despenseiro, como se aquela defesa tivesse
ainda alguma eficcia. E justamente Bernardo interrompeu-o:
   - Mas no  de ti que nos serve uma confirmao, mas sim de Malaquias de
Hildesheim.
   Mandou chamar o bibliotecrio, que no estava entre os presentes. Eu sabia que
estava no scriptorium, ou em torno do hospital,  procura de Bncio e do livro. Foram
procur-lo, e quando apareceu, perturbado e procurando no olhar ningum de frente,
Guilherme murmurou desapontado:
  - E agora Bncio poder fazer o que quiser.
  Mas enganava-se, porque vi o vulto de Bncio despontar acima dos ombros de outros
monges, que se apinhavam s portas da sala para seguirem o interrogatrio. Apontei-o a
Guilherme. Pensamos ento que a curiosidade por aquele evento era ainda mais forte
que a sua curiosidade pelo livro. Soubemos depois que, naquela altura, j ele tinha
concludo um seu ignbil mercado.
  Malaquias apareceu portanto diante dos juzes, sem nunca cruzar o seu olhar com o do
despenseiro.
   - Malaquias - disse Bernardo -, esta manh, depois da confisso feita esta noite por
Salvador, perguntei-vos se tnheis recebido do imputado aqui presente umas cartas...
  - Malaquias! - bradou o despenseiro -, h pouco juraste-me que no fars nada contra
mim!
  Malaquias voltou-se apenas para o imputado, colocado atrs dele, e disse em voz to
baixa que quase no o ouvia:
   - No cometi perjuro. Se podia fazer alguma coisa contra ti j o fizera. As cartas
tinham sido entregues ao senhor Bernardo esta manh, antes de tu matares Severino...
   - Mas tu sabes, tu deves saber que eu no matei Severino! Tu sabe-lo porque j l
estavas!
  - Eu? - perguntou Malaquias. - Eu entrei ali depois de te terem descoberto.
  - E, mesmo assim - interrompeu Bernardo-, que procuravas tu junto de Severino,
Remgio?
   O despenseiro voltou-se para olhar para Guilherme com olhos desvairados, depois
olhou para Malaquias, depois ainda para Bernardo:
  - Mas eu... eu ouvi esta manh frade Guilherme aqui presente dizer a Severino que
guardasse certos papis... eu desde ontem  noite, depois da captura de Salvador, temia
que se falasse daquelas cartas...
  - Ento tu sabes alguma coisa dessas cartas!  exclamou triunfantemente Bernardo.
   O despenseiro j estava na armadilha. Encontrava-se apertado entre duas urgncias,
desculpar-se da acusao de heresia e afastar de si a suspeita de homicdio. Resolveu
provavelmente enfrentar a segunda acusao, por instinto, porque agora agia sem regra
e sem conselho:
  - Falarei das cartas depois... justificarei... direi como cheguei  sua posse... Mas
deixai que explique o que aconteceu esta manh. Eu pensava que se falaria dessas
cartas, quando vi Salvador cair nas mos do senhor Bernardo, h anos que a memria
dessas cartas me atormenta o corao... Ento, quando ouvi Guilherme e Severino
falarem de alguns papis... no sei, preso pelo medo, pensei que Malaquias se tinha
desembaraado delas e as tivesse dado a Severino... queria destru-las, e por isso fui ter
com Severino... a porta estava aberta e Severino estava j morto, pus-me a rebuscar
entre as suas coisas para procurar as cartas... apenas tinha medo...
  Guilherme sussurrou-me ao ouvido:
  - Pobre estpido, atemorizado por um perigo, atirou-se de cabea para outro...
   - Admitamos que tu dizes quase, digo quase, a verdade - interveio Bernardo. - Tu
pensavas que Severino tinha as cartas e procuraste-as junto dele. E porque  que
pensaste que as tinha? E porque matastes antes tambm os outros irmos? Pensavas
talvez que essas cartas circulavam h muito tempo pelas mos de muitos? Talvez se use
nesta abadia andar  caa das relquias dos hereges queimados?
   Vi o Abade estremecer. No havia nada de mais insidioso que a acusao de recolher
relquias de hereges, e Bernardo era muito hbil a misturar os delitos  heresia, e o todo
 vida da abadia. Fui interrompido nas minhas reflexes pelo despenseiro, que gritava
que ele nada tinha a ver com os outros delitos. Bernardo indulgentemente tranqilizou-
o: no era aquela de momento a questo sobre a qual se estava discutindo, ele era
interrogado por delito de heresia, e que no tentasse (e aqui a sua voz fez-se severa)
desviar a ateno do seu passado hertico falando de Severino ou procurando tornar
suspeito Malaquias. Que se voltasse portanto s cartas.
   - Malaquias de Hildesheim - disse, virado para a testemunha -, vs no estais aqui
como acusado. Esta manh respondestes s minhas perguntas e  minha petio sem
tentar esconder nada. Agora repetireis aqui o que dissestes esta manh e no tereis nada
a temer.
   - Repito quanto disse esta manh - disse Malaquias. - Pouco tempo depois de ter
chegado aqui, Remgio comeou a ocupar-se das cozinhas, e tivemos freqentes contatos
por razes de trabalho... eu como bibliotecrio estou encarregado do fecho noturno de
todo o Edifcio, e portanto tambm das cozinhas... No tenho motivo para ocultar que
nos tornamos fraternos amigos, e nem eu tinha motivo para nutrir suspeitas contra ele. E
ele contou-me que tinha consigo alguns documentos de natureza secreta, confiados em
confisso, que no deviam cair em mos profanas e que no ousava ter junto de si. Como
eu guardava o nico lugar do mosteiro interdito a todos os outros, pediu-me que lhe
conservasse aqueles papis longe de qualquer olhar curioso, e eu consenti, no
presumindo que os documentos fossem de natureza hertica, e nem sequer os li,
colocando-os... colocando-os no mais inatingvel dos penetrais da biblioteca, e desde
ento tinha-me esquecido deste fato, at que esta manh o senhor inquisidor lhes fez
aluso, e ento fui busc-los e entreguei-lhos...
  O Abade tomou a palavra, irritado:
   - Porque no me informaste desse teu pacto com o despenseiro? A biblioteca no 
reservada a coisas de propriedade dos monges!
  O Abade tinha posto a claro que a abadia nada tinha a ver com aquela histria.
  - Senhor - respondeu Malaquias, confuso -, parecera-me coisa de pouca importncia.
Pequei sem malcia.
   - Decerto, decerto - disse Bernardo em tom cordial -, estamos todos convencidos que
o bibliotecrio agiu de boa-f, e a franqueza com que colaborou com este tribunal  a
prova disso. Peo fraternalmente  Vossa Magnificncia que no o culpe por aquela
antiga imprudncia. Ns acreditamos em Malaquias. E s lhe pedimos que nos confirme
agora sob juramento que os papis que agora lhe mostro so aqueles que ele me deu esta
manh e so aqueles que Remgio de Varagine lhe entregou h anos, depois da sua
chegada  abadia.
  Mostrava dois pergaminhos que tinha tirado das folhas pousadas sobre a mesa.
Malaquias olhou para eles e disse com voz firme:
   - Juro por Deus Pai Onipotente, pela Santssima Virgem e por todos os santos que
assim  e assim foi.
  - Basta-me - disse Bernardo. - Podeis ir, Malaquias de Hildesheim.
  Quando Malaquias saa de cabea baixa, pouco antes de chegar  porta, ouviu-se uma
voz elevar-se do grupo dos curiosos amontoados ao fundo da sala:
  - Tu escondias-lhe as cartas e ele mostrava-te o c dos novios na cozinha!
   Estalaram algumas risadas, Malaquias saiu rapidamente dando empurres  direita e 
esquerda, eu teria jurado que a voz era a de Aymaro, mas a frase tinha sido gritada em
falsete. O Abade, de rosto violceo, bradou que estivessem em silncio e ameaou
tremendos castigos para todos, intimando os monges a evacuarem a sala. Bernardo sorria
lubricamente, o cardeal Bertrando, do outro lado da sala, inclinava-se ao ouvido de Jean
d'Anneaux e dizia-lhe qualquer coisa a que o outro reagia tapando a boca com a mo e
inclinando a cabea como se tossisse. Guilherme disse-me:
   - O despenseiro no era s um pecador carnal para seu prazer mas tambm fazia de
rufio. Mas a Bernardo nada disto importa, a no ser quanto baste para colocar em
embarao Abbone, mediador imperial...
  Foi interrompido precisamente por Bernardo, que agora se dirigia a ele:
   - Interessar-me-ia depois saber de vs, frade Guilherme, de que papis estveis
falando esta manh com Severino, quando o despenseiro vos ouviu e da se enganou.
  Guilherme susteve o seu olhar:
  - Enganou-se, precisamente. Falvamos de um exemplar do tratado sobre a hidrofobia
canina de Ayyub al Ruhawi, admirvel livro de doutrina que vs decerto conheceis pela
sua fama e que vos ter sido freqentemente de muita utilidade... A hidrofobia, diz
Ayyub, reconhece-se por vinte e cinco sinais evidentes...
  Bernardo, que pertencia  ordem dos domini canes, no julgou oportuno enfrentar
uma nova batalha.
   - Tratava-se, portanto, de coisas estranhas ao caso em questo - disse rapidamente. E
prosseguiu a instruo: - Voltemos a ti, frade Remgio menorita, bem mais perigoso que
um co hidrfobo. Se frade Guilherme tivesse prestado mais ateno  baba dos hereges
que  dos ces, talvez ele tivesse descoberto tambm que serpente se aninhava na
abadia. Voltemos a estas cartas. Agora sabemos como certo que estiveram nas tuas mos
e que te preocupaste em escond-las como se fossem um veneno perigosssimo, e que
inclusivamente mataste... - impediu com um gesto uma tentativa de negao - ...e do
assassnio falaremos depois... que mataste, dizia, para que eu jamais as tivesse. Ento
reconheces estes papis como coisa tua.
  O despenseiro no respondeu, mas o seu silncio era bastante eloqente. Pelo que
Bernardo prosseguiu:
   - E que so estes papis? So duas pginas redigidas pelo punho do heresiarca Dolcino,
poucos dias antes de ser preso, e que ele confiava a um seu aclito para que as levasse
aos seus outros sectrios ainda espalhados pela Itlia. Poderia ler-vos tudo aquilo que
nelas se diz, e como Dolcino, temendo o seu fim iminente, confia uma mensagem de
esperana, diz ele aos seus irmos, no demnio! Ele consola-os avisando que, por mais
que as datas que ele aqui anuncia no concordem com as das suas cartas precedentes,
onde tinha prometido para o ano de mil trezentos e cinco a destruio completa de
todos os padres por obra do imperador Frederico, todavia essa destruio no estaria
longe. Mais uma vez o heresiarca mentia, porque mais de vinte anos se passaram desde
aquele dia e nenhuma das suas nefastas predies se verificou. Mas no  sobre as
ridculas presunes destas profecias que devemos discutir, mas sim sobre o fato de
Remgio ser seu portador. Podes ainda negar, frade hertico e impenitente, que tiveste
comrcio e contubrnio com a seita dos pseudo-apstolos?
  O despenseiro agora j no podia negar.
   - Senhor - disse -, a minha juventude foi povoada de erros bem funestos. Quando
soube da pregao de Dolcino, j seduzido como estava pelos erros dos frades da pobre
vida, acreditei nas suas palavras e juntei-me ao seu bando. Sim,  verdade, estive com
eles na provncia de Brescia e na provncia de Brgamo, estive com eles em Como e em
Valsesia, com eles me refugiei na Parede Calva e no vale de Rassa e por fim no monte
Rebello. Mas no tomei parte em nenhuma malfeitoria, e quando eles cometeram saques
e violncias eu trazia ainda em mim o esprito de mansido que foi prprio dos filhos de
Francisco, e precisamente no monte Rebello disse a Dolcino que j no me sentia
disposto a participar na sua luta, e ele deu-me licena para me ir embora, porque, disse,
no queria medrosos com ele, e pediu-me apenas que lhe levasse aquelas cartas a
Bolonha...
  - A quem? - perguntou o cardeal Bertrando.
   - A alguns dos seus sectrios, cujos nomes me parece que recordo, e, como recordo,
digo-vo-los, senhor - apressou-se a assegurar Remgio.
   E pronunciou os nomes de alguns que o cardeal Bertrando mostrou conhecer, porque
sorriu com ar de satisfao, fazendo um sinal de entendimento a Bernardo.
  - Muito bem - disse Bernardo, e tomou nota daqueles nomes. Depois perguntou a
Remgio:
  - E porque  que agora nos entregas os teus amigos?
   - No so meus amigos, senhor, e prova seja que as cartas nunca as entreguei. Melhor,
fiz mais, e digo-o agora depois de ter tentado esquec-lo durante tantos anos: para
poder deixar aqueles lugares sem ser preso pelo exrcito do bispo de Vercelli, que nos
esperava na plancie, consegui pr-me em contato com alguns deles, e em troca de um
salvo-conduto indiquei-lhes algumas passagens para poderem assaltar as fortificaes de
Dolcino, pelo que parte do sucesso das foras da Igreja foi devido  minha colaborao...
   - Muito interessante. Isto diz-nos que no s foste herege mas tambm que foste vil e
traidor. O que no muda a tua situao. Como hoje para te salvares tentaste acusar
Malaquias, que no entanto te tinha prestado um favor, assim agora para te salvares
entregaste os teus companheiros de pecado s mos da justia. Mas traste os seus
corpos, nunca traste os seus ensinamentos, e conservaste estas cartas como relquias,
esperando um dia ter a coragem, e a possibilidade, sem correr riscos, de as entregar,
para te tornares de novo bem aceite pelos pseudo-apstolos.
  - No, senhor, no - dizia o despenseiro, coberto de suor, com as mos a tremer. -
No; juro-vos que...
   - Um juramento! - disse Bernardo. - Eis outra prova da tua malcia! Queres jurar
porque sabes que eu sei que os hereges valdenses esto prontos a qualquer astcia, e at
 morte, do que a jurar! E se so impelidos pelo medo fingem jurar e resmungam falsos
juramentos! Mas eu sei bem que tu no s da seita dos pobres de Lio, raposa maldita, e
procuras convencer-me de que no s aquilo que no s a fim de que eu no diga que tu
s aquilo que s! Ento juras? Juras para seres absolvido, mas fica sabendo que um nico
juramento no me basta! Posso exigir um, dois, trs, cem, quantos quiser. Sei muito bem
que vs, os pseudo-apstolos, concedeis dispensa a quem jura falso para no trair a
seita. E, assim, cada novo juramento ser uma nova prova da tua culpabilidade!
  - Mas ento que devo fazer? - bradou o despenseiro, caindo de joelhos.
   - No te prostes como um beguino! No deves fazer nada. Agora s eu sei o que se
dever fazer - disse Bernardo com um sorriso tremendo. - Tu no deves seno confessar.
E sers danado e condenado se confessares, e sers danado e condenado se no
confessares, porque sers punido como per juro! Ento confessa, ao menos para abreviar
este dolorosssimo interrogatrio, que perturba as nossas conscincias e o nosso sentido
da brandura e da compaixo!
  - Mas que devo confessar?
   - Duas ordens de pecados. Que foste da seita de Dolcino, que partilhaste as suas
proposies herticas e os costumes e as ofensas  dignidade dos bispos e dos
magistrados citadinos, que, impenitente, continuas a partilhar as suas mentiras e iluses,
mesmo depois do heresiarca ter morrido e da seita ter sido dispersa, embora no de todo
debelada e destruda. E que, corrompido no ntimo do teu esprito pelas prticas que
aprendeste na seita imunda, s culpado das desordens contra Deus e os homens
perpetradas nesta abadia, por razes que ainda me escapam mas que no devero
sequer ser de todo esclarecidas, uma vez que se tenha luminosamente demonstrado
(como estamos fazendo) que a heresia daqueles que pregaram e pregam a pobreza,
contra os ensinamentos do senhor papa e das suas bulas, no pode levar seno a obras
delituosas. Isto devero aprender os fiis e isto me bastar. Confessa.
   Nesta altura foi claro o que Bernardo queria. Nada interessado em saber quem tinha
matado os outros monges, queria apenas demonstrar que Remgio de certo modo
partilhava as idias propugnadas pelos telogos do imperador. E depois de ter mostrado a
conexo entre aquelas idias, que eram tambm as do captulo de Perugia e as dos
fraticelli e dos dolcinianos, e de ter mostrado que um s homem, naquela abadia,
participava de todas aquelas heresias e tinha sido o autor de muitos delitos, daquela
maneira ele daria um golpe deveras mortal aos seus prprios adversrios. Olhei para
Guilherme e compreendi que tinha compreendido, mas no podia fazer nada, mesmo que
o tivesse previsto. Olhei para o Abade e vi-o de rosto sombrio: dava-se conta, tarde, de
ter sido tambm ele arrastado para uma armadilha e de que a sua prpria autoridade de
mediador se estava esboroando, agora que ia aparecer como o senhor de um lugar em
que todas as infmias do sculo tinham marcado encontro. Quanto ao despenseiro, agora
j no sabia qual era o delito de que podia ainda desculpar-se. Mas talvez naquele
momento ele no fosse capaz de nenhum clculo, o grito que saiu da sua boca era o grito
da sua alma, e com ele descarregava anos de longos e secretos remorsos. Ou ento,
depois de uma vida de incertezas, entusiasmos e desiluses, vilezas e traies, posto
diante da inelutabilidade da sua runa, ele decidia professar a f da sua juventude, sem
j se perguntar se era certa ou errada, mas quase para mostrar a si mesmo que era capaz
de alguma f.
   - Sim,  verdade - gritou -, estive com Dolcino e partilhei dos seus delitos, licenas,
talvez eu estivesse louco, confundia o amor de Nosso Senhor Jesus Cristo com a
necessidade de liberdade e o dio aos bispos,  verdade, pequei, mas estou inocente de
quanto aconteceu na abadia, juro!
   - Entretanto obtivemos alguma coisa - disse Bernardo. - Portanto admites ter
praticado a heresia de Dolcino, da bruxa Margarida e dos seus comparsas. Admites ter
estado com eles quando, perto de Trivero, enforcavam muitos fiis de Cristo, entre os
quais um menino inocente de dez anos? E quando enforcaram outros homens na presena
das suas mulheres e dos pais porque no queriam entregar-se ao arbtrio daqueles ces? E
porque  que, ento, cegos pela vossa fria e pela vossa soberba, defendeis que
ningum se podia salvar se no pertencesse  vossa comunidade? Fala!
  - Sim, sim, acreditei nessas coisas e pratiquei aquelas!
   - E estavas presente quando capturaram alguns fiis dos bispos e deixaram morrer
alguns de fome no crcere, e cortaram a uma mulher grvida um brao e uma mo,
deixando-a depois dar  luz uma criana que morreu logo sem batismo? E estavas com
eles quando deitaram por terra e pegaram fogo s aldeias de Mosso, Trivero, Cossila e
Flecchia, e muitas outras localidades da zona de Crepacorio e muitas casas em Mortiliano
e em Quorino, e incendiaram a igreja de Trivero, sujando primeiro as imagens sagradas,
arrancando as lpides dos altares, quebrando um brao  esttua da Virgem, saqueando
os clices, os paramentos e os livros, destruindo o campanrio, quebrando os sinos,
apropriando-se de todos os vasos da confraria e dos bens do sacerdote?
  - Sim, sim, eu estava l, e j ningum sabia o que fazia, queramos antecipar o
momento do castigo, ramos as vanguardas do imperador mandado pelo cu e pelo papa
santo, devamos apressar o momento da descida do anjo de Filadlfia, e ento todos
receberiam a graa do Esprito Santo e a Igreja seria renovada, e depois da destruio de
todos os perversos apenas reinariam os perfeitos!
  O despenseiro parecia possudo e iluminado ao mesmo tempo, parecia que agora o
dique do silncio e da simulao se tinha quebrado, que o seu passado voltava no s em
palavras mas por imagens e que ele voltava a experimentar as emoes que o tinham
exaltado em tempos.
   - Ento - instava Bernardo -, tu confessas que honrastes como mrtir Gerardo
Segalelli, que negastes toda a autoridade  Igreja romana, que afirmveis que nem o
papa nem autoridade alguma podia prescrever-vos um modo de vida diferente do vosso,
que ningum tinha o direito de excomungar-vos, que desde o tempo de So Silvestre
todos os prelados da Igreja tinham sido prevaricadores e sedutores, salvo Pedro de
Morrone, que os leigos no so obrigados a pagar as dcimas aos padres que no
pratiquem um estado de absoluta perfeio e pobreza como o praticaram os primeiros
apstolos, que as dcimas, portanto, deviam ser pagas s a vs, os nicos apstolos e
pobres de Cristo, que para rezar a Deus uma igreja consagrada no vale mais que um
estbulo, que percorreis as aldeias e seduzeis as gentes gritando penitenziagite, que
cantveis o Salvie Regina para atrair perfidamente as multides, e que vos fazeis passar
por penitentes levando uma vida perfeita aos olhos do mundo, e que depois vos
concedeis todas as licenas e todas as luxrias, porque no acreditveis no sacramento
do matrimnio, nem em qualquer outro sacramento, e, considerando-vos mais puros que
os outros, podeis permitir-vos toda a sujeira e toda a ofensa do vosso corpo e do corpo
dos outros? Fala!
   - Sim, sim, eu confesso a verdadeira f em que ento tinha acreditado com toda a
alma, confesso que abandonamos as nossas vestes em sinal de espoliao, que
renunciamos a todos os nossos bens, enquanto vs, raa de ces, jamais renunciastes a
eles, que desde ento deixamos de aceitar dinheiro de qualquer pessoa e nem o
trazamos conosco, e vivemos de esmolas e no guardvamos nada para o dia de amanh,
e quando nos acolhiam e nos punham a mesa comamos e partamos deixando sobre a
mesa quanto tinha sobejado...
  - E incendiastes e saqueastes para vos apoderardes dos bens dos bons cristos!
   - E incendiamos e saqueamos, porque tnhamos eleito a pobreza como lei universal e
tnhamos o direito de nos apropriarmos das riquezas ilegtimas dos outros e queramos
atingir no corao a trama de avidez que se estendia de parquia em parquia, mas
nunca saqueamos para possuir, nem matamos para saquear, matvamos para punir, para
purificar os impuros atravs do sangue, talvez estivssemos dominados por um desejo
desmedido de justia, tambm se peca por excesso de amor de Deus, por
superabundncia de perfeio, ns ramos a verdadeira congregao espiritual
convidada pelo Senhor e reservada  glria dos ltimos tempos, procurvamos o nosso
prmio no paraso antecipando os tempos da vossa destruio, s ns ramos os apstolos
de Cristo, todos os outros tinham trado, e Gerardo Segalelli tinha sido uma planta
divina, planta Dei pullulans in radice fidei, a nossa regra vinha-nos diretamente de Deus,
no de vs, ces danados, pregadores mentirosos que espalhais em redor o odor do
enxofre e no o do incenso, ces vis, carcaas ptridas, corvos, servos da puta de
Avinho, prometidos como estais  perdio! Ento eu acreditava, e tambm o nosso
corpo se tinha redimido, e ramos a espada do Senhor, era preciso matar mesmo
inocentes para poder matar-vos a todos o mais depressa possvel. Ns queramos um
mundo melhor, de paz e de gentileza, e a felicidade para todos, ns queramos matar a
guerra que vs trazeis com a vossa avidez, porque nos repreendeis se para estabelecer a
justia e a felicidade tivemos de derramar um pouco de sangue... ...  que no faltava
muito, para agir depressa, e valia bem a pena tingir de vermelho toda a gua do
Carnasco, naquele dia em Stavello, era tambm sangue nosso, no nos poupvamos,
sangue nosso e sangue vosso, muito depressa, muito depressa, os tempos da profecia de
Dolcino urgiam, era preciso apressar o curso dos acontecimentos...
  Tremia todo, passava as mos pelo hbito como se quisesse limp-las do sangue que
evocava.
  - O gluto tornou-se um puro - disse-me Guilherme.
  - Mas  esta a pureza? - perguntei, horrorizado.
   - Deve existir tambm de outro tipo - disse Guilherme -, mas, qualquer que ela seja,
faz-me sempre medo.
  - O que  que mais vos aterroriza na pureza? - perguntei.
  - A pressa - respondeu Guilherme.
  - Basta, basta - dizia agora Bernardo -, pedamos-te uma confisso, no um apelo ao
massacre. Est bem, no s foste herege mas ainda o s. No s foste assassino mas
continuaste a matar. Ento diz-nos como mataste os teus irmos nesta abadia, e porqu.
  O despenseiro deixou de tremer, olhou em seu redor como se sasse de um sonho:
   - No - disse -, com os delitos da abadia nada tenho a ver. Confessei tudo aquilo que
fiz, no me faais confessar aquilo que no fiz...
   - Mas que resta ainda que tu no possas ter feito? Agora dizes-te inocente?  cordeiro,
 modelo de mansido! Vs ouviste-lo, teve em tempos as mos sujas de sangue e agora
est inocente? Talvez nos tenhamos enganado, Remgio de Varagine  um modelo de
virtudes, um filho fiel da Igreja, um inimigo dos inimigos de Cristo, sempre respeitou a
ordem que a mo vigilante da Igreja se esforou por impor a aldeias e cidades, a paz dos
comrcios, as oficinas dos artesos, os tesouros das igrejas. Ele est inocente, no
cometeu nada, vem aos meus braos, irmo Remgio, que eu te possa consolar das
acusaes que os malvados levantaram contra ti! - E enquanto Remgio olhava para ele
com olhos desvairados, como se de repente estivesse acreditando numa absolvio final,
Bernardo recomps-se e dirigiu-se em tom de comando ao capito dos archeiros. -
Repugna-me recorrer a meios que a Igreja sempre criticou quando so praticados pelo
brao secular. Mas h uma lei que domina e dirige mesmo os meus sentimentos pessoais.
Pedi ao Abade um lugar onde se possam preparar os instrumentos de tortura. Mas que
no se proceda imediatamente. Que fique trs dias numa cela, a ferros de ps e mos.
Depois, que lhe mostrem os instrumentos. Somente. E ao quarto dia que se proceda. A
justia no  movida pela pressa, como acreditavam os pseudo-apstolos, e a de Deus
tem sculos  sua disposio. Que se proceda devagar e por graus. E, sobretudo, recordai
quanto foi dito repetidamente: que se evitem as mutilaes e o perigo de morte. Uma
das graas providenciais que este processo reconhece ao mpio  precisamente que a
morte seja saboreada, e esperada, mas no venha antes que a confisso seja plena, e
voluntria, e purificadora.
   Os archeiros inclinaram-se para levantarem o despenseiro, mas este fincou os ps em
terra e fez resistncia, indicando que queria falar. Obtida licena, falou, mas as palavras
saam-lhe a custo da boca, e o seu discurso era como o entaramelar de um bbado e
tinha algo de obsceno. S  medida que falava recuperou aquela espcie de energia
selvagem que tinha animado a sua confisso pouco antes.
   - No, senhor. A tortura no. Eu sou um homem vil. Tra ento, reneguei durante onze
anos neste mosteiro a minha f de outrora, cobrando as dcimas de vinhateiros e de
camponeses, inspecionando as cavalarias e os estbulos para que florescessem para
enriquecer o Abade, colaborei de bom grado na administrao desta fbrica do
Anticristo. E achava-me bem, tinha esquecido os dias da revolta, deleitava-me nos
prazeres da gula e noutros ainda. Eu sou um vil. Vendi hoje os meus antigos irmos de
Bolonha, vendi ento Dolcino. E como vil, disfarado como um dos homens da cruzada,
assisti  captura de Dolcino e de Margarida, quando os levaram no sbado santo para o
castelo de Bugello. Vagueei em torno de Vercelli durante trs meses, at que chegou a
carta do papa Clemente com a ordem da condenao. E vi Margarida cortada em pedaos
diante dos olhos de Dolcino, e gritava, massacrada como estava, pobre corpo que uma
noite tinha tocado eu tambm... E, enquanto o seu cadver dilacerado ardia, foram
sobre Dolcino e arrancaram-lhe o nariz e os testculos com tenazes em brasa, e no 
verdade aquilo que disseram depois, que no lanou sequer um gemido. Dolcino era alto
e robusto, tinha uma grande barba de diabo e os cabelos ruivos que lhe caam em anis
sobre os ombros, era belo e poderoso e quando nos guiava com um chapu de abas
largas, e a pluma, e a espada cingida sobre a veste talar, Dolcino fazia medo aos homens
e fazia gritar de prazer as mulheres... Mas, quando o torturaram, tambm ele gritava de
dor, como uma mulher, como um vitelo, perdia sangue de todas as feridas enquanto o
levavam de um canto para outro, e continuavam a feri-lo pouco, para mostrarem quo
longamente podia viver um emissrio do demnio, e ele queria morrer, pedia que
acabassem com ele, mas morreu demasiado tarde, quando chegou  fogueira, e era
apenas um amontoado de carne ensangentada. Eu seguia-o e alegrava-me comigo
mesmo por ter fugido quela prova, tinha orgulho na minha astcia, e aquele patife do
Salvador estava comigo, e dizia-me: como fizemos bem, irmo Remgio, em comportar-
nos como pessoas avisadas, no h nada mais terrvel que a tortura! Eu teria abjurado
mil religies, naquele dia. E h anos, muitos anos, que digo a mim mesmo como fui vil,
como fui feliz por ser vil, e todavia esperava sempre poder mostrar a mim mesmo que
no era assim to vil. Hoje, tu deste-me essa fora, senhor Bernardo, foste para mim
aquilo que os imperadores pagos foram para os mais vis dos mrtires. Deste-me a
coragem de confessar aquilo em que acreditei com a alma, enquanto o corpo se retraa.
Porm, no me imponhas demasiada coragem, mais que pode suportar esta minha
carcaa mortal. A tortura no. Direi tudo aquilo que tu quiseres, mais vale a fogueira
logo, morre-se sufocado antes de arder. A tortura, como a Dolcino, no. Tu queres um
cadver, e para o teres tens necessidade que assuma em mim a culpa por outros
cadveres. Cadver serei em breve, em todo o caso. E assim te dou quanto pedes. Matei
Adelmo de Otranto por dio  sua juventude e  sua habilidade em jogar com monstros
iguais a mim, velho, gordo, pequeno e ignorante. Matei Venancio de Salvemec porque
era demasiado sabedor e lia livros que eu no compreendia. Matei Berengrio de Arundel
por dio  sua biblioteca, eu que fiz teologia espancando os procos demasiado gordos.
Matei Severino de Sant'Emmerano... porqu?, porque colecionava ervas, eu que estive no
monte Rebello, onde, as ervas, as comamos sem nos interrogarmos sobre as suas
virtudes. Na verdade, poderia matar tambm os outros, incluindo o nosso Abade: com o
papa ou com o imprio, ele faz sempre parte dos meus inimigos e sempre o odiei, mesmo
quando me dava de comer porque lhe dava de comer. Basta-te? Ah, no, queres saber
tambm como matei toda aquela gente... Mas matei-os... vejamos... invocando as
potncias infernais, com a ajuda de mil legies que consegui comandar com a arte que
me ensinou Salvador. Para matar algum no  necessrio ferir, o diabo f-lo por vs, se
souberdes comandar o diabo.
  Olhava para os circunstantes com ar cmplice, rindo. Mas era ento o riso de um
demente, embora, como me fez depois observar Guilherme, este demente tivesse tido a
perspiccia de arrastar na sua runa Salvador, para se vingar da sua delao.
   - E como podias comandar o diabo? - instava Bernardo, que assumia este delrio como
legtima confisso.
   - Sabe-lo to bem como eu, no se faz comrcio tantos anos com os endemoninhados
sem assumir o seu hbito! Sabe-lo to bem como eu, torturador de apstolos! Pegas num
gato preto, no  verdade?, que no tenha sequer um plo branco (e tu bem sabes), e
atas-lhe as quatro patas, depois leva-lo  meia-noite a uma encruzilhada, ento gritas
em voz alta:  grande Lcifer, imperador do inferno, eu te tomo e te introduzo no corpo
do meu inimigo tal como agora tenho prisioneiro este gato, e se levares o meu inimigo 
morte, no dia seguinte  meia-noite, neste mesmo lugar, eu te oferecerei este gato em
sacrifcio, e tu fars quanto te ordeno pelos poderes da magia que eu agora exero
segundo o livro oculto de So Cipriano, em nome de todos os chefes das maiores legies
do inferno, Adramelch, Alastor e Azazele, que eu agora invoco com todos os seus
irmos... - O lbio tremia-lhe, os olhos pareciam sados das rbitas, e comeou a rezar...
ou melhor, parecia que rezava, mas elevava as suas imploraes a todos os bares das
legies infernais... - Abigor, pecca pro nobis... Amn, miserere nobis... Samael, libera
nos a bono... Belial aleyson... Focalor, in corruptionem meam intende... Haborym,
damnamus dominum... Zaebos, anum meum aperies... Leonardo, asperge me spermate
tuo et inquinabor...
  - Basta, basta! - bradavam os presentes, benzendo-se.
  - Oh, Senhor, perdoa-nos a todos!
   O despenseiro agora calava-se. Depois de ter pronunciado os nomes de todos estes
diabos, caiu de face por terra, deitando saliva esbranquiada pela boca torcida e pela
fiada dos dentes, que rangia. As suas mos, embora mortificadas pelas correntes,
abriam-se e apertavam-se de modo convulsivo, os seus ps davam de vez em quando
pontaps irregulares para o ar. Percebendo que eu tinha sido tomado por uma tremura
de horror, Guilherme pousou-me a mo na cabea, quase me agarrou pela nuca,
apertando-ma e dando-me de novo a calma:
  - Aprende - disse-me -, sob tortura, ou ameaado de tortura, um homem no s diz
aquilo que fez mas tambm aquilo que quereria ter feito, embora o no soubesse.
Remgio agora quer a morte com toda a sua alma.
  Os archeiros levaram dali o despenseiro, ainda tomado por convulses. Bernardo
reuniu os seus papis. Depois fixou os circunstantes, imveis, presos por grande
perturbao.
   - O interrogatrio acabou. O imputado, ru confesso, ser conduzido a Avinho, onde
ter lugar o processo definitivo, com escrupulosa salvaguarda da verdade e da justia, e
s depois desse processo regular ser queimado. Ele, Abbone, j no vos pertence, nem
j me pertence a mim, que fui apenas o humilde instrumento da verdade. O instrumento
da justia est noutro sitio, os pastores fizeram o seu dever, agora  a vez dos ces, que
separem a ovelha infecta do rebanho e a purifiquem com o fogo. O miservel episdio
que viu este homem culpado de tantos delitos atrozes est concludo. Agora, que a
abadia viva em paz. Mas o mundo... - e aqui elevou a voz e dirigiu-se ao grupo dos
legados - o mundo ainda no encontrou paz, o mundo  dilacerado pela heresia, que
encontra abrigo at nas salas dos palcios imperiais! Que os meus irmos recordem isto:
um cingulum diaboli liga os perversos sectrios de Dolcino aos honrados mestres do
captulo de Perugia. No o esqueamos, diante dos olhos de Deus as divagaes daquele
miservel que acabamos de entregar  justia no so diferentes das dos mestres que se
banqueteiam  mesa do alemo excomungado de Baviera. A fonte nefanda dos hereges
brota de muitas pregaes, embora honradas, ainda impunes.  dura paixo e humilde
calvrio o de quem foi chamado por Deus, como a minha pessoa pecadora, a reconhecer
a serpente da heresia onde quer que se aninhe. Mas cumprindo esta obra santa aprende-
se que no  hertico apenas quem pratica a heresia s claras. Os defensores da heresia
podem reconhecer-se atravs de cinco indcios probantes. Primeiro, aqueles que os
visitam s escondidas enquanto so mantidos na priso; segundo, aqueles que choram a
sua captura e foram seus amigos ntimos em vida ( difcil, de fato, que no saiba da
atividade do herege quem o freqentou durante muito tempo); terceiro, aqueles que
defendem que os hereges foram condenados injustamente, mesmo quando tenha sido
demonstrada a sua culpa; quarto, aqueles que vem com maus olhos e criticam aqueles
que perseguem os hereges e pregam com xito contra eles, e pode-se deduzi-lo pelos
olhos, pelo nariz, pela expresso que procuram esconder, mostrando odiar aqueles por
quem sentem amargura e amar aqueles cuja desgraa tanto lhes di. Quinto sinal , por
fim, o fato de se recolherem as cinzas dos hereges queimados e de se fazer disso objeto
de venerao... Mas eu atribuo altssimo valor tambm a um sexto sinal, e considero
manifestamente amigos dos hereges aqueles em cujos livros (ainda que eles no ofendam
abertamente a ortodoxia) os hereges tenham encontrado as premissas para os seus
silogismos perversos.
   Falava, e olhava para Ubertino. Toda a delegao franciscana compreendeu bem a que
aludia Bernardo. A partir de ento, o encontro tinha falhado, ningum mais ousaria
retomar a discusso da manh, sabendo que cada palavra seria escutada pensando nos
ltimos e desgraados acontecimentos. Se Bernardo tinha sido enviado pelo papa para
impedir uma recomposio entre os dois grupos, tinha-o conseguido.
  QUINTO DIA
  VSPERAS
   Onde Ubertino se pe em fuga, Bncio comea a observar as leis e Guilherme faz
algumas reflexes sobre os vrios tipos de luxria encontrados naquele dia.
   Enquanto a assemblia dispersava lentamente da sala capitular Miguel aproximou-se
de Guilherme, e a ambos reuniu-se Ubertino. Todos juntos samos para o ar livre,
discutindo em seguida no claustro, protegidos pelo nevoeiro, que no dava sinais de
diminuir, antes tornava-se ainda mais denso com as trevas.
  - Creio que no  necessrio comentar quanto aconteceu - disse Guilherme. - Bernardo
derrotou-nos. No me pergunteis se aquele imbecil dolciniano  verdadeiramente
culpado de todos aqueles delitos. Por aquilo que me  dado compreender, no, sem
dvida alguma. O fato  que estamos como antes. Joo quer-te sozinho em Avinho,
Miguel, e este encontro no te forneceu as garantias que procurvamos. Pelo contrrio,
deu-te uma imagem de como cada palavra tua, l, poderia ser desvirtuada. Daqui se
deduz, parece-me, que tu no deves ir.
  Miguel abanou a cabea:
   - Todavia irei. No quero um cisma. Tu, Guilherme, hoje falaste claro e disseste o que
quererias. Pois bem, no  o que eu quero, e dou-me conta que as deliberaes do
captulo de Perugia foram usadas pelos telogos imperiais para alm das nossas
intenes. Eu quero que a ordem franciscana seja aceita, nos seus ideais de pobreza,
pelo papa. E o papa ter de compreender que s se a ordem assumir em si o ideal da
pobreza se podero reabsorver as suas ramificaes herticas. Eu no penso na
assemblia do povo ou no direito das gentes. Eu tenho de impedir que a ordem se
dissolva numa pluralidade de fraticelli. Irei a Avinho e, se for necessrio, farei ato de
submisso a Joo. Transigirei em tudo, menos sobre o princpio de pobreza.
  Interveio Ubertino:
  - Sabes que arriscas a vida?
  - Assim seja - respondeu Miguel -,  melhor que arriscar a alma.
   Arriscou seriamente a vida e, se Joo estava na verdade (o que eu ainda no creio),
tambm perdeu a alma. Como todos sabem, Miguel foi ter com o papa, na semana que se
seguiu aos fatos que agora narro. Fez-lhe frente durante quatro meses, at que, em Abril
do ano seguinte,Joo convocou um consistrio em que o tratou de louco, temerrio,
teimoso, tirano, promotor de heresia, serpente nutrida pela Igreja no seu prprio seio. E
h que pensar que, ento, segundo o modo como ele via as coisas, Joo tinha razo,
porque, naqueles quatro meses, Miguel tornara-se amigo do amigo do meu mestre, o
outro Guilherme, o de Occam, e perfilhava as suas idias - no muito diferentes, talvez
ainda mais extremistas, daquelas que o meu mestre perfilhava com Marslio e tinha
expresso naquela manh. A vida destes dissidentes tornou-se precria, em Avinho, e, no
fim de Maio, Miguel, Guilherme de Occam, Bonagrazia de Brgamo, Francisco d'Ascoli e
Henri de Talheim puseram-se em fuga, seguidos pelos homens do papa em Nice, Toulon,
Marselha e Aigues Morres, onde se lhes juntou o cardeal Pierre de Arrablay, que procurou
em vo induzi-los a voltar, sem vencer as suas resistncias, o seu dio para com o
pontfice, o seu medo. Em Junho chegaram a Pisa, acolhidos em triunfo pelos imperiais,
e nos meses seguintes Miguel havia de denunciar Joo publicamente. Demasiado tarde,
porm. A fortuna do imperador estava a diminuir, de Avinho Joo manobrava para dar
aos menoritas um novo superior geral, obtendo por fim a vitria. Melhor teria feito
Miguel naquele dia em no decidir ir ter com o papa: teria podido cuidar de perto da
resistncia dos menoritas, sem perder tantos meses  merc do seu inimigo,
enfraquecendo a sua posio... Mas talvez assim o tivesse predisposto a onipotncia
divina - e agora j nem sei quem de todos eles estava na verdade, e depois de tantos
anos tambm o fogo das paixes se extingue, e com ele aquilo que se julgava ser a luz da
verdade. Quem de ns  j capaz de dizer se tinham razo Heitor ou Aquiles,
Agammnon ou Pramo, quando se debatiam pela beleza de uma mulher que agora 
cinza de cinzas?
   Mas perco-me em melanclicas divagaes. Devo, em vez disso, dizer o fim daquele
triste colquio. Miguel tinha decidido, e no houve modo de o convencer a desistir. 
parte que se punha agora um outro problema, e Guilherme enunciou-o sem embargue: j
nem o prprio Ubertino estava em segurana. As frases que lhe tinha dirigido Bernardo, o
dio que por ele j nutria o papa, o fato de que, enquanto Miguel representava ainda um
poder com o qual tratar, Ubertino, pelo contrrio, tinha permanecido sozinho, como
partidrio de si prprio...
   - Joo quer Miguel na corte e Ubertino no inferno. Se bem conheo Bernardo, at
amanh, e com a cumplicidade do nevoeiro, Ubertino ser morto. E, se algum se
perguntar por quem, a abadia bem poder suportar outro delito, e dir-se- que eram
diabos invocados pelo Remgio com os seus gatos pretos, ou algum dolciniano suprstite
que ainda vagueia por estas muralhas...
  Ubertino estava preocupado:
  - E ento? - perguntou.
  - Ento - disse Guilherme -, vai falar com o Abade. Pede-lhe uma cavalgadura,
provises, uma carta para alguma abadia distante, para l dos Alpes. E aproveita o
nevoeiro e o escuro para partires imediatamente.
  - Mas os archeiros no guardam ainda as portas?
   - A abadia tem outras sadas, e o Abade conhece-as. Basta que um servo te espere
numa das curvas inferiores com uma cavalgadura, e, saindo por alguma passagem da
cerca, ters apenas de percorrer um pedao de bosque. Deves faz-lo imediatamente,
antes que Bernardo se refaa do xtase do seu triunfo. Eu tenho de me ocupar de mais
alguma coisa, tinha duas misses, uma falhou, que ao menos no falhe a outra. Quero
deitar a mo a um livro e a um homem. Se tudo correr bem, tu estars fora daqui ainda
antes que eu me preocupe contigo. Portanto adeus.
  Abriu os braos. Comovido, Ubertino estreitou-o nos seus:
  - Adeus, Guilherme, s um ingls louco e arrogante, mas tens um grande corao.
Voltaremos a ver-nos?
  - Voltaremos a ver-nos - tranqilizou-o Guilherme. - Deus h-de querer.
  Deus, afinal, no quis. Como j disse, Ubertino morreu misteriosamente assassinado
dois anos depois. Vida dura e aventurosa a deste velho combativo e ardente. Talvez no
tenha sido um santo, mas espero que Deus tenha premiado aquela sua adamantina
certeza de o ser. Quanto mais envelheo e mais me abandono  vontade de Deus, menos
aprecio a inteligncia que quer saber e a vontade que quer fazer: e reconheo como
nico elemento de salvao a f, que sabe esperar pacientemente sem interrogar
demasiado. E Ubertino teve certamente muita f no sangue e na agonia de Nosso Senhor
crucificado.
  Talvez eu pensasse tambm ento nestas coisas, e o mstico velho apercebeu-se disso,
ou adivinhou que as havia de pensar um dia. Sorriu-me com doura e abraou-me, sem o
ardor com que me tinha apertado algumas vezes nos dias anteriores. Abraou-me como
um av abraa o neto, e com o mesmo esprito lho retribu. Depois afastou-se com Miguel
para procurar o Abade.
  - E agora? - perguntei a Guilherme.
  - E agora voltamos aos nossos delitos.
  - Mestre - disse -, hoje sucederam coisas muito graves para a cristandade e falhou a
vossa misso. E no entanto pareceis mais interessado na soluo deste mistrio que no
reencontro entre o papa e o imperador.
   - Os loucos e as crianas dizem sempre a verdade, Adso. Ser porque, como
conselheiro imperial, o meu amigo Marslio  mais dotado que eu, mas como inquisidor o
mais dotado sou eu. At mais dotado que Bernardo Gui, Deus me perdoe. Porque a
Bernardo no interessa descobrir os culpados, mas sim queimar os imputados. E eu, pelo
contrrio, encontro o maior deleite, a maior alegria em deslindar uma meada bem
intrincada. E ser ainda porque, no momento em que, como filsofo, duvido que o
mundo tenha uma ordem, me consola descobrir, se no uma ordem, pelo menos uma
srie de conexes em pequenas pores dos assuntos do mundo. Por fim h
provavelmente outra razo:  que nesta histria talvez estejam em jogo coisas maiores e
mais importantes que a batalha entre Joo e Lus...
  - Mas  uma histria de roubos e de vinganas entre monges de pouca virtude! -
exclamei duvidando.
  - A volta de um livro proibido, Adso,  volta de um livro proibido - respondeu
Guilherme.
  Os monges estavam-se encaminhando agora para a ceia. A refeio j ia em meio
quando se sentou a nosso lado Miguel de Cesena, avisando-nos que Ubertino tinha
partido. Guilherme soltou um suspiro de alvio.
  No fim da ceia evitamos o Abade, que estava conversando com Bernardo, e
localizamos Bncio, que nos saudou com um meio-sorriso, tentando chegar  porta.
Guilherme alcanou-o e obrigou-o a seguir-nos para um canto da cozinha.
  - Bncio - perguntou-lhe Guilherme -, onde est o livro?
  - Qual livro?
   - Bncio, nenhum de ns dois  tolo. Falo do livro que procurvamos hoje no
laboratrio de Severino e que eu no reconheci e que tu reconheceste muito bem e foste
buscar depois...
  - Que vos faz pensar que eu o tenha levado?
  - Penso que  assim e tu tambm pensas. Onde est?
  - No posso diz-lo.
  - Bncio, se no mo dizes, falarei com o Abade.
   - No posso diz-lo por ordem do Abade - disse Bncio com ar virtuoso. - Hoje, depois
de nos termos visto, aconteceu alguma coisa que tendes de saber. Depois da morte de
Berengrio, faltava um ajudante-bibliotecrio. Hoje  tarde, Malaquias props-me tomar
o seu lugar. Precisamente h meia hora, o Abade concordou, e a partir de amanh de
manh, espero, serei iniciado nos segredos da biblioteca.  verdade, peguei no livro esta
manh, e tinha-o escondido no enxergo da minha cela sem sequer olhar pare ele,
porque sabia que Malaquias me vigiava. E a certa altura Malaquias fez-me a proposta que
eu vos disse. E agora fiz aquilo que deve fazer um ajudante-bibliotecrio: entreguei-lhe
o livro.
  No pude impedir-me de intervir, e com violncia.
  - Mas, Bncio, ontem, e antes de ontem, tu... vs dizeis que ardeis de curiosidade de
conhecer, que no quereis que a biblioteca encerrasse mais mistrios, que um estudante
deve saber...
  Bncio calava-se, corando, mas Guilherme deteve-me:
  - Adso, j h algumas horas que Bncio passou para o outro lado. Agora ele  o guarda
daqueles segredos que queria conhecer, e enquanto os guarda ter todo o tempo que
quiser pare os conhecer.
  - Mas os outros? - perguntei. - Bncio falava em nome de todos os sbios!
  - Antes - disse Guilherme.
  E arrastou-me consigo, deixando Bncio na maior confuso.
   - Bncio - disse-me depois Guilherme -  vtima de uma grande luxria, que no  a de
Berengrio nem a do despenseiro. Como muitos estudiosos, tem a luxria do saber. Do
saber em si mesmo. Excludo de uma parte deste saber, queria apoderar-se dele. Agora
apoderou-se dele. Malaquias conhecia o seu homem e usou o melhor meio pare reaver o
livro e selar os lbios de Bncio. Tu perguntar-me-s de que serve controlar tanta
reserve de saber se se aceita no o pr  disposio de todos os outros. Mas 
precisamente por isso que falei de luxria. No era luxria a sede de conhecimento de
Roger Bacon, que queria empregar as cincias para tornar mais feliz o povo de Deus, e
portanto no procurava o saber pelo saber. A de Bncio  apenas curiosidade insacivel,
orgulho do intelecto, um modo como qualquer outro, pare um monge, de transformar e
apaziguar os desejos da sua carne, ou o ardor que fez de outro um guerreiro da f ou da
heresia. No existe apenas a luxria da carne.  luxria a de Bernardo Gui, desvairada
luxria de justia que se identifica com uma luxria de poder.  luxria de riqueza a do
nosso santo e j no romano pontfice. Era luxria de testemunho e de transformao e
de penitncia e de morte a do despenseiro quando jovem. E  luxria de livros a de
Bncio. Como todas as luxrias, como a de Onan, que espalhava o seu prprio smen por
terra,  luxria estril, e nada tem a ver com o amor, nem sequer com o carnal...
  - Eu sei - murmurei sem querer.
  Guilherme fingiu que no ouviu. Mas, como continuando o seu discurso, disse:
  - O amor verdadeiro quer o bem do amado.
  - No ser que Bncio quer o bem dos seus livros (que agora so tambm seus) e pensa
que o seu bem  ficarem longe de mos rapaces? - perguntei.
   - O bem de um livro reside em ser lido. Um livro  feito de signos que falam de outros
signos, os quais por sua vez falam das coisas. Sem um olho que o leia, um livro  portador
de signos que no produzem conceitos, e portanto  mudo. Esta biblioteca nasceu talvez
para salvar os livros que contm, mas agora vive para os sepultar. Por isso tornou-se
fonte de impiedade. O despenseiro disse que trara. Assim fez Berengrio. Traiu. Oh, que
dia horrvel, meu bom Adso! Cheio de sangue e de runa. Por hoje j chega. Vamos ns
tambm a completas, e depois vamos dormir.
  Saindo da cozinha, encontramos Aymaro. Perguntou-nos se era verdade aquilo que se
murmurava, que Malaquias tinha proposto Bncio como seu ajudante. No pudemos
seno confirmar.
  - Este Malaquias fez muitas coisas boas, hoje - disse Aymaro com o seu habitual esgar
de desprezo e de indulgncia. - Se houvesse justia, o diabo viria busc-lo esta noite.
  QUINTO DIA
  COMPLETAS
  Onde se escuta um sermo sobre a vinda do Anticristo e Adso descobre o poder dos
nomes prprios.
   O ofcio de vsperas tinha tido lugar de modo confuso, ainda durante o interrogatrio
do despenseiro, com os novios curiosos que tinham escapado  alada do seu mestre
para seguirem por janelas e aberturas quanto se passava na sala capitular. Era necessrio
agora que toda a comunidade rezasse pela boa alma de Severino. Pensava-se que o
Abade falaria a todos, e perguntava-se o que diria. Pelo contrrio, depois da ritual
homilia de So Gregrio, o responsrio e os trs salmos prescritos, o Abade subiu ao
plpito, mas apenas para dizer que naquela noite se calaria. Demasiadas desventuras
tinham afligido a abadia, disse, para que mesmo o pai comum pudesse falar com o tom
de quem censura e admoesta. Era necessrio que todos, sem excluir ningum, fizessem
um severo exame de conscincia. Mas, visto que era preciso que algum falasse,
propunha que a admoestao viesse de quem, por ser o mais velho de todos e j prximo
da morte, fosse de todos o menos envolvido nas paixes terrestres que tinham
ocasionado tantos males. Por direito de idade, a palavra caberia a Alinardo de
Grottaferrata, mas todos sabiam como a sade do venervel irmo era frgil. Logo depois
de Alinardo, na ordem estabelecida pelo volver inexorvel dos tempos, vinha Jorge. A ele
dava o Abade agora a palavra.
   Ouvimos um murmrio do lado das estalas onde se sentavam habitualmente Aymaro e
os outros italianos. Imaginei que o Abade tivesse confiado o sermo a Jorge sem
consultar Alinardo. O meu mestre fez-me notar a meia-voz que o fato de no falar tinha
sido para o Abade uma prudente deciso: porque fosse o que fosse que ele dissesse seria
sopesado por Bernardo e pelos outros avinhonenses presentes. O velho Jorge, pelo
contrrio, limitar-se-ia a algum dos seus vaticnios msticos, e os avinhonenses no lhe
dariam grande peso.
   - Porm, eu no - acrescentou Guilherme -, porque no creio que Jorge tenha aceite,
e talvez pedido para falar, sem um objetivo bem preciso.
  Jorge subiu ao plpito, amparado por algum. O seu rosto era iluminado pelo trpode
que, sozinho, dava luz  nave. A luz da chama punha em evidncia a treva que pesava
sobre os seus olhos, que pareciam dois buracos negros.
  - Irmos diletssimos - comeou ele -, e vs todos nossos hspedes muito caros, se
quiserdes escutar este pobre velho... As quatro mortes que afligiram a nossa abadia
(para no falar dos pecados, remotos e recentes, dos mais desgraados entre os vivos)
no devem, vs bem sabeis, atribuir-se aos rigores da natureza que, implacvel nos seus
ritmos, administra a nossa jornada terrena desde o bero  cova. Todos vs pensareis
talvez que, por mais que vos tenha perturbado de dor, esta triste histria no envolve a
vossa alma, porque todos, menos um, estais inocentes, e quando esse for punido restar-
vos- decerto chorar a ausncia dos desaparecidos, mas no tereis que vos justificar a
vs mesmos de nenhuma imputao diante do tribunal de Deus. Assim pensais vs.
Loucos! - gritou com voz terrvel -, loucos e temerrios que vs sois! Quem matou
suportar diante de Deus o fardo das suas culpas, mas apenas porque aceitou tornar-se
intermedirio dos decretos de Deus. Tal como era necessrio que algum trasse Jesus
para que o mistrio da redeno se cumprisse, e todavia o Senhor decretou condenao
e vituprio para quem o traiu, assim algum nestes dias pecou trazendo morte e runa,
mas eu digo-vos que esta runa foi, se no querida, pelo menos permitida por Deus para
humilhao da nossa soberba!
  Calou-se e dirigiu o olhar vazio para a sombria assemblia, como se com os olhos
pudesse captar-lhe as emoes, enquanto de fato com o ouvido saboreava o seu
consternado silncio.
   - Nesta comunidade - continuou - serpenteia h muito tempo a spide do orgulho. Mas
que orgulho? O orgulho do poder num mosteiro isolado do mundo? No, decerto. O
orgulho da riqueza? Meus irmos, antes que no mundo conhecido ressoassem os ecos de
longas querelas sobre a pobreza e sobre a posse, desde os tempos do nosso fundador,
ns, mesmo quando tivemos tudo, no tivemos nada, sendo a nossa nica verdadeira
riqueza a observncia da regra, a orao e o trabalho. Mas do nosso trabalho, do
trabalho da nossa ordem, em particular do trabalho deste mosteiro faz parte (
substancia, alis) o estudo, e a guarda do saber. A guarda, digo, no a busca, porque 
prprio do saber, coisa divina, ser completo e definido desde o incio, na perfeio do
verbo que se exprime a si prprio. A guarda, digo, no a busca, porque  prprio do
saber, coisa humana, ter sido definido e completado no arco dos sculos que vai da
pregao dos profetas  interpretao dos padres da Igreja. No h progresso, no h
revoluo de eras, na aventura do saber, mas, no mximo contnua e sublime
recapitulao. A histria humana marcha com movimento irreprimvel desde a criao,
atravs da redeno, em direo ao retorno do Cristo triunfante, que aparecer
circundado de um nimbo para julgar os vivos e os mortos, mas o saber divino e humano
no segue este curso: firme como uma rocha inamovvel, ele permite-nos, quando nos
fazemos humildes e atentos  sua voz, seguir, predizer este curso, mas no  por ele
corrompido. Eu sou aquele que , disse o Deus dos hebreus. Eu sou o caminho, a verdade
e a vida, disse Nosso Senhor. Aqui est, o saber no  mais que o atnito comentrio
destas duas verdades. Tudo quanto se disse a mais foi proferido pelos profetas, pelos
evangelistas, pelos padres e pelos doutores para tornar mais claras estas duas sentenas.
E por vezes um oportuno comentrio tambm lhes veio dos pagos, que as ignoravam, e
as suas palavras foram assumidas pela tradio crist. Mas, para alm disto, no h mais
nada a dizer. H a remeditar, glosar, conservar. Este era e deveria ser o ofcio desta
nossa abadia com a sua esplndida biblioteca, nada mais. Diz-se que um califa oriental
um dia pegou fogo  biblioteca de uma cidade famosa e gloriosa e orgulhosa e que,
enquanto aqueles milhares de volumes ardiam, disse que eles podiam e deviam
desaparecer: porque ou repetiam aquilo que j dizia o Coro, e portanto eram inteis,
ou contradiziam aquele livro sagrado para os infiis, e portanto eram perniciosos. Os
doutores da Igreja, e ns com eles, no raciocinaram assim. Tudo aquilo que soa a
comentrio e clarificao da escritura deve ser conservado, porque aumenta a glria das
escrituras divinas; tudo aquilo que as contradiz no deve ser destrudo, porque s
conservando-o poder por sua vez ser contradito, por quem possa e tenha esse ofcio,
nos modos e nos tempos que o Senhor quiser. Daqui a responsabilidade da nossa ordem
atravs dos sculos, e o fardo da nossa abadia hoje: orgulhosos da verdade que
proclamamos, humildes e prudentes em guardar as palavras inimigas da verdade, sem por
elas nos deixarmos sujar. Ora, meus irmos, qual  o pecado de orgulho que pode tentar
um monge estudioso? O de entender o seu prprio trabalho no como guarda mas como
busca de alguma notcia que no tenha ainda sido dada aos humanos, como se a ltima
no tivesse j ressoado nas palavras do ltimo anjo que fala no ltimo livro das
escrituras: Agora declaro a quem quer que escute as palavras de profecia deste livro
que, se algum lhe acrescentar alguma coisa, Deus por sobre ele as pragas escritas
neste livro, e se algum retirar alguma coisa s palavras de profecia deste livro Deus lhe
retirar a sua parte do livro da vida e da cidade santa e das coisas que esto escritas
neste livro. Pois bem... no vos parece, meus desventurados irmos, que estas palavras
mais no refletem do que quanto aconteceu recentemente entre estas muralhas,
enquanto tudo quanto aconteceu entre estas muralhas mais no reflete do que as
prprias vicissitudes do sculo em que vivemos, tendence na palavra como nas obras, nas
cidades como nos castelos, nas soberbas universidades e nas igrejas catedrais a procurar
com af descobrir novos codicilos s palavras da verdade, deformando o sentido daquela
verdade j rica de todos os esclios, e necessitando apenas de intrpida defesa e no de
estlido incremento? Este  o orgulho que serpenteou ou ainda serpenteia por estas
muralhas: e eu digo a quem se afadigou e se afadiga em quebrar os sigilos dos livros que
no lhe so devidos que  este o orgulho que o Senhor quis punir e que continuar a
punir se ele no diminuir e no se humilhar, porque ao Senhor no  difcil encontrar,
ainda e sempre, por causa da nossa fragilidade, os instrumentos da sua vingana.
  - Ouviste, Adso? - murmurou-me Guilherme. - O velho sabe mais do que aquilo que diz.
Que tenha ou no as mos nesta histria, ele sabe, e adverte que se os monges curiosos
continuarem a violar a biblioteca a abadia no recuperar a sua paz.
  Jorge agora, depois de uma longa pausa, recomeava a falar.
  - Mas quem  afinal o prprio smbolo deste orgulho, de quem os orgulhosos so figura
e mensageiros, cmplices e estandartes? Quem em verdade agiu e age talvez entre estas
muralhas, de modo a avisar-nos que os tempos esto prximos, e a consolar-nos, porque,
se os tempos esto prximos, os sofrimentos sero decerto insustentveis, mas no
infinitos no tempo, dado que o grande ciclo deste universo est para se cumprir? Oh, vs
compreendeste-lo muito bem, e receais dizer o seu nome, porque  tambm o vosso, e
vs tendes medo dele, mas, se vs tendes medo, no o terei eu, e esse nome di-lo-ei em
voz bem alta, a fim de que as vossas vsceras se toram de pavor, e os vossos dentes
batam at vos cortarem a lngua, e o gelo que se formar no vosso sangue faa descer
um vu escuro sobre os vossos olhos... Ele  a besta imunda, ele  o Anticristo!
   Fez outra longussima pausa. Os circunstantes pareciam mortos. A nica coisa mvel
em toda a igreja era a chama do trpode, mas at as sombras que ela formava pareciam
ter-se enregelado. O nico rumor, rouco, era o arquejar de Jorge, que enxugava o suor
da fronte. Depois, Jorge continuou:
   - Quereis vs talvez dizer-me: no, esse no est ainda para vir, onde esto os sinais
da sua vinda? Insipiente quem o dissesse! Mas se as temos diante dos olhos, dia aps dia,
no grande anfiteatro do mundo, e na imagem reduzida da abadia, as catstrofes
anunciadoras... Foi dito que, quando o momento estiver prximo, se levantar no
ocidente um rei estrangeiro, senhor de imensas fraudes, ateu, matador de homens,
fraudulento, sedento de ouro, hbil na astcia, malvado, inimigo dos fiis e seu
perseguidor, e no seu tempo no se ter em conta a prata mas ter-se- em apreo
somente o ouro! Eu sei bem: vs que me escutais apressais-vos agora a fazer os vossos
clculos para saber se aquele de que falo se assemelha ao papa ou ao imperador ou ao
rei de Frana ou a quem quiserdes, para poder dizer: ele  o meu inimigo e eu estou do
lado bom! Mas no sou to ingnuo que vos indique um homem, o Anticristo quando vier
vem em todos e para todos, e cada um  parte dele. Estar nos bandos de salteadores
que saquearo cidades e regies, estar em imprevistos sinais do cu onde aparecero
de improviso arco-ris, cornos e fogos, enquanto se ouviro mugidos de vozes e o mar
ferver. Disse-se que os homens e os animais geraro drages, mas queria dizer-se que os
coraes concebero dio e discrdia, no olheis em redor para descobrir os animais das
iluminuras que vos deleitam nos pergaminhos! Disse-se que as jovens h pouco
desposadas pariro meninos j capazes de falar perfeitamente, os quais portaro o
anncio da maturidade dos tempos e pediro para serem mortos. Mas no procureis entre
as aldeias do vale, os meninos demasiado sbios j foram mortos entre estas muralhas! E
como os das profecias, tinham o aspecto de homens j encanecidos, e da profecia eles
eram os filhos quadrpedes, e os espectros, e os embries que deveriam profetizar no
ventre das mes pronunciando encantamentos mgicos. E tudo foi escrito, sabeis? Foi
escrito que muitas sero as agitaes nas seitas, nos povos, nas igrejas; que se
levantaro pastores incuos, perversos, cheios de desprezo, vidos, desejosos de
prazeres, amantes do lucro, contentando-se com vos discursos, fanfarres, soberbos,
gulosos, protervos, imersos na sensualidade,  procura de vanglria, inimigos do
evangelho, prontos a repudiar a porta estreita, a desprezar a palavra verdadeira, e tero
dio a todo o caminho de piedade, no se arrependero do seu pecar, e por isso no meio
dos povos dilataro a incredulidade, o dio fraterno, a maldade, a dureza, a inveja, a
indiferena, o latrocnio, a embriaguez, a intemperana, a lascvia, o prazer carnal, a
fornicao e todos os outros vcios. Sero escassos a aflio, a humildade, o amor da paz,
a pobreza, a compaixo, o dom das lgrimas... Vamos, coragem, no vos reconheceis,
todos vs aqui presentes, monges da abadia e poderosos vindos de fora?
   Na pausa que se seguiu ouviu-se um roar ligeiro. Era o cardeal Bertrando, que se
agitava no seu cadeiro. No fundo, pensei, Jorge estava procedendo como grande
pregador, e enquanto fustigava os seus irmos no poupava sequer os visitantes. E teria
dado no sei o qu para saber o que passava naquele momento pela cabea de Bernardo,
ou dos gordos avinhonenses.
   - E ser nesse justo momento, que  justamente este - troou Jorge -, que o Anticristo
ter a sua blasfema parusia, macaco que quer ser de Nosso Senhor. Nesses tempos (que
so estes) sero subvertidos todos os reinos, haver fome e pobreza, e penria de meses,
e Invernos de excepcional rigor. E os filhos desse tempo (que  este) j no tero quem
administre os seus bens e conserve nos seus depsitos os alimentos e sero vexados nos
mercados de compra e de venda. Bem-aventurados ento aqueles que no viverem, ou
que, vivendo, conseguirem sobreviver! Chegar ento o filho da perdio, o adversrio
que se glorifica e se incha, exibindo mltiplas virtudes para enganar toda a terra e para
prevalecer sobre os justos. A Sria cair e chorar os seus filhos. A Cilcia levantar a
cabea at que aparea aquele que  chamado a julg-la. A filha de Babilnia levantar-
se- do trono do seu esplendor para beber do clice da amargura. A Capadcia, a Lcia e
a Licania dobraro a espinha porque multides inteiras se vero destrudas na corrupo
da sua iniqidade. Acampamentos de brbaros e carros de guerra aparecero por toda a
parte para ocuparem as terras. Na Armnia, no Ponto e na Bitnia, os adolescentes
perecero ao fio da espada, as meninas cairo prisioneiras, os filhos e as filhas
consumaro incestos, a Pisdia, que se exalta na sua glria, ser prostrada, a espada
passar no meio da Fencia, a Judia vestir-se- de luto e preparar-se- para o dia da
perdio por causa da sua impureza. De toda a parte ento aparecero desprezo e
desolao, o Anticristo vencer o Ocidente e destruir as vias de trfico, ter nas mos
espada e fogo ardente e queimar com furor de violncia de chama: sua fora ser a
blasfmia, engano a sua mo, a direita ser runa, a esquerda portadora de trevas. Estes
so os traos que o distinguiro: a sua cabea ser de fogo ardente, o seu olho direito
injetado de sangue, o seu olho esquerdo de um verde felino, e ter duas pupilas, e as
suas plpebras sero brancas, o seu lbio inferior grande, ter dbil o fmur, grossos os
ps, o polegar achatado e alongado!
  - Parece o seu retrato - escarneceu Guilherme num fio de voz.
   Era uma frase muito mpia, mas agradeci-lhe, porque se me eriavam os cabelos na
cabea. Contive a custo uma risada, enchendo as bochechas e deixando sair um fio de ar
dos lbios fechados. Rumor que, no silncio que se tinha seguido s ltimas palavras do
velho, se ouviu perfeitamente, mas por sorte todos pensaram que fosse algum que
tossia ou que chorava, ou estremecia, e todos tinham bem de qu.
   -  o momento - dizia agora Jorge - em que tudo cair no arbtrio, os filhos levantaro
as mos contra os pais, a mulher tramar contra o marido, o marido chamar a juzo a
mulher, os patres sero desumanos com os servos e os servos desobedecero aos
patres, j no haver reverncia pare com os velhos, os adolescentes pediro o
comando, o trabalho parecer a todos uma intil fadiga, por toda a parte se elevaro
cnticos de glria  licena, ao vcio,  dissoluta liberdade dos costumes. E, depois disto,
estupros, adultrios, perjrios, pecados concranatura seguir-se-o em grandes vagas, e
males, e adivinhaes, e encantamentos, e aparecero no cu corpos volantes, surgiro
no meio dos bons cristos falsos profetas, falsos apstolos, corruptores, impostores,
bruxos,
   estupradores, avaros, perjuros e falsificadores, os pastores transformar-se-o em
lobos, os sacerdotes mentiro, os monges desejaro as coisas do mundo, os pobres no
acorrero em ajuda dos chefes, os poderosos sero sem misericrdia, os justos far-se-o
testemunhas de injustia. Todas as cidades sero sacudidas por terremotos, haver
pestilncias em todas as regies, tempestades de vento erguero a terra, os campos
sero contaminados, o mar segregar humores negros, novos desconhecidos prodgios
tero lugar na Lua, as estrelas abandonaro a sua curva normal, outras (desconhecidas)
sulcaro o cu, nevar no Vero e far um calor trrido no Inverno. E sero chegados os
tempos do fim e o fim dos tempos... No primeiro dia,  hora tera, elevar-se- no
firmamento uma voz grande e potente, uma nuvem purprea avanar de setentrio,
troves e relmpagos a seguiro, e sobre a terra descer uma chuva de sangue. No
segundo dia, a terra ser arrancada do seu lugar e o fumo de um grande fogo passar
atravs das portas do cu. No terceiro dia, os abismos da terra retumbaro dos quatro
cantos do cosmo. Os pinculos do firmamento abrir-se-o, o ar encher-se- de pilares de
fumo, e haver fedor de enxofre at  hora dcima. No quarto dia, de manh cedo, o
abismo liquefar-se- e emitir estrondos, e cairo os edifcios. No quinto dia,  hora
sexta, ver-se-o desfeitas as potncias de luz e a roda do Sol, e haver trevas no mundo
at  noite, e as estrelas e a Lua cessaro o seu ofcio. No sexto dia,  hora quarta, o
firmamento fender-se- de oriente a ocidente, e os anjos podero olhar para a terra
atravs da fenda dos cus e todos aqueles que esto sobre a terra podero ver os anjos
que olham do cu. Ento, todos os homens se escondero nas montanhas pare fugirem ao
olhar dos anjos justos. E no stimo dia chegar o Cristo na luz de seu pai. E haver ento
o juzo dos bons e a sua ascenso na beatitude eterna dos corpos e das almas. Mas no 
sobre isto que meditareis esta noite, irmos orgulhosos! No  aos pecadores que caber
ver a alba do oitavo dia, quando se elevar do oriente uma voz doce e terna, no meio do
cu, e manifestar-se- aquele Anjo que tem poder sobre todos os outros anjos santos, e
todos os anjos avanaro juntamente com ele, sentados sobre um carro de nuvens,
cheios de alegria, correndo velozes pelo ar, para libertarem os eleitos que tiverem
acreditado, e todos juntos se regozijaro, porque a destruio deste mundo ter sido
consumada! No  com isto que devemos, ns, orgulhosamente regozijar-nos esta noite!
Meditaremos em vez disso sobre as palavras que o Senhor pronunciar para expulsar de si
quem no mereceu salvao: ide para longe de mim, malditos, para o fogo eterno que
vos foi preparado pelo diabo e pelos seus ministros! Vs prprios bem o merecestes, e
agora gozai-o! Afastai-vos de mim, descendo nas trevas exteriores e no fogo
inextinguvel! Eu dei-vos forma, e vs fizeste-vos sequazes de um outro! Fizeste-vos
servos de um outro senhor, ide morar com ele na escurido, com ele, a serpente que no
repousa, no meio do ranger de dentes! Dei-vos o ouvido para prestardes ateno s
escrituras, e vs escutastes as palavras dos pagos! Modelei-vos uma boca para
glorificardes a Deus, e vs usaste-la para as falsidades dos poetas e para os enigmas dos
histries! Dei-vos os olhos para que vsseis a luz dos meus preceitos, e vs usaste-los para
perscrutar na treva! Eu sou um juiz humano, mas justo. A cada um darei aquilo que
merece. Quereria ter misericrdia de vs, mas no encontro leo nos vossos vasos. Seria
impelido a apiedar-me, mas as vossas lmpadas esto fumadas. Afastai-vos de mim...
Assim falar o Senhor. E aqueles... e ns talvez, desceremos ao eterno suplcio. Em nome
do Pai, do Filho e do Esprito Santo.
  - Amm! - responderam todos a uma voz.
   Todos em fila, sem um sussurro, foram os monges para os seus catres. Sem desejo de
se falarem desapareceram os menoritas e os homens do papa, aspirando ao isolamento e
ao repouso. O meu corao estava pesado.
  - Para a cama, Adso - disse-me Guilherme, subindo as escadas do albergue dos
peregrinos. - No  uma noite para ficar fora. A Bernardo Gui poderia vir em mente
antecipar o fim do mundo comeando pelas nossas carcaas. Amanh procuraremos estar
presentes a matinas, porque logo a seguir partiro Miguel e os outros menoritas.
  - Tambm partir Bernardo com os seus prisioneiros? - perguntei com um fio de voz.
   - Seguramente, no tem mais nada a fazer aqui. Querer preceder Miguel em Avinho,
mas de modo que a chegada deste coincida com o processo ao despenseiro, menorita,
hertico e assassino. A fogueira do despenseiro iluminar como archote propiciatrio o
primeiro encontro de Miguel com o papa.
  - E que acontecer a Salvador... e  rapariga?
   - Salvador acompanhar o despenseiro, porque dever testemunhar no seu processo.
Pode ser que em troca deste servio Bernardo lhe conceda a vida. Poder mesmo deix-
lo escapar para depois o mandar matar. Ou talvez o deixe ir verdadeiramente, porque
um tipo como Salvador no interessa a um tipo como Bernardo. Quem sabe, talvez acabe
como estrangulador nalguma floresta do Languedoc...
  - E a rapariga?
  - J te disse,  carne queimada. Mas arder primeiro, pelo caminho, para edificao
de alguma aldeota ctara ao longo da costa. Ouvi dizer que Bernardo se deve encontrar
com o seu colega Jacques Fournier (recorda-te deste nome, por agora queima albigenses,
mas visa mais alto), e uma bela bruxa sobre a pira aumentar o prestgio e a fama de
ambos...
  - Mas no se pode fazer nada para os salvar? - gritei. - No pode intervir o Abade?
  - Por quem? Pelo despenseiro, ru confesso? Por um miservel como Salvador? Ou tu
pensas na rapariga?
  - E se assim fosse? - ousei. - No fundo,  dos trs a nica verdadeiramente inocente,
vs sabeis que no  uma bruxa...
  - E crs que o Abade, depois daquilo que sucedeu, querer arriscar o pouco prestgio
que lhe resta por uma bruxa?
  - Mas assumiu a responsabilidade de deixar fugir Ubertino!
  - Ubertino era um dos seus monges e no era acusado de nada. E, depois, que tolices
me ests a dizer, Ubertino era uma pessoa importante, Bernardo s o poderia atingir
pelas costas.
  - Ento o despenseiro tinha razo, os simples pagam sempre por todos, mesmo por
aqueles que falam a seu favor, mesmo por aqueles, como Ubertino e Miguel, que com as
suas palavras de penitncia os impeliram  revolta!
   Estava desesperado, e no considerava sequer que a rapariga no era um fraticello
seduzido pela mstica de Ubertino. No entanto, era uma camponesa, e pagava por uma
histria que no lhe dizia respeito.
  - Assim  - respondeu-me tristemente Guilherme. - E, se realmente procuras um raio
de justia, dir-te-ei que um dia os ces grandes, o papa e o imperador, para fazerem a
paz, passaro sobre o corpo dos ces mais pequenos que se encarniaram ao seu servio.
E Miguel ou Ubertino sero tratados como hoje  tratada a tua rapariga.
   Agora sei que Guilherme profetizava, ou melhor, silogizava, com base em princpios de
filosofia natural. Mas naquele momento as suas profecias e os seus silogismos no me
consolaram absolutamente nada. A nica coisa certa era que a rapariga seria queimada.
E sentia-me co-responsvel, porque era como se na fogueira ela expiasse tambm o
pecado que eu tinha cometido com ela.
  Sem pudor algum, desatei aos soluos e fugi para a minha cela, onde durante toda a
noite mordi o enxergo e gemi impotente, porque nem sequer me era concedido - como
tinha lido nos romances de cavalaria com os meus companheiros de Melk - lamentar-me
invocando o nome da amada.
  Do nico amor terreno da minha vida no sabia, e jamais soube, o nome.
  SEXTO DIA
  MATINAS
  Onde os prncipes sederunt, e Malaquias desaba por terra.
   Descemos a matinas. Aquela ltima parte da noite, quase a primeira do novo dia
iminente, estava ainda enevoada.  medida que atravessava o claustro, a umidade
penetrava-me at ao fundo dos ossos, modos pelo sono inquieto. Embora a igreja
estivesse fria, foi com um suspiro de alvio que me ajoelhei sob aquelas abbadas, ao
abrigo dos elementos, confortado pelo calor dos outros corpos, e da orao.
   O canto dos salmos tinha-se iniciado h pouco, quando Guilherme me indicou um lugar
vazio nas estalas  nossa frente, entre Jorge e Pacifico de Tivoli. Era o lugar de
Malaquias, que de fato se sentava sempre ao lado do cego. E no ramos ns os nicos
que nos tnhamos apercebido daquela ausncia. De um lado surpreendi um olhar
preocupado do Abade, que decerto j sabia bem como aquelas faltas eram portadoras de
sombrias notcias. E do outro reparei numa singular inquietao que agitava o velho
Jorge. O seu rosto, habitualmente to indecifrvel por causa dos seus olhos brancos
privados de luz, estava quase inteiramente imerso na sombra, mas as suas mos estavam
nervosas e irrequietas. De fato, vrias vezes tateou o lugar a seu lado, como para
verificar se estava ocupado. Fazia e voltava a fazer o gesto a intervalos regulares, como
esperando que o ausente reaparecesse de um momento para o outro, mas temesse no o
ver reaparecer.
  - Onde estar o bibliotecrio? - sussurrei a Guilherme.
  - Malaquias - respondeu Guilherme - era agora o nico que tinha o livro nas mos. Se
no  ele o culpado dos delitos, ento poderia no conhecer os perigos que aquele livro
encerrava...
  No havia mais nada a dizer. Devia-se apenas esperar. E esperamos, ns, o Abade, que
continuava a fixar a estala vazia, Jorge, que no cessava de interrogar o escuro com as
mos.
  Quando se chegou ao fim do ofcio, o Abade recordou aos monges e aos novios que
era necessrio prepararem-se para a grande missa natalcia e que, por isso, como de
costume, se empregaria o tempo antes de laudas experimentando o afinamento da
comunidade inteira na execuo de alguns dos cantos previstos para aquela ocasio.
Aquela fileira de homens devotos estava com efeito harmonizada como um s corpo e
uma s voz, e por um longo cortejo de anos reconhecia-se unida, como uma nica alma,
no canto.
  O Abade convidou a entoar o Sederunt:
  Sederunt principes et adversus me loquebantur, iniqui. Persecuti sunt me. Adjuva me,
Domine, Deus meus salvum me fac propter magnam misericordiam tuam.
   Perguntei-me se o Abade no teria escolhido mandar cantar aquele gradual
precisamente naquela noite, quando ainda estavam presentes  funo os enviados dos
prncipes, para recordar como h sculos a nossa ordem estava pronta a resistir 
perseguio dos poderosos, graas  sua privilegiada relao com o Senhor, Deus dos
exrcitos. E na verdade o incio do canto deu uma grande impresso de poder.
   Com a primeira silaba se comeou um coro lento e solene de dezenas e dezenas de
vozes, cujo som baixo encheu as naves e pairou sobre as nossas cabeas, e todavia
parecia surgir do corao da terra. E no se interrompeu, porque, enquanto outras vozes
comeavam a tecer, sobre aquela linha de profundidade e continua, uma srie de
vocalizos e de melismos, ele - telrico - continuava a dominar, e no cessou durante
todo o tempo que  necessrio a um recitante de voz cadenciada e lenta pare repetir
doze vezes a Ave-Maria. E, como libertas de todo o temor pela confiana que aquela
obstinada slaba, alegoria da durao eterna, dava aos orantes, as outras vozes (e acima
de todas as dos novios) sobre aquela base ptrea e slida elevavam cspides, colunas,
pinculos de neumas liquescentes e pontiagudos. E enquanto o meu corao entontecia
de doura ao vibrar de um climacus ou de um porrectus, de um torculus ou de um
salicus, aquelas vozes pareciam dizer-me que a alma (a dos orantes e a minha que os
escutava), no podendo suportar a exuberncia do sentimento, atravs deles se
dilacerava pare exprimir a alegria, a dor, o louvor, o amor, com impulso de sonoridades
suaves. Entretanto, o obstinado afinco das vozes atnicas no cedia, como se a presena
ameaadora dos inimigos, dos poderosos que perseguiam o povo do Senhor,
permanecesse irresoluta. At que aquele netnico tumultuar de uma s nota pareceu
vencido, ou pelo menos convencido e cativo do jbilo aleluitico de quem se lhe opunha,
e desvaneceu-se num majestoso e perfeitssimo acordo e num neuma supino.
  Pronunciado com dificuldade quase obtusa o sederunt, elevou-se no ar o
prncipes, numa grande e serfica calma. Deixei de me perguntar quem eram os
poderosos que falavam contra mim (contra ns), tinha desaparecido, tinha-se dissipado a
sombra daquele fantasma sentado e ameaador.
  E outros fantasmas, acreditei ento, se dissiparam naquela altura, porque olhando de
novo para a estala de Malaquias, depois de a minha ateno ter sido absorvida pelo
canto, vi a figura do bibliotecrio entre as dos outros orantes, como se jamais tivesse
faltado. Olhei para Guilherme e vi uma ligeira expresso de alvio nos seus olhos, a
mesma que distingui de longe nos olhos do Abade. Quanto a Jorge, tinha de novo
estendido as mos e, encontrando o corpo do seu vizinho, tinha-as prontamente retirado.
Mas, quanto a ele, no saberia dizer que sentimentos o agitavam.
   Agora o coro estava entoando festivamente o adjuva me, cujo a claro se espalhava
alegremente pela igreja, e mesmo o u no parecia sombrio, como o de sederunt, mas
cheio de santa energia. Os monges e os novios cantavam, como quer a regra do canto,
com o corpo direito, a garganta livre, a cabea olhando para o alto, o livro quase 
altura dos ombros de modo que se possa ler sem que, baixando a cabea, o ar saia com
menor energia do peito. Mas a hora era ainda noturna e, apesar de ressoarem as
trombetas da jubilao, a caligem do sono insidiava muitos dos cantores que, perdidos
talvez na emisso de uma longa nota, confiantes na prpria onda do cntico, por vezes
reclinavam a cabea, tentados pela sonolncia. Ento, os vigilantes, mesmo naquela
circunstancia, exploravam os rostos com a lanterna, um a um, para os reconduzirem
justamente  viglia, do corpo e da alma.
   Foi pois um vigilante o primeiro que descobriu Malaquias a cabecear de modo
estranho, a oscilar como se de repente tivesse cado outra vez nas nvoas cimrias de um
sono que provavelmente naquela noite no tinha dormido. Aproximou-se dele com a
lmpada, iluminando-lhe o rosto e atraindo assim a minha ateno. O bibliotecrio no
reagiu. O vigilante tocou-lhe, e ele caiu pesadamente para a frente. O vigilante mal teve
tempo de o suster antes que ele se precipitasse no solo.
  O canto abrandou, as vozes extinguiram-se, houve um breve alvoroo.
   Guilherme tinha imediatamente saltado do seu lugar e tinha-se precipitado para onde
j Pacifico de Tivoli e o vigilante estavam estendendo por terra Malaquias, inanimado.
   Alcanamo-los quase ao mesmo tempo que o Abade, e  luz da lmpada vimos o rosto
do infeliz. J descrevi o aspecto de Malaquias, mas naquela noite, quela luz, ele era
ento a prpria imagem da morte. O nariz afilado, os olhos cavos, as tmporas
encovadas, as orelhas brancas e contradas com os lobos voltados para fora, a pele da
cara j estava rgida, tesa e seca, a cor das faces amarelada e coberta de uma sombra
escura. Os olhos ainda estavam abertos e uma respirao difcil saa daqueles lbios
requeimados. Abriu a boca e, inclinado para trs de Guilherme, que se tinha inclinado
sobre ele, vi agitar-se na fiada dos seus dentes uma lngua j negra. Guilherme levantou-
o, abraando-o pelos ombros, com a mo limpou-lhe um vu de suor que lhe tornava
lvida a fronte. Malaquias sentiu um toque, uma presena, olhou fixamente diante de si,
certamente sem ver, seguramente sem reconhecer quem estava  sua frente. Levantou
uma mo trmula, agarrou Guilherme pelo peito, puxando-lhe a cara at quase tocar a
sua; depois, dbil e roucamente, proferiu algumas palavras: - Tinha-mo dito... na
verdade... tinha o poder de mil escorpies...
  - Quem to tinha dito? - perguntou-lhe Guilherme. - Quem?
   Malaquias tentou ainda falar. Depois foi sacudido por um grande tremor e a cabea
caiu-lhe de novo para trs. O rosto perdeu toda a cor, toda a aparncia de vida. Estava
morto.
  Guilherme levantou-se. Descobriu a seu lado o Abade, e no lhe disse uma palavra.
Depois viu, atrs do Abade, Bernardo Gui.
  - Senhor Bernardo - perguntou Guilherme -, quem matou este, se vs to bem
encontrastes e encarcerastes os assassinos?
   - No mo pergunteis a mim - disse Bernardo. - Nunca disse ter entregue  justia todos
os malvados que vagueiam por esta abadia. T-lo-ia feito de boa vontade, se pudesse - e
olhou para Guilherme. - Mas os outros agora deixo-os  severidade... ou  excessiva
indulgncia do senhor Abade.
  Disse, enquanto o Abade empalidecia em silncio. E afastou-se.
  Naquele entretanto ouvimos como um pipilar, um soluo abafado. Era Jorge, dobrado
sobre o seu genuflexrio, segurado por um monge que devia ter-lhe descrito o
acontecido.
  - Jamais acabar - disse com voz entrecortada. - Oh, Senhor, perdoa-nos a todos!
   Guilherme inclinou-se ainda um momento sobre o cadver. Agarrou-lhe os pulsos,
voltando-lhe para a luz as palmas das mos. As pontas dos primeiros dedos da mo
direita estavam escuras.
  SEXTO DIA
  LAUDAS
  Onde  eleito um novo despenseiro, mas no um novo bibliotecrio.
   Era j a hora de laudas? Era mais cedo ou mais tarde? A partir daquele momento perdi
a noo do tempo. Passaram talvez horas, talvez menos, em que o corpo de Malaquias
esteve estendido na igreja sobre um catafalco, enquanto os irmos se dispunham em
leque. O Abade dava disposies para as prximas exquias. Ouvi-o chamar a si Bncio e
Nicolau de Morimondo. No espao de menos de um dia, disse, a abadia tinha sido privada
do bibliotecrio e do despenseiro.
   - Tu - disse a Nicolau - assumirs as funes de Remgio. Conheces o trabalho de
muitos, aqui na abadia. Pe algum em teu lugar de guarda s forjas, prov s
necessidades imediatas de hoje, na cozinha, no refeitrio. Ests dispensado dos ofcios.
Vai. - Depois, a Bncio: - Precisamente ontem  noite foste nomeado ajudante de
Malaquias. Prov  abertura do scriptorium e vigia que ningum suba sozinho 
biblioteca.
  Bncio fez timidamente observar que ainda no tinha sido iniciado nos segredos
daquele lugar. O Abade fixou-o com severidade:
  - Ningum disse que o sers. Tu vigia que o trabalho no pare e seja vivido como
orao pelos irmos mortos... e por aqueles que morrero ainda. Cada um trabalhar
apenas sobre os livros que j lhe foram entregues, quem quiser poder consultar o
catlogo. Nada mais. Ests dispensado das vsperas, porque quela hora fechars tudo.
  - E como sairei? - perguntou Bncio.
  -  verdade, fecharei eu as portas de baixo depois da ceia. Vai.
  Saiu com eles, evitando Guilherme, que procurava falar-lhe. No coro ficavam, em
pequeno grupo, Alinardo, Pacifico de Tivoli, Aymaro de Alexandria e Pedro de
Sant'Albano. Aymaro escarnecia.
  - Agradeamos ao Senhor - disse. - Morto o alemo, corramos o risco de termos um
novo bibliotecrio mais brbaro ainda.
  - Quem pensais que ser nomeado para o seu lugar? - perguntou Guilherme.
  Pedro de Sant'Albano sorriu de modo enigmtico:
  - Depois de tudo o que aconteceu nestes dias, o problema j no  o bibliotecrio,
mas sim o Abade...
  - Cala-te - disse-lhe Pacfico.
  E Alinardo, sempre com o seu olhar absorto:
  - Vo cometer outra injustia... como nos meus tempos.  preciso impedi-los.
  - Quem? - perguntou Guilherme.
   Pacfico pegou-lhe confidencialmente por um brao e acompanhou-o para longe do
velho, em direo  porta.
   - Alinardo... tu bem sabes, amamo-lo muito, representa para ns a antiga tradio e
os dias melhores da abadia... Mas por vezes fala sem saber o que diz. Todos ns estamos
preocupados por causa do novo bibliotecrio. Dever ser digno, e maduro, e sbio... Eis
tudo.
  - Dever conhecer o grego? - perguntou Guilherme.
  - E o rabe, assim quer a tradio, assim exige o seu ofcio. Mas h muitos entre ns
com estes dotes. Eu, humildemente, e Pedro, e Aymaro...
  - Bncio sabe grego?
  - Bncio  demasiado jovem. No sei porque  que Malaquias o escolheu ontem como
seu ajudante, mas...
  - Adelmo conhecia o grego?
  - Creio que no. Alis, no, sem dvida.
  - Mas conhecia-o Venancio. E Berengrio. Est bem, agradeo-te.
  Samos para ir tomar qualquer coisa  cozinha.
  - Porque quereis saber quem conhecia o grego? - perguntei.
  - Porque todos aqueles que morrem com os dedos negros conhecem o grego. Portanto
no ser mal esperarmos o prximo cadver entre aqueles que sabem grego. Eu includo.
Tu ests salvo.
  - E que pensais das ltimas palavras de Malaquias?
  - Tu ouviste-as. Os escorpies. A quinta trombeta anuncia entre outras coisas a sada
dos gafanhotos que atormentaro os homens com um aguilho semelhante ao do
escorpio, bem o sabes. E Malaquias fez-nos saber que algum lho tinha anunciado.
  - A sexta trombeta - disse eu - anuncia cavalos com cabeas de lees de cuja boca sai
fumo e fogo e enxofre, montados por homens cobertos de couraas cor de fogo, jacinto e
enxofre.
  - Coisas de mais. Mas o prximo delito poderia ter lugar perto das cavalarias. Ser
preciso t-las debaixo de olho. E preparemo-nos para o stimo ressoar. Mais duas
pessoas, portanto. Quem so os candidatos mais provveis? Se o objetivo  o segredo do
finis Africae, aqueles que o conhecem. E, que eu saiba, existe s o Abade. A menos que a
trama no seja ainda outra. Como ouviste, h pouco, estavam conjurando para depor o
Abade, mas Alinardo falou no plural...
  - Ser preciso prevenir o Abade? - disse eu.
   - De qu? Que o mataro? No tenho provas convincentes. Eu procedo como se o
assassino raciocinasse como eu. Mas se perseguisse um outro desgnio? E se, sobretudo,
no houvesse um assassino?
  - Que pretendeis dizer?
  - No sei exatamente. Mas, como te disse,  preciso imaginar todas as ordens
possveis, e todas as desordens.
  SEXTO DIA
  PRIMA
  Onde Nicola conta muitas coisas enquanto se visita a cripta do tesouro.
  Nicolau de Morimondo, no seu novo papel de despenseiro, estava dando ordens aos
cozinheiros, e estes estavam a dar-lhe informaes sobre os usos da cozinha. Guilherme
queria falar-lhe, e ele pediu-nos que esperssemos alguns minutos. Depois, disse, deveria
descer  cripta do tesouro para vigiar o trabalho de limpeza das custdias, que ainda lhe
competia, e ali teria mais tempo para conversar.
   Pouco depois, de fato, convidou-nos a segui-lo, entrou na igreja, passou por trs do
altar-mor (enquanto os monges estavam dispondo um catafalco na nave, para velar os
despojos mortais de Malaquias), e fez-nos descer uma escada estreita, aos ps da qual
nos encontramos numa sala de abbadas muito baixas sustentadas por grossas pilastras
de pedra no trabalhada. Estvamos na cripta em que se guardavam as riquezas da
abadia, lugar de que o Abade era muito cioso e que se abria apenas em circunstancias
excepcionais e para hspedes de muito respeito.
   A toda a volta havia custodias de diferentes tamanhos, no interior das quais a luz das
rochas (acesas por dois ajudantes da confiana de Nicolau) fazia resplandecer objetos de
maravilhosa beleza. Paramentos dourados, coroas de ouro com incrustaes de gemas,
escrnios de vrios metais historiados com figuras, trabalhos de nielo, marfins. Nicolau
mostrou-nos, extasiado, um evangelirio cuja encadernao ostentava admirveis placas
de esmalte que compunham uma variedade unidade de compartimentos regulares,
divididos por filigranas de ouro e fixados, como pregos, por pedras preciosas. Indicou-nos
uma delicada edcula com duas colunas de lpis-lazli e ouro que enquadravam uma
deposio do sepulcro representada em delicado baixo-relevo de prata encimada por
uma cruz de ouro com treze diamantes incrustados sobre um fundo de nix variado,
enquanto o pequeno fronto era armado em gata e rubis. Depois vi um dptico
criselefantino dividido em cinco partes, com cinco cenas da vida de Cristo, e ao centro
um cordeiro mstico composto de alvolos de prata dourada com massa de vidro, nica
imagem policroma sobre um fundo de crea brancura.
  O rosto, os gestos de Nicolau,  medida que nos indicava estas coisas, iluminavam-se
de orgulho. Guilherme louvou as coisas que tinha visto, depois perguntou a Nicolau que
espcie de pessoa era Malaquias.
  - Estranha pergunta - disse Nicolau -, tu tambm o conhecias.
   - Sim, mas no o bastante. Nunca compreendi que pensamentos ocultava... e... -
hesitou em pronunciar juzos sobre algum que h pouco tinha desaparecido - ...e se os
tinha.
  Nicolau umedeceu um dedo, passou-o sobre uma superfcie de cristal que no estava
perfeitamente polida e respondeu com um meio-sorriso, sem olhar Guilherme no rosto:
   - Vs que no tens necessidade de fazer perguntas...  verdade, no dizer de muitos,
Malaquias parecia bastante pensativo, mas era, pelo contrrio, um homem muito
simples. Segundo Alinardo, era um idiota.
  - Alinardo guarda rancor a algum por um acontecimento remoto, quando lhe foi
negada a dignidade de bibliotecrio.
   - Tambm eu ouvi falar disso, mas trata-se de uma velha histria, remonta h pelo
menos cinqenta anos. Quando eu aqui cheguei era bibliotecrio Roberto de Bobbio, e os
velhos murmuravam sobre uma injustia cometida em prejuzo de Alinardo. Ento no
quis aprofundar, porque me parecia falta de respeito para com os mais velhos e no
queria prestar-me a murmuraes. Roberto tinha um ajudante, que depois morreu, e em
seu lugar foi nomeado Malaquias, ainda muito jovem. Muitos disseram que no tinha
mrito algum, que afirmava saber grego e rabe e no era verdade, era apenas um bom
imitador que copiava em bela caligrafia os manuscritos naquelas lnguas mas sem
compreender o que copiava. Dizia-se que um bibliotecrio deve ser bastante mais douto.
Alinardo, que ento era ainda um homem cheio de fora, disse coisas durssimas sobre
essa nomeao. E insinuou que Malaquias tinha sido posto naquele lugar para fazer o
jogo do seu inimigo, mas no compreendi de quem falava. Eis tudo. Sempre se murmurou
que Malaquias defendia a biblioteca como um co de guarda mas sem bem compreender
aquilo que ela encerrava. Por outro lado, tambm se murmurou contra Berengrio,
quando Malaquias o escolheu como seu ajudante. Dizia-se que ele tambm no era mais
hbil que o seu mestre, que era apenas um intriguista. Tambm se disse... mas, alis,
tambm tu deves ter ouvido estas murmuraes... que havia uma estranha relao entre
Malaquias e ele... coisas velhas, depois sabes que se murmurou de Berengrio e de
Adelmo, e os copistas jovens diziam que Malaquias sofria em silncio um cime atroz... E
depois tambm se murmurava das relaes entre Malaquias e Jorge, no, no no sentido
que podes imaginar... nunca ningum murmurou sobre a virtude de Jorge! Mas
Malaquias, como bibliotecrio, por tradio, devia ter eleito o Abade como seu
confessor, enquanto todos os outros se confessam a Jorge (ou a Alinardo, mas o velho j
est quase demente)... Pois bem, dizia-se que, apesar disso, Malaquias conversava com
demasiada freqncia com Jorge, como se o Abade dirigisse a sua alma, mas Jorge
regulasse o seu corpo, os seus gestos, o seu trabalho. Por outro lado, tu sabe-lo, viste-o,
provavelmente: se algum queria uma indicao sobre um livro antigo e esquecido, no a
pedia a Malaquias, mas a Jorge. Malaquias guardava o catlogo e subia  biblioteca, mas
Jorge sabia o que significava cada ttulo...
  - Porque  que Jorge sabia tantas coisas sobre a biblioteca?
   - Era o mais velho, depois de Alinardo, est aqui desde a sua juventude. Jorge deve
ter mais de oitenta anos, diz-se que est cego h pelo menos quarenta anos ou talvez
mais...
  - Como  que conseguiu tornar-se to sabedor antes da cegueira?
   - Oh, existem lendas sobre ele. Parece que j em criana era tocado pela graa
divina, e l, em Castela, ainda impbere, lia livros dos rabes e dos doutores gregos. E
depois, mesmo aps a cegueira, mesmo agora, senta-se longas horas na biblioteca, pede
que lhe recitem o catlogo, pede que lhe tragam livros, e um novio l para ele em voz
alta durante horas e horas. Ele lembra-se de tudo, no  desmemoriado como Alinardo.
Mas porque me perguntas todas estas coisas?
   - Agora que Malaquias e Berengrio esto mortos, quem mais possui os segredos da
biblioteca?
  - O Abade, e o Abade dever agora transmiti-los a Bncio... se quiser...
  - Porqu se quiser?
   - Porque Bncio  jovem, foi nomeado ajudante quando Malaquias ainda era vivo, ser
ajudante-bibliotecrio  diferente de ser bibliotecrio. Por tradio, o bibliotecrio
torna-se depois Abade...
   - Ah,  assim... Por isso o lugar de bibliotecrio  to cobiado. Mas ento Abbone foi
bibliotecrio?
  - No, Abbone no. A sua nomeao teve lugar antes de eu aqui chegar, deve haver
agora trinta anos. Antes era abade Paulo de Rimini, um homem curioso de quem se
contam estranhas histrias: parece que era um leitor insacivel, conhecia de cor todos os
livros da biblioteca, mas tinha uma estranha enfermidade, no conseguia escrever,
chamavam-lhe Abbas agraphicus... Tornou-se abade muito jovem, dizia-se que tinha o
apoio de Algirdas de Cluny, o Doctor Quadratus... Mas isto so velhos falatrios dos
monges. Em suma, Paulo veio a ser abade, Roberto de Bobbio tomou o seu lugar na
biblioteca, mas era minado por um mal que o consumia, sabia-se que no poderia
presidir aos destinos da abadia, e quando Paulo de Rimini desapareceu...
  - Morreu?
   - No, desapareceu, no sei como, um dia partiu para uma viagem e no voltou mais,
foi talvez morto pelos ladres no decurso da viagem... Em suma, quando Paulo
desapareceu, Roberto no podia tomar o seu lugar, e houve tramas obscuras. Abbone,
diz-se, era filho natural do senhor desta regio, tinha crescido na abadia de Fossanova,
dizia-se que ainda moo tinha assistido So Toms quando ali morreu e tinha velado pelo
transporte daquele grande corpo descendo a escada de uma grande torre por onde o
cadver no conseguia passar... aquela era a sua glria, murmuravam as ms lnguas
daqui... O fato  que foi eleito abade, embora no tivesse sido bibliotecrio, e foi
instrudo por algum, Roberto, creio, nos mistrios da biblioteca.
  - E Roberto porque foi eleito?
   - No sei. Sempre procurei no investigar demasiado sobre estas coisas: as nossas
abadias so lugares santos, mas em torno da dignidade abacial so tecidas, por vezes,
horrveis tramas. Eu interessava-me pelos meus vidros e pelos meus relicrios, no queria
ser misturado com estas histrias. Mas agora compreendes porque no sei se o Abade
quer instruir Bncio, seria como design-lo seu sucessor, um rapaz irrefletido, um
gramtico quase brbaro, do extremo norte, como poderia saber deste pas, da abadia e
das suas relaes com os senhores do lugar...
   - Mas Malaquias tambm no era italiano, nem Berengrio, e no entanto foram postos
 frente da biblioteca.
   - Eis um fato obscuro. Os monges murmuram que de h meio sculo a esta parte a
abadia abandonou as suas tradies. Por isso, h mais de cinqenta anos, e talvez antes,
Alinardo aspirava a dignidade de bibliotecrio. O bibliotecrio sempre tinha sido italiano,
no faltam os grandes engenhos nesta terra. E depois vs... - e aqui Nicolau hesitou,
como se no quisesse dizer aquilo que ia dizer - ...vs, Malaquias e Berengrio esto
mortos, talvez para que no viessem a ser abades. - Sacudiu-se, agitou a mo diante do
rosto como para afugentar idias pouco honestas, depois fez o sinal da cruz. - Que coisa
estou eu dizendo? Vs, neste pas h muitos anos que se passam coisas vergonhosas,
mesmo nos mosteiros, na corte papal, nas igrejas... Lutas para conquistar o poder,
acusaes de heresia para tirar uma prebenda a algum... Que horror, eu estou a perder
a confiana no gnero humano, vejo conluios e conjures palacianas por toda a parte. A
isto devia reduzir-se tambm esta abadia, um ninho de vboras surgido por magia oculta
naquilo que era uma custdia de membros santos. Olha, o passado deste mosteiro!
   Apontava-nos os tesouros espalhados a toda a volta, e, deixando de lado cruzes e
outras alfaias sagradas, levou-nos a ver os relicrios que constituam a glria daquele
lugar.
  - Olhai  dizia -, esta  a ponta da lana que trespassou o lado do Salvador!
   Era uma caixa de ouro, com tampa de cristal, onde sobre uma almofadinha de prpura
repousava um pedao de ferro de forma triangular, j rodo pela ferrugem mas agora
trazido a um vivo esplendor por um longo trabalho de leos e de ceras. Mas isto ainda
no era nada. Porque numa outra caixa de prata com incrustaes de ametista, e cuja
parede anterior era transparente, vi um pedao do lenho venerando da santa cruz,
trazido para aquela abadia pela prpria rainha Helena, me do imperador Constantino,
depois de ter ido como peregrina aos lugares santos e de ter exumado a colina do
Glgota e o santo sepulcro, construindo nesse lugar uma catedral.
  Depois Nicolau fez-nos admirar outras coisas, e no saberia falar de todas, pela sua
quantidade e pela sua raridade. Estava, numa custdia toda de guas-marinhas, um
prego da cruz. Estava numa ampola, pousado num ninho de pequenas rosas murchas,
uma parte da coroa de espinhos, e noutra caixa, sempre sobre um tapete de flores secas,
um pedacinho amarelecido da toalha da ltima ceia. E depois estava a bolsa de So
Mateus, em malha de prata, e num cilindro, atado com uma fita violeta roda pelo tempo
e selado de ouro, um osso do brao de Santa Ana! Vi, maravilha das maravilhas,
encimada por um sino de vidro e sobre uma almofada vermelha bordada de prolas, um
pedao da manjedoura de Belm, e um palmo da tnica purprea de So Joo
Evangelista, duas das correntes que apertaram os tornozelos do apstolo Pedro em
Roma, o crnio de Santo Adalberto, a espada de Santo Estvo, uma tbia de Santa
Margarida, um dedo de So Vital, uma costela de Santa Sofia, o queixo de Santo Eobano,
a parte superior da omoplata de So Crisstomo, o anel de noivado de So Jos, um
dente do Baptista, a vara de Moiss, uma rendinha rasgada e finssima do vestido nupcial
da Virgem Maria.
   E depois outras coisas que no eram relquias mas representavam mesmo assim
testemunhos de prodgios e de seres prodigiosos de terras longnquas, trazidos pare a
abadia por monges que tinham viajado at aos extremos confins do mundo: um basilisco
e um hidra empalhados, um corno de unicrnio, um ovo que um eremita tinha
encontrado dentro de outro ovo, um pedao do man que nutriu os hebreus no deserto,
um dente de baleia, uma noz de coco, o mero de um animal pr-diluviano, a presa de
marfim de um elefante, a costela de um golfinho. E depois ainda outras relquias que no
reconheci, cujos relicrios eram talvez mais preciosos, e algumas (a avaliar pela fatura
dos seus recipientes de prata enegrecida) antiqssimas, uma srie infinita de fragmentos
de ossos, de tecido, de madeira, de metal, de vidro. E frascos com ps escuros, um dos
quais soube que continha os detritos calcinados da cidade de Sodoma, e outro cal dos
muros de Jeric. Tudo coisas, mesmo as mais modestas, pelas quais um imperador daria
mais de um feudo, e que constituam uma reserva no s de imenso prestgio mas
tambm de verdadeira riqueza material para a abadia que nos hospedava.
   Continuava a vaguear estupefato, enquanto Nicolau j tinha deixado de nos ilustrar os
objetos, que alis eram descritos cada um por uma etiqueta, j livre de passear quase ao
acaso por aquela reserva de maravilhas inestimveis, por vezes admirando aquelas coisas
em plena luz, outras vezes entrevendo-as na semiobscuridade, quando os aclitos de
Nicolau se afastavam para outro ponto da cripta com as suas tochas. Estava fascinado por
aquelas cartilagens amarelecidas, msticas e repugnantes ao mesmo tempo,
transparentes e misteriosas, por aqueles farrapos de vestidos de poca imemorial,
descorados, desfiados, por vezes enrolados num frasco como um manuscrito desbotado,
por aquelas matrias em migalhas que se confundiam com o tecido que lhes servia de
leito, detritos santos de uma vida que foi animal (e racional) e agora, aprisionados por
edifcios de cristal ou de metal que mimavam na sua minscula dimenso a ousadia das
catedrais de pedra, com as suas torres e as suas agulhas, pareciam transformados
tambm eles em substancia mineral. Assim, ento, os corpos dos santos esperam sepultos
a ressurreio da carne? Destes estilhaos se haveriam de recompor aqueles organismos
que no fulgor da viso divina, readquirindo toda a sua sensibilidade natural, haviam de
perceber, como escrevia Piperno, at as mnimas differentias odorum?
  Sacudiu-me das minhas meditaes Guilherme, que me tocava no ombro:
  - Eu vou-me embora - disse. - Subo ao scriptorium, ainda tenho de consultar uma
coisa...
  - Mas no se podero obter livros - disse eu - Bncio recebeu ordem...
   - Tenho s de examinar ainda o livro que lia no outro dia, e ainda esto todos no
scriptorium sobre a mesa de Venancio. Tu, se quiseres, fica aqui. Esta cripta  um belo
eptome aos debates sobre a pobreza a que assististe nestes dias. E agora sabes por que
coisa se esganam estes teus irmos, quando aspiram  dignidade abacial.
  - Mas vs acreditais naquilo que vos sugeriu Nicolau? Os delitos tm a ver ento com
uma luta pela investidura?
  - J te disse que por agora no quero arriscar hipteses em voz alta. Nicolau disse
muitas coisas. E algumas interessaram-me. Mas agora vou seguir uma outra pista ainda.
Ou talvez a mesma, mas por outro lado. E tu no te encantes demasiado com estas
custdias. Fragmentos da cruz vi muitos outros, noutras igrejas. Se todos fossem
autnticos, Nosso Senhor no teria sido supliciado sobre duas hastes cruzadas, mas sobre
uma floresta inteira.
  - Mestre! - disse eu escandalizado.
   -  assim, Adso. E h tesouros ainda mais ricos. H tempos, na catedral de Colnia, vi
o crnio de Joo Baptista com a idade de doze anos.
  - Verdade? - exclamei admirado. Depois, preso por uma dvida: - Mas o Baptista foi
morto em idade mais avanada!
  - O outro crnio deve estar noutro tesouro - disse Guilherme com ar srio.
  Eu nunca compreendia quando gracejava. Na minha terra, quando se brinca, diz-se
uma coisa e depois ri-se com muito barulho, de modo que todos participem na piada.
Guilherme, pelo contrrio, ria s quando dizia coisas srias, e ficava muito srio quando
presumivelmente gracejava.
  SEXTO DIA
  TERA
  Onde Adso, escutando o Dies irae, tem um sonho ou viso, como se lhe queira chamar.
   Guilherme saudou Nicolau e subiu ao scriptorium. Eu j tinha visto bastante do
tesouro, e decidi ir para a igreja rezar pela alma de Malaquias. Nunca tinha gostado
daquele homem, que me fazia medo, e no escondo que durante muito tempo o tinha
julgado culpado de todos os delitos. Agora tinha ouvido que talvez fosse um pobre
homem, oprimido por paixes insatisfeitas, vaso de barro entre vasos de ferro,
ensombrado porque desorientado, silencioso e evasivo porque consciente de nada ter a
dizer. Sentia um certo remorso em relao a ele, e pensei que a orao pelo seu destino
sobrenatural poderia aquietar os meus sentimentos de culpa.
   A igreja estava agora iluminada por uma claridade tnue e lvida, dominada pelos
despojos do desventurado, habitada pelo sussurro uniforme dos monges que recitavam o
ofcio dos mortos.
   No mosteiro de Melk tinha assistido vrias vezes ao trespasse de um irmo. Era uma
circunstancia que no posso dizer alegre mas que me parecia todavia serena, regulada
pela calma e por um sentido difuso de justia. Cada um se revezava na cela do
moribundo, confortando-o com boas palavras, e cada um pensava no seu corao como o
moribundo era feliz, porque estava prestes a coroar uma vida virtuosa e dentro em pouco
se uniria ao coro dos anjos, no jbilo que jamais tem fim. E parte desta serenidade, a
fragrncia daquela santa inveja, comunicava-se ao moribundo, que no fim falecia
sereno. Quo diversas tinham sido as mortes daqueles ltimos dias! Eu tinha finalmente
visto de perto como morria uma vtima dos diablicos escorpies do finis Africae, e
certamente tambm tinham morrido assim Venancio e Berengrio, procurando conforto
na gua, com o rosto j desfeito como o de Malaquias...
   Sentei-me no fundo da igreja, enrosquei-me sobre mim mesmo para combater o frio.
Senti um pouco de calor, movi os lbios para me unir ao coro dos meus irmos orantes.
Seguia-os quase sem dar conta do que diziam os meus lbios, com a cabea que me
descaa e os olhos que se me fechavam. Passou muito tempo, creio ter adormecido e
acordado pelo menos trs ou quatro vezes. Depois o coro entoou o Dies irae... O
salmodiar invadiu-me como um narctico. Adormeci de todo. Ou talvez, mais que
adormecer, ca exausto num agitado torpor, dobrado sobre mim mesmo, como uma
criatura ainda encerrada no ventre da me. E naquela nvoa da alma, encontrando-me
como numa regio que no era deste mundo, tive uma viso ou sonho, tanto faz.
   Penetrava por uma escada estreita num beco subterrneo, como se entrasse na cripta
do tesouro, mas acedia, descendo sempre, a uma cripta mais ampla, que eram as
cozinhas do Edifcio. Eram certamente as cozinhas, mas no s operavam fornos e potes
mas tambm foles e martelos, como se tambm ali tivessem marcado encontro os
ferreiros de Nicolau. Era tudo um relampejar vermelho de foges e de caldeiras, e
panelas a ferver que lanavam fumo enquanto  superfcie dos seus lquidos subiam
grossas bolhas crepitantes que se abriam, depois de repente com rumor surdo e
contnuo. Os cozinheiros agitavam espetos pelo ar, enquanto os novios, todos ali
reunidos, davam saltos para capturar os frangos e outras aves enfiadas naqueles ferros
em brasa. Mas, ao lado, os ferreiros martelavam com tal fora que todo o ar ensurdecia,
e nuvens de centelhas levantavam-se das bigornas confundindo-se com as que expeliam
os dois fornos.
  No compreendia se me encontrava no inferno ou num paraso como poderia t-lo
concebido Salvador, gotejante de molhos e palpitante de chourios. Mas no tive tempo
para me perguntar onde estava, porque um bando de homenzinhos, de anezinhos de
cabea grande em forma de panela, entraram a correr e, arrastando-me no seu mpeto,
impeliram-me para a soleira do refeitrio, obrigando-me a entrar.
   A sala estava adornada para uma festa. Grandes tapearias e estandartes pendiam das
paredes, mas as imagens que as adornavam no eram aquelas que habitualmente fazem
apelo  piedade dos fiis ou celebram as glrias dos reis. Elas pareciam mais inspiradas
nos marginalia de Adelmo e, das suas imagens, reproduziam as menos tremendas e as
mais grotescas: lebres que danavam em redor do mastro de cocanha, rios sulcados por
peixes que se lanavam espontaneamente na frigideira, segura por macacos vestidos de
bispos-cozinheiros, monstros de ventre gordo que danavam em redor de marmitas
fumegantes.
   Ao centro da mesa estava o Abade, vestido de festa, com um largo hbito de prpura
bordada, empunhando o seu garfo como um cetro. A seu lado, Jorge bebia de uma
grande caneca de vinho, e o despenseiro, vestido como Bernardo Gui, lia virtuosamente
por um livro em forma de escorpio as vidas dos santos e as passagens do evangelho, mas
eram histrias que falavam de Jesus, que gracejava com o apstolo recordando-lhe que
era uma pedra e sobre aquela pedra desavergonhada que rolava pela planura fundaria a
sua Igreja, ou a histria de So Jernimo, que comentava a Bblia dizendo que Deus
queria desnudar o traseiro a Jerusalm. E, a cada frase do despenseiro, Jorge ria
batendo com o punho na mesa e gritava: Tu sers o prximo abade, ventre de Deus!,
dizia assim mesmo, Deus me perdoe.
   A um sinal divertido do Abade entrou a teoria das virgens. Era uma fulgurante fila de
mulheres ricamente vestidas, no centro das quais me pareceu  primeira vista distinguir
minha me, depois dei-me conta do engano, porque se tratava certamente da rapariga
terrvel como exrcito alinhado para a batalha. Salvo que trazia na cabea uma coroa de
prolas brancas, em duas fiadas, e outras duas cascatas de prolas desciam de cada lado
do seu rosto, confundindo-se com outras duas fiadas de prolas que lhe pendiam sobre o
peito, e a cada prola estava preso um diamante grande como uma ameixa. Alm disso,
de ambas as orelhas descia uma fiada de prolas azuis que se uniam em gorjeira na base
do pescoo, branco e ereto como uma torre do Lbano. O manto era cor de mrice, e na
mo tinha uma taa de ouro com incrustaes de diamantes, a qual vim a saber, no sei
como, que continha o ungento mortal roubado um dia a Severino. Seguiam esta mulher,
bela como a aurora, outras figuras femininas, uma vestida de um manto branco bordado
sobre uma veste escura adornada por uma dupla estola de ouro semeada de flores do
campo; a segunda tinha um manto de damasco amarelo sobre uma veste rosa-plido
constelada de folhas verdes e com dois grandes quadrados fiados em forma de labirinto
escuro; e a terceira tinha o manto vermelho e a veste esmeralda salpicada de pequenos
animais vermelhos, e trazia nas mos uma estola bordada e branca; e, quanto s outras,
no observei as suas vestes, porque procurava compreender quem eram aquelas que
acompanhavam a rapariga, que agora se parecia com a Virgem Maria; e como se cada
uma trouxesse na mo ou lhe sasse da boca uma etiqueta, soube que eram Rute, Sara,
Susana e outras mulheres da sagrada escritura.
   Naquela altura, o Abade gritou: Traete, filii de puta!, e entrou no refeitrio outra
fileira bem ordenada de personagens sagrados, que reconheci logo, austera e
esplendidamente vestidos, e no centro da fila estava um sentado no trono, que era Nosso
Senhor mas era ao mesmo tempo Ado, vestido com um manto de prpura e um grande
diadema vermelho e branco de rubis e prolas a fechar o manto sobre os ombros, na
cabea uma coroa semelhante  da rapariga, na mo uma taa maior, cheia de sangue
dos porcos. Outros santssimos personagens de que falarei, todos bem meus conhecidos,
faziam crculo  sua volta, mais uma fila de archeiros do rei de Frana, vestidos quer de
verde quer de vermelho, com um escudo esmeraldino sobre o qual ressaltava o
monograma de Cristo. O chefe daquela brigada dirigiu-se a prestar homenagem ao Abade
estendendo-lhe a taa, dizendo: Sao ko kelle terre per kelle fine ke ki kontene, trenta
anni le possette parte sancti Benedicti. Ao que o Abade respondeu: Age primum et
septimum de quatuor, e todos entoaram: In finibus Africae, amen. Em seguida todos
sederunt.
   Dispersas assim as duas fileiras opostas, a uma ordem do Abade Salomo comeou a
pr a mesa, Tiago e Andr trouxeram um molho de feno, Ado acomodou-se no centro,
Eva deitou-se sobre uma folha, Caim entrou arrastando um arado, Abel veio com um
balde para mungir Brunello, No fez uma entrada triunfal remando de p sobre a arca,
Abrao sentou-se debaixo de uma rvore, Isaac deitou-se sobre o altar de ouro da igreja,
Moiss agachou-se sobre uma pedra, Daniel apareceu sobre um estrado fnebre pelo
brao de Malaquias, Tobias estendeu-se sobre um leito, Jos atirou-se sobre um alqueire,
Benjamim estendeu-se sobre um saco, e depois ainda, mas aqui a viso tornava-se
confusa, David ficou de p sobre um montinho, Joo por terra, Fara na areia
(naturalmente, disse para comigo, mas porqu?), Lzaro sobre a mesa, Jesus na borda do
poo, Zaqueu nos ramos de uma rvore, Mateus sobre um escabelo, Raab sobre a estopa,
Rute sobre a palha, Tecla sobre o parapeito da janela (aparecendo do exterior o rosto de
Adelmo, que advertia que se podia mesmo cair no fundo do despenhadeiro), Susana no
horto, Judas no meio dos tmulos, Pedro na ctedra, Tiago numa rede, Elias numa sela,
Raquel sobre um fardo. E Paulo apstolo, pousada a espada, escutava Esa, que
resmungava, enquanto Job gemia no esterco e acorriam em seu auxlio Rebeca com uma
veste, Judite com um cobertor, Agar com um lenol morturio, e alguns novios traziam
um grande caldeiro fumegante do qual saltava Venancio de Salvemec, todo vermelho,
que comeava a distribuir chourios de sangue de porco.
   O refeitrio apinhava-se agora cada vez mais, e todos comiam  tripa-forra, Jonas
trazia para a mesa abboras, Isaas legumes, Ezequiel amoras, Zaqueu flores de
sicmoro, Ado limes, Daniel tremoos, Fara pimentos, Caim cardos, Eva figos, Raquel
mas, Ananias ameixas grandes como diamantes, Lia cebolas, Aaro azeitonas, Jos um
ovo, No uvas, Simeo caroos de pssegos, enquanto Jesus cantava o Dies irae e
alegremente espalhava sobre todos os alimentos vinagre que espremia de uma pequena
esponja que tinha tirado da lana de um dos archeiros do rei de Frana.
   Meus filhos,  minhas ovelhinhas, disse ento o Abade j brio, no podeis cear
assim vestidos como pedintes, vinde, vinde. E percutia o primeiro e o stimo dos quatro
que saam, disformes como espectros, do fundo do espelho, o espelho voava em
estilhaos e dele se precipitavam por terra, ao longo das salas do labirinto, vestes
multicolores incrustadas de pedras, todas sujas e rasgadas. E Zaqueu tomou uma veste
branca, Abrao uma cor de pardal, Lot uma cor de enxofre, Jonas azulada, Tecla
carmim, Daniel leonina, Joo irisada, Ado uma de peles, Judas de moedas de prata,
Raab escarlate, Eva cor da rvore do bem e do mal, e uns tomavam-na colorida, outros
cor de esparto, uns cor de cardo e outros azul-marinho, uns verde-rvore e outros
purprea, ou ento cor de ferrugem e negra e jacinto e cor de fogo e enxofre, e Jesus
pavoneava-se numa veste cor lumbina e rindo acusava Judas de jamais saber gracejar em
santa alegria.
   E naquela altura Jorge, depois de tirar os vitra ad legendum, acendeu uma sara
ardente com a lenha que Sara tinha trazido, Jefte tinha apanhado, Isaac tinha
descarregado, Jos tinha cortado, e, enquanto Jacob abria o poo e Daniel se sentava
junto ao lago, os servos traziam gua. No vinho, Agar um odre, Abrao um vitelo que
Raab atou a um poste enquanto Jesus estendia a corda e Elias lhe atava os ps: depois
Absalo prendeu-o pelos cabelos, Pedro estendeu a espada, Caim matou-o, Herodes
derramou o seu sangue, Sem deitou-lhe fora as entranhas e o esterco, Jacob ps o
azeite, Molessado o sal, Antoco p-lo ao fume, Rebeca cozinhou-o e Eva foi a primeira
a prov-lo e caiu-lhe mal, mas Ado dizia que no pensasse nisso e batia nas costas de
Severino, que aconselhava que lhe juntassem ervas aromticas. Em seguida, Jesus partiu
o po, distribuiu peixes, Jacob gritava porque Esa lhe tinha comido as lentilhas todas,
Isaac devorava sozinho um cabrito no forno e Jonas uma baleia fervida, e Jesus ficou em
jejum durante quarenta dias e quarenta noites.
   Entretanto, todos entravam e saam trazendo caa escolhida de todas as formas e
cores, de que Benjamim ficava sempre com a parte maior e Maria com a parte melhor,
enquanto Marta se queixava de ter sempre que lavar a loua toda. Depois dividiram o
vitelo, que entretanto se tinha tornado enorme, e Joo ficou com a cabea, Absalo a
cerviz, Aaro a lngua, Sanso a mandbula, Pedro a orelha, Holofernes a cabea, Lia o
c. Saul o colo, Jonas o ventre, Tobias o fel, Eva a costela, Maria o seio, Isabel a vulva,
Moiss a cauda, Lot as pernas e Ezequiel os ossos. Entretanto, Jesus devorava um burro,
So Francisco um lobo, Abel uma ovelha, Eva uma moria, o Baptista um gafanhoto,
Fara um polvo (naturalmente, disse pare comigo, mas porqu?), e David comia
cantride atirando-se sobre a rapariga nigra sed formosa enquanto Sanso ferrava os
dentes no lombo de um leo e Tecla fugia bradando perseguida por uma aranha grande e
peluda.
   J estavam evidentemente todos brios, e havia uns que escorregavam no vinho, que
caam nas panelas ficando s com as pernas de fora cruzadas como dois paus, e Jesus
tinha os dedos todos negros e estendia folhas de livro dizendo tomai e comei, estes so
os enigmas de Sinfsio, entre os quais o do peixe que  filho de Deus e vosso salvador. E
todos a beber, Jesus vinho de passes, Jonas ultramarino, Fara sorrentino (porqu?),
Moiss gaditano, Isaac cretense, Aaro adriano, Zaqueu arbustino, Tecla queimado, Joo
albano, Abel campano, Maria signing, Raquel florentino.
  Ado gorgulhava voltado pare trs e o vinho saa-lhe da costela, No maldizia no sono
Cam, Holofernes ressonava sem suspeita, Jonas dormia como uma pedra, Pedro vigiava
at ao canto do galo, e Jesus acordou de repente ouvindo Bernardo Gui e Bertrando do
Poggerto que resolviam queimar a rapariga; e gritou, pai, se  possvel, que passe de
mim este clice! E havia quem deitava mal, quem bebia bem, quem morria a rir e quem
ria ao morrer, quem trazia frascos e bebia pelo copo dos outros. Susana gritava que
jamais cederia o seu belo corpo branco ao despenseiro e a Salvador por um msero
corao de boi, Pilatos girava pelo refeitrio como uma alma penada pedindo gua para
as mos, e frei Dolcino, de pluma no chapu, levava-lha, depois abria a veste
chacoteando e mostrava as pudenta vermelhas de sangue, enquanto Caim fazia pouco
dele abraando a bela Margarida de Trento: e Dolcino punha-se a chorar e ia pousar a
cabea no ombro de Bernardo Gui chamando-lhe papa anglico, Ubertino consolava-o
com uma rvore da vida, Miguel de Cesena com uma bolsa de ouro, as Marias aspergiam-
no de ungentos e Ado convencia-o a fincar o dente numa ma acabada de colher.
   E ento abriram-se as abbadas do Edifcio e desceu do cu Roger Bacon sobre uma
mquina voadora, unico homine regente. Depois, David tocou a ctara e Salom danou
com os seus sete vus, e a cada vu que caa soava uma das sete trombetas e mostrava
um dos sete selos at que ficou unicamente amicta sole. Todos diziam que nunca se
tinha visto uma abadia to alegre, e Berengrio levantava a cada um a veste, homens e
mulheres, beijando-os no traseiro. E teve incio uma dana, Jesus vestido de maestro,
Joo de guarda, Pedro de recirio, Nemrod de caador, Judas de delator, Ado de
jardineiro, Eva de tecedeira, Caim de ladro, Abel de pastor, Jacob de bedel, Zacarias
de sacerdote, David de red, Jubal de citarista, Tiago de pescador, Antoco de cozinheiro,
Rebeca de aguadeiro, Molessado de estpido, Marta de serve, Herodes de doido furioso,
Tobias de mdico, Jos de carpinteiro, No de bbado, Isaac de campons, Job de
homem triste, Daniel de juiz, Tamar de prostituta, Maria de patroa, e ordenava aos
servos que trouxessem mais vinho porque o insensato do seu filho no queria transformar
a gua.
   Foi ento que o Abade perdeu as estribeiras porque, dizia, ele tinha organizado uma
festa to bonita e ningum lhe doava nada: e todos competiram ento para lhe levarem
presentes e tesouros, um touro, uma ovelha, um leo, um camelo, um veado, um vitelo,
uma jumenta, um carro solar, o queixo de Santo Eobano, a cauda de Santa Morimonda, o
tero de Santa Arundalina, a nuca de Santa Burgosina, cinzelada como uma taa com a
idade de doze anos, e uma cpia do Pentagonum Salomonis. Mas o Abade ps-se a gritar
que assim fazendo procuravam distrair a sua ateno, e de fato saqueavam-lhe a cripta
do tesouro, onde agora nos encontrvamos todos, e que lhe tinham tirado um livro
preciosssimo que falava dos escorpies e das sete trombetas, e chamava os archeiros do
rei de Frana para que revistassem todos os suspeitos. E foram encontrados, para
vergonha de todos, um tecido multicolor sobre Agar, um selo de ouro sobre Raquel, um
espelho de prata no seio de Tecla, um sifo para beber debaixo do brao de Benjamim,
uma coberta de seda entre as vestes de Judite, uma lana na mo de Longino e a mulher
de outro nos braos de Abimeleque. Mas o pior aconteceu quando encontraram um galo
negro  rapariga, negra e belssima como um gato da mesma cor, e lhe chamaram bruxa
e pseudo-apstolo, de modo que todos se lanaram sobre ela para a punirem. O Baptista
decapitou-a, Abel esganou-a, Ado expulsou-a, Nabucodonosor escreveu-lhe com uma
mo em brasa signos zodiacais no seio, Elias raptou-a num carro de fogo, No mergulhou-
a na gua, Lot transformou-a numa esttua de sal, Susana acusou-a de luxria, Jos
traiu-a com outra, Ananias meteu-a numa fornalha, Sanso acorrentou-a, Paulo flagelou-
a, Pedro crucificou-a de cabea para baixo, Estevo lapidou-a, Loureno queimou-a na
grelha, Bartolomeu esfolou-a, Judas denunciou-a, o despenseiro queimou-a, e Pedro
negava tudo. Depois, todos se lanaram sobre aquele corpo cobrindo-o de excrementos,
pisando-lhe a cara, urinando-lhe na cabea, vomitando-lhe no seio, arrancando-lhe os
cabelos, golpeando-lhe as ndegas com fachos ardentes. O corpo da rapariga, to belo e
to doce em tempos, estava agora a descarnar-se, subdividindo-se em fragmentos que se
dispersavam pelas custdias e pelos relicrios de cristal e de ouro da cripta. Ou melhor,
no era o corpo da rapariga que ia povoar a cripta, eram os fragmentos da cripta que
redemoinhando pouco a pouco se compunham para formar o corpo da rapariga, agora
coisa mineral, e depois de novo se decompunham dispersando-se, poeira sagrada de
segmentos acumulados por uma insensata impiedade. Era agora como se um nico corpo
imenso se tivesse ao longo dos milnios dissolvido nas suas partes e estas partes se
tivessem disposto para ocupar toda a cripta, mais resplandecente mas no
dessemelhante do ossrio dos monges defuntos, e como se a forma substancial do prprio
corpo do homem, obra-prima da criao, se tivesse fragmentado em formas acidentais
mltiplas e separadas, tornando-se assim imagem do seu contrrio, forma j no ideal
mas terrena, de p e estilhaos nauseabundos, apenas capazes de significar morte e
destruio...
   J no encontrava agora os personagens do banquete, nem os presentes que tinham
trazido, era como se todos os hspedes do simpsio estivessem agora na cripta, cada um
mumificado num detrito prprio, cada um difana sindoque de si mesmo, Raquel como
um osso, Daniel como um dente, Sanso como um maxilar, Jesus como um farrapo de
veste purpurina. Como se no fim do banquete, tendo-se a festa transformado no
massacre da rapariga, este se tivesse tornado o massacre universal e aqui visse o seu
resultado final, os corpos (que digo?, a totalidade do corpo terrestre e sublunar daqueles
comensais famlicos e sequiosos) transformados num nico corpo morto, dilacerado e
atormentado como o corpo de Dolcino depois do suplcio, transformado num imundo e
resplandecente tesouro, estendido em toda a sua superfcie como a pele de um animal
esfolado e dependurado que porm contivesse ainda petrificados, com o couro, as
vsceras e os rgos todos, e os prprios traos do rosto. A pele com cada uma das suas
pregas, rugas e cicatrizes, com os seus planos aveludados, com a floresta dos plos, da
ctis, do peito, e das pudenta, convertidas num suntuoso damasco, e os seios, as unhas,
as formaes crneas sob o calcanhar, os filamentos das pestanas, a matria aquosa dos
olhos, a polpa dos lbios, a frgil espinha dorsal, a arquitetura dos ossos, tudo reduzido a
farinha arenosa, sem que nada porm tivesse perdido a prpria figura e disposio
recproca, as pernas esvaziadas e frouxas como um escarpim, a sua carne disposta ao
lado como um casulo com todos os arabescos vermelhos das veias, o amontoado
cinzelado das vsceras, o intenso e mucoso rubi do corao, a teoria nacarada dos dentes
todos iguais dispostos em colar, com a lngua como um brinco rosa e azul, os dedos
alinhados como crios, o selo do umbigo a reatar os fios deslocados do tapete do
ventre... De toda a parte, na cripta, agora escarnecia de mim, sussurrava-me,
convidava-me  morte este macrocorpo subdividido em custdias e relicrios e todavia
reconstrudo na sua vasta e irracional totalidade, e era o mesmo corpo que na ceia comia
e cabriolava obsceno e que me aparecia no entanto j fixado na intangibilidade da sua
runa surda e cega. E Ubertino, agarrando-me pelo brao at me enterrar as unhas na
carne, sussurrava-me: Vs,  a mesma coisa, aquele que antes triunfava na sua loucura
e que se deleitava no seu jogo agora est aqui, punido e premiado, liberto da seduo
das paixes, imobilizado pela eternidade, entregue ao gelo eterno que o conserve e que
o purifique, subtrado  corrupo atravs do triunfo da corrupo, porque j nada
poder reduzir a p aquilo que j  p e substancia mineral, mors est quies viatoris, finis
est omnis laboris...
   Mas de repente entrou na cripta Salvador, flamejante como um feio diabo, e gritou:
Estpido! No vs que esta  a grande besta liotarda do livro de Job? De que tens medo,
meu patrozinho? Aqui tens o pastelzinho de queijo! E repentinamente a cripta
iluminou-se de clares avermelhados e era de novo a cozinha, mas, mais que uma
cozinha, era o interior de um grande ventre, mucoso e viscoso, e ao centro estava um
animal negro como um corvo e com mil mos, acorrentado a uma grande grelha, que
alongava os seus membros para prender todos aqueles que se encontravam em seu redor,
e como o vilo que quando tem sede espreme o cacho de uvas assim aquele animal
enorme apertava aqueles que tinha capturado, de tal modo que os quebrava todos com
as mos, a uns as pernas, a outros a cabea, fazendo depois com eles uma grande
barrigada, arrotando um fogo que parecia mais fedorento que o enxofre. Mas, mistrio
altamente admirvel, aquela cena j no me incutia pavor, e surpreendia-me a olhar
com familiaridade para aquele bom diabo (assim pensei) que ao fim e ao cabo no era
outro seno Salvador, porque, agora, do corpo humano mortal, dos seus padecimentos e
da sua corrupo sabia tudo e no temia mais nada. De fato,  luz daquela chama, que
agora parecia gentil e acolhedora, revi todos os hspedes da ceia, agora restitudos  sua
figura, que cantavam afirmando que de novo tudo recomeava, e entre eles a rapariga,
ntegra e belssima, que me dizia: No  nada, no  nada, vers que depois volto mais
bela que antes, deixa que v s um momento arder na fogueira, depois voltaremos a ver-
nos aqui dentro! E mostrava-me, Deus me perdoe, a sua vulva, na qual entrei, e
encontrei-me numa caverna belssima, que parecia o vale ameno da idade de ouro,
orvalhado de guas e frutos e rvores sobre as quais cresciam os pasteizinhos de queijo.
E todos estavam agradecendo ao Abade pela bela festa, e manifestavam-lhe o seu afeto
e bom humor dando-lhe empurres, pontaps, arrancando-lhe a veste, atirando-o por
terra, dando-lhe vergastadas na verga, enquanto ele ria e pedia que no lhe fizessem
mais ccegas. E a cavalo em cavalos que lanavam nuvens de enxofre pelas narinas
entraram os frades de vida pobre, que traziam  cinta bolsas cheias de ouro com as quais
convertiam os lobos em cordeiros e os cordeiros em lobos, e coroavam-nos imperadores
com o beneplcito da assemblia do povo, que cantava hinos  infinita onipotncia de
Deus.  Ut cachinnis dissolvatur, torquea-tur rictibus!, Gritava Jesus agitando a coroa
de espinhos. Entrou o papa Joo imprecando contra a confuso e dizendo: Por este
andar no sei onde iremos parar! Mas todos se riam dele e, com o Abade  cabea,
saram com os porcos  procura de trufas na floresta. Eu estava para os seguir quando vi
num canto Guilherme, que saia do labirinto e tinha na mo o magnete, que o arrastava
velozmente para setentrio. No me deixeis, mestre!, gritei. Tambm eu quero ver o
que h no finis Africae!
   J viste!, respondeu-me Guilherme j longe. E acordei quando terminavam na igreja
as ltimas palavras do canto fnebre:
   Lacrimosa dies illa qua resurge! ex favilla iudicandus homo reus: huic ergo parce deus!
Pie lesu domine dona eis rquiem.
  Sinal que a minha viso, se no tinha durado, fulminante como todas as vises, mais
do que dura um amm, tinha durado pouco menos que um Dies irae.
  SEXTO DIA
  DEPOIS DE TERA
  Onde Guilherme explica a Adso o seu sonho.
  Sa estonteado pelo portal principal e encontrei-me diante de um a pequena multido.
Eram os franciscanos que partiam, e Guilherme tinha descido para os saudar.
  Juntei-me ao adeus, aos abraos fraternos. Depois perguntei a Guilherme quando
partiriam os outros, com os prisioneiros. Disse-me que j tinham partido meia hora
antes, enquanto ns estvamos no tesouro, talvez, pensei, enquanto eu j estava
sonhando.
   Por um momento fiquei consternado, depois refiz-me. Antes assim. No teria podido
suportar a viso dos condenados (digo o pobre desgraado despenseiro, Salvador... e
decerto digo tambm a rapariga), arrastados para longe e para sempre. E, depois, estava
ainda to perturbado pelo meu sonho que os meus prprios sentimentos se tinham como
que enregelado.
   Enquanto a caravana dos menoritas se encaminhava para a porta de sada da cerca,
Guilherme e eu ficamos diante da igreja, ambos melanclicos, embora por razes
diversas. Depois decidi contar o sonho ao meu mestre. Por mais que a viso tivesse sido
multiforme e ilgica, recordava-a com extraordinria lucidez, imagem por imagem, gesto
por gesto, palavra por palavra. E assim a contei, sem transcurar nada, porque sabia que
os sonhos so muitas vezes mensagens misteriosas em que as pessoas doutas podem ler
clarssimas profecias.
  Guilherme escutou-me em silncio, depois perguntou-me:
  - Tu sabes o que sonhaste?
  - Aquilo que vos disse... - respondi desconcertado.
   - Decerto, eu compreendi. Mas sabes que, em grande parte, aquilo que tu me contaste
j foi escrito? Tu inseriste pessoas e acontecimentos destes dias num quadro que j
conhecias, porque a trama do
   sonho j a leste em qualquer parte, ou contaram-ta em criana, na escola, no
convento. E a Coena Cypriani.
   Fiquei perplexo por um instante. Depois recordei-me. Era verdade! Talvez me tivesse
esquecido do ttulo, mas que monge adulto ou jovem monge irrequieto no sorriu ou riu
sobre as vrias vises, em prosa ou em rima, desta histria que pertence  tradio do
rito pascal e dos ioca monachorum? Proibida ou vituperada pelos mais austeros de entre
os mestres dos novios, no h todavia convento em que os monges no a tenham
sussurrado em voz baixa, diversamente resumida e arranjada, enquanto alguns piamente
a transcreviam, afirmando que sob o vu da jocosidade ela escondia secretos
ensinamentos morais; e outros encorajavam a sua difuso, porque, diziam, atravs do
jogo os jovens podiam mais facilmente aprender de cor os episdios da histria sagrada.
Uma verso em verso tinha sido escrita para o pontfice Joo VIII, com a dedicatria: 
Ludere me libuit, ludentem, Papa Johannes, accipe. Ridere, si placel, ipse potes. E
dizia-se que o prprio Carlos, o Calvo, tinha posto em cena, a modo de jocosssimo
mistrio sagrado, uma verso rimada para divertir a cela os seus dignitrios:
  Ridens cadit Gaudericus Zacharias admiratur, supinus in lectulum docet Anastasius...
   E quantas repreenses tinha apanhado da parte dos mestres, quando eu e os meus
companheiros recitvamos passagens dela. Recordava-me de um velho monge de Melk
que dizia que um homem virtuoso como Cipriano no tinha podido escrever uma coisa
to indecente, uma semelhante e sacrlega pardia das escrituras, mais digna de um
infiel e de um bufo que de um santo mrtir... H anos que tinha esquecido aqueles
jogos infantis. Como  que naquele dia a Coena tinha voltado a aparecer to viva no meu
sonho? Sempre tinha pensado que os sonhos eram mensagens divinas, ou que no mximo
eram absurdos balbuciamentos da memria adormecida  volta de coisas acontecidas
durante o dia. Apercebia-me agora que tambm se podem sonhar livros, e que, portanto,
se podem sonhar sonhos.
  - Queria ser Artemidoro para interpretar retamente o teu sonho - disse Guilherme. -
Mas parece-me que mesmo sem a sapincia de Artemidoro  fcil compreender aquilo
que sucedeu. Tu viveste nestes dias, meu pobre rapaz, uma srie de acontecimentos em
que qualquer reta regra parece ter-se dissipado. E esta manh reaflorou  tua mente
adormecida a recordao de uma espcie de comdia em que, embora talvez com outros
intentos, o mundo se punha de cabea para baixo. A inseriste as tuas recordaes mais
recentes, as tuas nsias, os teus temores. Partiste dos marginalia de Adelmo para reviver
um grande carnaval em que tudo parece andar s avessas, e todavia, como na Coena,
cada um faz aquilo que verdadeiramente faz na vida. E no fim perguntaste-te, no sonho,
qual  o mundo errado, e que quer dizer prosseguir de cabea para baixo. O teu sonho j
no sabia onde era o alto e onde o baixo, onde a morte e onde a vida. O teu sonho
duvidou dos ensinamentos que recebeste.
  - Eu no - disse virtuosamente -, mas sim o meu sonho. Mas ento os sonhos no so
mensagens divinas, so divagaes diablicas e no contm nenhuma verdade!
   - No sei, Adso - disse Guilherme. - Temos j tantas verdades nas mos que no dia em
que chegasse tambm um a pretender extrair uma verdade dos nossos sonhos ento
estariam deveras prximos os tempos do Anticristo. E, todavia, quanto mais penso no teu
sonho mais o acho revelador. Talvez no para ti, mas para mim. Desculpa-me se me
apodero dos teus sonhos para desenvolver as minhas hipteses, eu sei,  uma coisa vil,
no se deveria fazer... Mas creio que a tua alma adormecida compreendeu mais coisas
do que compreendi eu em seis dias, e acordado...
  - Deveras?
  - Deveras. Ou talvez no. Acho o teu sonho revelador porque coincide com uma das
minhas hipteses. Mas deste-me uma grande ajuda. Obrigado.
  - Mas que havia no meu sonho que vos interessa tanto? Era sem sentido, como todos os
sonhos!
  - Tinha outro sentido, como todos os sonhos, e as vises. Deve ler-se alegoricamente
ou anagogicamente...
  - Como nas escrituras?
  - Um sonho  uma escritura, e muitas escrituras no so mais que sonhos.
  SEXTO DIA
  SEXTA
   Onde se reconstri a histria dos bibliotecrios e se tem algumas notcias mais sobre o
livro misterioso.
   Guilherme quis voltar a subir ao scriptorium, de onde tinha acabado de descer. Pediu
a Bncio para consultar o catlogo, e folheou-o rapidamente.
  - Deve estar por estes lados - dizia -, tinha-o visto precisamente h uma hora... -
Deteve-se sobre uma pgina. - C est  disse -, l este ttulo.
   Sob uma nica referncia (finis Africae!) estava uma srie de quatro ttulos, sinal que
se tratava de um nico volume que continha vrios textos. Li:
  I.   ar. de dictis cujusdam stulti
  II. syr. libellus alchemicus aegypt
  III. Expositio Magistri Alcofribae de cena beati Cypriani Cartaginensis Episcopi.
  IV. Liber acephalus de stupris virginum et meretricum amoribus
  - De que coisa se trata? - perguntei.
   - E o nosso livro - sussurrou-me Guilherme. - Eis porque o teu sonho me sugeriu alguma
coisa. Agora tenho a certeza que  este. E de fato... - folheava rapidamente as pginas
imediatamente precedentes e as seguintes - eis de fato os livros em que pensava, todos
juntos. Mas no  isto o que
   queria verificar. Escuta. Tens a tua tabuinha? Bem, devemos fazer um clculo, e
procura recordar-te bem quer do que nos disse Alinardo no outro dia quer do que
ouvimos esta manh a Nicolau. Ora, Nicolau disse-nos que ele chegou aqui h cerca de
trinta anos e Abbone j tinha sido nomeado abade. Antes era abade Paulo de Rimini.
Certo? Digamos que esta sucesso tem lugar  volta de mil duzentos e noventa, mais ano,
menos ano, no importa. Depois Nicolau disse-nos que, quando ele chegou, Roberto de
Bobbio j era bibliotecrio. Est bem? Morre depois, e o lugar  dado a Malaquias,
digamos no incio deste sculo. Escreve. H porm um perodo que precede a vinda de
Nicolau em que Paulo de Rimini  bibliotecrio. Desde quando o era? No no-lo disseram,
poderamos examinar os registros da abadia, mas imagino que esto na posse do Abade,
e de momento no queria pedir-lho. Ponhamos a hiptese que Paulo foi eleito
bibliotecrio h sessenta anos, escreve. Porque  que Alinardo se queixa do fato que, h
cerca de cinqenta anos, lhe devia tocar a ele o lugar de bibliotecrio e, ao contrrio,
foi dado a outro? Aludia a Paulo de Rimini?
  - Ou a Roberto de Bobbio! - disse eu.
   - Pareceria. Mas observa agora este catlogo. Sabes que os ttulos so registrados,
disse-no-lo Malaquias no primeiro dia. pela ordem das aquisies. E quem os escreve
neste catlogo? O bibliotecrio. Portanto seguindo a mudana de caligrafia nestas
pginas, podemos estabelecer a sucesso dos bibliotecrios. Agora observemos o
catlogo pelo fim, a ltima caligrafia  a de Malaquias, muito gtica, como vs. E enche
poucas pginas. A abadia no adquiriu muitos livros nestes ltimos trinta anos. Depois
comea uma srie de pginas escritas com uma caligrafia trmula, leio a claramente a
assinatura de Roberto de Bobbio, doente. Tambm aqui so poucas pginas, Roberto
permanece no cargo provavelmente no muito. E eis o que encontramos agora: pginas e
pginas de outra caligrafia, direita e segura, uma srie de aquisies (entre as quais o
grupo de livros que examinava h pouco) verdadeiramente impressionante. Quanto deve
ter trabalhado Paulo de Rimini! Demasiado, se pensares que Nicolau nos disse que se
tornou abade em idade muito jovem. Mas suponhamos que em poucos anos este leitor
voraz enriqueceu a abadia com tantos livros... No nos foi dito que lhe chamavam Abbas
agraphicus por causa daquele estranho defeito, ou doena, devido ao qual no conseguia
escrever? E ento quem escrevia aqui? Eu diria o seu ajudante-bibliotecrio. Mas se, por
acaso, este ajudante-bibliotecrio tivesse sido depois nomeado bibliotecrio, eis que
teria continuado a escrever ele, e compreenderamos porque h aqui tantas pginas
redigidas com a mesma caligrafia. Ento teramos, entre Paulo e Roberto, outro
bibliotecrio, eleito h cerca de cinqenta anos, que  o misterioso concorrente de
Alinardo, o qual esperava suceder ele, mais velho, a Paulo. Depois este desaparece e de
qualquer modo, contra as expectativas de Alinardo e de outros, para o seu lugar  eleito
Malaquias.
   - Mas porque estais to seguro que esta  a seqncia exata? Mesmo admitindo que
esta seja a caligrafia do bibliotecrio sem nome, porque  que, ao contrrio, no
poderiam ser de Paulo os ttulos das pginas ainda precedentes?
  - Porque entre essas aquisies esto registradas todas as bulas e as decretais, que
tm uma data precisa. Quero dizer, se tu encontras aqui, como encontras, a Firma
cautela de Bonifcio stimo, datada de mil duzentos e noventa e seis, sabes que este
texto no entrou antes desse ano, e podes pensar que no ter chegado muito depois.
Com isto, eu tenho como que marcos milirios dispostos ao longo dos anos, pelo que, se
concedo que Paulo de Rimini se torna bibliotecrio em mil duzentos e sessenta e cinco e
abade em mil duzentos e setenta e cinco, e encontro depois que a sua caligrafia, ou a de
qualquer outro que no  Roberto de Bobbio, dura de mil duzentos e sessenta e cinco a
mil duzentos e oitenta e cinco, descubro uma diferena de dez anos.
  O meu mestre era verdadeiramente muito perspicaz.
  - Mas que concluses tirais dessa descoberta? - perguntei ento.
  - Nenhuma - respondeu-me -, apenas premissas.
  Depois levantou-se e foi falar com Bncio. Este estava corajosamente no seu posto,
mas com um ar muito pouco seguro. Estava ainda  sua velha mesa e no tinha ousado
ocupar a de Malaquias junto do catlogo. Guilherme abordou-o com uma certa distncia.
No esquecamos a desagradvel cena da noite anterior.
   - Embora te tenhas tornado to potente, senhor bibliotecrio, querers dizer-me uma
coisa, espero. Naquela manh em que Adelmo e os outros discutiram aqui sobre os
enigmas argutos, e Berengrio fez a primeira referncia ao finis Africae, algum nomeou
a Coena Cypriani?
  - Sim - disse Bncio -, no to tinha dito? Antes de se falar dos enigmas de Sinfsio, foi
precisamente Venancio que se referiu  Coena, e Malaquias irritou-se, dizendo que era
uma obra ignbil e recordando que o Abade tinha proibido a todos a sua leitura...
  - O Abade, hem? - disse Guilherme. - Muito interessante. Obrigado, Bncio.
  - Esperai - disse Bncio -, quero falar-vos.
  Fez-nos sinal para o seguirmos para fora do scriptorium, para a escada que descia s
cozinhas, de modo que os outros no o ouvissem. Tremiam-lhe os lbios.
   - Tenho medo, Guilherme - disse. - Tambm mataram Malaquias. Agora eu sei
demasiadas coisas. E depois sou malvisto pelo grupo dos italianos... No querem mais um
bibliotecrio estrangeiro... Eu penso que os outros foram eliminados precisamente por
isso... Eu nunca vos falei do dio de Alinardo por Malaquias, dos seus rancores...
  - Quem  que lhe tirou o lugar, h anos?
   - Isso no sei, ele fala sempre disso de modo vago, e depois  uma histria remota.
Devem estar todos mortos. Mas o grupo dos italianos  roda de Alinardo faIa muitas
vezes... falava muitas vezes de Malaquias como de um homem de palha, posto aqui por
qualquer outro com a cumplicidade do Abade... Eu, sem dar conta disso... entrei no jogo
oposto de duas faces... S o compreendi esta manh... A Itlia  uma terra de
conjuras, envenenam os papas, imaginemos um pobre rapaz como eu... Ontem no o
tinha compreendido, julgava que tudo dizia respeito quele livro, mas agora j no
tenho a certeza, aquele foi o pretexto: vistes que o livro foi encontrado e Malaquias
morreu na mesma... Eu devo... quero... queria fugir. Que me aconselhais?
   - Que estejas calmo. Agora queres conselhos, no  verdade? Mas ontem  noite
parecias o dono do mundo. Tolo, se me tivesses ajudado ontem teramos impedido este
ltimo delito. Foste tu que deste a Malaquias o livro que o levou  morte. Mas diz-me ao
menos uma coisa. Tu aquele livro tiveste-o nas mos, tocaste-lhe, leste-o? E porque 
que ento no ests morto?
  - No sei. Juro, no lhe toquei, ou melhor, toquei-lhe para pegar nele no laboratrio,
sem o abrir, escondi-o sob a tnica e fui met-lo na cela debaixo do enxergo. Sabia que
Malaquias me vigiava e voltei imediatamente para o scriptorium. E depois, quando
Malaquias me ofereceu que me tornasse seu ajudante, conduzi-o  minha cela e
entreguei-lhe o livro.  tudo.
  - No me digas que nem sequer o abriste.
  - Sim, abri-o, antes de o esconder, para ter a certeza de que era verdadeiramente
aquele que tambm vs procurveis. Comeava com um manuscrito rabe, depois um
que creio em srio, depois havia um texto latino e por fim um em grego...
   Recordei-me das siglas que tnhamos visto no catlogo. Os primeiros dois ttulos eram
indicados como ar. e syr. Era o livro! Mas Guilherme insistia:
   - Portanto tocaste-lhe e no morreste. Ento no se morre ao toc-lo. E do texto
grego que me sabes dizer? Olhaste para ele?
   - Muito pouco, o bastante para compreender que era sem ttulo, comeava como se
lhe faltasse uma parte...
  - Liber acephalus... - murmurou Guilherme.
   - ...procurei ler a primeira pgina, mas na verdade eu conheo o grego muito mal,
teria tido necessidade de empregar mais tempo. E por fim intrigou-me um outro
pormenor, precisamente a propsito das folhas em grego. No as folheei de todo porque
no consegui. As folhas estavam, como dizer, impregnadas de umidade, no se
separavam bem umas das outras. E isto porque o pergaminho era estranho... mais macio
que os outros pergaminhos, o modo como a primeira pgina estava corroda, e quase se
desfazia, era... em suma, estranho.
  - Estranho: a expresso tambm usada por Severino  disse Guilherme.
  - O pergaminho no parecia pergaminho... Parecia tecido, mas fino... - continuava
Bncio.
  - Charta lintea, ou pergaminho de pano - disse Guilherme. - Nunca o tinhas visto?
  - Ouvi falar, mas no creio t-lo visto. Diz-se que  muito cara, e frgil. Por isso se usa
pouco. Fazem-na os rabes, no  verdade?
   - Foram os primeiros. Mas tambm a fazem aqui em Itlia, em Fabriano. E tambm...
Mas com certeza, claro, com certeza!  Os olhos de Guilherme cintilavam. - Que bela e
interessante revelao, muito bem, Bncio, agradeo-te! Sim, imagino que aqui na
biblioteca a charta lintea seja rara, porque no vos chegaram manuscritos muito
recentes. E depois muitos temem que no sobreviva  passagem dos sculos como o
pergaminho, e talvez seja verdade. Podemos imaginar se aqui queriam algo que no
fosse mais perene que o bronze... Pergaminho de pano, hem? Bem, adeus. E est
tranqilo. Tu no corres perigo.
  - Verdade, Guilherme, assegurais-mo?
  - Asseguro-to. Se estiveres no teu lugar. J arranjaste bastantes sarilhos.
   Afastamo-nos do scriptorium deixando Bncio, se no completamente sereno, mais
calmo.
   - Estpido! - disse Guilherme entre dentes enquanto vnhamos para fora. - Podamos j
ter resolvido tudo se no se tivesse metido pelo meio...
  Encontramos o Abade no refeitrio. Guilherme encarou-o e pediu-lhe um colquio.
Abbone no pde tergiversar e marcou-nos encontro, dentro em pouco, na sua casa.
  SEXTO DIA
  NONA
   Onde o Abade se recusa a escutar Guilherme, fala da linguagem das gemas e manifesta
o desejo de que no se indague mais sobre aqueles tristes acontecimentos.
   A casa do Abade ficava por cima do captulo, e pela janela da sala, grande e suntuosa,
em que ele nos recebeu, podiam ver-se, no dia sereno e ventoso, para l do teto da
igreja abacial, as formas do Edifcio.
   O Abade, em p diante de uma janela, estava precisamente a admir-lo, e indicou-no-
lo com um gesto solene.
   - Admirvel fortaleza - disse -, que resume nas suas propores a regra urea que
presidiu  construo da arca. Estabelecida sobre trs andares, porque trs  o nmero
da trindade, trs foram os anjos que visitaram Abrao, os dias que Jonas passou no
ventre do grande peixe, os que Jesus e Lzaro passaram no sepulcro; as vezes que Cristo
pediu ao Pai que o clice amargo se afastasse dele, aquelas que se afastou a rezar com
os apstolos. Trs vezes o renegou Pedro, e trs vezes se manifestou aos seus depois da
ressurreio. Trs so as virtudes teologais, trs as lnguas sagradas, trs as partes da
alma, trs as classes de criaturas intelectuais, anjos, homens e demnios, trs as
espcies do som, vox, flatus e pulsus, trs as pocas da histria humana, antes, durante
e depois da lei.
  - Maravilhoso concerto de correspondncias msticas - conveio Guilherme.
   - Mas tambm a forma quadrada - continuou o Abade -  rica de ensinamentos
espirituais. Quatro so os pontos cardeais, as estaes, os elementos, e o calor, o frio, o
mido e o seco, o nascimento, o crescimento, a maturidade e a velhice, e as espcies
celestes, terrestres, areas e aquticas dos animais, as cores constitutivas do arco-ris e
o nmero dos anos que  necessrio para fazer um bissexto.
  - Oh, decerto - disse Guilherme -, e trs mais quatro so sete, nmero mstico como
nenhum outro, enquanto trs multiplicado por quatro so doze, como os apstolos, e
doze vezes so cento e quarenta e quatro, que  o nmero dos eleitos.
  E, a esta ltima manifestao de mstico conhecimento do mundo hiperuranio dos
nmeros, o Abade no teve mais nada a acrescentar. O que permitiu a Guilherme entrar
no assunto.
  - Deveramos falar dos ltimos fatos, sobre os quais refleti longamente - disse.
  O Abade voltou as costas para a janela e encarou Guilherme com rosto severo:
   - Demasiado longamente, talvez. Confesso-vos, frade Guilherme, que esperava mais
de vs. Desde que aqui chegastes que se passaram quase seis dias, quatro monges
morreram, alm de Adelmo, dois foram presos pela inquisio... foi justia, decerto, mas
poderamos ter evitado esta vergonha se o inquisidor no tivesse sido obrigado a ocupar-
se dos delitos precedentes... e por fim o encontro de que eu era medianeiro, e
precisamente por causa de todos estes crimes, deu penosos resultados... Convireis que
podia esperar um desfecho diverso de todos estes acontecimentos quando vos pedi para
investigardes sobre a morte de Adelmo...
  Guilherme calou-se embaraado. Decerto que o Abade tinha razo. Disse no incio
deste relato que o meu mestre gostava de espantar os outros com a prontido das suas
dedues, e era lgico que o seu orgulho ficasse ferido quando o acusavam, e nem
sequer injustamente, de lentido.
   -  verdade  admitiu -, no satisfiz as vossas expectativas, mas dir-vos-ei porqu,
Vossa Sublimidade. Estes delitos no derivam de uma rixa ou de qualquer vingana entre
os monges, mas dependem de fatos que tm por sua vez origem na histria remota da
abadia...
  O Abade olhou-o com inquietao:
   - Que pretendeis dizer? Tambm eu compreendo que a chave no est na
desventurada histria do despenseiro, que se cruzou com outra. Mas essa outra, essa
outra que talvez eu conhea mas da qual no posso falar... esperava que ela se vos
tivesse tornado clara, e que dela me falareis vs...
   - Vossa Sublimidade pensa em algum acontecimento de que veio a saber em
confisso... - O Abade dirigiu o olhar para o outro lado, e Guilherme continuou: - Se
Vossa Magnificncia quer saber se eu sei, sem o saber de Vossa Magnificncia, se houve
relaes desonestas entre Berengrio e Adelmo, e entre Berengrio e Malaquias, pois
bem, isto todos o sabem na abadia...
  O Abade corou violentamente:
   - No creio que seja til falar de coisas semelhantes na presena deste novio. E no
creio, uma vez terminado o encontro, que vs ainda tenhais necessidade dele como
escrivo. Sai, rapaz - disse-me em tom imperioso.
  Humilhado, sa. Mas, curioso como era, agachei-me atrs da porta da sala, que deixei
entreaberta, de modo a poder seguir o dilogo.
  Guilherme recomeou a falar:
   - Ento, essas relaes desonestas, se acaso tiveram lugar, tiveram um escasso papel
nestes dolorosos acontecimentos. A chave  outra, e pensava que vs o imaginsseis.
Tudo se desenrola em torno do furto e da posse de um livro, que estava escondido no
finis Africae, e que agora voltou para l por obra de Malaquias, sem que, porm, bem o
vistes, a seqncia dos crimes se tenha interrompido.
   Houve um longo silncio, depois o Abade recomeou a falar com voz entrecortada e
insegura, como de pessoa surpreendida por inesperadas revelaes.
   - No  possvel... Vs... Vs como conseguis saber do finis Africae? Violastes o meu
interdito e entrastes na biblioteca?
  Guilherme deveria ter dito a verdade, e o Abade ter-se-ia irado desmesuradamente.
No queria evidentemente mentir. Escolheu responder  pergunta com outra pergunta:
   - No me disse Vossa Magnificncia, durante o nosso primeiro encontro, que um
homem como eu, que tinha descrito to bem Brunello sem nunca o ter visto, no teria
dificuldade em raciocinar sobre lugares a que no podia aceder?
  -  assim ento - disse o Abade. - Mas porque pensais aquilo que pensais!
   - Como l cheguei,  longo de contar. Mas foi cometida uma srie de delitos para
impedir a muitos de descobrirem algo que no se queria que fosse descoberto. Ora todos
aqueles que sabiam alguma coisa dos segredos da biblioteca, ou por direito ou por
fraude, esto mortos. Resta apenas uma pessoa, vs.
  - Quereis insinuar... quereis insinuar...
  O Abade falava como algum a quem estivessem inchando as veias do pescoo.
   - No me interpretais mal - disse Guilherme, que provavelmente tinha tambm
tentado insinuar -, digo que h algum que sabe e que quer que mais ningum saiba. Vs
sois o ltimo a saber, vs podereis ser a prxima vtima. A menos que no me digais o
que sabeis sobre aquele livro interdito e, sobretudo, quem  que na abadia poderia saber
tanto como vs sabeis, e talvez mais, sobre a biblioteca.
  - Est frio aqui - disse o Abade. - Saiamos.
  Eu afastei-me rapidamente da porta e esperei-os ao cimo da escada que vinha de
baixo. O Abade viu-me e sorriu-me.
  - Quantas coisas inquietantes deve ter ouvido este jovem monge nestes dias! Vamos,
rapaz, no te deixes perturbar demasiado. Parece-me que se imaginaram mais tramas
que aquelas que existem...
  Levantou uma mo e deixou que a luz do dia iluminasse um esplndido anel que usava
no anular, insgnia do seu poder. O anel cintilou em todo o fulgor das suas pedras.
   - Reconhece-lo, no  verdade? - disse-me. - Smbolo da minha autoridade mas
tambm do meu fardo. No  um ornamento,  uma esplndida sntese da palavra divina
de que sou guarda.  Tocou com os dedos a pedra, ou melhor, o triunfo das pedras
variegadas que compunham aquela admirvel obra-prima da arte humana e da natureza.
- Eis a ametista  disse -, que  espelho de humildade e nos recorda a ingenuidade e a
doura de So Mateus; eis a calcednia, insgnia de caridade, smbolo da piedade de Jos
e de So Tiago Maior; eis o jaspe, que augura a f, associado a So Pedro; e a sardnica,
sinal de martrio, que nos recorda So Bartolomeu; eis a safira, esperana e
contemplao, pedra de Santo Andr e de So Paulo; e o berilo, so doutrina, cincia e
longanimidade, virtudes prprias de So Toms... Como  esplndida a linguagem das
gemas - continuou, absorto na sua viso mstica -, que os lapidrios da tradio
traduziram do racional de Aaro e da descrio da Jerusalm celeste no livro do
apstolo. Por outro lado, as muralhas de Sio estavam cheias das mesmas jias, que
ornavam o peitoral do irmo de Moiss, salvo o carbnculo, a gata e o nix, que,
citados no xodo, so substitudos no Apocalipse pela calcednia, pela sardnica, pelo
crisoprzio e pelo jacinto. - Guilherme fez meno de abrir a boca, mas o Abade f-lo
calar levantando uma mo e continuou o seu discurso: - Recordo um livro de litanias em
que cada pedra era descrita e rimada em honra da Virgem. A se falava do seu anel de
noivado como de um poema simblico resplandecente de verdades superiores
manifestadas na linguagem lapidar das pedras que o embelezavam. Jaspe para a f,
calcednia para a caridade, esmeralda para a pureza, sardnica para a placidez da vida
virginal, rubi para o corao a sangrar no calvrio, crislito cuja cintilao multiforme
recorda a maravilhosa variedade dos milagres de Maria, jacinto para a caridade,
ametista, com a sua mistura de rosa e azul, para o amor de Deus... Mas no engaste
estavam incrustadas outras substancias no menos eloqentes, como o cristal que
remete para a castidade da alma e do corpo, o ligrio, que se assemelha ao mbar,
smbolo de temperana, e a pedra magntica, que atrai o ferro, tal como a Virgem toca
as cordas dos coraes penitentes com o arco da sua bondade. Tudo substancias que,
como vedes, tambm ornam, embora em mnima e humilssima medida, a minha jia. -
Movia o anel e deslumbrava os meus olhos com o seu fulgor, como se quisesse aturdir-
me. - Maravilhosa linguagem, no  verdade? Para outros padres, as pedras significam
outras coisas ainda, para o papa Inocncio terceiro o rubi anuncia a calma e a pacincia
e a granada a caridade. Para So Bruno a gua-marinha concentra a cincia teolgica na
virtude dos seus purssimos reflexos. A turquesa significa alegria, a sardnica evoca os
serafins, o topzio os querubins, o jaspe os tronos, o crislito as dominaes, a safira as
virtudes, o nix as potestades o berilo os principados, o rubi os arcanjos e a esmeralda os
anjos. A linguagem das gemas  multiforme, cada uma exprime mais verdade, segundo o
contexto em que aparecem. E quem decide qual  o nvel de interpretao e qual o justo
contexto? Tu bem o sabes, rapaz, ensinaram-to:  a autoridade, o comentador entre
todos mais seguro e mais investido de prestgio, e portanto de santidade. Seno, como
interpretar os sinais multiformes que o mundo pe sob os nossos olhos de pecadores,
como no tropear nos equvocos com que nos atrai o demnio? Repara,  singular como
a linguagem das gemas repugna ao diabo, como testemunha Santa Hildegarda. A besta
imunda v nisso uma mensagem que se ilumina por sentidos ou nveis de sapincia
diversos, e ele quereria desvirtu-la, porque ele, o inimigo, descobre no esplendor das
pedras o eco das maravilhas que tinha em seu poder antes da queda e compreende que
estes fulgores so produzidos pelo fogo, que  o seu tormento. - Deu-me o anel a beijar,
e eu ajoelhei-me. Acariciou-me a cabea. - E portanto tu, rapaz, esquece as coisas sem
dvida errneas que ouviste nestes dias. Tu entraste na ordem maior e mais nobre entre
todas, desta ordem eu sou um Abade, tu ests sob minha jurisdio. E, portanto, ouve a
minha ordem: esquece, e que os teus lbios se selem para sempre. Jura.
   Comovido, subjugado, teria decerto jurado. E tu, meu bom leitor, no poderias agora
ler esta minha crnica fiel. Mas naquela altura interveio Guilherme, e no talvez para
impedir de jurar mas por reao instintiva, por enfado, para interromper o Abade, para
quebrar aquele encanto que ele tinha certamente criado.
  - Que tem a ver o rapaz? Eu fiz-vos uma pergunta, eu adverti-vos de um perigo, eu
pedi-vos que me disssseis um nome... Querereis agora que tambm eu beije o anel e
que jure esquecer quanto soube ou quanto suspeito?
  - Oh, vs... - disse melancolicamente o Abade. - No espero de um frade mendicante
que compreenda a beleza das nossas tradies, ou que respeite a discrio, os segredos,
os mistrios de caridade... sim, de caridade, e o sentido da honra, e o voto do silncio
que rege a nossa grandeza... Vs falaste-me de uma estranha histria, de uma histria
incrvel. Um livro interdito, pelo qual se mata em cadeia, algum que sabe aquilo que s
eu deveria saber... Patranhas, inferncia que carecem de todo sentido. Falai, se
quiserdes, ningum acreditar em vs. E se acaso algum elemento da vossa fantasiosa
reconstruo fosse verdadeira, pois bem, agora tudo recai sob o meu controle e a minha
responsabilidade. Controlarei, tenho os meios, tenho autoridade para isso. Fiz mal desde
o incio em pedir a um estranho, por mais sbio, por mais digno de confiana que fosse,
que indagasse sobre coisas que so somente da minha competncia. Mas vs
compreendeste-lo, haveis-mo dito, eu considerava no inicio que se tratava de uma
violao do voto de castidade, e queria (imprudente que eu fui) que mais algum me
dissesse aquilo que tinha ouvido dizer em confisso. Bem, agora haveis-mo dito. Estou-
vos muito grato por aquilo que fizestes ou tentastes fazer. O encontro das delegaes
teve lugar, a vossa misso aqui est terminada. Imagino que vos esperam com ansiedade
na corte imperial, as pessoas no se privam por muito tempo de um homem como vs.
Dou-vos licena para deixardes a abadia. Hoje talvez seja tarde, no quero que viajeis
depois do sol-posto, as estradas so inseguras. Partireis amanh de manh, cedo. Oh, no
me agradeais, foi uma alegria ter-vos como irmo entre os irmos e honrar-vos com a
nossa hospitalidade. Podereis retirar-vos com o vosso novio de modo a preparardes a
bagagem. Saudar-vos-ei ainda amanh ao romper da alba. Obrigado, de todo o corao.
Naturalmente, no  necessrio que continueis a conduzir as vossas investigaes. No
perturbeis mais os monges. Ide, pois.
  Era mais que uma despedida, estava a pr-nos fora. Guilherme saudou e descemos as
escadas.
  - Que significa? - perguntei.
  No compreendia mais nada.
  - Tenta formular uma hiptese. Deverias ter aprendido como se faz.
    - Se  assim, aprendi que devo formular ao menos duas, uma em oposio  outra, e
ambas inacreditveis. Bem, ento... - Degluti: pr hipteses deixava-me pouco 
vontade. - Primeira hiptese, o Abade j sabia tudo e imaginava que vs no tereis
descoberto nada. Tinha-vos encarregado do inqurito antes, quando morreu Adelmo, mas
pouco a pouco compreendeu que a histria, era muito mais complexa, em volve-ode
certo modo a ele, e no quer que vs ponhais a nu esta trama. Segunda hiptese, o
Abade nunca suspeitou de nada (de qu, afinal, no sei, porque no sei em que vs estais
agora pensando). Mas em todo o caso continuava a pensar que tudo fosse devido a um
litgio entre... entre monges sodomitas... Agora porm vs abriste-lhe os olhos, ele
compreendeu de repente algo de terrvel, pensou num nome, tem uma idia precisa
sobre o responsvel dos delitos. Mas, sendo assim, quer resolver a questo sozinho e quer
afastar-vos, para salvar a honra da abadia.
   - Bom trabalho. Comeas a raciocinar bem. Mas j vs que em ambos os casos o nosso
Abade est preocupado com a boa reputao do seu mosteiro. Assassino ou vtima
designada que seja, no quer que transpirem para alm destas montanhas notcias
difamatrias sobre esta santa comunidade. Mata-lhe os monges, mas no lhe toques na
honra desta abadia. Ah, por... - Guilherme estava agora a ficar furioso. - Aquele
bastardo de feudatrio, aquele pavo que ficou clebre por ter feito de coveiro ao
Aquinate, aquele odre inchado que existe s porque usa um anel grande como o c de
um copo! Raa de soberbo, raa de soberbos sois vs todos, os clunicenses, piores que
prncipes, mais bares que os bares!
  - Mestre... - ousei, picado, em tom de censura.
   - Cala-te, tu, que s da mesma massa. Vs no sois simples, nem filhos de simples. Se
vos calha um campons acolhei-lo, talvez, mas, como vi ontem, no hesitais em entreg-
lo ao brao secular. Mas um dos vossos no,  preciso cobrir, Abbone  capaz de
encontrar o desgraado e de o apunhalar na cripta do tesouro, e de lhe distribuir os
rojes pelos seus relicrios, contanto que a honra da abadia seja salva... Um franciscano,
um plebeu menorita que descobre o ninho de vermes desta santa casa? Isso no, este
Abbone no pode permiti-lo a nenhum preo. Obrigado, frade Guilherme, o imperador
precisa de vs, vistes que belo anel que eu tenho, at mais ver. Mas agora o desafio no
 apenas entre mim e Abbone,  entre mim e toda esta histria, eu no saio desta cerca
antes de ter sabido. Quer que eu parta amanh de manh? Bem, ele  o dono da casa,
mas at amanh de manh eu devo saber. Devo.
  - Deveis? Quem vo-lo impe, agora?
  - Ningum nos impe que saibamos, Adso. Deve-se, eis tudo, mesmo a custo de
compreender mal.
   Ainda estava confuso e humilhado pelas palavras de Guilherme contra a minha ordem
e os seus abades. E tentei justificar em parte Abbone formulando uma terceira hiptese,
arte em que me tinha tornado, parecia-me, habilssimo:
   - No considerastes uma terceira possibilidade, mestre - disse. - Notamos nestes dias,
e esta manh pareceu-nos claro, depois das confidncias de Nicolau e das murmuraes
que captamos na igreja, que h um grupo de monges italianos que suportavam mal a
seqncia dos bibliotecrios estrangeiros, que acusam o Abade de no respeitar a
tradio e que, pelo que compreendi, se escondem atrs do velho Alinardo, empurrando-
o  sua frente como um estandarte, para pedir um diverso governo da abadia. Estas
coisas compreendi-as bem, porque mesmo um novio ouviu no seu mosteiro muitas
discusses, e aluses, e conluios desta natureza. E ento talvez o Abade tema que as
vossas revelaes possam oferecer uma arma aos seus inimigos, e quer resolver toda a
questo com grande prudncia...
  -  possvel. Mas permanece um odre inchado, e far-se- assassinar.
  - Mas vs que pensais das minhas conjecturas?
  - Dir-te-ei mais tarde.
   Estvamos no claustro. O vento era cada vez mais furioso, a luz menos clara, mesmo
se pouco passava de nona. O dia aproximava-se do ocaso e restava-nos bem pouco
tempo. A vsperas certamente o Abade avisaria os monges que Guilherme j no tinha
nenhum direito de fazer perguntas e de entrar em toda a parte.
   -  tarde - disse Guilherme -, e quando se tem pouco tempo o pior  perder a calma.
Devemos agir como se tivssemos a eternidade diante de ns. Tenho um problema a
resolver, como penetrar no finis Africae, porque l deveria estar a resposta final. Depois
devemos salvar uma pessoa, ainda no decidi qual. Por fim devemos esperar qualquer
coisa do lado das cavalarias, que tu ters debaixo de olho... Olha quanto movimento...
   De fato, o espao entre o Edifcio e o claustro tinha-se singularmente animado. Um
novio, pouco antes, proveniente da casa do Abade, tinha corrido para o Edifcio. Agora
saia de l Nicolau, que se dirigia aos dormitrios. Num canto, o grupo da manh,
Pacfico, Aymaro e Pedro, estavam falando insistentemente com Alinardo, como para o
convencerem de qualquer coisa.
   Depois pareceram tomar uma deciso. Aymaro segurou Alinardo, ainda relutante, e
encaminhou-se com ele para a residncia abacial. Iam a entrar ali, quando do dormitrio
saiu Nicolau, que conduzia Jorge na mesma direo. Viu os dois que entravam, sussurrou
qualquer coisa ao ouvido de Jorge, o velho sacudiu a cabea, e prosseguiram mesmo
assim para o captulo.
  - O Abade toma conta da situao... - murmurou Guilherme com cepticismo.
   Do Edifcio estavam saindo outros monges que deveriam estar no scriptorium, seguidos
logo depois por Bncio, que veio ao nosso encontro cada vez mais preocupado.
  - H efervescncia no scriptorium - disse-nos -, ningum trabalha, todos falam
animadamente entre si... Que acontece?
  - Acontece que as pessoas que at esta manh pareciam as mais suspeitas esto todas
mortas. At ontem todos se guardavam de Berengrio, tolo e infiel e lascivo, depois do
despenseiro, herege suspeito, por fim de Malaquias, to antiptico a todos... Agora j
no sabem de quem se guardar, e tm necessidade urgente de encontrar um inimigo, ou
um bode expiatrio. E cada um suspeita do outro, alguns tm medo, como tu, outros
decidiram meter medo a qualquer outro. Estais todos demasiado agitados. Adso, d de
vez em quando uma olhadela s cavalarias. Eu vou descansar.
  Deveria ter-me espantado: ir descansar, quando tinha poucas horas ainda  disposio,
no parecia a resoluo mais sbia. Mas agora conhecia o meu mestre. Quanto mais o seu
corpo estava descontrado mais a sua mente estava em efervescncia.
  SEXTO DIA
  ENTRE VSPERAS E COMPLETAS
  Onde em breves palavras se contam longas horas de desvario.
  Torna-se-me difcil contar aquilo que aconteceu nas horas que se seguiram, entre
vsperas e completas.
  Guilherme estava ausente. Eu vagueava  volta das cavalarias, mas sem notar nada
de anormal. Os estribeiros estavam fazendo entrar os animais, inquietos por causa do
vento, mas quanto ao resto tudo estava tranqilo.
   Entrei na igreja. J todos estavam nos seus lugares nas estalas, mas o Abade notou a
ausncia de Jorge. Com um gesto atrasou o incio do ofcio. Chamou Bncio para que
fosse procur-lo. Bncio no estava. Algum fez observar que estava provavelmente
dispondo o scriptorium para fechar. O Abade disse, irritado, que se tinha estabelecido
que Bncio no fechasse nada, porque no conhecia as regras. Aymaro de Alexandria
levantou-se do seu lugar:
  - Se Vossa Paternidade consente, vou eu cham-lo...
  - Ningum te pediu nada - disse o Abade bruscamente.
  E Aymaro voltou para o seu lugar, no sem ter lanado um olhar indefinvel a Pacifico
de Tivoli. O Abade chamou Nicolau, que no estava. Recordaram-lhe que estava dando as
ordens para a ceia, e ele teve um gesto de contrariedade, como se lhe desagradasse
mostrar a todos que se encontrava num estado de excitao.
  - Quero Jorge aqui - gritou -, procurai-o! Vai tu - ordenou ao mestre dos novios.
  Um outro fez-lhe notar que faltava tambm Alinardo.
  - Eu sei - disse o Abade -, est enfermo.
  Encontrava-me perto de Pedro de Sant'Albano e ouvi-o dizer ao seu vizinho, Gunzo de
Nola, numa lngua vulgar da Itlia Central que em parte eu compreendia:
  - Imagino. Hoje quando saiu depois do colquio o pobre velho estava transtornado.
Abbone comporta-se como a puta de Avinho!
   Os novios estavam desorientados, com a sua sensibilidade de crianas ignaras
pressentiam todavia a tenso que estava reinando no coro, como a pressentia eu.
Passaram-se alguns longos momentos de silncio e de embarao. O Abade ordenou que se
recitassem alguns salmos, e indicou ao acaso trs, que no eram prescritos pela regra
para vsperas. Olharam todos uns para os outros, depois recomearam a rezar em voz
baixa. Voltou o mestre dos novios seguido de Bncio, que ocupou o seu lugar de cabea
baixa. Jorge no estava no scriptorium e no estava na sua cela. O Abade ordenou que o
ofcio tivesse incio.
  No fim, antes de descerem todos para a ceia, fui chamar Guilherme. Estava estendido
no seu catre, vestido, imvel. Disse que no pensava que fosse to tarde. Contei-lhe
brevemente quanto tinha sucedido. Sacudiu a cabea.
    porta do refeitrio vimos Nicolau, que poucas horas antes tinha acompanhado Jorge.
Guilherme perguntou-lhe se o velho tinha entrado logo nos aposentos do Abade. Nicolau
disse que tivera de esperar longamente  porta, porque na sala estavam Alinardo e
Aymaro de Alexandria. Depois, Jorge tinha entrado, tinha ficado algum tempo dentro, e
ele tinha-o esperado. Em seguida tinha sado e tinha-se feito acompanhar  igreja, uma
hora antes de vsperas, ainda deserta.
  O Abade avistou-nos quando falvamos com o despenseiro.
  - Frade Guilherme  censurou -, estais ainda inquirindo?
  Fez-lhe sinal para se sentar  sua mesa, como habitualmente. A hospitalidade
beneditina  sagrada.
  A ceia foi mais silenciosa que de costume, e triste. O Abade comia sem vontade,
oprimido por sombrios pensamentos. No fim disse aos monges que se apressassem para
completas.
  Alinardo e Jorge estavam ainda ausentes. Os monges apontavam para o lugar vazio do
cego, sussurrando. No fim do rito, o Abade convidou todos a recitarem uma especial
orao pela sade de Jorge de Burgos. No ficou claro se falava da sade corporal ou da
sade eterna. Todos compreenderam que uma nova desgraa estava prestes a abater-se
sobre aquela comunidade. Depois, o Abade ordenou a cada um que se apressasse, com
maior diligncia que de costume, para o seu catre. Ordenou que ningum, e carregou
sobre a palavra ningum, ficasse a circular fora do dormitrio. Os novios, assustados,
foram os primeiros a sair, com o capucho sobre o rosto, a cabea inclinada, sem
trocarem as piadas, as cotoveladas, os sorrisinhos, as maliciosas e ocultas rasteiras com
que costumavam provocar-se (porque o novio, embora jovem monge, no deixa de ser
uma criana, e de pouco valem as repreenses do seu mestre, que no pode impedir que
eles muitas vezes se comportem como crianas, como quer a sua tenra idade).
  Quando saram os adultos segui, sem me fazer notar, atrs do grupo que j se
caracterizava aos meus olhos como o dos italianos. Pacifico estava murmurando a
Aymaro:
  - Achas que Abbone no sabe verdadeiramente onde est Jorge?
  E Aymaro respondia:
   - Podia muito bem saber, e saber que de onde est no voltar mais. O velho quis
talvez demasiado, e Abbone no o queria mais a ele...
   Enquanto eu e Guilherme fingamos retirar-nos para o albergue dos peregrinos,
avistamos o Abade, que entrava de novo no Edifcio pela porta do refeitrio ainda
aberta. Guilherme aconselhou que esperssemos um pouco, depois, quando a esplanada
ficou livre de qualquer presena, convidou-me a segui-lo. Atravessamos rapidamente os
espaos vazios e entramos na igreja.
  SEXTO DIA
  DEPOIS DE COMPLETAS
  Onde, quase por acaso, Guilherme descobre o segredo para entrar no finis Africae.
  Postamo-nos, como dois sicrios, perto da entrada, atrs de uma coluna, de onde se
podia observar a capela das caveiras.
  - Abbone foi fechar o Edifcio - disse Guilherme. - Quando tiver trancado as portas por
dentro no poder sair seno pelo ossrio.
  - E depois?
  - E depois veremos o que faz.
   No pudemos saber o que fazia. Uma hora depois ainda no tinha sado. Foi ao finis
Africae, disse eu.  possvel, respondeu Guilherme. Preparado para formular muitas
hipteses, acrescentei: talvez tenha sado de novo pelo refeitrio e tenha ido procurar
Jorge. E Guilherme: tambm isso  possvel. Talvez Jorge j esteja morto, imaginei
ainda. Talvez esteja no Edifcio e est a matar o Abade. Talvez estejam ambos noutro
stio e algum mais os espere numa emboscada. Que queriam os italianos?, e porque 
que Bncio estava to assustado? No seria acaso uma mscara que tinha posto no rosto
para nos enganar? Porque  que se tinha demorado no scriptorium durante vsperas, se
no sabia nem como fechar nem como sair? Queria tentar a via do labirinto?
  - Tudo  possvel - disse Guilherme. - Mas uma nica coisa se d, se deu, ou se est
dando. E enfim a misericrdia divina nos est locupletando com uma luminosa certeza.
  - Qual? - perguntei cheio de esperana.
  - Que frade Guilherme de Baskerville, o qual tem agora a impresso de ter
compreendido tudo, no sabe como entrar no finis Africae. s cavalarias, Adso, s
cavalarias.
  - E se nos encontra o Abade?
  - Fingiremos ser dois espectros.
   No me pareceu uma soluo praticvel, mas calei-me. Guilherme estava a ficar
nervoso. Samos pelo portal setentrional e passmos atravs do cemitrio, enquanto o
vento sibilava com fora, e pedi ao Senhor que no nos fizesse encontrar dois espectros a
ns, que de almas penadas, naquela noite, na abadia no havia penria. Chegamos s
cavalarias e sentimos os cavalos cada vez mais inquietos por causa da fria dos
elementos. O porto principal da construo tinha,  altura do peito de um homem, um
amplo gradeamento de metal, de onde se podia ver o interior. Entrevimos na
obscuridade as silhuetas dos cavalos, reconheci Brunello porque era o primeiro 
esquerda.  sua direita, o terceiro animal da fila levantou a cabea sentindo a nossa
presena e relinchou. Sorri:
  - Tertius equi - disse eu.
  - O qu? - perguntou Guilherme.
  - Nada, recordava-me do pobre Salvador. Queria fazer sabe-se l que magia com
aquele cavalo, e no seu latim designava-o como tertius equi. Que seria o u.
  - O u? - perguntou Guilherme, que tinha seguido o meu devaneio sem lhe prestar
muita ateno.
  - Sim, porque tertius equi quereria dizer no o terceiro cavalo mas o terceiro do
cavalo, e a terceira letra da palavra cavalo  o u. Mas  uma tolice...
  Guilherme olhou para mim, e no escuro pareceu-me distinguir-lhe o rosto alterado:
   - Deus te abenoe, Adso! - disse. - Mas decerto, suppositio materialis, o discurso
assume-se de dicto e no de re... Que estpido que eu sou! - Deu uma grande palmada
na testa, com a mo aberta, de tal modo que se ouviu um estalo, e creio que se tenha
magoado. - Meu rapaz,  a segunda vez hoje que pela tua boca fala a sabedoria, primeiro
em sonhos e agora durante a viglia! Corre, corre  tua cela e traz a candeia, alis,
aquelas duas que temos escondidas. No te deixes ver, e vem ter comigo depressa 
igreja! No faas perguntas, vai!
  Fui sem fazer perguntas. As lmpadas estavam debaixo do meu enxergo, cheias de
azeite, porque j tinha provido a aliment-las. Tinha o fuzil no saio. Com os dois
preciosos instrumentos no peito corri para a igreja.
  Guilherme estava sob o trpode e estava relendo o pergaminho com os apontamentos
de Venancio.
   - Adso! - disse-me -, primum et septimum de quatuor no significa o primeiro e o
stimo dos quatro, mas do quatro, da palavra quatro!
  Ainda no compreendia, depois tive uma iluminao:
   - Super thronos viginti quatuor! A inscrio! O versculo! As palavras que esto
gravadas sobre o espelho!
  - Vamos! - disse Guilherme -, talvez possamos ainda salvar uma vida.
  - De quem? - perguntei, enquanto ele estava j manobrando  volta das caveiras e
abrindo a passagem para o ossrio.
  - De um que no merece - disse.
  E estvamos j no tnel subterrneo, com as candeias acesas, em direo  porta que
conduzia  cozinha.
   J disse que naquele ponto se empurrava uma porta de madeira e nos achvamos na
cozinha por trs da chamin, aos ps da escada de caracol que introduzia no scriptorium.
E, precisamente quando empurrvamos a porta, ouvimos  nossa esquerda rumores
surdos no muro. Vinham da parede ao lado da porta, sobre a qual terminava a fila dos
nichos com as caveiras e os ossos. Naquele ponto, no lugar do ltimo nicho, havia um
pedao de parede plena, de grandes blocos de pedra quadrados, com uma velha lpide
ao centro, que tinha gravados monogramas quase apagados. As pancadas vinham,
parecia, de trs da lpide, ou ento de cima da lpide, em parte atrs da parede, em
parte quase sobre a nossa cabea.
  Se um acontecimento semelhante se tivesse produzido na primeira noite teria pensado
imediatamente nos monges mortos. Mas agora estava pronto a esperar pior da parte dos
monges vivos.
  - Quem ser? - perguntei.
   Guilherme abriu a porta e saiu por trs da chamin. As pancadas ouviam-se tambm
ao longo da parede que costeava a escada de caracol, como se algum estivesse
prisioneiro no muro, ou melhor, na espessura daquela parede (verdadeiramente vasta)
que se podia presumir que compreendia o muro interno da cozinha e o exterior do
torreo meridional.
   - Est algum fechado aqui dentro - disse Guilherme. - Sempre me tinha perguntado se
no existia outro acesso ao finis Africae, neste Edifcio to cheio de passagens.
Evidentemente que h; do ossrio, antes de subir  cozinha, abre-se um troo de parede
e sobe-se por uma escada paralela a esta, escondida no muro, desembocando
diretamente na sala murada.
  - Mas quem est agora l dentro?
   - A segunda pessoa. Uma est no finis Africae, outra procurou alcan-la, mas a de
cima deve ter bloqueado o mecanismo que regula ambas as entradas. Assim, o visitante
foi apanhado na ratoeira. E deve agitar-se muito porque, imagino, para aquele tubo no
passar muito ar.
  - E quem ? Salvemo-lo!
  - Quem  v-lo-emos dentro em pouco. E, quanto a salv-lo, poder-se- faz-lo apenas
desbloqueando o mecanismo do alto, porque deste lado no conhecemos o segredo.
Portanto subamos depressa.
   Assim fizemos, subimos ao scriptorium, e dali ao labirinto, e alcanamos em breve o
torreo meridional. Tive de, por duas vezes, refrear o meu mpeto, porque o vento que
naquela noite penetrava pelas seteiras criava correntes que, insinuando-se por aquelas
aberturas, percorriam as salas gemendo, soprando sobre as folhas espalhadas sobre as
mesas, e tinha de proteger a chama com a mo.
  Em breve chegamos  sala do espelho, j preparados para o jogo deformante que nos
esperava. Levantamos as lmpadas e iluminamos os versculos que encimavam a moldura,
Super thronos viginti quatuor... Agora o segredo estava esclarecido: a palavra quatuor
tem sete letras, era preciso acionar sobre o q e o r. Pensei, excitado, faz-lo eu: pousei
rapidamente a lmpada sobre a mesa no centro da sala, executei o gesto nervosamente,
a chama foi lamber a encadernao de um livro que ali estava pousado.
   - Ateno, tolo! - gritou Guilherme, e com um sopro apagou a chama. - Queres pegar
fogo  biblioteca?
  Desculpei-me e fiz por reacender a candeia.
   - No importa - disse Guilherme -, basta a minha. Toma-a e d-me luz, porque a
inscrio  demasiado alta e tu no chegarias l. Faamos depressa.
  - E se estivesse l dentro algum armado? - perguntei, enquanto Guilherme, quase s
apalpadelas, procurava as letras fatais, erguendo-se na ponta dos ps, alto como era,
para tocar o versculo apocalptico.
   - D-me luz, pelo demnio, e no temas, Deus est conosco! - respondeu-me bastante
incoerentemente.
   Os seus dedos estavam tocando no q de quatuor, e eu, que estava uns passos atrs, via
melhor que ele aquilo que estava fazendo. J disse que as letras dos versculos pareciam
entalhadas ou gravadas no muro: evidentemente as da palavra quatuor eram constitudas
por silhuetas de metal, por trs das quais estava encaixado e murado um prodigioso
mecanismo. Porque, quando foi empurrado para a frente, o q fez ouvir como que um
golpe seco, e o mesmo aconteceu quando Guilherme acionou o r. A moldura inteira do
espelho teve como que um sobressalto, e a superfcie vtrea saltou para trs. O espelho
era uma porta, articulada do lado esquerdo. Guilherme inseriu a mo na abertura que se
tinha criado entre o bordo direito e o muro e puxou para si. Chiando, a porta abriu-se
para ns. Guilherme insinuou-se na abertura e eu deslizei atrs dele, elevando a candeia
sobre a cabea.
   Duas horas depois de completas, no fim do sexto dia, no corao da noite que dava
incio ao stimo dia, tnhamos penetrado no finis Africae.
  STIMO DIA
  NOITE
  Onde, para resumir as revelaes prodigiosas de que aqui se fala, o ttulo deveria ser
to longo como o captulo, o que  contrrio aos costumes.
  Encontramo-nos no umbral de uma sala semelhante na forma s outras trs salas cegas
heptagonais, em que dominava um forte odor a fechado e a livros macerados pela
umidade. A candeia que mantinha alta iluminou primeiro a abbada, depois movi o brao
para baixo, para a direita e para a esquerda, e a chama despediu vagos clares sobre as
estantes afastadas, ao longo das paredes. Por fim vimos no centro uma mesa, coberta de
papis, e por trs da mesa uma figura sentada, que parecia esperar-nos imvel no
escuro, se acaso ainda estava viva. Ainda antes que a luz iluminasse o seu rosto,
Guilherme falou.
  - Boa noite, venervel Jorge - disse. - Esperavas-nos?
   A lmpada agora, avanando ns alguns passos, iluminava o rosto do velho, que nos
olhava como se visse.
  - s tu, Guilherme de Baskerville? - perguntou. - Esperava-te desde hoje  tarde antes
de vsperas, quando vim fechar-me aqui. Sabia que chegarias.
  - E o Abade? - perguntou Guilherme. -  ele que se agita na escada secreta?
  Jorge teve um momento de hesitao:
  - Ainda est vivo? - perguntou. - Julgava que j lhe tivesse faltado o ar.
  - Antes de comearmos a falar - disse Guilherme - queria salv-lo. Tu podes abrir
deste lado.
   - No - disse Jorge com cansao -, j no posso. O mecanismo manobra-se de baixo
carregando sobre a lpide, e aqui em cima salta uma alavanca que abre uma porta l ao
fundo, por trs daquele armrio - e apontou para trs de si. - Poderias ver ao lado do
armrio uma roda com uns contrapesos, que governa o mecanismo aqui de cima. Mas
quando daqui ouvi a roda girar, sinal de que Abbone tinha entrado por baixo, dei um
estico  corda que sustm os pesos, e a corda quebrou-se. Agora a passagem est
fechada de ambos os lados, e no poderias reatar os fios daquele engenho. O Abade est
morto.
  - Porque o mataste?
   - Hoje, quando me mandou chamar, disse-me que, graas a ti, tinha descoberto tudo.
No sabia ainda o que  que eu tinha procurado proteger, nunca compreendeu
exatamente quais eram os tesouros, e os fins da biblioteca. Pediu-me que lhe explicasse
aquilo que no sabia. Queria que o finis Africae fosse aberto. O grupo dos italianos tinha-
lhe pedido que pusesse fim quilo que eles chamam o mistrio alimentado por mim e
pelos meus predecessores. So agitados pela cupidez de coisas novas...
  - E tu deves ter-lhe prometido que virias aqui e porias fim  tua vida como tinhas
posto fim s dos outros, de modo que a honra da abadia fosse salva e ningum soubesse
de nada. Depois indicaste-lhe o caminho para vir, mais tarde, verificar. Afinal, esperava-
lo para o matares a ele. No pensavas que pudesse entrar pelo espelho?
   - No, Abbone  pequeno de estatura, no seria capaz de chegar sozinho ao versculo.
Indiquei-lhe esta passagem, que s eu ainda conhecia.  aquela que usei eu por tantos
anos, porque era mais simples, no escuro. Bastava chegar  capela e depois seguir os
ossos dos mortos, at ao fim da passagem.
  - Assim fizeste-o vir aqui sabendo que o matarias...
  - No podia confiar sequer nele. Estava assustado. Tinha-se tornado clebre porque
em Fossanova tinha conseguido fazer descer um corpo ao longo de uma escada de
caracol. Injusta glria. Agora est morto porque j no conseguiu fazer subir o seu.
   - Usaste-o durante quarenta anos. Quando te apercebeste que estavas a ficar cego e
no poderias continuar a controlar a biblioteca, trabalhaste cautamente. Fizeste eleger
abade um homem em quem podias confiar, e fizeste nomear bibliotecrio primeiro
Roberto de Bobbio, que podias instruir a teu bel-prazer, depois Malaquias, que tinha
necessidade da tua ajuda e no dava um passo sem te consultar. Durante quarenta anos
foste o senhor desta abadia.  isto o que o grupo dos italianos tinha compreendido,  isto
o que Alinardo repetia, mas ningum lhe dava ouvidos porque o consideravam h largo
tempo um demente, no  verdade? Porm, tu ainda me esperavas a mim, e no
poderias bloquear a entrada do espelho, porque o mecanismo est murado. Porque me
esperavas, como tinhas a certeza que eu chegaria?
   Guilherme perguntava, mas pelo seu tom compreendia-se que ele adivinhava j a
resposta, e que a esperava como um prmio  sua habilidade.
   - Desde o primeiro dia compreendi que tu compreenderias. Pela tua voz, pelo modo
como me conduziste a debater sobre aquilo de que eu no queria que se falasse. Eras
melhor que os outros, chegarias l de qualquer maneira. Sabes, basta pensar e
reconstruir na prpria mente os pensamentos do outro. E depois ouvi que fazias
perguntas aos outros monges, todas justas. Mas nunca fazias perguntas sobre a
biblioteca, como se j conhecesses todos os seus segredos. Uma noite fui bater  tua
cela, e tu no estavas. Estavas certamente aqui. Tinham desaparecido duas lmpadas da
cozinha, ouvi dizer a um servo. E enfim, quando Severino veio falar-te de um livro, no
outro dia no nrtex, tive a certeza que estavas na mesma pista que eu.
   - Mas conseguiste tirar-me o livro. Foste ter com Malaquias, que at ento no tinha
compreendido nada. Agitado pelo seu cime, o estulto continuava a ser obcecado pela
idia que Adelmo lhe tinha arrebatado o seu adorado Berengrio, que ento queria carne
mais jovem que a sua. No compreendia que tinha a ver Venancio com esta histria, e tu
confundiste-lhe ainda mais as idias. Disseste-lhe que Berengrio tinha tido uma relao
com Severino, e que para o compensar lhe tinha dado um livro do finis Africae. No sei
exatamente que coisa lhe disseste. Malaquias foi ter com Severino, louco de cime, e
matou-o. Depois no teve tempo de procurar o livro que tu lhe tinhas descrito, porque
chegou o despenseiro. Foi assim?
  - Mais ou menos.
   - Mas tu no querias que Malaquias morresse. Ele provavelmente nunca tinha olhado
para os livros do finis Africae, confiava em ti, obedecia aos teus interditos. Ele limitava-
se a dispor  noite as ervas para assustar os eventuais curiosos. Fornecia-lhas Severino.
Por isso naquele dia Severino deixou entrar Malaquias no hospital, era a sua visita diria
para levar as ervas frescas, que ele preparava todos os dias por ordem do Abade.
Adivinhei?
   - Adivinhaste. No queria que Malaquias morresse. Disse-lhe que encontrasse o livro,
de qualquer modo, e que o voltasse a pr aqui, sem o abrir. Disse-lhe que tinha o poder
de mil escorpies. Mas pela primeira vez o insensato quis agir segundo a sua prpria
iniciativa. No o queria morto, era um executor fiel. Mas no me repitas o que sabes, eu
sei que sabes. No quero alimentar o teu orgulho, disso j te encarregas tu mesmo. Ouvi-
te esta manh no scriptorium interrogar Bncio sobre a Coena Cypriani. Estavas
pertssimo da verdade. No sei como descobriste o segredo do espelho, mas quando
soube pelo Abade que lhe tinhas referido o finis Africae tinha a certeza que em breve
chegarias. Por isso te esperava. E agora que queres?
   - Quero ver - disse Guilherme - o ltimo manuscrito do volume encadernado que rene
um texto rabe, um srio e uma interpretao ou transcrio da Coena Cypriani. Quero
ver aquela cpia em grego, feita provavelmente por um rabe, ou por um espanhol, que
tu encontraste quando, ajudante de Paulo de Rimini, obtiveste que te mandassem ao teu
pas para recolher os mais belos manuscritos do Apocalipse de Leo e Castela, um esplio
que te tornou famoso e estimado aqui na abadia e te fez obter o posto de bibliotecrio,
quando respeitava a Alinardo, dez anos mais velho que tu. Quero ver aquela cpia grega
escrita em papel de pano, que ento era muito rara, e que se fabricava precisamente em
Silos, perto de Burgos, tua ptria. Quero ver o livro que tu tiraste de l, depois de o
teres lido, porque no querias que outros o lessem, e que escondeste aqui, protegendo-o
de modo avisado, e que no destruste, porque um homem como tu no destri um livro,
mas guarda-o somente e prov a que ningum lhe toque. Quero ver o segundo livro da
Potica de Aristteles, aquele que todos consideravam perdido ou jamais escrito, e do
qual tu guardas talvez a nica cpia.
   - Que magnfico bibliotecrio terias sido, Guilherme - disse Jorge, com um tom
simultaneamente de admirao e de mgoa. - Ento sabes mesmo tudo. Vem, creio que
h um escabelo desse lado da mesa. Senta-te, eis o teu prmio.
  Guilherme sentou-se e pousou a candeia, que eu lhe tinha passado, iluminando de
baixo o rosto de Jorge. O velho pegou num volume que tinha diante de si e passou-lho.
Eu reconheci a encadernao, era aquele que tinha aberto no hospital, julgando-o um
manuscrito rabe.
  - L, ento, desfolha, Guilherme - disse Jorge. - Ganhaste.
   Guilherme olhou para o volume, mas no lhe tocou. Tirou do saio um par de luvas, no
as suas, com as pontas dos dedos descobertas, mas as que usava Severino quando o
tnhamos encontrado morto. Abriu lentamente a encadernao gasta e frgil. Eu
aproximei-me e inclinei-me sobre o seu ombro. Jorge, com o seu ouvido finssimo, ouviu
o rumor que eu fazia. Disse:
  - Tambm ests a, rapaz? Far-to-ei ver tambm a ti... depois.
  Guilherme percorreu rapidamente as primeiras pginas.
  -  um manuscrito rabe sobre os ditos de algum louco, segundo o catlogo - disse. -
De que se trata?
  - Oh, nscias lendas dos infiis, onde se julga que os estultos tm ditos espirituosos
que espantam mesmo os seus sacerdotes e entusiasmam os seus califas...
  - O segundo  um manuscrito siraco, mas segundo o catlogo traduz um libelo egpcio
de alquimia. Como  que se encontra reunido aqui?
   -  uma obra egpcia do terceiro sculo da nossa era. Coerente com a obra que se
segue, mas menos perigosa. Ningum daria ouvidos s divagaes de um alquimista
africano. Atribui a criao do mundo ao riso divino... - Levantou o rosto e recitou, com a
sua prodigiosa memria de leitor que desde h quarenta anos repetia a si mesmo coisas
lidas quando tinha ainda o bem da vista: - Apenas Deus riu nasceram sete deuses que
governaram o mundo, apenas desatou a rir apareceu a luz,  segunda risada apareceu a
gua, e no stimo dia que ele ria apareceu a alma... Loucuras. E tambm o escrito que
vem depois, de um dos inmeros estpidos que se puseram a glosar a Coena... Mas no
so estes os que te interessam.
   Guilherme, de fato, tinha feito passar rapidamente as pginas e tinha chegado ao
texto grego. Vi logo que as folhas eram de matria diversa e mais mole, quase arrancada
a primeira, com uma parte da margem comida, salpicada de manchas plidas, como de
costume o tempo e a umidade produzem em outros livros. Guilherme leu as primeiras
linhas, primeiro em grego, depois traduzindo em latim e continuando nesta lngua, de
modo que tambm eu pude apreender como comeava o livro fatal.
  No primeiro livro tratamos da tragdia e de como ela, suscitando piedade e medo,
produz a purificao de tais sentimentos. Como tnhamos prometido, tratamos agora da
comdia (mas tambm da stira e do mimo) e de como, suscitando o prazer do ridculo,
ela chega  purificao de tal paixo. De como tal paixo  digna de considerao j
dissemos no livro sobre a alma, na medida em que - nico entre todos os animais - o
homem  capaz de rir. Definiremos portanto de que tipo de aes a comdia  imitao,
em seguida examinaremos os modos como a comdia suscita o riso, e estes modos so os
fatos e o elquio. Mostraremos como o ridculo dos fatos nasce da assimilao do melhor
ao pior e vice-versa, do surpreender enganando, do impossvel e da violao das leis da
natureza, do irrelevante e do inconseqente, do abaixamento dos personagens, do uso
das pantomimas grotescas e vulgares, da desarmonia, da escolha das coisas menos
dignas. Mostraremos em seguida como o ridculo do elquio nasce dos equvocos entre
palavras semelhantes para coisas diversas e diversas para coisas semelhantes da
loquacidade e da repetio, dos jogos de palavras, dos diminutivos, dos erros de
pronncia e dos barbarismos...
   Guilherme traduzia com dificuldade, procurando as palavras justas, detendo-se a
espaos. Traduzindo, sorria, como se reconhecesse coisas que esperava encontrar. Leu
em voz alta a primeira pgina, depois parou, como se no lhe interessasse saber mais
nada, e folheou  pressa as pginas seguintes: mas depois de algumas folhas encontrou
uma resistncia, porque sobre a margem lateral superior, e ao longo do corte, as folhas
estavam unidas umas s outras, como acontece quando - umedecidas e deterioradas - a
matria do papel forma uma espcie de glute colante. Jorge percebeu que o roar das
folhas viradas tinha cessado e incitou Guilherme.
  - Vamos, l, desfolha.  teu, bem o mereceste.
  Guilherme riu, e parecia bastante divertido:
   - Ento no  verdade que me consideras to sutil como isso, Jorge! Tu no vs, mas
tenho as luvas. Com os dedos assim embaraados no consigo separar as folhas umas das
outras. Deveria proceder de mos nuas, umedecer os dedos com a lngua, como me
aconteceu fazer esta manh lendo no scriptorium, de modo que de repente tambm este
mistrio se me tornou claro, e deveria continuar a desfolhar assim enquanto uma boa
dose de veneno no me tivesse passado para a boca. Digo o veneno que tu um dia, h
muito tempo, tiraste do laboratrio de Severino, talvez j ento preocupado, porque
tinhas ouvido algum no scriptorium manifestar uma certa curiosidade ou sobre o finis
Africae ou sobre o livro perdido de Aristteles, ou sobre ambos. Creio que tu conservaste
a ampola durante longo tempo, reservando-te de fazer uso dela quando percebesses um
perigo. E percebeste-o h dias, quando por um lado Venancio chegou demasiado perto do
tema desce livro, e Berengrio, por leviandade, por vanglria, para impressionar Adelmo,
se revelou menos secreto do que tu esperavas. Ento vieste e preparaste a tua ratoeira.
Mesmo a tempo, porque algumas noites depois Venancio penetrou aqui, levou o livro,
desfolhou-o com ansiedade, com voracidade quase fsica. Em breve se sentiu mal, e
correu a procurar auxilio na cozinha. Onde morreu. Engano-me?
  - No, continua.
   - O resto  simples. Berengrio encontra o corpo de Venancio na cozinha, teme que
da nasa um inqurito, porque no fundo Venancio estava de noite no Edifcio como
conseqncia da sua primeira revelao a Adelmo. No sabe o que fazer, carrega o corpo
s costas e lana-o na calha do sangue, pensando que todos se convenceriam que se
tinha afogado.
  - E tu como sabes que aconteceu assim?
   - Tambm tu o sabes, vi como reagiste quando encontraram um pano sujo de sangue
na cela de Berengrio. Com o pano aquele irrefletido tinha limpo as mos depois de ter
metido Venancio no sangue. Mas, uma vez que tinha desaparecido, Berengrio no podia
seno ter desaparecido com o livro, que agora o tinha intrigado tambm a ele. E tu
esperavas que o encontrassem em qualquer parte, no ensangentado, mas sim
envenenado. O resto  claro. Severino encontra o livro, porque Berengrio tinha ido
primeiro ao hospital para o ler ao abrigo de olhos indiscretos. Malaquias mata Severino
instigado por ti, e morre quando volta aqui para saber o que havia de to proibido no
objeto que o tinha feito tornar-se um assassino. Eis que temos uma explicao para todos
os cadveres... Que estpido...
  - Quem?
   - Eu. Por causa de uma frase de Alinardo tinha-me convencido que a srie dos delitos
seguia o ritmo das sete trombetas do Apocalipse. O granizo para Adelmo, e era um
suicdio; o sangue para Venancio, e tinha sido uma idia bizarra de Berengrio; a gua
para o prprio Berengrio, e tinha sido um fato casual; a tera parte do cu para
Severino, e Malaquias tinha ferido com a esfera armilar porque era a nica coisa que
tinha encontrado  mo. Por fim, os escorpies para Malaquias... Porque lhe disseste que
o livro tinha a fora de mil escorpies?
   - Por tua causa. Alinardo tinha-me comunicado a sua idia, depois tinha ouvido a
algum que tu tambm a tinhas achado persuasiva... Ento convenci-me que um plano
divino regulava estes desaparecimentos de que eu no era responsvel. E anunciei a
Malaquias que se fosse curioso pereceria segundo o mesmo plano divino, como de fato
aconteceu.
  -  assim ento... Fabriquei um esquema falso para interpretar as manobras do
culpado, e o culpado adequou-se a ele. E foi precisamente este esquema falso que me
ps na tua pista. Nos nossos dias, todos esto obcecados pelo livro de Joo, mas tu
parecias-me aquele que mais meditava nele, e no tanto por causa das tuas especulaes
sobre o Anticristo mas porque vinhas do pas que produziu os Apocalipses mais
esplndidos. Um dia algum me disse que os cdices mais belos deste livro, na
biblioteca, tinham sido trazidos por ti. Depois, um dia, Alinardo divagou sobre um
misterioso inimigo que tinha ido procurar livros a Silos (intrigou-me o fato de dizer que
tinha voltado antes do tempo para o reino das trevas: de momento podia pensar-se que
queria dizer que tinha morrido jovem, afinal aludia  tua cegueira). Silos fica perto de
Burgos, e esta manh encontrei no catlogo uma srie de aquisies que diziam respeito
a todos os Apocalipses hispnicos no perodo em que tu tinhas sucedido ou ias suceder a
Paulo de Rimini. E naquele grupo de aquisies estava tambm este livro. Mas no podia
ter a certeza de quanto tinha reconstrudo enquanto no soube que o livro era em papel
de pano. Ento recordei-me de Silos e tive a certeza. Naturalmente,  medida que
tomava forma a idia deste livro e do seu poder venenoso malograva-se a idia do
esquema apocalptico, e no entanto no conseguia compreender como o livro e a
seqncia das trombetas levassem ambos a ti, e compreendi melhor a histria do livro
precisamente na medida em que, orientado pela seqncia apocalptica, era obrigado a
pensar em ti e nas tuas discusses sobre o riso. De modo que, esta noite, quando j no
acreditava no esquema apocalptico, insisti em controlar as cavalarias, de onde
esperava o toque da sexta trombeta, e precisamente nas cavalarias, por outro acaso,
Adso forneceu-me a chave para entrar no finis Africae.
   - No te sigo - disse Jorge. - Tens orgulho em me mostrar como, seguindo a tua razo,
chegaste at mim, e no entanto demonstras-me que chegaste l seguindo uma razo
errada. Que me queres dizer?
  - Nada, a ti. Estou desconcertado, eis tudo. Mas no importa. Estou aqui.
  - O Senhor tocava as sete trombetas. E tu, embora no teu erro, ouviste um eco
confuso daquele som.
   - Isso j o disseste na tua prdica de ontem  noite. Procuras convencer-te que toda
esta histria procedeu segundo um desgnio divino para ocultares a ti mesmo o fato que
s um assassino.
  - Eu no matei ningum. Cada um caiu seguindo o seu destino, por causa dos seus
pecados. Eu fui apenas um instrumento.
   - Ontem disseste que tambm Judas foi um instrumento. Isto no impede que tenha
sido condenado.
  - Aceito o risco da condenao. O Senhor me absolver, porque sabe que agi para a
sua glria. O meu dever era proteger a biblioteca.
  - Ainda h poucos momentos estavas pronto a matar-me tambm a mim, e mesmo este
rapaz...
  - s mais sutil, mas no melhor que os outros.
  - E agora que acontecer, agora que fiz gorar a insdia?
   - Veremos - respondeu Jorge. - No quero necessariamente a tua morte. Talvez
consiga convencer-te. Mas diz-me primeiro, como adivinhaste que se tratava do segundo
livro de Aristteles?
   - No me teriam bastado decerto os teus antemas contra o riso, nem o pouco que
soube da discusso que tiveste com os outros. Fui ajudado por alguns apontamentos
deixados por Venancio. No compreendia  primeira vista que coisa queriam dizer. Mas
havia algumas referncias a uma pedra desavergonhada que rola pela planura, s cigarras
que cantaro de baixo da terra, aos venerandos figos. J tinha lido qualquer coisa do
gnero: verifiquei nestes dias. So exemplos que Aristteles j dava no primeiro livro da
Potica, e na Retrica. Depois recordei-me que Isidoro de Sevilha define a comdia como
qualquer coisa que conta stupra virginum et amores meretricum... Pouco a pouco
desenhou-se-me na mente este segundo livro como deveria ter sido. Poderia contar-to
quase todo sem ler as pginas que deveriam infetar-me. A comdia nasce nas komai, ou
seja, nas aldeias dos camponeses, como celebrao jocosa depois de uma refeio ou de
uma festa. No fala dos homens famosos e potentes, mas de seres vis e ridculos, no
malvados, e no termina com a morte dos protagonistas. Atinge o efeito de ridculo
mostrando, dos homens comuns, os defeitos e os vcios. Aqui, Aristteles v a disposio
para o riso como uma fora boa, que pode ter tambm um valor cognitivo, quando
atravs de enigmas argutos e metforas inesperadas, embora dizendo-nos as coisas
diferentes daquilo que so, como se mentisse, de fato obriga-nos a observ-las melhor, e
faz-nos dizer: a est, as coisas eram mesmo assim, e eu no sabia. A verdade atingida
atravs da representao dos homens, e do mundo, piores do que so ou do que os
julgamos, piores em todo o caso de como os poemas hericos, as tragdias, as vidas dos
santos no-los mostraram.  assim?
  - Quase. Reconstruste-o lendo outros livros?
  - Sobre muitos dos quais estava trabalhando Venancio. Creio que Venancio andava h
muito  procura deste livro. Deve ter lido no catlogo as indicaes que eu tambm li e
deve ter-se convencido que aquele era o livro que ele procurava. Mas no sabia como
entrar no finis Africae. Quando ouviu Berengrio falar dele a Adelmo, ento lanou-se
como o co na pista de uma lebre.
  - Foi assim, dei-me conta imediatamente. Compreendi que tinha chegado o momento
em que deveria defender a biblioteca com unhas e dentes...
  - E aplicaste o ungento. Deve ter sido difcil... no escuro.
   - Hoje em dia vem melhor as minhas mos que os teus olhos. A Severino tambm
tinha tirado um pincel. E tambm eu usei as luvas. Foi uma bela idia, no foi? Levaste
muito tempo a chegar l...
   - Sim. Eu pensava num engenho mais complexo, num dente envenenado ou algo de
semelhante. Devo dizer que a tua soluo era exemplar, a vtima envenenava-se sozinha,
e precisamente na medida em que queria ler...
   Dei-me conta, com um arrepio, que naquele momento aqueles dois homens,
enfrentando-se numa luta mortal, se admiravam mutuamente, como se cada um tivesse
agido apenas para obter o aplauso do outro. A minha mente foi atravessada pelo
pensamento que as artes desenvolvidas por Berengrio para seduzir Adelmo e os gestos
simples e naturais com que a rapariga tinha suscitado a minha paixo e o meu desejo no
eram nada, quanto a astcia e frentica habilidade em conquistar o outro, em face da
aventura de seduo que se desenrolava sob os meus olhos, naquele momento, e que se
tinha estendido ao longo de sete dias, cada um dos interlocutores dando, por assim
dizer, misteriosos encontros ao outro, cada um aspirando secretamente  aprovao do
outro, que temia e odiava.
   - Mas agora diz-me - estava dizendo Guilherme - porqu? Porque quiseste proteger
este livro mais que tantos outros? Porque escondias, mas no a preo do delito, tratados
de necromancia, pginas em que se blasfemava, talvez, o nome de Deus, mas por estas
pginas condenaste os teus irmos e te condenaste a ti prprio? H tantos outros livros
que falam da comdia, tantos outros ainda que contm o elogio do riso. Porque  que
este te incutia tanto pavor?
   - Porque era do Filsofo. Cada um dos livros daquele homem destruiu uma parte da
sapincia que a cristandade tinha acumulado ao longo dos sculos. Os padres tinham dito
aquilo que era necessrio saber sobre a potncia do Verbo, e bastou que Bocio
comentasse o Filsofo para que o mistrio divino do Verbo se transformasse na pardia
humana das categorias e do silogismo. O livro do Gnesis diz aquilo que  preciso saber
sobre a composio do cosmo, e bastou que se redescobrissem os livros fsicos do Filsofo
para que o universo fosse repensado em termos de matria surda e viscosa e para que o
rabe Averroes quase convencesse todos da eternidade do mundo. Sabamos tudo sobre
os nomes divinos, e o dominicano sepultado por Abbone... seduzido pelo Filsofo...
voltou a nome-los seguindo os caminhos orgulhosos da razo natural. Assim, o cosmo,
que para o Aeropagita se manifestava a quem soubesse olhar para o alto da cascata
luminosa da causa primeira exemplar, tornou-se uma reserva de indcios terrestres dos
quais se remonta para nomear uma abstrata eficincia. Primeiro olhvamos para o cu,
dignando-nos lanar um olhar carregado  lama da matria, agora olhamos para a terra e
cremos no cu sobre o testemunho da terra. Cada palavra do Filsofo, sobre quem hoje
em dia juram mesmo os santos e os pontfices, subverteu a imagem do mundo. Mas ele
no tinha conseguido subverter a imagem de Deus. Se este livro se tornasse... se tivesse
tornado matria de aberta interpretao, teramos franqueado o ltimo limite.
   - Mas que coisa te assustou neste discurso sobre o riso? No eliminas o riso eliminando
este livro.
   - No, decerto. O riso  a fraqueza, a corrupo, a sensaboria da nossa carne.  o
folguedo para o campons, a licena para o avinhado, mesmo a Igreja na sua sabedoria
concedeu o momento da festa, do carnaval, da feira, desta poluio diurna que
descarrega os humores e entrava outros desejos e outras ambies... Mas assim o riso
permanece coisa vil, defesa para os simples, mistrios desconsagrados para a plebe.
Tambm o dizia o apstolo: em vez de arder, casai-vos. Em vez de vos rebelardes 
ordem querida por Deus, ride e deleitai-vos com as vossas imundas pardias da ordem,
no fim da refeio, depois de terdes esvaziado as canecas e os garrafes. Elegei o rei dos
imbecis, perdei-vos na liturgia do asno e do porco, jogai a representar as vossas saturnais
de cabea para baixo... Mas aqui, aqui... - agora Jorge batia com o dedo na mesa, perto
do livro que Guilherme tinha  sua frente  aqui inverte-se a funo do riso, eleva-se a
uma arte, abrem-se-lhe as portas do mundo dos doutos, faz-se dele objeto de filosofia e
de prfida teologia... Tu viste ontem como os simples podem conceber, e pr em
prtica, as mais obscuras heresias, desconhecendo quer as leis de Deus quer as leis da
natureza. Mas a Igreja pode suportar a heresia dos simples, os quais se condenam por si
mesmos, arruinados pela sua ignorncia. A inculta insensatez de Dolcino e dos seus pares
jamais por em crise a ordem divina. Pregar violncia e morrer de violncia, no
deixar marcas, consumir-se- como se consome o carnaval, e no importa se durante a
festa se produziu na terra, e por breve tempo, a epifania do mundo s avessas. Basta que
o gesto no se transforme em desgnio, que este vulgar no encontre um latim que o
traduza. O riso liberta o vilo do medo do diabo, porque na festa dos tolos o prprio
diabo aparece pobre e tolo, portanto controlvel. Mas este livro poderia ensinar que
libertar-se do medo do diabo  sapincia. Quando ri, enquanto o vinho lhe borbulha na
garganta, o vilo sente-se senhor, porque subverteu as relaes de senhoria: mas este
livro poderia ensinar aos doutos os enigmas argutos, e a partir daquele momento ilustres,
com que legitimar a subverso. Ento transformar-se-ia em operao do intelecto aquilo
que no gesto irrefletido do vilo  ainda e felizmente operao do ventre.
   Que o riso seja prprio do homem  sinal dos nossos limites de pecadores. Mas deste
livro quantas mentes corruptas como a tua extrairiam o extremo silogismo, pelo qual o
riso  a finalidade do homem! O riso desvia, por alguns instantes, o vilo do medo. Mas a
lei impe-se atravs do medo, cujo nome verdadeiro  temor de Deus. E deste livro
poderia partir a centelha luciferina que transmitiria ao mundo inteiro um novo incndio:
e o riso designar-se-ia como a arte nova, ignorada at de Prometeu, para anular o medo.
Ao vilo que ri, naquele momento, no importa morrer: mas depois, cessada a sua
licena, a liturgia impe-lhe de novo, segundo o desgnio divino, o medo da morte. E
deste livro poderia nascer a nova e destruidora aspirao a destruir a morte atravs da
libertao do medo. E que seramos ns, criaturas pecadoras, sem o medo, talvez o mais
provido e afetuoso dos dons divinos? Durante sculos, os doutores e os padres segregaram
perfumadas essncias de santo saber para redimir, atravs do pensamento daquilo que 
alto, a misria e a tentao daquilo que  baixo. E este livro, justificando como
miraculoso remdio a comdia, a stira e o mimo, que produziriam a purificao das
paixes atravs da representao do defeito, do vcio, da fraqueza, induziria os falsos
sbios a tentar redimir (com diablica reviravolta) o alto atravs da aceitao do baixo.
Deste livro derivaria o pensamento que o homem pode querer sobre a terra (como
sugeria o teu Bacon a propsito da magia natural) a prpria abundncia do pas de
Cocanha. Mas  isto que no devemos nem poderemos ter. Olha para os jovens monges
que perdem a vergonha na pardia burlesca da Coena Cyprians. Que diablica
transfigurao da sagrada escritura! E no entanto, ao faz-lo, sabem que isso  mal! Mas
no dia em que a palavra do Filsofo justificasse os jogos marginais da imaginao
desregrada, oh, ento, verdadeiramente, aquilo que estava  margem saltaria para o
centro, e do dentro perder-se-ia qualquer rasto. O povo de Deus transformar-se-ia numa
assemblia de monstros expelidos dos abismos da terra incgnita, e naquele momento a
periferia da terra conhecida tornar-se-ia o corao do imprio cristo, os arimaspos no
trono de Pedro, os blemos nos mosteiros, os anes de ventre grande e de cabea enorme
de guarda  biblioteca! Os servos a ditarem as leis, ns (mas ento tu tambm) a
obedecermos  ausncia de qualquer lei. Disse um filsofo grego (que o ru Aristteles
aqui cita, cmplice e imunda auctoritas) que se deve desmantelar a seriedade dos
adversrios com o riso, e o riso adversrio com a seriedade. A prudncia dos nossos
padres fez a sua escolha: se o riso  o deleite da plebe, que a licena da plebe seja
refreada e humilhada, e atemorizada com a severidade. E a plebe no tem armas pare
afinar o seu riso at o fazer tornar instrumento contra a seriedade dos pastores que
devem conduzi-la  vida eterna e subtra-la s sedues do ventre, das pudenta, da
comida, dos seus srdidos desejos. Mas se algum, um dia, agitando as palavras do
Filsofo, e portanto falando como filsofo, levasse a arte do riso  condio de arma
sutil, se  retrica da convico se substitusse a retrica da irriso, se  tpica da
paciente e salvadora construo das imagens da redeno se substitusse a tpica da
impaciente demo lio e do desvirtuamento de todas as imagens mais santas e
venerveis... oh, nesse dia tambm tu e toda a tua sapincia, Guilherme, sereis
arrasados!
   - Porqu? Bater-me-ia, a minha argcia contra a argcia alheia. Seria um mundo
melhor que aquele em que o fogo e o ferro em brasa de Bernardo Gui humilham o fogo e
o ferro em brasa de Dolcino.
  - Ento estarias preso tu tambm na trama do demnio. Combaterias do outro lado do
campo do Armagedo, onde ter lugar o reencontro final. Mas para esse dia a Igreja deve
saber impor uma vez mais a regra do conflito. No nos fez medo a blasfmia, porque
mesmo na maldio de Deus reconhecemos a imagem extraviada da ira de Jeov, que
maldiz os anjos rebeldes. No nos fez medo a violncia de quem mata os pastores em
nome de qualquer fantasia de renovao, porque  a mesma violncia dos princpios que
procuraram destruir o povo de Israel. No nos faz medo o rigor do donatista, a loucura
suicida do circuncelio, a luxria do bogomilo, a orgulhosa pureza do albigense, a
necessidade de sangue do flagelante, a vertigem do mal do irmo de esprito livre:
conhecemo-los a todos, e conhecemos a raiz dos seus pecados, que  a mesma raiz da
nossa santidade. No nos fazem medo e sobretudo sabemos como destru-los, melhor,
como deixar que se destruam por si levando orgulhosamente ao znite a vontade de
morte que nasce dos prprios abismos do seu nadir. Alis, queria dizer, a sua presena -
nos preciosa, inscreve-se no desgnio de Deus, porque o seu pecado incita a nossa
virtude, a sua blasfmia encoraja o nosso canto de louvor, a sua desregrada penitncia
regula o nosso gosto do sacrifcio, a sua impiedade faz resplandecer a nossa piedade, tal
como o prncipe das trevas foi necessrio, com a sua rebelio e a sua desesperao, para
melhor fazer refulgir a glria de Deus, princpio e fim de toda a esperana. Ma se um
dia... e j no como exceo plebia mas como ascese do douto, confiada ao
testemunho indestrutvel da escritura... se fizesse aceitvel, e aparecesse como nobre, e
liberal, e j no mecnica, a arte da irriso, se um dia algum pudesse dizer (e no ser
escutado): eu rio da Encarnao... ento no teramos armas para deter essa blasfmia,
porque ela apelaria s foras obscuras da matria corporal, aquelas que se afirmam no
peido e no arroto, e no arroto e o peido arrogariam para si o direito que  s do esprito,
de soprar onde quer!
  - Licurgo tinha mandado erigir uma esttua ao riso.
  - Leste isso no libelo de Clorcio, que tentou absolver os mimos da acusao de
impiedade, que diz como um doente foi curado por um mdico que o tinha ajudado a rir.
Porque era preciso cur-lo, se Deus tinha estabelecido que a sua jornada terrena tinha
chegado ao fim?
  - No creio que o tenha curado do mal. Ensinou-o a rir do mal.
  - O mal no se exorciza. Destri-se.
  - Com o corpo do doente.
  - Se for necessrio.
  - Tu s o diabo - disse ento Guilherme.
   Jorge pareceu no compreender. Se ele pudesse ver, eu diria que teria fixado o seu
interlocutor com olhar atnito.
  - Eu? - disse.
   - Sim, mentiram-te. O diabo no  o prncipe da matria, o diabo  a arrogncia do
esprito, a f sem sorriso, a verdade que nunca  aflorada pela dvida. O diabo  sombrio
porque sabe para onde vai, e, andando, vai sempre para o lugar de onde veio. Tu s o
diabo, e como o diabo vives nas trevas. Se querias convencer-me, no o conseguiste. Eu
odeio-te, Jorge, e se pudesse conduzir-te-ia l para baixo, pelo planalto, nu, com penas
de volteis enfiadas no olho do c e a cara pintada como um malabarista e um bufo,
para que todo o mosteiro se risse de ti e no mais tivesse medo. Gostaria de te barrar de
mel e depois enrolar-te nas plumas, levar-te  trela pelas feiras, para dizer a todos: este
anunciava-vos a verdade e dizia-vos que a verdade tem o sabor da morte, e vs no
acreditveis na sua palavra, mas sim na sua triste figura. E agora eu digo-vos que, na
infinita vertigem dos possveis, Deus tambm vos consente que imagineis um mundo em
que o presumvel intrprete da verdade no seja mais que um melro desajeitado, que
repete palavras aprendidas h muito tempo.
   - Tu s pior que o diabo, menorita - disse ento Jorge. - s um jogral, como o santo
que vos pariu. s como o teu Francisco, que de toto corpore fecerat linguam, que fazia
sermes dando espetculos como os saltimbancos, que confundia o avaro metendo-lhe na
mo moedas de ouro, que humilhava a devoo das freiras recitando o Miserere em vez
da prdica, que mendigava em francs, e imitava com um pedao de madeira os
movimentos de quem toca violino, que se vestia de vagabundo para confundir os frades
glutes, que se lanava nu sobre a neve, falava com os animais e as ervas, transformava
o prprio mistrio da natividade em espetculo de aldeia, invocava o cordeiro de Belm
imitando o balido da ovelha... Foi uma boa escola... No era menorita aquele frade
Deustesalve de Florena?
   - Sim - sorriu Guilherme. - Aquele que foi ao convento dos pregadores e disse que no
aceitaria comida se primeiro no lhe dessem um pedao da tnica de frei Joo, para
conservar como relquia, e quando lha deram limpou a ela o traseiro e depois lanou-a na
estrumeira, e com uma vara enrolava-a no esterco gritando: ai de mim, ajudai-me
irmos, porque perdi na latrina as relquias do santo!
  - Diverte-te esta histria, parece-me. Talvez queiras contar-me tambm aquela do
outro menorita, frade Paulo Milmoscas, que um dia caiu ao comprido sobre o gelo, e os
seus cidados troaram dele, e um perguntou-lhe se no queria ter algo de melhor
debaixo de si, e ele respondeu-lhe: sim, a tua mulher... Assim vs procurais a verdade.
  - Assim Francisco ensinava a gente a olhar para as coisas de outra maneira.
   - Mas disciplinamo-vos. Viste-os ontem, os teus irmos. Reentraram nas nossas fileiras,
j no falam como os simples. Os simples no devem falar. Este livro justificaria a idia
que a lngua dos simples  portadora de uma certa sabedoria. Era necessrio impedir
isso, foi o que eu fiz. Tu dizes que eu sou o diabo: no  verdade. Eu fui a mo de Deus.
   - H limites para alm dos quais no  permitido ir. Deus quis que sobre certos papis
fosse escrito: hic sunt leones.
  - Deus tambm criou os monstros. Mesmo a ti. E de tudo quer que se fale.
  Jorge alongou as mos trmulas e puxou para si o livro. Tinha-o aberto, mas ao
contrrio, de modo que Guilherme continuasse a v-lo pelo lado justo.
   - Ento porque  que - disse - deixou que este texto andasse perdido ao longo do curso
dos sculos, e se salvasse s uma cpia, que a cpia daquela cpia, que foi parar sabe-se
l onde, permanecesse sepultada durante anos nas mos de um infiel que no conhecia o
grego e depois jazesse abandonada no reduto de uma velha biblioteca onde eu, no tu,
eu fui chamado pela providncia a encontr-la, e a traz-la comigo, e a escond-la
durante mais anos ainda? Eu sei, sei como se o visse escrito em letras de diamante, com
os meus olhos que vem coisas que tu no vs, eu sei que esta era a vontade do Senhor,
segundo a qual eu agi. Em nome do Pai, do Filho, e do Esprito Santo.
  STIMO DIA
  NOITE
   Onde sobrevm a ectirose e por causa da demasiada virtude prevalecem as foras do
inferno.
  O velho calou-se. Conservava ambas as mos abertas sobre o livro, como se lhe
acariciasse as pginas, como se estivesse estendendo as folhas para o ler melhor, ou
quisesse proteg-lo de uma presa rapace.
  - Tudo isto no serviu afinal de nada - disse-lhe Guilherme. - Agora acabou-se,
encontrei-te, encontrei o livro, e os outros morreram em vo.
  - No em vo - disse Jorge. - Talvez em excesso. E, se acaso te servia uma prova de
que este livro  maldito, tiveste-a. Mas no devem ter morrido em vo. E, a fim de que
no tenham morrido em vo, uma morte no ser de mais.
  Disse, e comeou com as suas mos descarnadas e difanas a rasgar lentamente, aos
pedaos e s tiras, as pginas moles do manuscrito, metendo-os  boca aos bocados e
mastigando-os lentamente como se consumisse a hstia e quisesse faz-la carne da sua
prpria carne.
   Guilherme olhava-o fascinado e parecia no se dar conta do que se passava. Depois
sacudiu-se e debruou-se para a frente, gritando:
  - Que fazes?
  Jorge sorriu, descobrindo as gengivas exangues, enquanto uma baba amarela lhe
corria dos lbios plidos sobre a penugem branca e rala do queixo.
   - s tu que esperavas o som da stima trombeta, no  verdade? Escuta agora o que
diz a voz: sela aquilo que disseram os sete troves e no o escrevas, toma-o e devora-o,
isso amargar ao teu ventre mas  tua boca ser doce como o mel. Vs? Agora selo aquilo
que no devia ser dito, na trombeta em que me torno.
  Riu, precisamente ele, Jorge. Pela primeira vez o ouvi rir... Riu com a garganta, sem
que os lbios adquirissem uma expresso de alegria, e quase parecia que chorava:
  - No esperavas, Guilherme, esta concluso, verdade? Este velho pela graa do
Senhor, ainda vence, no  verdade?
  E, como Guilherme procurava tirar-lhe o livro, Jorge, que pressentiu o gesto
percebendo a vibrao do ar, retrocedeu, apertando o volume ao peito com a mo
esquerda enquanto com a direita continuava a rasgar-lhe as pginas e a met-las  boca.
   Estava do outro lado da mesa, e Guilherme, que no conseguia tocar-lhe, tentou
bruscamente contornar o obstculo. Mas fez cair o seu banco, enredando nele a veste,
de modo que Jorge teve ocasio de perceber o alvoroo. O velho riu ainda, desta vez
mais alto, e com insuspeitada rapidez estendeu a mo direita, localizando s apalpadelas
a candeia, guiado pelo calor atingiu a chama e carregou-lhe em cima com a mo, sem
temer a dor, e a chama apagou-se. A sala mergulhou na obscuridade, e ouvimos pela
ltima vez a risada de Jorge, que gritava:
  - Encontrai-me agora, porque agora sou eu que vejo melhor!
  Depois calou-se e no se fez ouvir mais, movendo-se com aqueles passos silenciosos
que tornavam sempre to inesperadas as suas aparies, e s ouvamos por momentos,
em pontos diversos da sala, o rumor do papel que se rasgava.
  - Adso! - gritou Guilherme -, fica  porta, no o deixes sair!
  Mas tinha falado demasiado tarde, porque eu, que j h alguns segundos fremia com o
desejo de me lanar sobre o velho, ao cair da treva tinha-me atirado para a frente,
procurando contornar a mesa do lado oposto quele em que se tinha movido o meu
mestre. Demasiado tarde compreendi que tinha dado espao a Jorge de alcanar a porta,
porque o velho sabia dirigir-se no escuro com extraordinria segurana. E de fato
ouvimos um rumor de papel rasgado atrs de ns, e bastante atenuado, porque j
provinha da sala contgua. E ao mesmo tempo ouvimos outro rumor, um rangido forado
e progressivo, um gemer de gonzos.
  - O espelho! - gritou Guilherme. - Est a fechar-nos c dentro!
  Guiados pelo rumor, ambos nos atiramos para a entrada, eu tropecei num escabelo e
contundi uma perna, mas no fiz caso, porque num relmpago compreendi que, se Jorge
nos tivesse encerrado, nunca mais sairamos: no escuro no encontraramos o modo de
abrir, no sabendo daquele lado o que se devia manobrar e como.
   Creio que Guilherme se movia com a mesma desesperao que eu, porque o senti a
meu lado enquanto ambos, alcanada a soleira, nos empurrvamos contra a parte de trs
do espelho que se estava fechando sobre ns. Chegamos a tempo, porque a porta
deteve-se e pouco depois cedeu, reabrindo-se. Evidentemente, Jorge, advertindo que o
jogo era desigual, tinha-se afastado. Samos da sala maldita, mas agora no sabamos
para onde se tinha dirigido o velho, e a escurido continuava a ser total. De repente
lembrei-me:
  - Mestre, mas eu tenho comigo o fuzil!
  - Ento que esperas? - gritou Guilherme -, procura a lmpada e acende-a!
   Eu lancei-me no escuro, voltando ao finis Africae, procurando a candeia, s
apalpadelas. Consegui logo, por milagre divino, rebusquei no escapulrio, encontrei o
fuzil, as mos tremiam-me e falhei duas ou trs vezes antes de o acender, enquanto
Guilherme ofegava da porta.
   - Depressa, depressa! - e finalmente fiz luz. - Depressa - incitou-me ainda Guilherme -
, seno aquele come o Aristteles todo!
  - E morre! - gritei eu angustiado, alcanando-o e pondo-me com ele  procura.
   - No me importa que morra, o maldito! - gritava Guilherme, cravando os olhos em
redor e movendo-se de modo desordenado. - De qualquer maneira com aquilo que comeu
o seu destino j est marcado. Mas eu queria o livro! - Depois parou, e acrescentou com
mais calma: - Pra. Se fizermos assim, nunca mais o encontramos. Calados e quietos um
instante.
  Imobilizamo-nos em silncio. E no silncio ouvimos no muito longe o rumor de um
corpo que chocava com um armrio e o estrpido de alguns livros que caam.
  - Por ali! - gritamos ao mesmo tempo.
  Corremos na direo dos rumores, mas logo nos demos conta que devamos abrandar o
passo. De fato fora do finis Africae, a biblioteca era atravessada naquela noite por
rajadas de ar que sibilavam e gemiam na proporo do vento forte do exterior.
  Multiplicadas pelo nosso mpeto, elas ameaavam apagar a candeia, to duramente
reconquistada. No podendo ns acelerar, seria mister abrandar Jorge. Mas Guilherme
teve a intuio oposta e gritou:
  - Apanhamos-te, velho, agora temos a luz!
   E foi sbia resoluo, porque a revelao ps provavelmente em agitao Jorge, que
deve ter acelerado o passo, comprometendo o equilbrio daquela sua mgica
sensibilidade de vidente das trevas. De fato, pouco depois ouvimos um outro rumor e,
quando, segundo o som, entramos na sala Y de YSPANA, vimo-lo, cado por terra, o livro
ainda nas mos, enquanto procurava levantar-se no meio dos volumes que se tinham
precipitado da mesa em que ele tinha chocado e que havia virado. Procurava levantar-se
mas continuava a rasgar as pginas, como para devorar o mais depressa possvel a sua
presa.
   Alcanamo-lo quando j se tinha levantado, e sentindo a nossa presena enfrentava-
nos recuando. O seu rosto,  claridade vermelha da candeia, pareceu-nos agora
horrendo: as feies alteradas, um suor maligno estriava-lhe a fronte e as faces, os olhos
habitualmente brancos de morte tinham-se injetado de sangue, da boca saam-lhe
farrapos de pergaminho como a uma fera famlica que se tivesse empanturrado de mais
e j no conseguisse tragar a sua comida. Desfigurado pela ansiedade, pelo ataque do
veneno que agora j lhe serpenteava abundantemente nas veias, pela sua desesperada e
diablica determinao, aquela que tinha sido a figura venervel do velho parecia agora
repugnante e grotesca: noutros momentos poderia mover ao riso, mas tambm ns
estvamos reduzidos ao estado de animais, a ces que perseguem a caa.
   Poderamos t-lo agarrado com calma, em vez disso precipitamo-nos sobre ele com
nfase, ele debateu-se, apertou as mos sobre o peito defendendo o volume, eu
segurava-o com a mo esquerda enquanto com a direita procurava manter alta a
candeia, mas rocei-lhe o rosto com a chama, ele pressentiu o calor, emitiu um som
sufocado, um rugido, quase, deixando cair da boca pedaos de papel, abandonou a mo
direita com que agarrava o livro, moveu a mo para a candeia e arrebatou-ma de
repente, lanando-a para a frente...
  A candeia foi cair precisamente no monte de livros cados da mesa, amontoados uns
sobre os outros com as pginas abertas. O azeite entornou-se, o fogo pegou-se logo a um
pergaminho fragilssimo que ardeu como um feixe de galhos secos. Tudo aconteceu em
poucos instantes, uma grande labareda elevou-se dos volumes, como se aquelas pginas
milenares anelassem h sculos pelo ardor e se alegrassem em satisfazer de repente uma
imemorial sede de ecpirose. Guilherme apercebeu-se de quanto estava acontecendo e
abandonou a presa sobre o velho - o qual, sentindo-se livre, recuou alguns passos -,
hesitou um tanto, decerto de mais, sem saber se havia de voltar a agarrar Jorge ou
lanar-se a apagar a pequena fogueira. Um livro mais velho que os outros ardeu quase de
repente, lanando para o alto uma lngua de fogo.
   As finas lamelas do vento, que podiam apagar uma dbil chamazinha, encorajavam
pelo contrrio uma mais forte e vivaz, e faziam mesmo brotar dela lnguas de fogo
errantes.
  - Apaga aquele fogo, depressa! - gritou Guilherme. - Aqui arde tudo!
   Eu lancei-me em direo  fogueira, depois parei, porque no sabia o que fazer.
Guilherme moveu-se ainda em direo a mim, para vir em meu auxlio. Estendemos as
mos para o incndio, procuramos com os olhos qualquer coisa com que o sufocar, eu
tive como uma inspirao, tirei a veste despindo-a pela cabea e procurei lana-la sobre
o braseiro. Mas as labaredas eram agora demasiado altas, morderam a minha veste e
dela se alimentaram. Retirei as mos, que se tinham queimado, voltei-me para
Guilherme e vi, mesmo por trs dele, Jorge, que se tinha aproximado de novo. O calor
era agora to forte que ele sentiu-o perfeitamente, soube com absoluta certeza onde
estava o fogo, e para a atirou o Aristteles.
  Guilherme teve um gesto de ira e deu um empurro violento ao velho, que chocou
com um armrio, batendo com a cabea contra uma esquina e caindo por terra... Mas
Guilherme, a quem creio ter ouvido pronunciar uma horrvel blasfmia, no se
preocupou com ele. Voltou aos livros. Demasiado tarde. O Aristteles, ou melhor, quanto
dele tinha restado da refeio do velho, j estava a arder.
  Entretanto algumas chamas tinham subido pelas paredes e j os volumes de um outro
armrio se encontravam encarquilhando sob o mpeto do fogo. A partir de ento, no um
mas dois incndios abrasavam a sala.
   Guilherme compreendeu que no poderamos apaga-los com as mos, e resolveu salvar
os livros com os livros. Agarrou num volume que lhe pareceu melhor encadernado que os
outros, e mais compacto, e procurou us-lo como uma arma para sufocar o elemento
inimigo. Mas, batendo com a encadernao guarnecida de tachas sobre a pira dos livros a
arder, no fazia mais que suscitar novas centelhas. Procurou dispers-las com os ps,
mas obteve o efeito oposto, porque se levantaram no ar pedaos de pergaminho quase
reduzido a cinzas que esvoaavam como morcegos pelo ar aliado ao seu areo
companheiro os enviava a incendiar a matria terrestre de outras folhas.
  A desventura quisera que aquela fosse uma das salas mais desordenadas do labirinto.
Das prateleiras dos armrios pendiam manuscritos enrolados, outros livros j desligados
deixavam despontar das suas capas, como de lbios hiantes, lnguas de velo ressequido
pelos anos, e a mesa devia ter contido uma quantidade grande de escritos que Malaquias
(ento sozinho h alguns dias) tinha descurado arrumar. De maneira que a sala, depois
da runa provocada por Jorge, estava invadida de pergaminhos que no esperavam mais
que transformar-se noutro elemento.
   Em muito pouco tempo a sala ficou um braseiro, uma carca ardente. Tambm os
armrios participavam naquele sacrifcio e comearam a crepitar. Dei-me conta que todo
o labirinto no era mais que uma imensa pira sacrificial, preparada  espera da primeira
fagulha...
  - gua,  preciso gua! - dizia Guilherme, mas depois acrescentava. - E onde se
encontra gua neste inferno?
  - Na cozinha, em baixo, na cozinha! - gritei.
  Guilherme olhou-me perplexo, com o rosto avermelhado por aquele furioso claro.
  - Sim, mas antes que desamos e voltemos a subir... Ao diabo! - gritou depois -, em
qualquer caso esta sala est perdida, e talvez tambm a seguinte. Descamos
imediatamente, eu procuro gua, e tu vai dar o alarme,  preciso muita gente!
   Encontramos o caminho da escada, porque a conflagrao iluminava tambm as salas
sucessivas, embora cada vez mais debilmente, de modo que percorremos as ltimas duas
salas quase s apalpadelas. Em baixo, a luz da noite iluminava palidamente o
scriptorium, e dali descemos ao refeitrio. Guilherme correu  cozinha, eu  porta do
refeitrio, manobrando para a abrir do interior, o que consegui depois de no pouco
trabalho, porque a agitao me tornava desajeitado e inbil. Sai para o planalto, corri
para o dormitrio, depois compreendi que no poderia acordar os monges um a um, tive
uma inspirao, fui  igreja, procurando o caminho para a torre do campanrio. Logo que
ai cheguei, agarrei-me a todas as cordas, tocando a rebate. Puxava com fora, e a corda
do sino maior, subindo de novo, arrastava-me consigo. As mos na biblioteca tinham-se-
me queimado nas costas, ainda tinha as palmas ss, de modo que as queimei fazendo-as
deslizar ao longo das cordas, at que sangraram e tive de largar tudo.
   Mas j tinha feito bastante barulho, precipitei-me para o exterior, a tempo de ver os
primeiros monges que saam do dormitrio, enquanto de longe se ouviam as vozes dos
servos que estavam assomando  soleira dos seus alojamentos. No pude explicar-me
bem, porque estava incapaz de formular palavras, e as primeiras que me vieram aos
lbios foram na minha lngua materna. Com a mo ensangentada indicava as janelas da
ala meridional do Edifcio das quais transparecia, atravs do alabastro, um claro
anormal. Dei-me conta, pela intensidade da luz, que, enquanto descia e tocava os sinos,
o fogo se tinha propagado j a outras salas. Todas as janelas da frica e toda a fachada
entre esta e o torreo oriental reluziam agora com clares desiguais.
  - gua, trazei gua! - gritava eu.
   A primeira ningum compreendeu. Os monges estavam to habituados a considerar a
biblioteca um lugar sagrado e inacessvel que no conseguiam capacitar-se de que ela
fosse ameaada por um acidente vulgar, como uma cabana de camponeses. Os primeiros
que elevaram o olhar para as janelas benzeram-se murmurando palavras de espanto, e
compreendi que acreditavam em novas aparies. Agarrei-me s suas vestes, implorei-
lhes que compreendessem, at que algum traduziu os meus soluos em palavras
humanas.
  Era Nicolau de Morimondo, que disse:
  - A biblioteca est a arder!
  - Pois - murmurei, deixando-me cair desfalecido por terra.
   Nicolau deu prova de grande energia, gritou ordens aos servos, deu conselhos aos
monges que o rodeavam, enviou algum a abrir as outras portas do Edifcio, impeliu
outros a procurarem baldes e recipientes de toda a espcie, orientou os presentes para
as nascentes e os depsitos de gua da cerca. Ordenou aos vaqueiros que usassem os
mulos e os burros para transportarem cntaros... Se tivesse sido um homem dotado de
autoridade a dar estas disposies teria sido imediatamente obedecido. Mas os servos
estavam habituados a receber ordens de Remgio, os copistas de Malaquias, todos do
Abade. E nenhum dos trs estava, infelizmente, presente. Os monges procuravam com os
olhos o Abade,  procura de indicaes e de conforto, e no o encontravam, e s eu
sabia que ele estava morto, ou estava morrendo naquele momento, murado num tnel
asfixiante que agora se estava transformando num forno, num touro de Falride.
   Nicolau empurrava os vaqueiros para um lado, mas algum outro monge, animado de
boas intenes, empurrava-os para o outro. Alguns irmos tinham evidentemente perdido
a calma, outros estavam ainda entorpecidos pelo sono. Eu procurava explicar, porque j
tinha recuperado o uso da palavra, mas  necessrio recordar que estava quase nu,
tendo deitado a tnica s chamas, e a vista do rapaz que eu era, ensangentado, de
rosto enegrecido pela fuligem de corpo indecentemente imberbe, atarantado agora pelo
frio, no devia decerto inspirar confiana.
   Finalmente, Nicolau conseguiu arrastar alguns irmos e outra gente para a cozinha,
que entretanto algum tinha tornado acessvel. Mais algum teve o bom senso de trazer
tochas. Encontramos o local em grande desordem, e compreendi que Guilherme devia t-
lo posto em desalinho para procurar gua e recipientes adequados para a transportar.
  Vi naquele entretanto o prprio Guilherme, que desembocava da porta do refeitrio,
com o rosto chamuscado, o hbito fumegante, na mo tinha uma grande marmita, e
senti piedade dele, pobre alegoria da impotncia. Compreendi que, se acaso tinha
conseguido transportar ao segundo andar uma panela de gua sem a entornar, e se acaso
o tinha feito mais de uma vez, devia ter obtido bem pouco. Lembrei-me da histria de
Santo Agostinho, quando v uma criana que tenta transvasar a gua do mar com uma
colher: a criana era um anjo, e fazia isso para brincar com o santo, que pretendia
penetrar os mistrios da natureza divina. E como o anjo me falou Guilherme, apoiando-
se exausto ao p direito da porta:
   -  impossvel, jamais conseguiremos, nem sequer com todos os monges da abadia. A
biblioteca est perdida.
  Contrariamente ao anjo, Guilherme chorava.
  Eu apertei-me a ele, enquanto ele arrancava de uma mesa um pano e tentava cobrir-
me. Paramos a observar, j derrotados, aquilo que acontecia a nossa volta.
   Era um acorrer desordenado de gente, alguns subiam de mos vazias e cruzavam-se
pela escada de caracol com quem de mos vazias, impelido por estpida curiosidade, j
tinha subido e agora descia a procurar recipientes. Outros mais avisados procuravam logo
panelas e bacias, para perceberem que na cozinha no havia gua bastante. De
improviso, a enorme sala foi invadida por alguns mulos que transportavam cntaros, e os
vaqueiros que os empurravam descarregaram-nos e fizeram meno de transportar a
gua para cima. Mas no sabiam o caminho para subir ao scriptorium, e foi preciso tempo
antes que algum dos copistas os instrussem, e quando subiam chocavam com os que
desciam aterrorizados. Alguns dos cntaros quebraram-se e espalharam a gua pelo cho,
outros foram passados ao longo da escada de caracol por mos diligentes. Segui o grupo e
achei-me no scriptorium: do acesso  biblioteca provinha um fumo denso, os ltimos que
tinham tentado subir at ao torreo oriental j voltavam, tossindo, com os olhos
vermelhos, e declaravam que j no se podia penetrar naquele inferno.
  Vi ento Bncio. De rosto alterado, com um enorme recipiente subia do andar inferior.
Ouviu aquilo que diziam os foragidos e apostrofou-os:
   - O inferno engolir-vos- a todos, covardes! - Voltou-se como para procurar auxlio e
viu-me:
  - Adso - gritou -, a biblioteca... a biblioteca...
  No esperou pela minha resposta. Correu para os ps da escada e penetrou
ousadamente no fumo. Foi a ltima vez que o vi.
  Ouvi um rangido que provinha de cima. Das abbadas do scriptorium caam pedaos de
pedra misturados com cal. Uma chave de abbada esculpida em forma de flor soltou-se e
quase me caa na cabea. O pavimento do labirinto estava cedendo.
   Desci a correr ao rs-do-cho e sa para o ar livre. Alguns servos diligentes tinham
trazido escadas com as quais tentavam alcanar as janelas dos andares altos e fazer
passar a gua por aquela via. Mas as escadas mais altas mal chegavam s janelas do
scriptorium, e quem ali tinha subido no podia abri-las do exterior. Mandaram dizer que
as abrissem do interior, mas j ningum agora ousava subir.
   Entretanto, eu observava as janelas do terceiro andar. A biblioteca toda devia ter-se
tornado j um nico braseiro fumegante, e o fogo agora corria de sala em sala, abrindo-
se rpido nos milhares de pginas secas. Todas as janelas estavam agora iluminadas, um
fumo negro saa pelo teto: o fogo j se tinha comunicado s traves de cobertura. O
Edifcio, que parecia to slido e tetrgono, revelava naquela circunstancia a sua
fraqueza, as suas fendas, os muros comidos a partir do interior, as pedras esboroadas que
permitiam  chama atingir as estruturas de madeira onde quer que elas estivessem.
   De repente, algumas janelas despedaaram-se como comprimidos por uma fora
interna, as centelhas saram para o ar livre salpicando de luzes errantes o escuro da
noite. O vento, primeiro forte, tinha-se tornado mais leve, e foi desventura porque,
forte, teria talvez apagado as centelhas, leve transportava-as, excitando-as, e com elas
fazia voltear no ar pedaos de pergaminho que um facho interno tornara mais finos.
Naquela altura ouviu-se um estrondo: o pavimento do labirinto tinha cedido nalguns
pontos, precipitando as suas traves chamejantes no andar inferior, porque ento vi
lnguas de chama levantarem-se do scriptorium, tambm ele povoado de livros e de
armrios, e de papis soltos, espalhados pelas mesas, prontas para a solicitao das
centelhas. Ouvi gritos de desespero provenientes de um grupo de copistas que se
arrancavam os cabelos e ainda se propunham subir heroicamente, para recuperarem os
seus to amados pergaminhos. Em vo, que a cozinha e o refeitrio eram agora uma
encruzilhada de almas perdidas que se agitavam em todas as direes, onde cada um
fazia obstculo aos outros. A gente chocava, caa, quem tinha um recipiente entornava-
lhe o salvtico contedo, os mulos que tinham penetrado na cozinha tinham percebido a
presena do fogo e pateando precipitavam-se para as sadas, chocando com os humanas
e os seus prprios assustadssimos palafreneiros. Via-se bem que, de qualquer modo,
aquela turba de vilos e de homens devotos e sbios, mas extremamente inbeis, no
dirigida por algum estava estorvando mesmo os socorros que acaso tivessem podido
chegar.
   Todo o planalto era dominado pela desordem. Mas estava-se apenas no incio da
tragdia. Porque, saindo pelas janelas e pelo teto, a nuvem agora triunfante das
centelhas, encorajada pelo vento, estava caindo por todo o lado, tocando as coberturas
da igreja. No h quem no saiba quantas esplndidas catedrais foram vulnerveis 
mordedura do fogo: porque a casa de Deus aparece bela e bem defendida como a
Jerusalm celeste por causa da pedra de que faz gala, mas as muralhas e as abbadas
so sustentadas por uma frgil, embora admirvel, arquitetura de madeira, e se a igreja
de pedra recorda as florestas mais venerveis pelas suas colunas que se ramificam no
alto das abbadas, ousadas como carvalhos, do carvalho tem muitas vezes o corpo-como
tem igualmente de madeira todo o seu recheio, os altares, os coros, as tbuas pintadas,
os bancos, os cadeires, os candelabros. Assim aconteceu  igreja abacial de portal
belssimo que tanto me tinha fascinado no primeiro dia. Ela incendiou-se em brevssimo
tempo. Os monges e toda a populao do planalto compreenderam ento que estava em
jogo a prpria sobrevivncia da abadia, e todos se puseram a correr ainda mais arrojada
e desordenadamente para fazer frente ao perigo.
   Decerto que a igreja era mais acessvel e portanto mais fcil de defender que a
biblioteca. A biblioteca tinha sido condenada pela sua prpria impenetrabilidade, pelo
mistrio que a protegia, pela avareza dos seus acessos. A igreja, aberta maternalmente a
todos na hora da orao, a todos estava aberta na hora do socorro. Mas no havia mais
gua, ou pelo menos muito pouca se podia encontrar depositada em quantidade
suficiente, as nascentes forneciam-na com natural parcimnia e com lentido no
proporcional  urgncia da tarefa. Todos poderiam ter apagado o incndio da igreja,
ningum sabia agora como. Alm disso, o fogo tinha-se comunicado por cima, onde era
difcil iar-se para combater as chamas ou sufoc-las com terra e trapos. E, quando as
chamas chegaram de baixo, era j intil deitar-lhes terra ou areia que o teto rua agora
sobre os que traziam socorro, derrubando no poucos.
   Assim, aos gritos de lamento pelas muitas riquezas que ardiam estavam agora a unir-se
os gritos de dor pelos rostos queimados, os membros esmagados, os corpos desaparecidos
sob um repentino precipitar de abbadas.
   O vento tinha-se feito de novo impetuoso e mais impetuosamente alimentava o
contgio. Logo depois da igreja incendiaram-se os estbulos e as cavalarias. Os animais
aterrorizados, quebraram as suas cordas, derrubaram as portas, espalharam-se pelo
planalto relinchando, mugindo, balindo, grunhindo horrivelmente. Algumas centelhas
atingiram as crinas de muitos cavalos, e viu-se a esplanada percorrida por criaturas
infernais, por corcis flamejantes que derrubavam tudo no seu caminho que no tinha
nem meta nem trgua. Vi o velho Alinardo, que errava perdido sem ter compreendido o
que acontecia, derrubado pelo magnfico Brunello, aureolado de fogo, transportado para
o p e a abandonado, pobre coisa informe. Mas no tive nem modo nem tempo de o
socorrer, nem de chorar o seu fim, porque cenas como aquela repetiam-se agora por
toda a parte.
   Os cavalos em chamas tinham transportado o fogo para onde o vento no o tinha ainda
feito: agora ardiam tambm as oficinas e a casa dos novios. Bandos de pessoas corriam
de um lado para o outro da esplanada, sem meta ou com metas ilusrias. Vi Nicolau, com
a cabea ferida, o hbito em farrapos, que j vencido, de joelhos na alameda de acesso,
maldizia a maldio divina. Vi Pacfico de Tivoli, que, renunciando a qualquer idia de
socorro, estava procurando agarrar  passagem um mulo  desfilada, e como conseguiu
gritou-me que tambm eu fizesse a mesma coisa e que fugisse, para escapar quele
torvo simulacro de Armagedo.
  Perguntei-me onde estava Guilherme e temi que tivesse sido derrubado por um
desabamento. Encontrei-o depois de longa busca nas proximidades do claustro. Tinha na
mo a sua saca de viagem: quando o fogo j se comunicava  casa dos peregrinos tinha
subido  sua cela para salvar ao menos as suas preciosssimas coisas. Tinha trazido
tambm a minha saca, onde encontrei alguma coisa com que me vestir. Detivemo-nos
ofegantes a observar o que acontecia em redor.
   Agora a abadia estava condenada. Quase todos os seus edifcios estavam, uns mais
outros menos, atingidos pelo fogo. Os que estavam ainda intactos no o seriam dentro
em pouco, porque tudo agora, desde os elementos naturais  obra confusa dos que
socorriam, colaborava para propagar o incndio. Permaneciam salvas as partes no
edificadas, o horto, o jardim diante do claustro... No se podia fazer mais nada para
salvar as construes, mas bastava abandonar a idia de salv-las para se poder observar
tudo sem perigo, estando em zona aberta.
   Olhamos para a igreja, que agora ardia lentamente, porque  prprio destas grandes
construes arder logo nas partes lenhosas e depois agonizar durante horas, por vezes
durante dias. Diversamente ardia agora o Edifcio. Aqui, o material combustvel era
muito mais rico, o fogo j propagado de todo pelo scriptorium tinha agora invadido o
andar da cozinha. Quanto ao terceiro andar, onde outrora e durante centenas de anos
tinha sido o labirinto, estava agora praticamente destrudo.
  - Era a maior biblioteca da cristandade - disse Guilherme. - Agora - acrescentou - o
Anticristo est verdadeiramente prximo, porque nenhuma sapincia lhe far mais de
barreira. Por outro lado vimos o seu vulto esta noite.
  - O vulto de quem? - perguntei, aturdido.
   - Jorge, quero eu dizer. Naquele rosto devastado pelo dio contra a filosofia vi pela
primeira vez o retrato do Anticristo, que no vem da tribo de Judas, como pretendem os
seus anunciadores, nem de um pas longnquo. O Anticristo pode nascer da prpria
piedade, do excessivo amor de Deus ou da verdade, como o herege nasce do santo e o
endemoninhado do vidente. Teme, Adso, os profetas e aqueles que esto dispostos a
morrer pela verdade, que de costume fazem morrer muitssimos com eles,
freqentemente antes deles, por vezes em seu lugar. Jorge cumpriu uma obra diablica
porque amava de modo to lbrico a sua verdade que ousava tudo com a condio de
destruir a mentira. Jorge temia o segundo livro de Aristteles porque ele ensinava talvez
a deformar deveras o rosto de toda a verdade, a fim de que no nos tornssemos
escravos dos nossos fantasmas. Talvez a tarefa de quem ama os homens seja fazer rir da
verdade, fazer rir a verdade, porque a nica verdade  aprender a libertar-nos da paixo
insana pela verdade.
  - Mas, mestre - arrisquei dolente -, vs agora falais assim porque estais ferido no mais
profundo da vossa alma. Porm h uma verdade, aquela que descobristes esta noite,
aquela a que chegastes interpretando as pistas que lestes nos ltimos dias. Jorge venceu,
mas vs vencestes Jorge, porque puseste a nu a sua trama...
  - No havia uma trama - disse Guilherme -, e eu descobri-a por engano.
  A afirmao era autocontraditria, e no compreendi se verdadeiramente Guilherme
queria que o fosse.
   - Mas era verdade que as pegadas sobre a neve remetiam para Brunello - disse eu -,
era verdade que Adelmo se tinha suicidado, era verdade que Venancio no se tinha
afogado no cntaro, era verdade que o labirinto era organizado tal como o haveis
imaginado, era verdade que se entrava no finis Africae tocando a palavra quator, era
verdade que o livro misterioso era de Aristteles... Poderia continuar a enumerar todas
as coisas verdadeiras que vs haveis descoberto valendo-vos da vossa cincia...
   - Nunca duvidei da verdade dos signos, Adso, so a nica coisa de que o homem dispe
para se orientar no mundo. Aquilo que eu no compreendi foi a relao entre os signos.
Cheguei at Jorge atravs de um esquema apocalptico que parecia reger todos os
delitos, e no entanto era casual. Cheguei a Jorge procurando um autor de todos os
crimes, e descobrimos que cada crime tinha no fundo um autor diferente, ou ento
nenhum.
   Cheguei a Jorge perseguindo o desgnio de uma mente perversa e raciocinante, e no
havia desgnio algum, ou melhor, mesmo Jorge tinha sido dominado pelo prprio desgnio
inicial, e depois tinha-se iniciado uma cadeia de causas e de causas concomitantes, e de
causas em contradio entre si, que tinham procedido por conta prpria, criando
relaes que no dependiam de desgnio algum. Onde est toda a minha sabedoria?
Comportei-me como um obstinado, perseguindo um simulacro de ordem, quando bem
devia saber que no h uma ordem no universo.
  - Mas imaginando ordens erradas encontrastes mesmo assim alguma coisa...
   - Disseste uma coisa bela, Adso, agradeo-te. A ordem que a nossa mente imagina 
como uma rede, ou uma escada, em que se constri para alcanar qualquer coisa. Mas
depois deve-se deitar fora a escada, porque se descobre que, se acaso servia, era
privada de sentido. Er muoz gelchesame die Leiter abewerfen, so Er an ir ufgestigen
ist... Diz-se assim?
  - Soa assim na minha lngua. Quem o disse?
   - Um mstico da tua terra. Escreveu-o em qualquer parte, no me recordo onde. E no
 necessrio que algum um dia encontre esse manuscrito. As nicas verdades que
servem so instrumentos para deitar fora.
  - Vs no podeis censurar-vos nada, fizestes o melhor que podeis.
   - E o melhor dos homens que  pouco.  difcil aceitar a idia que no pode haver uma
ordem no universo, porque ofenderia a livre vontade de Deus e a sua onipotncia. Assim,
a liberdade de Deus  a nossa condenao, ou pelo menos a condenao da nossa
soberba.
  Ousei, pela primeira e ltima vez na minha vida, uma concluso teolgica:
   - Mas como pode existir um ser necessrio totalmente tecido de possvel? Que
diferena h ento entre Deus e o caos primignio? Afirmar a absoluta onipotncia de
Deus e a sua absoluta disponibilidade a respeito das suas prprias escolhas no equivale a
demonstrar que Deus no existe.
  Guilherme olhou para mim sem que qualquer sentimento transparecesse dos traos do
seu rosto, e disse:
  - Como poderia um sbio continuar a comunicar o seu saber se respondesse sim  tua
pergunta?
  No compreendi o sentido das suas palavras:
   - Quereis dizer - perguntei - que no haveria mais saber possvel e comunicvel se
faltasse o prprio critrio da verdade, ou ento que j no podereis comunicar aquilo
que sabeis porque os outros no vo-lo consentiriam?
   Naquele momento, uma parte dos tetos do dormitrio desabou com imenso fragor
soprando para o alto uma nuvem de centelhas. Uma parte das ovelhas e das cabras, que
erravam pelo ptio, passaram por ns lanando atrozes balidos. Uns servos passaram em
tropel a nosso lado, gritando, e quase nos pisaram.
  - H aqui demasiada confuso - disse Guilherme. - Non in commotione, non in
commotione Dominus.
  ULTIMO FLIO
   A abadia ardeu durante trs dias e durante trs noites, e de nada valeram os ltimos
esforos. J na manh do stimo dia da nossa permanncia naquele lugar, quando os
suprstites se tinham apercebido que mais nenhum edifcio podia ser salvo, quando
desabaram os muros externos das construes mais belas, e a igreja, enrolando-se quase
sobre si mesma, engoliu a sua torre, naquela altura faltou a todos a vontade de combater
contra o castigo divino. Cada vez mais frouxas foram as corridas aos poucos baldes de
gua que restavam, enquanto ainda ardia pacificamente a sala capitular com a soberba
casa do Abade. Quando o fogo atingiu o lado extremo das vrias oficinas, os servos j h
muito tempo que tinham salvo a maior quantidade de utenslios que podiam, e
preferiram bater a colina para recuperarem ao menos parte dos animais, fugidos para
fora da cerca na confuso da noite.
   Vi alguns dos servos que se aventuraram no interior daquilo que restava da Igreja:
imaginei que procurassem penetrar na cripta do tesouro para roubarem, antes da fuga,
algum objeto precioso. No sei o que conseguiram, se a cripta no se tinha j afundado,
se os velhacos no se afundaram nas vsceras da terra na tentativa de a atingirem.
   Subiam entretanto homens da aldeia, a prestar socorro, ou a procurarem tambm eles
reunir algum esplio. Os mortos ficaram na maioria entre as runas ainda ardentes. No
terceiro dia, tratados os feridos, sepultados os cadveres que ficaram a descoberto, os
monges e todos os outros recolheram as suas coisas e abandonaram o planalto ainda
fumegante, como um lugar maldito. No sei para onde se dispersaram.
   Guilherme e eu deixamos aqueles lugares em duas cavalgaduras encontradas perdidas
no bosque e que ento consideramos res nullius. Dirigimo-nos para oriente. Chegando de
novo a Bobbio, soubemos ms notcias do imperador. Chegado a Roma, tinha sido
coroado pelo povo. Considerada ento impossvel qualquer conciliao com Joo, tinha
eleito um antipapa, Nicolau V. Marslio tinha sido nomeado vigrio espiritual de Roma,
mas por culpa sua, ou por sua fraqueza, aconteciam naquela cidade coisas bastante
tristes de referir. Torturavam-se sacerdotes fiis ao papa que no queriam dizer missa,
um prior dos agostinianos tinha sido atirado  fossa dos lees no Capitlio. Marslio e
Joo de Jandun tinham declarado Joo herege, e Lus tinha-o feito condenar  morte.
Mas o imperador governava mal, estava atraindo a si a hostilidade dos senhores locais,
subtraia dinheiro ao errio pblico.  medida que ouvamos estas noticias, retardvamos
a nossa descida para Roma, compreendi que Guilherme no queria ver-se como
testemunha de eventos que humilhavam as suas esperanas.
   Quando chegamos a Pomposa, soubemos que Roma se tinha rebelado contra Lus, o
qual tinha subido de novo para Pisa, enquanto na cidade papal voltavam a entrar
triunfalmente os legados de Joo.
   Entretanto, Miguel de Cesena tinha dado conta que a sua presena em Avinho no
levava a qualquer resultado, alis, temia pela sua vida, e tinha fugido, juntando-se a
Lus em Pisa. O imperador tinha entretanto perdido tambm o apoio de Castruccio,
senhor de Luca e Pistia, que tinha morrido.
   Em resumo, prevendo os eventos, e sabendo que o Bvaro se dirigia para Munique
invertemos o caminho e decidimos preced-lo ali, at porque Guilherme advertia que a
Itlia se estava tornando insegura para ele. Nos meses e nos anos que se seguiram, Lus
viu desfazer-se a aliana dos senhores gibelinos, no ano seguinte Nicolau antipapa
entregar-se-ia a Joo, apresentando-se-lhe com uma corda ao pescoo.
   Logo que chegamos a Munique da Baviera eu tive de me separar, no meio de muitas
lgrimas, do meu bom mestre. A sua sorte era incerta, os meus parentes preferiram que
eu voltasse a Melk. Desde a trgica noite em que Guilherme me tinha patenteado o seu
desanimo diante das runas da abadia, como por tcito acordo, no tnhamos falado mais
daquela histria. E nem aludimos mais a ela no curso da nossa dolorosa despedida.
   O meu mestre deu-me muitos e bons conselhos para os meus estudos futuros, e
ofereceu-me as lentes que lhe tinha fabricado Nicolau, tendo ele agora de novo as suas.
Eu era ainda jovem, disse-me, mas um dia ser-me-iam teis (e, na verdade, tenho-as
sobre o nariz, agora que escrevo estas linhas). Depois abraou-me fortemente, com a
ternura de um pai, e disse-me adeus.
   No o vi mais. Soube muito mais tarde que tinha morrido durante a grande epidemia
de peste que infligiu a Europa por volta da metade deste sculo. Rezo sempre para que
Deus tenha acolhido a sua alma e lhe tenha perdoado os muitos atos de orgulho que a sua
altivez intelectual lhe tinha feito cometer.
  Anos depois, homem j bastante maduro, tive ocasio de fazer uma viagem  Itlia
por mandado do meu Abade. No resisti  tentao e no regresso fiz um longo desvio
para revisitar aquilo que tinha restado da abadia.
   As duas aldeias nas faldas do monte tinham-se despovoado, as terras em volta estavam
incultas. Subi ao planalto, e um espetculo de desolao e de morte se apresentou aos
meus olhos umedecidos de lgrimas.
   Das grandes e magnficas construes que adornavam aquele lugar restavam runas
dispersas, como j tinha acontecido aos monumentos dos antigos pagos na cidade de
Roma. A hera tinha revestido os pedaos dos muros, as colunas, as raras arquitraves que
ficaram intactas. Ervas selvagens invadiam o terreno por todo o lado, e nem sequer se
compreendia onde tinham sido outrora o horto e o jardim. S o lugar do cemitrio era
reconhecvel, por alguns tmulos que ainda afloravam no terreno. nico sinal de vida,
grandes aves de rapina caavam lagartos e serpentes que, como basiliscos, se escondiam
entre as pedras ou deslizavam pelos muros. Do portal da igreja tinham ficado poucos
vestgios corrodos de bolor. O tmpano sobrevivia pela metade, ai descobri ainda,
dilatado pelas intempries o enlanguescido de srdidos lquenes, o olho sinistro do Cristo
no trono, e qualquer coisa do vulto do leo.
   O Edifcio,  parte o muro meridional, derrocado, parecia ainda estar em p e desafiar
o curso do tempo. Os dois torrees externos, que davam para o despenhadeiro, pareciam
quase intactos, mas por toda a parte as janelas eram olheiras vazias cujas lgrimas
viscosas eram trepadeiras ptridas. No interior, a obra da arte, destruda, confundia-se
com a da natureza, e por largos espaos da cozinha o olhar corria pelo cu aberto,
atravs do rasgo dos andares superiores e do teto, derrubados como anjos cados. Tudo
aquilo que no era verde de musgo estava ainda negro do fumo de tantos decnios antes.
   Revolvendo entre os escombros encontrava de vez em quando pedaos de pergaminho,
precipitados do scriptorium e da biblioteca e sobrevivendo como tesouros sepultos na
terra; e comecei a recolh-los, como se devesse recompor as folhas de um livro. Depois
apercebi-me que de um dos torrees subia ainda, periclitante e quase intacta, uma
escada de caracol para o scriptorium, e dali trepando por um declive de escombros,
podia-se chegar  altura da biblioteca: a qual era, porm, apenas uma espcie de galeria
rente s muralhas externas que dava em todos os pontos para o vazio.
   Ao longo de um pedao de muro encontrei um armrio milagrosamente de p ao longo
da parede, no sei como escapado ao fogo, podre de gua e de insetos. Dentro dele
havia ainda algumas folhas. Outras tiras encontrei-as vasculhando nas runas de baixo.
Pobre messe foi a minha, mas passei um dia inteiro a recolh-la, como se daquelas
disiecta membra da biblioteca devesse chegar-me uma mensagem. Alguns pedaos de
pergaminho estavam descorados, outros deixavam entrever a sombra de uma imagem, s
vezes o fantasma de uma ou mais palavras. Algumas vezes encontrei folhas em que eram
legveis frases inteiras, mais facilmente encadernaes ainda intactas, defendidas por
aquilo que tinham sido brochas de metal... Larvas de livros, aparentemente ainda ss de
fora mas devoradas por dentro: e no entanto algumas vezes tinha-se salvo uma meia-
folha, transparecia um incipit, um titulo...
  Recolhi todas as relquias que pude encontrar, e enchi com elas duas sacas de viagem,
abandonando coisas que me eram teis para salvar aquele msero tesouro.
   Ao longo da viagem de regresso e depois em Melk passei muitas e muitas horas a
tentar decifrar aqueles vestgios. Muitas vezes reconheci por uma palavra ou por uma
imagem resdua de que obra se tratava. Quando, com o tempo, encontrei outros
exemplares daqueles livros, estudei-os com amor, como se o fado me tivesse deixado
aquele legado, como se o ter-lhe descoberto o exemplar destrudo tivesse sido um claro
sinal do cu que dizia tolle et lege. No fim da minha paciente recomposio desenhou-
se-me como uma biblioteca menor, sinal da maior, desaparecida, uma biblioteca feita de
trechos, citaes, perodos incompletos cotos de livros.
   Quando mais leio este elenco mais me conveno que ele  feito do acaso e no
contm qualquer mensagem. Mas estas pginas incompletas acompanharam-me por toda
a vida que desde ento me restou viver, muitas vezes as consultei como orculo, e quase
tenho a impresso de que quanto escrevi nestas folhas, que tu agora lers, ignoto leitor,
mais no  que um cento, um carme figurado, um imenso acrstico que no diz nem
repete mais que aquilo que aqueles fragmentos me sugeriram, e j nem sei se eu falei
at agora deles ou se falaram eles pela minha boca. Mas, em qualquer dos casos, quanto
mais recito a mim mesmo a histria que dai saiu menos consigo compreender se nela h
uma trama que vai para alm da seqncia natural dos eventos e dos tempos que os
relacionam entre si.
  E  coisa dura para este velho monge, s portas da morte, no saber se a letra que
escreveu contm algum sentido oculto, e se contm mais de um, muitos, ou nenhum.
   Mas esta minha inabilidade para ver  talvez efeito da sombra que a grande treva que
se avizinha est lanando sobre o mundo encanecido.
  Est ubi gloria nunc Babylonia? Onde esto as neves de outrora? A terra dana a dana
de macabr, parece-me por momentos que o Danbio percorrido por batis carregados
de loucos que vo para um lugar obscuro.
   No me resta seno calar-me. O quam salubre, quam iucundum et suave est sedere in
solitudine et tacere et loqui cum Deo! Dentro em pouco reunir-me-ei ao meu principio, e
j no creio que seja o Deus da glria de que me tinham falado os abades da minha
ordem, ou de alegria, como julgavam os menoritas de ento, talvez nem sequer de
piedade. Gott ist ein lautes Nichts, ihn rhrt kein Nun noch Hier... Em breve me
entranharei neste deserto amplssimo, perfeitamente plano e incomensurvel, em que o
corao verdadeiramente pio sucumbe bem-aventurado. Afundar-me-ei na treva divina,
num silncio mudo e numa unio inefvel, e neste afundar-se se perder toda a
igualdade e toda a desigualdade, e nesse abismo o meu esprito se perder a si mesmo, e
no conhecer nem o igual nem o desigual, nem mais nada: e sero esquecidas todas as
diferenas, estarei no fundamento simples, no deserto silencioso onde jamais se v
diversidade, no ntimo onde ningum se encontra no seu prprio lugar. Cairei na
divindade silenciosa e desabitada onde no h obra nem imagem.
  Est frio no scriptorium, di-me o polegar. Deixo esta escritura, no sei para quem, j
no sei a propsito de qu: stat rosa prstina nomine, nomina nuda tenemus.
  NDICE
  NATURALMENTE, UM MANUSCRITO.
  PRLOGO.
  PRIMEIRO DIA
  PRIMA. Onde se chega aos ps da abadia e Guilherme d prova de grande agudeza.
  TERA. Onde Guilherme tem uma instrutiva conversa com o Abade.
  SEXTA. Onde Adso admira o portal da igreja e Guilherme reencontra Ubertino de
Casale.
  CERCA DE NONA. Onde Guilherme tem um dilogo doutssimo com Severino, o
ervanrio.
  DEPOIS DE NONA. Onde se visita o scriptorium e se conhecem muitos estudiosos,
copistas e rubricadores, assim como um velho cego que espera o Anticristo.
  VSPERAS. Onde se visita o resto da abadia, Guilherme tira algumas concluses sobre a
morte de Adelmo, se fala com o irmo vidreiro de vidros para ler e de fantasmas para
quem quer ler demasiado.
   COMPLETAS. Onde Guilherme e Adso gozam da alegre hospitalidade do Abade e da
irritada conversao de Jorge.
  SEGUNDO DIA
  MATINAS. Onde poucas horas de mstica felicidade so interrompidas por um
sanguinosssimo evento.
  PRIMA. Onde Bncio de Upsala confia algumas coisas, outras confia-as Berengrio de
Arundel, e Adso aprende o que  a verdadeira penitncia.
   TERA. Onde se assiste a uma rixa entre pessoas vulgares, Aymaro de Alexandria faz
algumas aluses e Adso medita sobre a santidade e sobre o esterco do demnio. Depois,
Guilherme e Adso voltam ao scriptorium, Guilherme v qualquer coisa de interessante,
tem uma terceira conversa sobre a legitimidade do riso, mas, em definitivo, no pode
olhar para onde queria.
  SEXTA. Onde Bncio conta uma estranha histria, por onde se ficam a saber coisas
pouco edificantes sobre a vida da abadia.
  NONA. Onde o Abade se mostra orgulhoso das riquezas da sua abadia e temeroso dos
hereges, e no fim Adso receia ter feito mal em andar pelo mundo.
  DEPOIS DE VSPERAS. Onde, apesar do captulo ser breve, o velho Alinardo diz coisas
bastante interessantes sobre o labirinto e sobre o modo de ai entrar.
  COMPLETAS. Onde se entra no Edifcio, se descobre um visitante misterioso, se
encontra uma mensagem secreta com sinais de necromante, e desaparece, mal 
encontrado, um livro que depois ser procurado por muitos outros captulos e vicissitude
que no  a ltima  o furto das preciosas lentes de Guilherme.
  NOITE. Onde se penetra finalmente no labirinto, se tm estranhas vises e, como
acontece nos labirintos, ali a gente se perde.
  TERCEIRO DIA
  DE LAUDAS E PRIMA. Onde se encontra um pano sujo de sangue na cela de Berengrio
desaparecido, e  tudo.
  TERA. Onde Adso reflete no scriptorium sobre a histria da sua ordem e sobre o
destino dos livros.
  SEXTA. Onde Adso recebe as confidncias de Salvador, que no se podem resumir em
poucas palavras mas que lhe inspiram muitas e preocupantes meditaes.
   NONA. Onde Guilherme fala a Adso do grande rio hertico, da funo dos simples na
Igreja, das suas dvidas sobre a cognoscibilidade das leis gerais, e quase por acaso conta
como decifrou os sinais necromanticos deixados por Venancio.
  VSPERAS. Onde se fala ainda com o Abade, Guilherme tem algumas idias
mirabolantes para decifrar o enigma do labirinto, e o consegue de modo mais razovel.
Depois come-se queijo em pasteizinhos.
  DEPOIS DE COMPLETAS. Onde Ubertino conta a Adso a Histria de frei Dolcino, Adso
evoca ou l outras histrias na biblioteca por sua conta e depois sucede que tem um
encontro com uma rapariga bela e terrvel como um exrcito alinhado para a batalha.
  NOITE. Onde Adso, transtornado, se confessa a Guilherme e medita sobre a funo da
mulher no plano da criao, porm, descobre depois o cadver de um homem.
  QUARTO DIA
  LAUDAS. Onde Guilherme e Severino examinam o cadver de Berengrio, descobrem
que tem a lngua negra, coisa singular para um afogado. Depois discutem sobre venenos
dolorosssimos e sobre um furto remoto.
  PRIMA. Onde Guilherme induz primeiro Salvador e depois o despenseiro a confessar o
seu passado; Severino encontra as lentes roubadas, Nicolau traz as novas e Guilherme
com seis olhos vai decifrar o manuscrito de Venancio.
   TERA. Onde Adso se debate nos padecimentos de amor, depois chega Guilherme com
o texto de Venancio, que continua a permanecer indecifrvel, mesmo depois de ter sido
decifrado.
   SEXTA. Onde Adso vai procurar trufas e encontra os menoritas a chegar, estes tm um
longo colquio com Guilherme e Ubertino e se sabem coisas muito tristes sobre Joo XXII.
  NONA. Onde chegam o cardeal do Poggetto, Bernardo Gui e os outros homens de
Avinho, e depois cada um faz coisas diversas.
  VSPERAS. Onde Alinardo parece dar informaes preciosas e Guilherme revela o seu
mtodo para chegar a uma verdade provvel atravs de uma srie de seguros erros.
  COMPLETAS. Onde Salvador fala de uma magia portentosa.
   DEPOIS DE COMPLETAS. Onde se visita de novo o labirinto, se chega ao limiar do finis
Africae mas no se pode ai entrar porque no se sabe o que so o primeiro e o stimo dos
quatro, e por fim Adso tem uma recada, alis bastante douta no seu mal de amor.
  NOiTE. Onde Salvador se deixa miseravelmente descobrir por Bernardo Gui, a rapariga
amada por Adso  presa como bruxa, e todos vo para a cama mais infelizes e
preocupados que antes.
  QUINTO DIA
  PRIMA. Onde tem lugar uma fraterna discusso sobre a pobreza De Jesus.
   TERA. Onde Severino fala a Guilherme de um estranho livro e Guilherme fala aos
legados de uma estranha concepo do governo temporal.
  ULTIMO FLIO
   SEXTA. Onde se encontra Severino assassinado e j no se encontra o livro que ele
tinha encontrado.
   NONA. Onde se administra a justice e se tem a embaraosa impresso de que todos
esto errados.
  VSPERAS. Onde Ubertino se pe em fuga, Bncio comea o observar das leis e
Guilherme fez algumas reflexes sobre os vrios tipos de luxria encontrados naquele
dia.
  COMPLETAS. Onde se escuta um sermo sobre a vinda do Anticristo e Adso descobre o
poder dos nomes prprios.
  SEXTO DIA
  MATINAL. Onde os prncipes sederunt, e Malaquias desaba por terra.
  LAUDAS. Onde  eleito um novo despenseiro, mas no um novo bibliotecrio.
  PRIMA. Onde Nicolau conta muitas coisas enquanto se visita a cripta do tesouro.
  TERA. Onde Adso, escutando O Dies irae, tem um sonho ou viso, como se lhe queira
chamar.
  DEPOIS DE TERA. Onde Guilherme explica a Adso o seu sonho.
  SEXTA. Onde se reconstri a historia dos bibliotecrios e se tem algumas noticias mais
sobre o livro misterioso.
  NONA. Onde o Abade se recusa a escutar Guilherme, fala da linguagem das gemas e
manifesta o desejo de que no se indague mais sobre aqueles tristes acontecimentos.
  ENTRE VSPERAS E COMPLETAS. Onde em breves palavras se contam longas horas de
desvario.
  DEPOIS DE COMPLETAS. Onde, quase por acaso, Guilherme descobre o segredo pare
entrar no finis Africae.
  STIMO DIA
  NOITE. Onde, pare resumir as revelaes prodigiosas de que aqui se fala, o titulo
deveria ser to longo como o capitulo, o que  contrrio aos costumes. Noite. Onde
sobrevm a ecpirose e por cause da demasiada virtude prevalecem as foras do inferno.
